Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time


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Tempos de conferências

No espaço de 10 dias duas conferências em Portugal para dar atenção:

dias 6 e 7 de Setembro, a conferência do Instituto de Políticas Públicas, sobre o novo contrato social e a reforma do estado, programa aqui

dias 13 e 14 de Setembro, a conferência da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Portugal Europeu. E agora?, com programa aqui. A propósito desta conferência colocaram-me o desafio de responder a duas perguntas: o que é a Europa para si? e quando se sente europeu?

A resposta a esta segunda questão está aqui. A resposta à primeira pergunta foi mais difícil, porque para a Europa surgem dois aspectos: história e diversidade, Grécia, Roma, as aventuras marítimas de Espanha e Portugal, a Revolução Francesa e a França como centro cultural, a construção europeia e Bruxelas como capital dessa construção, e a emergência da Alemanha como potência económica. Colocar tudo isso numa única referência não foi fácil, mas está aqui o resultado.

Falaremos depois do que valer a pena destas conferências.


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Exclusividade profissional na saúde

No campo dos recursos humanos da saúde, o trabalho simultâneo no sector público e no sector privado é uma questão antiga, que volta e meia regressa à discussão pública. Nos últimos dias foi reintroduzida na agenda pelo Partido Socialista, há uns meses foi brevemente mencionada pelo Ministério da Saúde. Em ambos os casos, se bem entendi as posições, há uma intenção (proposta?) de avançar para um maior papel da situação de exclusividade no sector público.

Embora seja uma posição que, à partida, me desperta simpatia intuitiva, é interessante ver o que nos diz a literatura internacional sobre o tema. Portugal não é o primeiro nem o único país a ter que gerir esta tensão entre trabalho no sector público e trabalho no sector privado.

Há que pensar nas vantagens e desvantagens que essa acumulação de trabalho nos dois sectores acarreta, e essa identificação acaba por ser menos óbvia do que poderia parecer à primeira vista.

A desvantagem mais evidente da acumulação está em que se uma pessoa está num dos locais de trabalho não está no outro. Em termos económicos, o recurso produtivo “tempo de trabalho” do profissional de saúde ou é dedicado a um sector ou a outro. É normal nesta situação falar-se de um “crowding-out” da actividade pública pela actividade privada. Esta desvantagem, na perspectiva do sector público, só existe realmente se não houver controle da actividade desenvolvida no sector público. A imposição de uma separação estrita entre actividade no sector público e no sector privado tem então que ter uma capacidade de monitorização dessa situação.

Outra desvantagem que pode ser apontada é o cansaço eventualmente gerado nos profissionais de saúde pela acumulação de trabalho no sector público e no sector privado. Este problema, na verdade, não é exclusivo do sector privado em acumulação com o sector público. Ter dois empregos dentro do sector público tem exactamente o mesmo problema. A importância deste factor depende naturalmente  da carga horária e da exigência, física e mental, que seja exigida em cada uma das funções.

A terceira desvantagem da acumulação de funções é a interpenetração de decisões entre sector público e privado. Sendo o principal decisor no sistema de saúde o médico será sobretudo com esta classe profissional que o problema se colocará. Por exemplo, o padrão de tratamento e a própria rapidez do mesmo poderão ser diferentes consoante o decisor trabalhe apenas num ou em ambos os sectores. Ou o tratamento em ambiente privado pode ser transferido mais facilmente para o sector público, com a correspondente transferência de custos, se o médico trabalhar em ambos os sectores simultaneamente. Este é um problema de incentivos (em sentido lato) na organização do sistema de saúde. A separação de actividades surge como forma de eliminar conflitos de interesse na tomada de decisão.

Mas se há estas três desvantagens principais (poderão existir outras, mas provavelmente com menor impacto no desempenho do sistema de saúde), também existem vantagens que não devem ser ignoradas na definição de política sobre este tema.

A primeira vantagem está associada ao pagamento realizado. Havendo um rendimento adicional na situação de não exclusividade via sector privado, o rendimento pago no sector público será menor, em geral, do que se houver a exigência de exclusividade. Permitir a acumulação de trabalho nos dois sectores é uma forma de acomodar menores salários no sector público.

A segunda vantagem está nas eventuais vantagens de prática e conhecimento acumulados por desenvolver maior volume de actividade. Esta vantagem só está presente se não houver um número de casos suficientemente grande tratado no sector público, e houver um volume de actividade elevado no sector privado. É também necessário para esta vantagem ter lugar que o efeito “cansaço” (rendimento marginal negativo até, numa linguagem mais técnica) não tenha ainda sido atingido.

Do ponto de vista individual, o exercício de actividade privada por parte de um profissional de saúde, permite-lhe uma maior flexibilidade no desenvolvimento da sua carreira (não em termos legais mas de evolução técnica e de área de especialização), que poderá não estar disponível com tanta facilidade no sector público.

Globalmente, num contexto de Serviço Nacional de Saúde público, as vantagens parecem-me compensar as desvantagens, tendo-se em conta que o aumento de pagamento pela exclusividade terá de ser possível por um aumento da capacidade e de qualidade de tratamento da população, ou através de concentração de actividade. Isto é, numa visão muito simplista, ter metade dos profissionais a fazer o dobro da actividade cada um, em exclusividade.

É útil, a este propósito, relembrar o trabalho de Carlota Quintal e Carlos Gantes, Physician dual practice from the perspective of dual practitioners: an empirical study for Portugal (Universidade de Coimbra). De acordo com os resultados que encontraram, a motivação financeira, de complemento de rendimento, surge como a principal para o exercício de funções, por parte do médico, no  sector privado. O trabalho nos dois sectores é encarado como complementar, sendo dado valor à autonomia que se consegue no sector privado e reconhecendo-se a importância do treino no sector público para a própria actividade privada.

De forma que não inesperada, os médicos consideram um direito inalienável o exercício de funções nos dois sectores. Assim, alguns elementos surgem  de forma clara para a discussão da exclusividade de funções. Por um lado, terá que ser paga quer através da componente salarial quer através de condições para desenvolvimento de projecto profissional, enquadrado no sector público. Adicionalmente, os benefícios privados de tempo profissional de custos públicos deverão de algum modo ser considerados como parte da remuneração pública, embora seja difícil medir com precisão qual será esse valor e como poderá ser pago (por exemplo, em anos de dedicação exclusiva poderá ser uma opção?).

Qualquer situação de acumulação de actividade nos dois sectores deverá ser seguida com atenção para evitar conflitos de interesses, o que poderá passar por deveres de reporte de informação de quem acumula e existirem auditorias aleatórios quanto à presença desses conflitos de interesse (não se trata de inspeccionar e punir e sim de dissuadir). Um exemplo de situação a ser evitada é um médico referenciar um doente que tenha num sector para ser seguido por ele próprio no outro sector.

Quanto às restantes classes profissionais da saúde, conhece-se menos sobre as suas motivações e os efeitos de uma acumulação público privado. Apesar disso, no caso dos enfermeiros, o aspecto de fadiga por muitas horas de trabalho consecutivas tem sido apontado como uma situação frequente (às vezes também em acumulação público público). No caso de gestores de unidades públicas de saúde, haveria óbvios conflitos de interesse, mas pouco se sabe sobre casos reais.


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no regresso às aulas, relembrar a importância do TPC

A reforma do estado voltou a acender discussões depois do recente chumbo do Tribunal Constitucional a medidas avançadas pelo Governo. Desta vez a tempo de serem corrigidas ou encontradas outras. Deveria este processo ser eventualmente encarado com mais normalidade.

Mas o que realmente me choca é que dentro de poucos meses fará um ano (doze meses, trezentos e sessenta e cinco dias) que se falou pela primeira vez na dura reforma do estado que aí vinha, com um corte de 4 mil milhões de euros para serem decididos até Janeiro (ou Fevereiro, não me recordo exactamente) de 2013. Na altura desse anúncio, era relativamente claro que sem uma ideia do que deverá ser as funções do Estado (o que assegurar e como assegurar) dificilmente faria sentido falar em cortes só por cortes. E o primeiro passo para ter essa ideia é ter um mapa do que o Estado faz e não faz, porque faz e para quem faz. O Estado português nem sabia a quantos funcionários pagava há uns tempos (?). Antes do Verão iria ser apresentada uma proposta de reforma do Estado, mas dissolveu-se na espuma da praia. Provavelmente, seria uma colecção de medidas em que a coerência global seria difícil.

Dado que é relevante fazer a reforma do Estado, devemos aproveitar o regresso às aulas, para se fazer o TPC necessário para iniciar esse processo. O trabalho para caso em causa não é reunir mais uma comissão que emita mais um relatório. Neste momento, o melhor ponto de partida é mesmo ter uma descrição detalhada do que faz e para quem faz cada serviço do Estado. Em termos técnicos ter uma espécie de matriz input-output dos serviços da administração pública. Sem esse conhecimento, será muito difícil gerar qualquer solução que tenha capacidade de perdurar.

Seria provavelmente revelador saber por serviço do estado em que se gasta o tempo e os recursos – a responder a outros serviços do estado? a fazer outros pedidos a outros serviços do estado? a interagir com a “sociedade”, prestando serviços ou solicitando acções dos cidadãos? Não será fácil fazer esta tipologia nem construir esta matriz, só que sem ela dificilmente se terá ideia das repercussões de cortar aqui ou ali.

Reforma do estado implica mais do dizer que a administração pública vai fazer tudo o que fazia antes mas a pagar menos aos trabalhadores e a despedir uns quantos. Avançar desta forma vai apenas fazer com a uma degradação no curto prazo do funcionamento do estado se venha a responder com mais contratação no futuro, logo que acabar o programa de ajustamento e as restrições, e rapidamente voltaremos a cair na mesma situação.

O TPC para férias teria sido criar esta informação. Mas se não foi feito, talvez até à discussão do Orçamento do Estado se possa fazer?


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E eis que “ela” volta à discussão, a produtividade

Pela mão da Moody’s (aqui), no seu mais recente relatório, embora só tenha visto o press release (não tenho acesso ao documento mais substancial), a “culpa” de não haver uma visão mais simpática está na evolução previsível da produtividade, que até aumentou recentemente.

Oops, mas não era isso que queríamos? Sim, mas …
O mas ė aqui importante e a Moody’s tem motivo para chamar a atenção. Portugal tem feito ajustamentos no passado na sua produtividade agregada – pib / valor acrescentado por trabalhador – que resultaram de redução do número de trabalhadores mantendo o valor acrescentado e não pelo aumento do valor acrescentado que se produz.

Com a actual crise aparentemente é esse mecanismo que voltou a funcionar (no passado foi algo que me chamou a atenção, ver aqui e ver aqui, e as visões há 10 anos de Pedro Lains e Miguel Lebre de Freitas aqui).
As empresas despediram mas conseguiram manter a produção. As empresas com menor produtividade, que geram menor valor acrescentado foram desaparecendo.
Em si mesma esta evolução ao nível de cada empresa é melhor do desaparecer, seria melhor que as empresas tivessem conseguido aumentar o valor acrescentado do que produzem e mantido o emprego. O ajustamento feito poderia ter sido melhor (podia ter sido pior também mas devemos ser exigentes).
Como esses trabalhadores que perderam o emprego não tiveram oportunidade de encontrar outro o desemprego atingiu níveis muito elevados e inéditos em Portugal.

O desafio que agora existe é conseguir simultaneanente dois objectivos – que as empresas consigam aumentar o valor acrescentado do que produzem e com isso recrutar novamente trabalhadores sem que a produtividade volte a baixar, e que os trabalhadores desempregados se direccionem para os sectores com maior crescimento e potencial de crescimento da produtividade.

A recuperação de empregos nos próximos anos não vai ser, é bom que não seja, nos mesmos sectores e empregos que foram destruídos na actual crise. As oportunidades mais interessantes para os desempregados vão estar noutras áreas e aqueles que mais rapidamente as descobrirem melhor resolverão a sua situação.

Esta transiçāo de trabalhadores para sectores diferentes daqueles onde trabalharam coloca maior responsabilidade no próprio desempregado. Será difícil que um qualquer centro de emprego consiga saber melhor que o próprio trabalhador que tipo de emprego mais o satisfaz fora do que foi a sua experiência passada. Os mecanismos de apoio público têm que descobrir como apoiar da melhor forma esta passagem de uns sectores para outros.

Ė este afinal o ponto central que deve ser retirado, a meu ver, do press release da Moody’s.


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sonhos desfeitos

Podemos pensar que a actual incerteza sobre as pensões e a quebra do “contrato informal” em que o sistema assenta sucede apenas em Portugal, mas não é correcto.

Na Holanda, em 2006, houve uma alteração das regras das pensões – a pensão para os que tivessem nascido depois de 1 de Janeiro de 1950 passou a ser 8,5% menor do que a pensão para quem se reformasse no mesmo ano mas tivesse nascido antes de 1 de Janeiro de 1950. A regra de formação da pensão foi alterada, como se pensa que poderá vir a fazer por cá uma vez mais.

Os trabalhadores nascidos a partir de 1950 tinham que trabalhar mais um ano e um mês para alcançar a mesma pensão dos trabalhadores nascidos antes de 1950 (soa familiar).

De Grip, Lindeboom e Montizaan, num estudo publicado em 2011, Shattered dreams: the effects of changing the rules late in the game, avaliavam a saúde mental dos trabalhadores dos dois grupos etários (nascidos antes e depois de 1 de Janeiro de 1950) num período de dois anos após a instituição das novas regras (avaliação em 2008).

Encontraram nessa comparação um forte efeito de aumento da depressão – 50% mais elevada nos trabalhadores mais novos – associado com a mudança legislativa.

Estas mudanças têm efeitos significativos e permanentes sobre a saúde mental dos trabalhadores. A novidade não está na existência do efeito, pois não seria difícil prevê-lo. A novidade está na magnitude do efeito, de um aumento considerável dessas situações de depressão.

Os custos de alterações legislativas no campo das pensões não estão apenas nos valores pagos ou na “corrida à reforma”; estão também na necessidade de maior acompanhamento da saúde mental dos trabalhadores, que tenderão a ter menos produtividade, terão maior absentismo laboral, maior propensão a erros profissionais e mesmo mais acidentes no local de trabalho.

Prolongar a vida activa por via administrativa e impondo uma idade de reforma mais elevada não vem sem custos para o sistema de saúde e e para o sistema produtivo.

Na origem destes efeitos não está apenas a diferença de valor da pensão resultante da alteração das regras. A existência de um sentimento de injustiça, sobretudo face a uma alteração de regras que deixou pouca margem de ajustamento aos mais afectados.

Num momento em que se considera, em Portugal, alterar os valores das pensões dos reformados, e não só para quem ainda está a trabalhar, de uma forma permanente, deverá haver o cuidado de pensar também quais os impactos na saúde mental das faixas populacionais afectadas, mais idosas, e para quem um corte da pensão terá um efeito psicológico negativo e reforçado pela sensação de não ter como responder. A forma de definir essas mudanças, a forma de a comunicar e o sentimento de “justiça” e “equidade” são cruciais, e deverá ser pensada que resposta de apoio pode ser dada pelo próprio Serviço Nacional de Saúde, ao mesmo tempo que estas medidas fornecem um exemplo quase perfeito de aplicação do princípio “health in all policies” (saúde em todas as políticas) que se defende na retórica e que se pode aplicar aqui na realidade.


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ainda em ritmo quase de férias,

sobre “QUANDO SE SENTE EUROPEU?” em poucas palavras, no dn de hoje,

Estando “Onde a terra se acaba e o mar começa”, sinto-me europeu quando vou de Lisboa a Berlim sem ter que mostrar identificação; quando levanto dinheiro numa caixa multibanco da mesma forma e com os mesmos custos em Coimbra, Toulouse, Barcelona ou Essen; quando entro em Espanha pela fronteira terrestre sem filas, sem verificação de passaportes, sem realização obrigatória de seguro, e sem troca de moeda.

Sinto-me europeu quando entro numa sala de aula e mais de metade dos alunos são oriundos dos quatro cantos da Europa. A fácil mobilidade, sentida e usufruída pelas gerações mais novas, é a melhor forma de construir uma identidade europeia que se adiciona, não substitui, uma identidade nacional.

A esta facilidade junta-se a liberdade política e a liberdade económica. A construção da identidade europeia tem que se fazer todos os dias, com a contribuição também de Portugal. É um esforço político, económico e social, feita de valores partilhados dentro das diferenças que existem e que nos levam a conhecer o “resto da Europa”.

Outras ideias de como se sentir europeu nos dias de hoje?


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texto a pedido do Jornal Público,

publicado a semana passada, sobre o legado de Vitor Gaspar.

 

Gaspar 1 Gaspar 2


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deja vu (quase perfeito)

das notícias de ontem chegaram ecos do final da recessão técnica – termo que significa apenas que os indicadores de actividade económica não decresceram no último trimestre medido face ao penúltimo, o que só é novidade porque há mais de dois anos que tal não sucedia.

Não será o final das dificuldades, nem ainda o retomar de um crescimento económico que reponha o nível de vida, desta vez alicerçado em produtividade e capacidade produtiva.

Em ritmo de férias, e face a estas notícias, decidi olhar para o lado e ver se haveria algum sinal coincidente. E fiquei com dúvidas.

Olho para a direita, e o local onde compro pão fresco de manhã, que abre às 8h30 às 9h00 já esgotou o pão (e não porque tenha muitos clientes), e o stock dos restantes produtos tem decrescido sucessivamente ao longo da semana, em produtos como alfaces, laranjas, fiambre embalado, etc… (aquelas coisas de tempo de praia). Está quase vazio. Quem está a atender e a gerir a lojeca quando inquirida só diz “não sei” (nisso mantém-se igual à situação de há dois anos). A crise toma aqui a imagem de prateleiras vazias, literalmente vazias, e não por falta de procura. Apesar da crise, pouco ou nada mudou no processo e na atenção ao cliente (mesmo que sazonal).

Olho para a esquerda, e penso nas tentativas dos últimos dias de marcar um restaurante para jantar, normal, e que nesta época do ano é melhor sempre tentar reservar mesa mesmo numa tasca ou casa de pasto. Surpresa, na segunda-feira não aceita reservas para o dia, nem para o dia seguinte, nem para o outro, isto só lá para sexta-feira. Ou a crise fez com que toda a gente viesse para o mesmo sítio, ou a crise acabou e face aos anúncios do fim da recessão técnica toda a gente decidiu comemorar. (enfim, quanto ao jantar, nada que uma água a ferver e umas massas não resolvam a contento).


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no outro lado do mundo,

mais precisamente em Darwin, encontra-se a empresa/aventura de um brasileiro, o Ricardo, que depois de ter feito os seus estudos e trabalhado em marketing decidiu partir “à procura de si mesmo”.  Acabou a fundar uma empresa que recicla materiais de lona usados nos “comboios de atrelados” (road trains, no termo original) que circulam pelas estradas desertas da Austrália.

Não se limitam a reciclar, mas incorporam design e funcionalidade nas peças que fabricam, e vendem-nas em mercados e feira. A foto que se segue é do mercado na praia de Mindil, onde duas vezes por semana se faz festa para ver o pôr do sol (o que é também um bom exemplo de como gerar receitas locais com base no turismo).

Demorou dois anos a passar da ideia ao “mercado”, com vários testes pelo caminho para desenvolver o conceito e perceber o que as pessoas estão dispostas a adquirir, não por ser reciclado mas pelo design e apesar de ser material reciclado.

A empresa chama-se afroblonde, e vale a pena uma visita. Não sei se vende apenas a turistas, mas segundo quem viu, é fácil encontrar nas cabeças que passeiam por Darwin os chapéus criados por esta “aventura”, e que não são baratos em valor absoluto e por comparação com os tradicionais chapéus australianos.

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voltando a um tema antigo

e que tem estado fora dos holofotes mais recentes – o cumprimento do memorando de entendimento e o objectivo de se atingir em 2013 um valor de 1% do PIB em despesa pública com medicamentos – em 2012, esse objectivo foi de 1,25% do PIB (embora este PIB tenha sido definido como um valor pré-determinado para tornar o objectivo independente da quebra da economia).

Para o ano de 2012 vigorou um acordo entre a APIFARMA (representante das principais empresas farmacêuticas) e o Governo que garantia o valor da despesa pública via uma devolução de verba caso fossem excedidos os objectivos fixados para a despesa pública no mercado em ambulatório e no mercado do medicamento hospitalar.

O primeiro passo para saber como estamos neste aspecto foi procurar os valores de 2012 para a despesa com medicamentos, na fonte habitual, a informação mensal do INFARMED. E se no caso da despesa em ambulatório essa informação está disponível, já no caso do consumo de medicamentos em meio hospitalar há um curioso “buraco”, o relatório referente a Dezembro de 2012 que conteria os valores do ano não está disponível, embora já estejam disponibilizados na internet os relatórios até Maio de 2013. É um mês “missing in action”, mas nenhum dos relatórios posteriores a Dezembro de 2012 permite perceber os valores do ano de 2012. Esta estranha característica pode ser confirmada aqui.

Assim sendo, houve que fazer uma “estimativa” do que seria o valor de Dezembro de 2012 baseado nos valores mensais conhecidos e assim criar uma série completa. O valor que procuro calcular em cada mês é o cumulativo dos 12 meses anteriores dividido pelo PIB de referência para estes objectivos, pelo que de alguma forma esse valor de Dezembro de 2012 mesmo sendo estimativa fica algo diluído no total.

Em 2013, com a integração das despesas com medicamentos da ADSE no total da despesa pública do SNS reportada, há um ligeiro aumento da despesa em ambulatório com medicamentos, mas que se deve a esse aspecto de contabilização. Com esta informação disponível para os primeiros 5 meses do ano, antecipa-se como muito improvável que o objectivo de 1% do PIB para a despesa pública em medicamentos seja atingida. Assim sendo, depois do Verão devemos começar a ver qual será a “solução”, que tanto pode ir de se ignorar o objectivo (se a troika deixar e tiver aspectos mais importantes das contas públicas com que se preocupar) como ter o uso da “arma” habitual pelo menos desde 2005, a descida administrativa de preços dos medicamentos, passando pela solução intermédia de retomar o acordo de pagamento retroactivo por parte da indústria farmacêutica, para passar o ano de 2013, e entrar em 2014 sem qualquer objectivo quantitativo para a despesa total pública com medicamentos.

Só estranho é o silêncio que se vai “ouvindo”.

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