O Conselho Económico e Social organizou, no dia 9 de julho de 2026, uma sessão de apresentação de estudos e de debate sobre as novas sociedades longevas, parte de um projeto mais amplo sobre o tema. Como são disponibilizados os sumários executivos (aqui), é natural que algumas ideias estejam mais desenvolvidas nos relatórios completos, e estes sumários completam o que foram as apresentações públicas. Os comentários seguintes baseiam-se sobretudo nas apresentações realizadas, e nos resumos disponíveis (o foco e a entoação durante a apresentação dão “informação” adicional sobre o que está escrito; o que está escrito clarifica algumas observações feitas por quem apresentou cada estudo).
A sessão de abertura
Na sessão de abertura, a cargo de Luis Pais Antunes e Maria João Valente Rosa, houve mensagens fortes, que nos desafiam na forma de olhar para as causas, as consequências e os ajustamentos necessários da sociedade ao envelhecimento da população. Destaco três delas, a realidade evolui mais depressa do que a nossa capacidade de compreender; o envelhecimento transforma a sociedade, e temos, coletivamente, dificuldade em fazer com que essa transformação aumente o bem-estar; e, viver mais não representa apenas um custo, é um ativo social e económico a ser aproveitado.
Surgem novas necessidades em vários campos, e novas oportunidades coletivas num contexto de vidas longas. Daqui resulta naturalmente a necessidade de um novo corpo de conhecimentos que ajude à formulação de decisões coletivas adequadas.
Sobre o Estudo “A economia da longevidade em Portugal”
Paula Albuquerque apresentou as principais linhas do estudo sobre economia da longevidade. A proposta foi a de olhar para as atividades económicas das pessoas com 50 ou mais anos, e colocar a pergunta de quanto vale a economia da longevidade?
Como desafio de continuidade, ficar a pergunta de saber como tem sido a dinâmica desse valor. O estudo quantifica de forma clara o valor económico em 2022; permanece em aberto a sua evolução temporal e a decomposição dessa evolução entre alterações demográficas, rendimento e padrões de consumo.
A base de informação usada foi a referente às despesas, às receitas e às transferências disponíveis para estas famílias, e decisões são tomadas quanto a categorias de despesa.
Os efeitos considerados incluem efeitos diretos, indiretos e induzidos no VAB, PIB, emprego, salários, impostos, contribuições sociais. Dá-nos uma fotografia da situação.
Como exercício para futuro, seria interessante ter a construção, de alguma forma, de um mundo contrafactual do que seria a situação se não tivesse ocorrido este envelhecimento (por exemplo, se a mortalidade em cada idade se tivesse mantido igual desde há 25 anos, no valor de há 25 anos). Seria uma forma de tentar construir uma imagem da transformação, e não apenas do que sucede atualmente.
Mas ainda dentro do quadro escolhido pelos autores do trabalho, é útil uma maior discussão e comparação do impacto total versus impacto per capita. A mudança do padrão de consumo de acordo com a idade é natural e é esperado, o efeito total é composto do que muda em cada agregado familiar, multiplicado pelo número de agregados em que muda, e com o envelhecimento da população ambas os elementos mudaram. Saber quanto podemos atribuir a cada um deles poderá ser útil. O estudo apresenta despesa por adulto equivalente (no sumário executivo); seria útil acrescentar uma decomposição que separasse variações de despesa média, dimensão/composição dos agregados e número de agregados em cada grupo etário.
Também o efeito associado com ter mais ou menos escolaridade segue a intuição geral, em termos do peso relativo de cada categoria, e aqui mais uma vez ter sido apresentado detalhe adicional sobre o valor médio, em euros, por pessoa seria útil para perceber se são preferências diferentes entre grupos da população, ou se é apenas uma questão de maior ou menor rendimento (por exemplo, se a despesa per capita em cada agregado familiar for sensivelmente a mesma qualquer que seja o nível de rendimento, então as diferenças de gastar mais noutras categorias de despesa seria resultado sobretudo do nível de rendimento permitir gastar nessas categorias, depois de satisfeitas as necessidades de alimentação. De uma forma mais geral, conhecer as elasticidades rendimento das categorias de despesa alargaria o nosso conhecimento). Ou seja, além dos valores médios por adulto equivalente apresentados por escolaridade e rendimento, uma estimação de elasticidades-rendimento por categoria de despesa seria uma adição útil.
A análise das transferências e despesas sociais, em espécie e em valores monetários, é importante. Aqui, a minha lista de desejos, adiciona a pergunta de, numa lógica de ciclo de vida, qual é o saldo individual de cada pessoa e como tem evoluído entre gerações? O sumário executivo apresenta saldos líquidos per capita por faixa etária em 2022; ficou por desenvolver uma análise longitudinal que acompanhe saldos acumulados ao longo do ciclo de vida e compare gerações.
Na componente de emprego e valor económico gerado pelo emprego das pessoas com idade mais avançada, a discussão da inserção no mercado de trabalho, via trabalho a tempo parcial ou retomar de atividade remunerada é algo a ser caracterizado no futuro.
Em suma, o estudo é relevante, claro e tecnicamente útil como quantificação macroeconómica de referência. O aspecto técnico mais relevante será adicionar elementos que permitam traçar efeitos de causalidade associados com o envelhecimento da população. O formato escolhido para a análise permite apenas encontrar efeitos de associação. A associação entre idade, despesa, escolaridade, rendimento e impacto económico pode refletir composição, ciclo de vida e geração. Em termos de apresentação, algumas recomendações decorrem de modo plausível dos dados apresentados, mas beneficiariam de uma ligação mais explícita entre indicador empírico e medida proposta.
Sobre o estudo “Esperança média de vida e anos de vida saudáveis”,
Joana Cima trouxe o tema da esperança média de vida e dos anos de vida saudável, com a apresentação das conhecidas diferenças entre homens e mulheres (aqueles vivem menos do que estas, mas apresentam mais anos de vida saudável).
Como desenvolvimento próprio, os autores deste segundo estudo apresentam um novo índice, tomando as dimensões física, mental, cognitiva e social como elementos estruturantes. Da análise deste índice retiram que as fragilidades da população portuguesa estão ligadas a múltiplos aspetos (baixa escolaridade – algo que se tende a esbater com o tempo, dado o salto na escolaridade da população portuguesa nos últimos 50 anos; a incapacidade de manter a habitação aquecida no Inverno, como proxy de privação material, e inatividade física). A fragilidade portuguesa, por comparação internacional, não está centrada numa única dimensão. Adicionalmente, confrontando a situação de homens e de mulheres, estas surgem com pior situação em qualquer uma das dimensões.
Sobre o índice e a sua construção será útil perceber melhor como trata a interdependência entre estas várias dimensões, e qual a contribuição concreta dos elementos que possam ser mais facilmente alteráveis (intuitivamente, a escolaridade será mais difícil de alterar do que a capacidade de ter casas devidamente aquecidas, do que levar as pessoas a fazer mais exercício físico; claro que será adequado ter uma validação com base em evidência desta intuição).
Dois passos seguintes no uso deste índice serão como simular os efeitos de diferentes políticas, e como o cruzar com a intenção de envelhecimento em casa, apresentada (assumida?) no estatuto da pessoa idosa. Depois de identificados fatores modificáveis, seria útil quantificar a contribuição marginal de cada um deles e ordenar intervenções segundo impacto esperado, capacidade realização e custo associado. Será particularmente útil articular o novo índice com indicadores de capacidade de envelhecer em casa, cruzando saúde funcional, habitação, rede de apoio e disponibilidade de cuidados domiciliários (e eventualmente outros elementos que possam ser considerados como instrumentos de intervenção).
Por seu lado, a análise dos inquéritos nacionais de saúde, indica um aumento da população com doença crónica (caracterização que se encontra também noutros estudos) e a melhoria da funcionalidade, em comparação com o passado. Igualmente importante é a informação de a presença de doenças crónicas se iniciar relativamente cedo, entre os 40 e os 50 anos. Adicionalmente, a desigualdade de rendimento explica muito do diferencial das mulheres face aos homens.
Ou seja, neste estudo parte-se do desfasamento entre esperança de vida e esperança de vida saudável em Portugal para uma discussão mais profunda. A proposta de índice multidimensional é um contributo original face à métrica convencional baseada na perceção de limitações funcionais. Infelizmente, o sumário executivo disponibilizado não permite avaliar plenamente a construção do índice, incluindo pesos, normalização das variáveis, tratamento de correlações e validação externa. As recomendações de política são relevantes e plausíveis, mas o estudo não simula efeitos nem hierarquiza intervenções por custo-efetividade.
Sobre o “Estudo sobre a economia dos cuidados das pessoas idosas em Portugal”
No terceiro estudo apresentado, Américo Mendes, apresenta informação referente à economia do cuidado das pessoas idosas em Portugal, tendo como interesse quem presta e quem prestará cuidados de longa duração, que equilíbrio entre oferta e procura se irá gerar. É apresentada uma estimativa do trabalho de cuidado informal das pessoas idosas, que é claramente dominante face aos outros tipos intervenientes neste cuidar da pessoa idosa.
É igualmente introduzida à discussão a relevância de olhar para efeitos mais globais da organização de prestação de cuidados à população idosa, na coesão social, na coesão territorial, na saúde coletiva e no aprofundamento da democracia. Ficou também claro que efeitos de redistribuição na prestação de cuidados às pessoas idosas realizada por entidades em fins lucrativos (resultante da modulação dos pagamentos feitos face ao rendimento dessas pessoas). É um dos elementos de coesão social. Na coesão territorial, é dado destaque à proporção de emprego na economia local que é assegurada por etas entidades.
Aqui, há que reconhecer um elemento importante para a sustentabilidade no tempo destas entidades, via asfixia financeira: a “tecnologia” de prestação de cuidados a pessoas idosas assenta frequentemente em trabalhadores que recebem o salário mínimo nacional, ou perto desse valor. Quando o Governo decide aumentar o salário mínimo sem proceder a correspondente atualização nos valores que transfere para estas entidades como contraparte da prestação de serviços de apoio a pessoas idosas está a comprometer a sua continuidade a prazo, via problemas de sustentabilidade financeira para os quais não há grande margem de ajustamento. Ou seja, dado que o sector é intensivo em trabalho e financeiramente frágil, aumentos salariais sem atualização das comparticipações públicas podem agravar a sustentabilidade das entidades; esta implicação deverá ser testada com dados de custos e financiamento.
Sobre quem cuida, são sobretudo mulheres e com uma percentagem crescente de pessoas com nacionalidade estrangeira nos estabelecimentos de apoio social.
Relevante foi também a recolha de informação sobre as motivações do cuidador informal, pelo que revela do possa suceder em termos de pressão crescente sobre estes cuidadores e também crescente recurso a “oferta de mercado” para a prestação destes cuidados, e se a evolução é no sentido de substituição do cuidador informal, ou de apoio ao cuidador informal, em que medida ambas as realidades coexistem e evoluem. De acordo com a leitura do sumário executivo, o objetivo não deve ser substituir integralmente o cuidado informal, mas integrá-lo com respostas formais, domiciliárias, comunitárias e de saúde.
A estrutura das relações de procura e de oferta, nomeadamente com intervenção pública na parte de aquisição de serviços, tem de considerar vários elementos. É necessário reconhecer a necessidade de flexibilidade na oferta de serviços, o que significa que os modelos de pagamento dos vários tipos de serviços que surjam têm de ser construídos de forma adequada: têm de garantir participação das entidades da oferta, e têm de garantir que não há oportunidades de “aproveitar indevidamente” os sistemas de pagamento. A diversidade de organizações sem fins lucrativos terá de ter correspondência numa diversidade de modalidades de pagamento e de serviços remunerados.
Ou seja, este estudo combina análise demográfica, capacidade instalada, emprego, valor económico do cuidado informal, inquéritos, análise financeira das entidades, Conta Satélite do cuidado formal e revisão de políticas.
A conclusão central é que o sistema português é baseado na família e solidário: depende fortemente do cuidado informal e do setor social solidário. O objeto do estudo é muito relevante para política pública, sustentabilidade social e organização territorial dos cuidados. A articulação entre cuidado informal, setor solidário, financiamento, trabalho e coesão territorial dá ao estudo uma visão sistémica, que pode ser desenvolvida em termos das suas implicações organizacionais e de funcionamento de mercado.
O sumário executivo não mostra em detalhe a metodologia usada para estimar o valor do cuidado informal, embora seja de esperar que este valor seja muito ao valor ao valor dos cuidados prestados via mercado, tal como sucede noutros países, para os quais estimativas similares foram produzidas. A análise oferta-procura é convincente no diagnóstico, mas o sumário não apresenta projeções quantitativas de défice futuro por região, tipo de resposta ou perfil de dependência, que permitam preparar intervenções ou monitorização de necessidades. Por outro lado, sustentabilidade financeira das entidades é discutida, mas faltam testes de sensibilidade a salários, comparticipações, inflação e rácios de pessoal, que permitam dar maior destaque ao problema. Particularmente importante é a simulação dos efeitos de alteração do salário mínimo, que se encontra fora do controle das entidades que prestam estes serviços. O estudo está orientado para decisão pública. A sua principal novidade está na visão integrada do ecossistema de cuidados
Apreciação conjunta
Globalmente, os três estudos são complementares: o primeiro quantifica a longevidade como fenómeno económico; o segundo avalia a qualidade dos anos vividos; o terceiro analisa a infraestrutura social e económica de cuidado necessária quando a longevidade se acompanha de dependência. Há convergência na ideia de que a longevidade não deve ser lida apenas como custo. Ao mesmo tempo, os estudos mostram que o valor económico potencial depende de saúde, autonomia, rendimento, escolaridade, cuidados e integração territorial.
Questões que permanecem por responder incluem a dinâmica temporal do valor da longevidade, a avaliação causal de políticas de envelhecimento, a projeção territorial da procura de cuidados e o desenho financeiro concreto para sustentar respostas formais e informais. E claramente o conjunto dos três estudos é maior do que o contributo de cada estudo por si.

(foto © CES 2026)














