Momentos económicos… e não só

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Gabinete de crise, na Radio Observador – vivendo com o coronavirus (37)

Esta semana, no Gabinete de Crise na Rádio Observador, o foco da atenção foi o trabalho dos médicos de família, que estão a acompanhar e a tratar a maioria dos doentes confirmados com COVID-19.

Como tem sido habitual, deixo aqui o meu resumo do que abordei.

Número da semana: 97%. 

É a proporção das pessoas com covid-19 confirmada que está a ser seguida pelos cuidados de saúde primários. Há aqui um importante trabalho invisível dos médicos de família no seguimento destes doentes, bem como um trabalho de base dos médicos de saúde pública na identificação dos contactos e nos casos suspeitos. A resposta do SNS é muito mais do que realizar testes e dar tratamento hospitalar. 

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio118110229
15 a 21 de maio15868227
22 a 28 de maio20634240
29 maio a 4 junho25925285

Nota: valores arredondados à unidade

Mito da semana: o calor vai fazer desaparecer o virus da COVID-19.  

Infelizmente não vai, não é claro sequer que atenue. Também aqui a incerteza sobre o vírus é grande. Ainda não se sabe qual a sazonalidade que possa haver, mas todos os paises, seja inverno ou verão ou primavera ou outono, têm tido que lidar com o vírus. Por isso, teremos que manter os cuidados durante as quatro estações do ano enquanto não houver vacina ou tratamento.

Esperança da semana: esperança no sentido que querer que algo aconteça, esperança que os surtos que têm surgido na zona de lisboa sejam realmente limitados na sua extensão.

A intervenção rápida das autoridades de saúde, no detetar, testar, conhecer contactos e isolar quem for positivo para a COVID-19 dá esperança que sejam situações contidas e sem dar a origem a um crescimento acelerado. A esperança está na decisão rápida, e no cortar os contágios possíveis. 

A evolução recente desta semana não vai de encontro a esta esperança, pelo que é uma esperança da semana que contém a esperança de se conseguir uma evolução em Lisboa que inverta a evolução do último mês. 

Por outro lado, a esperança positiva da semana passada foi cumprida – não tivemos surtos associados com a possibilidade de visitas aos lares e às residências de idosos. Os cuidados que estão a ser tidos por todos têm garantido este resultado.


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PEES – Reforço do SNS

Saiu ontem do Conselho de Ministros o Programa de Estabilização Económica e Social. Está disponível em pees.gov.pt. De momento não é um programa. É um conjunto de powerpoint slides tornados website, com ideias gerais. Para o que está em causa, terá que se ser muito mais exigente no detalhe e justificação. Como primeira comunicação, talvez esta versão seja boa. Mas não o será para garantir que há realmente contributos e discussão da sociedade civil. E basta seguir uma estrutura simples dos documentos que venham a tornar precisas muitas das ideias apresentadas – a minha preferida é 1) qual é o problema que se pretende resolver? 2) quais são as alternativas possíveis? 3) porque é a alternativa escolhida a melhor.

E comecemos pelo que é dito sobre o SNS – não será por acaso que é colocado à cabeça do documento neste momento.

Primeiro ponto – questão de curto prazo, problema temporário. Incentivos financeiros significa apenas mais dinheiro – o que significa que será bom atrasar a atividade normal do quarto trimestre para recuperar a do segundo trimestre, de forma a que depois também haja “incentivos financeiros” para depois recuperar a atividade do quarto trimestre? Incentivos é mais do que transferir apenas verbas, é pensar como se cria o esforço adicional de recuperação sem distorcer (pelo menos de forma assinalável) a atividade normal que deverá decorrer ao mesmo tempo que se faz o esforço de recuperação. E não diz nada sobre quem irá fazer essa recuperação da atividade assistencial – cada hospital do SNS recupera a sua atividade? um hospital do SNS pode “recuperar atividade” de outro hospital? e o setor privado tem algum papel ou não? ou pode ser cada hospital do SNS a definir se quer recorrer ao setor privado para recuperar a “sua” atividade? Durante quanto tempo vão existir estes incentivos financeiros? se não a verba disponibilizada não chegar para todos, quem decide como ratear, racionalizar, racionar entre hospitais do SNS? O programa de incentivos financeiros que vai ser feito vai olhar para os programas similares dos últimos 20 anos? (sim, houve vários, uns mais abrangentes, outros menos abrangentes, até o SIGIC para os tempos de espera pode ser considerado como um sistema de incentivos).

E estas perguntas foram apenas as que me vieram à mente enquanto escrevia este post, com um pouco mais de esforço devo conseguir encontrar muitas mais. Mas ok, se for bem feito trará a “estabilização” que faz parte do titulo do documento a uma parte dos serviços do SNS à população que ficaram para trás.

Segundo ponto do “reforço do SNS” – aumento das camas de medicina intensiva – apliquemos aqui as três perguntas: que problema procura resolver? que alternativas existem? porque é este aumento a melhor forma de o resolver?

Aliás, porque é a média europeia o ponto de referência? o que faz da média europeia o valor adequado? se nós achamos que estamos mal, e fazemos parte da média europeia, já estamos a distorcer essa média, pelo que pressupomos que outros que estão acima da média também estão mal e a distorcer no sentido oposto. Não vejo qualquer motivo para pensar que assim é. E até bastará que cada país tenha legitimamente opções diferentes dos outros sobre o seu sistema de saúde para que estas médias não sejam relevantes para definir políticas na área da saúde.

Mas olhemos para lá do indicador, que será o menor dos problemas desta proposta. Atendendo ao que tem sido divulgado sobre a resposta à COVID-19, não temos tido falta de camas de cuidados intensivos, e para uma situação de “excesso de procura” potencial, houve a flexibilidade de criar essa capacidade. Há algum motivo para dizer que será necessário mais capacidade de forma permanente em vez de ter mecanismos de flexibilidade que gerem capacidade conforme as necessidades? Ter capacidade disponível não utilizada é desperdício, utilizar capacidade disponível só para dizer que não está a ser usada será desperdício. É por isso necessária uma sustentação bem mais forte desta medida, uma das três, deste programa. Se pensarmos que há dias, o Primeiro Ministro apresentou, no documento sobre desconfinamento, que 97,2% dos doentes confirmados com COVID-19 estão a ser tratados em casa, não deveria pelo menos os cuidados de saúde primários, os médicos de famílias, as equipas multidisciplinares nos cuidados de saúde primários, terem tanta ou mais atenção que as camas de cuidados intensivos. Será que houve mesmo um pensamento de organização global de como o Serviço Nacional de Saúde responde às necessidades da população em tempos de crise e em tempos normais para escrever esta medida? (se calhar houve, e estou a ser injusto, mudarei de opinião quando for disponibilizado o documento que responda de forma clara às três perguntas acima).

O terceiro eixo deste programa de reforço do SNS é a valorização da saúde pública – com duas partes, sistema de vigilância epidemiológica e “homogeneizando o sistema de retribuição aplicável”. O primeiro ponto já era evidente há alguns anos, será inevitável que agora se ultrapassem as barreiras que têm impedido essa modernização (e que não têm sido apenas de natureza financeira). Deixo aqui uma sugestão, que se for criada alguma comissão / grupo de trabalho / “o que for” para olhar para esta modernização, incluir apenas pessoas abaixo de 40 anos – serão essas pessoas que terão de liderar a modernização na próxima década, talvez mesmo as próximas duas décadas (não sei a idade do Ricardo Mexia, atual presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Saúde Pública, se estiver acima dos 40 anos, crio uma excepção para o incluir).

Sobre a parte remuneratória, será certamente importante, mas colocar aqui parece-me desfasado. Toda a gestão dos profissionais de saúde terá que receber atenção no futuro próximo, e não vejo porque esta “homogeneização” tem mais relevância do que todos os outros aspectos, e não unicamente os remuneratórios, de todos os profissionais de saúde que trabalham no Serviço Nacional de Saúde. Ou pode ser que tenha entendido mal o que significa “sistema de retribuição aplicável”.

Compreendo perfeitamente que um primeiro documento de “Estabilização Económica e Social” tenha que ser genérico, que se limite a definir grandes prioridades que depois serão aprofundadas em discussão e documentos posteriores.

O que me causou espanto neste “Reforço do SNS” não foi a generalidade, foi dentro dessa generalidade os pontos escolhidos.

A expectativa é que quando se começar a passar ao concreto, se definam prioridades e objetivos consistentes com o que se tem dito e reafirmado que é a base da intervenção do Serviço Nacional de Saúde. O “reforço do SNS” não será certamente dado apenas por estes três pontos.


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na Voz da Nova, sobre a democracia, ou não, do virus – vivendo com o coronavirus (36)

Hoje, na comunicação social, voltou-se a falar da “democracia do virus”, tema que abordei aqui, para os contributos organizados pela Universidade Nova de Lisboa.

A distinção que fiz é entre o virus, que não diferencia pessoas, e a doença – que inclui as diferenças de vida que podem levar alguém a ser mais facilmente infectado, bem como os custos económicos das medidas tomadas para travar a expansão do vírus. O vírus é democrático, a doença, a COVID-19, essa sim depende de factores sócio-económicos, e não é assim tão democrática.

Para quem não tiver lido no Voz da Nova, aqui fica a sugestão.


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a propósito do paraministro

A política portuguesa vai criando novos termos. Depois da “geringonça” de há cinco anos, vem agora o “paraministro”, a propósito do papel de António Costa e Silva no delinear da economia pós-COVID-19 (ou melhor, depois do primeiro embate da COVID-19).

As primeiras reações políticas foram, bem, políticas – se o tomam ou não como interlocutor (não é interlocutor oficial, segundo os partidos políticos).

Para a parte económica, António Costa e Silva deu uma entrevista a Ricardo Alexandre, TSF, da qual se podem recolher algumas das ideias que tem. Depois de ouvir, aqui fica o que retirei. Desde logo um objetivo geral de transformação da economia portuguesa: plano a curto prazo para salvar a economia, a médio e longo prazo transformar a economia. Competir no mercado internacional será parte dessa solução. Ter um plano transversal, com “áreas estratégicas a transformar para servir o futuro.” A referência ao trabalho de Acemoglu e Robinson é interessante, leva a focar na qualidade das instituições, boas políticas públicas, capacidade de criar mercados inclusivos. O que é curioso pois pode-se perguntar se o próprio trabalho como “paraministro” reforça, ou não, a “qualidade das instituições”, no sentido em que a informalidade deste papel será ou não compatível com o que se pretende (do que diz António Costa e Silva, irá fazer recomendações, que depois o Governo decidirá se usa ou não). Há na entrevista, a inevitável neste momento, referência ao investimento no SNS: equipamentos e recursos humanos, preparação para possíveis epidemias, todas as ciências de saúde, centros de investigação, empresas que trabalham nessa área. A concretização será o verdadeiro teste. É expressa por António Costa e Silva preocupação com a transparência, falando num portal para se saber para onde o dinheiro vai. Grande atenção à transição energética, incluindo oportunidades de produção de equipamento, ligar ao cluster do hidrogénio. É o conhecimento profissional da área onde trabalha a vir ao de cima. Como grande ideia chapéu de tudo: explorar via continental e via atlântica – a ligação do “mar” ao “resto da europa continental, apanhando pelo caminho o que o território consegue dar”. Não é uma ideia nova. Desde a criação do Porto de Sines que creio que ciclicamente essa ideia regressa. Veremos como se concretiza desta vez. Ligado ao mar e à extensão da plataforma continental, a intenção da Universidade dos Açores se tornar “a” Universidade do conhecimento do mar, a Universidade do Atlântico, de um modo global (no contexto mundial). A transição digital, sobretudo um reforço das competências digitais na Administração Pública, como elemento chave já para o futuro próximo. Referida também a importância de aumentar a produtividade e ao mesmo tempo promover a coesão interna de Portugal, com o reconhecimento do papel das pequenas e médias empresas.

Na forma de organização económica, as três grandes linhas são, se percebi corretamente, o Estado como última proteção, não acreditar em mercado auto-regulados, e o sistema empresarial como base. Globalmente, recolhe ideias que me parecem largamente consensuais. Será o detalhe a dar o grau de inovação que estas ideias possam vir a ter. Sobretudo o equilíbrio entre “plano do Estado”, e regulação de mercados que permita às empresas serem inovadoras. Só vendo as recomendações se poderá ter melhor visão do que será.

Todo este processo não afasta algumas preocupações, existentes ainda antes do trabalho do “paraministro”. Preocupações centradas muito no processo que poderá levar a que desaproveite as verbas que eventualmente estarão disponíveis (há sempre o risco de o dinheiro ir parar a carros elétricos topo de gama, cumprindo assim objetivos ecológicos).

Os riscos para Portugal de receber somas avultadas de fundos é que sejam usados de forma pouco produtiva. E os programas que os dirigem criam custos de acesso que aliados ao ponto anterior geram problemas a prazo, por distorcerem a economia portuguesa na sua estrutura produtiva.

Uma forma menos cuidada de atribuição dos fundos pode também criar tensões por acentuarem desigualdades sociais e regionais. Ter muitos fundos para distribuir é um estímulo à corrupção. A forma de organizar todo o processo irá condicionar os próprios resultados que se conseguirão.

Uma primeira sugestão: a ser criada uma nova estrutura, missão, plano, roteiro, o que se lhe entender chamar, que a equipa central tenha uma composição internacional – que seja feito um recrutamento a nível global para essa equipa. Tem duas óbvias vantagens, vai buscar as melhores pessoas, onde quer que estejam, e ao trazer pessoas de fora, importa também a independência delas das “tribos” locais. Naturalmente que há portugueses capazes de desempenhar estes cargos, mas prefiro que sejam escolhidos num processo que garante maior capacidade técnica, com amplas possibilidades de recrutamento. E se além de portugueses portugueses, houver outras nacionalidades não vejo mal em que estejam holandeses, finlandeses, estónios, irlandeses, espanhóis, checos, búlgaros, ou qualquer outro cidadão, até de fora da União Europeia (apesar da ideia de ter um holandês apresentar um toque de ironia que me agrada).

O distanciamento da “tradição portuguesa” até será uma vantagem a prazo para a economia portuguesa, uma vez que levará à colocação de perguntas que podem ser incómodas, ou a contestar “verdades adquiridas” mas sem atual sustentação. Um exemplo de pergunta global: será que as pequenas e médias empresas portuguesas não serão demasiado pequenas, em geral, para vingarem num espaço económico alargado? A partir da resposta, é possível pensar que tipo de intervenções públicas se poderão aplicar melhor. 

Para ponto de partida, será útil fazer uma lista de áreas onde foi mais e menos produtivo ter programas de apoio ao desenvolvimento empresarial. Produtivo aqui significa capacidade de gerar riqueza como múltiplo de cada euro lá colocado por dinheiros públicos. Um ponto de partida está aqui. E ter também uma lista “negra” de empresas, empresários e tipos de projeto que só foram rentáveis enquanto apoio público (onde não houve “falha de mercado” a ser ultrapassada, e apenas “rendas económicas” a serem colhidas, no que espero que seja uma lista pequena). Por exemplo, outra questão, projetos de grandes empresas que sejam realizados de qualquer modo, devem beneficiar de apoios públicos?

Duvido muito da capacidade central do Estado, ou de um “paraministro”, com maior ou menor equipa de apoio, em definir “sectores de futuro”, em geral e ainda mais nas atuais condições de incerteza. Tenho alguma curiosidade de saber se as “áreas estratégicas” serão definidas com fino detalhe (produzir pás para turbinas eólicas) ou serão definidas de forma ampla (software para cibersegurança, como exemplo).

Há sempre o perigo de se tomarem decisões de curto prazo que são contrárias a um bom desempenho a prazo. A economia portuguesa tem sido capaz de regularmente deitar fora oportunidades de desenvolvimento por se deixar tentar pela fartura imediata de recursos que são colocados à nossa disposição. Desde a integração europeia que tem sido assim, embora olhando para outros passados, o mesmo padrão se vá encontrando (especiarias da india, ouro do Brasil, são os exemplos dos livros de história). 

Ter esta preocupação, a propósito do anúncio do plano de recuperação da economia europeia anunciado pela Comissão Europeia e os seus muitos milhões que irão, provavelmente, chegar a Portugal, é saudável.

Haverá, como já surgiram, as críticas de quem ache que é pouco (sobretudo quem é contra a União Europeia por princípio). Mais do que estar a medir os muitos “mil milhões” de euros que eventualmente cá chegarão, é crucial que essas verbas venham a servir para uma melhoria do funcionamento da economia portuguesa – todos concordarão muito provavelmente com este objetivo. O problema é definir o que significa “melhor funcionamento”, que mecanismos e instituições o garantem melhor. 

A tentação natural portuguesa será o de criar algum novo programa e estrutura de suporte, com inevitáveis candidaturas a projetos avaliados por métodos tais que deixam as diferentes “tribos” sossegadas (sejam empresariais, da política local, da política nacional, etc. – adicionar a “tribo” de que se lembrar à vontade). Sobre esta parte, António Costa e Silva nada disse, provavelmente porque será parte das recomendações que irá fazer e só terá total capacidade de as fazer depois de precisamente falar com ministros e com “tribos” e seus representantes.

O espírito que tipicamente se instala é de ver estas verbas como redistribuição e não como instrumento de criação de valor económico e social que seja reprodutivo ao longo de décadas. Como se irá conseguir ter uma perspectiva diferente é um dos desafios.

Não tardaremos a ver as tentativas de aceder a estes fundos dos que têm “ideias de futuro”, dos que têm “indústrias ou serviços severamente afetados pela crise da pandemia”, dos que procuram a “proteção dos trabalhadores e dos seus postos de trabalho”.

A principal oportunidade do programa de relançamento da economia europeia é ser suficientemente grande para levar a pensar e a ter meios para agir de forma diferente.

E como ponto de partida, adoptar novas metodologias.

Temos uma oportunidade para experimentar novas formas de governação para definir a utilização das verbas que serão colocadas à disposição de Portugal, tendo por base uma aspiração europeia.

A nossa história do corrente milénio foi a de que ter fundos (comunitários) e uma visão voltada para dentro, resultou num fraco desenvolvimento do país, e numa crise de que ainda não se estava completamente recuperado, em termos de nova estrutura produtiva de bens e serviços na economia, quando surgiu a COVID-19.


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questionários em tempo de covid-19 – vivendo com o coronavirus (35)

Ao longo dos últimos dois meses, fizemos um acompanhamento dos tempos do estado de emergência, e agora dos primeiros tempos do aliviar desse estado de emergência. Pedimos nestes dois longos meses a colaboração de quem quisesse responder periodicamente a algumas questões.

Desde que começamos este processo, muitos outros inquéritos foram surgindo, e o corpo de informação global que se foi criando ajudou a construir uma imagem do que foi a vida em Portugal neste período.

Estamos agora a chegar ao fim deste ciclo, e notamos também uma “fadiga” com os inquéritos a que somos solicitados – em termos económicos, como o “custo de fazer um inquérito”, sobretudo online, baixou tanto com as novas ferramentas electrónicas que o espaço das redes sociais foi inundado.

Como elemento final, lançamos, no centro de investigação de economia da saúde da Nova SBE, a última versão da nossa série de inquéritos, disponível aqui. A novidade, além de algumas perguntas novas, é entre perguntas se ir dando a conhecer o que foram as respostas dos inquéritos anteriores. Pedimos o tempo de quem nos ajudou, gostaríamos de pensar que ao colocar disponível esta informação estamos também a mostrar para que serviu o apoio que nos deram.

E se tiverem sugestões adicionais ou perguntas que queiram colocar, estamos disponíveis, bastando contactar para nhem@novasbe.pt

Obrigado a tod@s!


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por onde andamos? segundo a Google – vivendo com o coronavirus (34)

Sobre a evolução da COVID-19, tem sido crescente a preocupação com a situação na zona de Lisboa, levando até a intervenções das autoridades de saúde pública dirigidas a locais específicos para parar surtos detetados.

A pergunta que fica a pairar é saber se estes surtos são apenas a parte visível de um problema geral de menor contenção, de menor adesão às regras pretendidas de distanciamento fisico (prefiro esta expressão a distanciamento social) para evitar o contágio. Utilizando os dados disponibilizados publicamente pela Google (os Google Community Mobility Reports), é possível traçar a comparação da zona de Lisboa com o resto do país segundo seis categorias de mobilidade. Essa comparação é apresentada nos gráficos seguintes.

A mensagem principal é que Lisboa não está com maior mobilidade face a Portugal como um todo, se alguma regularidade existe é a situação de mobilidade das pessoas, medida pela Google, estar em Lisboa abaixo, mais contida, do que o país como um todo. Até na semana depois do inicio da segunda fase de desconfinamento, em que o calor convidou a ir à praia, de onde aliás houve várias reportagens, em Lisboa o aumento de mobilidade foi menor do que no global (sendo que pela primeira vez se teve a nível nacional maior circulação do que no mês antes das decisões de confinamento). Assim, não parece existir um problema geral de desconfinamento demasiado rápido em Lisboa, sendo mais um problema de surtos localizados, como tem sido reportado pelas autoridades de saúde.

Um outro aspecto interessante que se retira dos gráficos, apenas por inspecção visual, mas provavelmente sobrevive numa análise estatística mais detalhada, é o inicio da nova fase de mobilidade começou na realidade depois da Páscoa. Teve um pequeno salto depois de 4 de maio (inicio da primeira fase oficial de desconfinamento), e um segundo salto depois de 18 de maio (segunda fase oficial de desconfinamento). Ou seja, temos sido disciplinados, mas ainda assim um pouco menos do que tentamos acreditar. Felizmente, e exceptuando os surtos na zona de Lisboa, sem consequências na propagação da COVID-19.

É também curioso reparar na importância do “sair de casa” – no início das limitações de mobilidade temos uma queda rápida, e até antecipada da mobilidade relacionada com emprego, com lazer e com compras essenciais. Mas houve uma pequena compensação com mais mobilidade nas zonas residenciais. Que começa a diminuir no momento em que as outras mobilidades começam a aumentar. Também se observa facilmente que a utilização de transportes e a passagem por pontos centrais de distribuição de transportes públicas ainda está a um nível muito abaixo face ao pré-pandemia, enquanto noutros tipos de mobilidade, a segunda fase de desconfinamento já praticamente levou para uma situação perto da anterior (o bom tempo da semana de 18 de maio provavelmente teve um papel importante na mobilidade da categoria “parques e praias”.


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gabinete de crise – vivendo com o coronavirus (33)

Mais uma semana, mais uma colaboração com a Rádio Observador e a rubrica Gabinete de Crise, hoje tendo como convidada Joana Dias (Escola Nacional de Saúde Pública).

Número da semana: 34 – foi o aumento médio diário de novos casos no resto do país, retirando Lisboa e Vale do Tejo, na última semana (6ª feira a 5ª feira seguinte). É o número da semana porque tem vindo a baixar de forma rápida nas últimas semanas, apesar dos riscos do desconfinamento. Faz contraponto com a subida que fez sentir em Lisboa e Vale do Tejo, como se falou na semana passada neste mesmo Gabinete, e que tem recebido atenção especial.

Média de novos casos por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio118110229
15 a 21 de maio15868227
22 a 28 de maio20634240

Nota: valores arredondados à unidade

Mito da semana: o tabaco, ou a nicotina, ajuda a evitar a COVID-19. Não há qualquer evidência sólida nesse sentido. 

Como se falou na semana passada, há uma enorme produção de trabalhos que ainda não passaram o crivo de qualidade para que possam ser considerados contributos científicos sérios. E assim há sempre trabalhos que surgem que cedem à tentação de querer atenção mediática, e que depois se vem a revelar serem obtidos a partir de estudos e análises incompletas, nos melhores dos casos, ou serem mesmo fraudes do ponto de vista metodológico noutros casos. Se um resultado não se replica e não se percebe, do ponto de vista biológico, o mecanismo causal presente para levar a esse resultado, é melhor não confiar. 

Esperança da semana: apesar de ter aumentado a mobilidade (medida pela Google), é motivo de esperança não ter havido, até agora, uma “explosão” de novos casos no seguimento do desconfinamento de restaurantes, escolas, praias e lojas; sugere que se está a manter globalmente o cuidado necessário. A mobilidade medida pelo Google Mobility Report mais recente aumentou, devagar, mas consistentemente em todas as áreas (restaurantes, compras nos supermercados e farmácias, parques e praias, transportes públicos). O retomar desta mobilidade está a ser feito mais lentamente do que foi a queda devido ao estado de emergência. Com calma. Com cada vez menos medo, espero. Readquire-se uma cada vez maior normalidade no dia-a-dia. Dá esperança para que a gradual abertura dos lares e residências de idosos a visitas de familiares se poderá fazer sem riscos acrescidos. 

No debate sobre os efeitos de desigualdades económicas agravarem e serem agravadas pela pandemia COVID-19, falou-se de como dentro de cidades há mesmo diferenças grandes. Deixo aqui uma referência ao projecto internacional EuroHealthy, que foi liderado por Paula Santana (Universidade de Coimbra), e um video sobre estas diferenças ao longo da linha azul do Metro de Lisboa.