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Gabinete de crise, rádio observador, e o “puxão de orelhas”

Como de costume a versão gravada está disponível aqui, na Rádio Observador. Já levamos muitos meses de acompanhamento da pandemia, e infelizmente ainda estamos longe do seu fim. Esta semana, mais uma vez, os habituais elementos da minha discussão surgem nas próximas linhas.

Número da semana:  10 – de 10 dias de quarentena para os doentes assintomáticos ligeiros, na nova norma da DGS. Já usada noutros países, adapta as medidas ao conhecimento que se vai gerando, embora tenho potencial para gerar confusão – primeiro, num contexto de pressão geral e novas medidas mais restritivas, ter uma medida de alívio (ou que pode ser percebida desse modo), segundo, quem estiver menos atento pode pensar que é para todos os casos. É uma alteração que facilita a vida às pessoas, no retomar de vida normal, mas também reduz as necessidades de acompanhamento por parte dos médicos de família.

Análise da semana:

Portugal acompanha a Europa no crescimento de novos casos, crescimento de internamentos, crescimento de óbitos. Algum desvalorizar coletivo global de algumas semanas atrás está agora a ter as consequências.

Ainda vai levar algum tempo a que os novos comportamentos e as novas medidas tenham efeitos.

A mudança de tom político está a ir a reboque desta evolução, com as declarações do primeiro ministro sobre ser “preciso haver um abanão na sociedade”, tem a preocupação – adequada – de procurar medidas com pouco impacto no emprego, nas empresas e nos rendimentos. Curiosamente, a segunda metade de Setembro já teve uma quebra bastante assinalável na mobilidade das pessoas, nomeadamente para áreas de recreio e lazer. Mas pode ter sido já tarde para conter os ritmos de contágio que foram lançados – é muito fácil crescer rapidamente os contágios, mas muito difícil voltar a colocar o “génio” dentro da garrafa.

Mas a ideia de instalação da aplicação stayaway covid ser obrigatória (mesmo que em contextos específicos) está a ser um problema político e era previsível que assim fosse. Na semana passada, numa outra intervenção pública, falei em 10 desafios para o SNS e o primeiro era sobre o cansaço da população. Falei explicitamente em “Saber lidar com o cansaço das pessoas quanto às regras a seguir, sem cair em tiques de autoritarismo que facilmente levam a reações contrárias às pretendidas é um desafio imediato”, e nem de propósito começa-se a falar em medidas que têm precisamente esse cheiro a autoritarismo. Até o presidente do Conselho Nacional de Saúde veio a público ter uma reação forte contra as medidas repressivas (termo dele). Ter o Governo a perder tempo, e talvez credibilidade, da sua liderança nestes tempos com problemas perfeitamente antecipáveis não é certamente boa ideia.

Ainda em termos de ambiente politico, também uma menção rápida para entrevista da ministra da saúde na quarta-feira, onde esteve em geral bem, embora com alguma crispação quando se falou da carta aberta dos bastonários da Ordem dos Médicos – que tocaram em preocupações partilhadas por todos.

No caso da aplicação stayaway covid, talvez se pudesse ter encontrado forma de perguntar às pessoas que condições ou regras a aplicação precisa de cumprir para que estejam dispostas a instalar? E depois verificar se essas condições estão lá e então divulgar? (por exemplo, a aplicação não precisa de saber onde estive e com quem, e não recebe essa informação, apenas “sabe” que estive mais de 15 minutos próximo de uma outra pessoa – não interessa onde, e não se saber nomes ou identificações, mas apenas códigos gerados que informam da proximidade mas não dizem quem – se for conhecido que a aplicação funciona desta forma será mais fácil haver instalação, suponho).

O que sabemos?  Como é visto em geral usar os telemóveis para seguimento das pessoas, por um lado, e numa estratégia muito mais concreta do desconfinamento? Novamente com dados de inquérito internacional, aos 6 países que se cobriu em inquéritos anteriores, e realizado em Setembro de 2020. Para Portugal, sobre apoio dado a uma política de utilização de aplicação em telemóveis para seguir e avisar dos riscos de contágio, a favor 56%, contra 22,5%, indiferentes 21,5%. Quando olhamos para cerca de 10% que têm a stayaway covid instalada neste momento, não sabemos se é inércia na instalação ou se cresceram as opiniões desfavoráveis. Sabemos que não é muito diferente nos outros países: contra, na Alemanha 30%, Reino Unido 19%, Dinamarca 26%, Holanda 35%, França 38%, Itália, 27%; mas a favor Alemanha 38%, Reino Unido 53%, Dinamarca 54%, Holanda 32%, França 31% (maioria contra), Itália 51%.

E se formos mesmo para a obrigação de colocar a aplicação como parte da estratégia de saída do desconfinamento, em Portugal tivemos nas respostas 15% contra 64% a favor. Alemanha: 30% contra, 38% a favor, Dinamarca, 19 contra 59% a favor, Reino Unido, 16% contra e 58% a favor, França 31% contra, 35% a favor, Itália 16% contra, 49% a favor, Holanda 36% contra, 32% a favor.

Em Portugal, sabemos que as mulheres são mais favoráveis ao uso dos telemóveis para este fim, mas não há diferenças sistemáticas importantes de acordo com a idade ou com o nível de rendimento ou com o nível de educação. Por isso, a menos de informação que seja detalhada por parte do Governo para justificar a sua proposta, não parece imediato que a discriminação de obrigatoriedade de usar a aplicação seja justificada. Mas na obrigatoriedade como parte de uma estratégia global não há diferenças sistemáticas que permitam identificar grupos mais renitentes.
Em termos de desigualdades, também se coloca de quem não tem telemóvel adequado ficar de fora deste seguimento, dos benefícios que possa ter (argumento diferente de querer obrigar alguém a comprar ou ter telefone que consiga ter a aplicação desenvolvida). Logo, esta obrigação parece ter realmente uma conotação mais punitiva

É também preciso ter em mente que as medidas de intervenção sobre o comportamento em sociedade sempre foram ditas terem como papel abrandar a difusão do vírus. Não são a forma de o controlar no longo prazo, para isso teremos de conjugar vacinas com tratamentos, tudo ainda em fase de progresso. 

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27 de agosto125115240
28 de agosto a 3 de setembro154185340
4 de setembro a 10 de setembro198241439
11 de setembro a 17 de setembro308302610
18 de setembro a 24 de setembro348332680
25 de setembro a 01 de outubro387362749
02 de outubro a 08 de outubro371505876
09 de outubro a 16 de outubro5449921537

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841
28 de agosto a 3 de setembro333841
4 de setembro a 10 de setembro337347
11 de setembro a 17 de setembro545959
18 de setembro a 24 de setembro652868
25 de setembro a 01 de outubro764996
02 de outubro a 08 de outubro10718106
09 de outubro a 16 de outubro11890129

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta/mito: o comportamento do Presidente Trump dá usualmente matéria para alertas ou mitos. Para esta semana escolhi o mito de haver cura para a COVID-19. Não é verdade que haja cura atualmente. Há medicamentos que são usados para combater a COVID-19, e tem-se vindo a melhorar o conhecimento neste aspeto. Mas ainda não é para a semana que se vai ter uma solução terapêutica que assegure a cura. 

Nota de esperança: a de que os cuidados redobrados nos contactos que temos para evitar contágios de COVID-19 resulte também em queda da gripe sazonal. No meio da evolução negativa da semana, a esperança numa mudança de comportamento que mitigue também outros problemas de saúde que costumam surgir no início do Outono e passagem para o Inverno.


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Gabinete de crise, rádio observador – semana de crise

E a edição da semana que passou tem que forçosamente ser sobre o crescimento da COVID-19 nos últimos dias, disponível aqui.

Número da semana:  158 – número de dias desde que saímos do confinamento, e é o número de dias que levou a voltarmos a estar ao mesmo nível em termos de números, mas pior em termos de tendência. Se há 5 meses estávamos numa encruzilhada de incerteza – se conseguíamos ou não manter a contenção que se tinha alcançado com o confinamento, aprendemos que era possível controlar; agora estamos numa encruzilhada mais difícil, baixar os contágios sem voltar ao confinamento.

O que temos hoje que não tínhamos antes?

            Maior conhecimento – na parte médica e no comportamento para evitar riscos

            Maior capacidade de fazer testes, e capacidade crescente de testes rápidos (que não surgindo no mundo)

            Mais próximos da vacina

            Mais consciência do custo de oportunidade de “fechar o país” – o que se tem deixado de tratar de problemas de saúde, os riscos de rotura económica do ponto de vista individual, que penaliza também a saúde, e a prazo pode minar a própria coesão social.

            Maior fadiga social com as necessidades de distanciamento físico

Tudo junto não é certo o que serão as próximas semanas.

Análise da semana:

Olhando para os valores de mobilidade medidos pela Google, via informação de locais onde telemóveis ativos foram registados, houve um pico de mobilidade para praias e locais de férias na terceira e quarta semanas de Agosto, o que colocando 10 a 14 dias nos coloca em início de setembro, que foi o momento em que arrancou o crescimento de contágios (novos casos), que nos trouxe agora para valores acima dos 1000 casos. Não houve, este último mês e meio, maior mobilidade para restaurantes e espaços de lazer, ocorreu um aumento pequeno na presença em meios de transporte público. Não creio que seja de “culpar” a abertura das escolas e o esforço que aí foi feito para controlar contágios. 

Olhamos para o resto da Europa, e o que vemos?

O que podemos fazer melhor:

Plano para o cidadão

Plano para as escolas

Plano para as urgências hospitalares – antecipar em lugar de remediar

Acompanhar os lares

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27 de agosto125115240
28 de agosto a 3 de setembro154185340
4 de setembro a 10 de setembro198241439
11 de setembro a 17 de setembro308302610
18 de setembro a 24 de setembro348332680
25 de setembro a 01 de outubro387362749
02 de outubro a 08 de outubro371505876

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841
28 de agosto a 3 de setembro333841
4 de setembro a 10 de setembro337347
11 de setembro a 17 de setembro545959
18 de setembro a 24 de setembro652868
25 de setembro a 01 de outubro764996
02 de outubro a 08 de outubro10718106

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta/mito – “o país não pode voltar a fechar” – é um alerta das entidades oficiais, mas também um mito – se a situação continuar a evoluir negativamente, irá inevitavelmente colocar pressão excessiva sobre o SNS, nomeadamente sobre as urgências hospitalares, a porta de entrada 24/7 no SNS, e em situação de rotura, o país parará, voluntariamente ou por decisão governamental. Nota de esperança: no caminho de aprendizagem que se vai fazendo, uma avaliação recente de risco encontrou um risco bastante baixo de apanhar a COVID-19 num avião – utilizam filtros de ar sofisticados, e há menor risco de contrair a COVID-19 do que nas escolas, supermercados, escritórios, etc. Ainda não é o tempo de retomar o ritmo de viagens que existia há um ano, mas as condições para o fazer em segurança estão a ser criadas, e provavelmente numa perspetiva mais geral estamos a encontrar mecanismos para reduzir as possibilidades de contágio.


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mais trabalho a chegar ao fim

Hearing – The organisation of resilient health and social care following the COVID-19 pandemic 

Looking beyond the current pandemic, DG SANTE asked its Expert Panel on health investments for an opinion on the organisation of resilient health care and social care. 

The draft opinion is now online, ahead of the public hearing on 20 October when stakeholders will have the chance to express their views. 

Check out the details here


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Gabinete de crise, rádio observador – semana de algum desencanto

A semana que passou, em termos de evolução da pandemia, trouxe algum desencanto com a manutenção da evolução negativa da situação, ainda que sem levar à necessidade de alarme. O tema desta semana foi o excesso de mortalidade, e o programa está disponível aqui, para ser ouvido.

Número da semana: 4624 – óbitos em excesso, sem considerar os casos de óbitos com COVID-19, desde 16 de março até à semana que passou, utilizando um forma conservadora de cálculo – só existem óbitos excessivos se a mortalidade observada estiver com um desvio significativo acima da média dos últimos 11 anos (tecnicamente, desvio de dois desvios padrão, em que estes são calculados dia a dia por bootstrapping). Há outras estimativas e vão todas no mesmo sentido. A parte misteriosa destes valores é que a maioria destas mortes não surgiu no momento alto da pandemia (o que poderia ser resultado de pessoas com covid-19 não tratadas) e sim no período do Verão (julho até meados de agosto; baixou até final de agosto, voltou a subir até meados de setembro, voltou a descer até agora), deixando a possibilidade de ter sido casos adiados pela COVID-19 que só tiveram consequências mais tarde, ou ter havido outra razão que não é evidente. O padrão de acumulação em algumas semanas é um puzzle para o qual ainda não temos uma boa resposta. Só daqui a alguns meses, quando estiverem codificadas completamente as causas de morte. 

Análise da semana:

O número de novos casos diários de pessoas com COVID-19 continuou a subir mas com uma desaceleração por comparação com o crescimento entre o final de agosto e a terceira semana de setembro.

Nos casos de doentes internados, normais e em UCI, voltamos a valores da terceira semana de maio. 

Não é uma boa situação, mas pode-se ficar com a esperança de descida em duas a três semanas se continuar este processo. Vai exigir um esforço coletivo, que parece ser em Portugal mais sólido do que vemos noutros países europeus. 

A qualidade dos números apresentados deve ser sempre questionada, como forma de garantir que se tem essa qualidade. Não há neste momento qualquer motivo para pensar que os números que têm sido produzidos estão errados. 

Desfasamento entre novos casos e pressão nos hospitais, mas não podemos esquecer a pressão imediata sobre os médicos de família, sobre os cuidados de saúde primários de forma mais geral, e sobre os médicos de saúde pública que têm de ganhar o conhecimento das cadeias de transmissão.

Temos o plano Outono-Inverno a necessitar de passar rapidamente a ser aplicado, se que é que já não está em marcha. No atual plano, duas sugestões – uma parte destinada aos cidadãos e uma parte dedicada ao acompanhamento nas escolas.

Alerta/mito – não sei onde colocar – é sobre a comparação da COVID-19 com a gripe sazonal. Regressa aos poucos a ideia de que a COVID-19 não é pior que a gripe sazonal. Ora, embora não haja ainda valores definitivos para a taxa de mortalidade da COVID-19, esta tem sido, de acordo os números mais fiáveis, bastante pior que a gripe, até porque para a gripe existem vacinas e alguma imunidade adquirida por contacto anterior. Com a COVID-19 é tudo (ainda) novo. De momento, com a informação disponível, dizer que a COVID-19 é similar à gripe cai na categoria do mito (o que é também um alerta para que se continuem com os cuidados recomendados).

Nota de esperança: as máscaras ajudam mesmo a reduzir a transmissão da COVID-19. Um estudo feito na Alemanha comparou regiões que adotaram em datas diferentes a obrigatoriedade de usar máscara nos transportes públicos e em lojas, o que permite ver o que acontece nessas áreas. A utilização de máscaras reduziu o número de novos casos de COVID-19, num período de 20 dias, entre 15 a 75%, conforme as zonas, e com um valor médio de redução de transmissão de 45%. Assim, vai-se construindo um grupo de análises que indicam que a utilização de máscaras quando se tem espaços fechados e proximidade entre pessoas tem um efeito importante na redução da COVID-19. (Referência: Face Masks Considerably Reduce Covid-19 Cases in Germany – A Synthetic Control Method Approach; CESifo Working Paper No. 8479)


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Observatório mensal da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 69 – Setembro 2020)

Neste acompanhamento das dívidas dos hospitais EPE, os valores do mês de Agosto, disponibilizados há pouco dias, traduzem, muito provavelmente, ainda uma realidade pré-COVID-19 – um pagamento em atraso corresponde a um prazo de 6 meses desde a data da dívida, pelo que só em Outubro, com a publicação dos valores referentes a Setembro, se terá uma “entrada” no período COVID-19. E o último valor antes dessa (nova?) fase mostra que antes estava tudo como dantes. Ou seja, depois de alguma entrada de verbas (que estava planeada, e quase eliminou as dividas em atraso), estas voltaram ao seu “hábito de crescimento”, que nos últimos 4 meses teve um ritmo mensal de cerca de 44 milhões de euros por mês. O que não sendo o valor médio mais elevado alguma vez registado, não deixa de ser dos mais elevados, também numa tradição histórica de cada vez que há regularizações de dívidas mais fortes, o crescimento subsequente dos pagamentos em atraso é também mais forte. Ou seja, as verbas adicionais nunca tiveram a capacidade de resolver de forma permanente o problema, nem parece ter sucedido também desta vez, mesmo no que se pressupunha ser um orçamento mais realista e como tal mais propício a que ocorresse mudanças na gestão dos hospitais EPE.

Apesar de não se alterar a dinâmica, é inegável que desde o início de 2018 tem sido feito um esforço financeiro tal que as regularizações extraordinárias têm sido superiores ao valor cumulativo dos períodos de crescimento – as linhas de tendência (a cores) vão estando sucessivamente mais baixas. O que permite politicamente dizer-se que os pagamentos em atraso, medidos em stock, têm baixado. Contudo, essas transferências extraordinárias não têm tido qualquer efeito na forma de funcionamento dos hospitais EPE e na sua capacidade de gerar novos pagamentos em atraso (sinal dessa mudança seria se as linhas de crescimento tivessem sucessivamente inclinações inferiores, o que manifestamente não sucede, como é visível do gráfico).

Poderá argumentar-se que a COVID-19 não deu tempo a que se dessem essas mudanças. Só uma análise mais detalhada, hospital a hospital, poderá dar informação sobre se haveria mudanças em curso que permitam validar esse argumento (ou se simplesmente, face a “dinheiro fresco”, as diferentes equipas de gestão trataram de fazer “despesa fresca”. Não é um bom ponto de partida para o que será o reflexo (eventual) nos pagamentos em atraso da entrada no período da pandemia.

Seguem-se os gráficos habituais deste observatório, que ilustram o crescimento e que quantificam os valores de crescimento absoluto dos pagamentos em atraso, tendo em conta a diferença entre regularização extraordinárias (efeitos num período sobre o stock de dívida) e a dinâmica de crescimento dos pagamentos em atraso (acréscimo mensal médio).


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gabinete de crise, rádio observador – as duas últimas semanas

Desta vez junto num só post a participação no Gabinete de Crise – Rádio Observador das duas últimas semanas. Podem ouvir aqui (18 de setembro) e aqui (25 de setembro) – as versões podcast são mais ricas que a minha participação, pois têm também a opinião da Sónia Dias e de um convidado em cada sessão.

A semana de 18 de Setembro

Número da semana: 21 – há 21 semanas que não se tinha uma situação tão complicada, em termos de novas infeções por COVID-19. Não é só o valor absoluto que preocupa mas a velocidade com que começou a subir. Apesar de se referir que estão sobretudo a ocorrer em idades mais novas, como a sociedade não é perfeitamente estanque nas suas relações entre diferentes idades, significa que mais tarde ou mais cedo irá chegar às idades mais problemáticas. É muito diferente andar várias semanas à volta dos 200-300 novos casos por dia, ou andar a 200 casos por dia numa semana, 400 na seguinte, 600 na seguinte. A dinâmica é o elemento de preocupação, sobretudo quando olhamos para países como a França, Espanha, Reino Unido, e outros, onde o crescimento começa a parecer descontrolado.

Análise da semana:

A principal característica desta semana é os números a crescerem em todas as frentes. Se há duas semanas ainda se podia dizer que não haveria grande preocupação porque os internamentos e os óbitos estavam estáveis e a valores baixos, agora, com o habitual desfasamento que já se observou nos primeiros meses, começou a subir.

A decisão pública vai ter agora que equilibrar fatores de forma diferente do que foi feito no início da pandemia – equilíbrio entre saúde covid e não-covid, entre saúde e educação (onde novas desigualdades sociais no acesso à educação podem facilmente surgir) , entre saúde e atividade económica (sendo de assumir que houve perdas de rendimento que terão de ser partilhadas, e evitar que se agravem). E nestes vários equilíbrios diferentes gerações são afetadas de forma diferente, e cada geração mais afetada num tipo de dilema do que nos outros.

Abertura das escolas está a decorrer com alguma calma, mas também com alguma confusão, ou pelo menos com necessidade mais comunicação entre pais e escolas. É relativamente claro que é necessário linhas globais mas decisões locais (escola a escola, talvez turma a turma), que não são compatíveis com centralização de todas as decisões na DGS – é impossível a DGS criar uma circular normativa ou orientação que cubra todas as situações que é possível imaginar surgir, e mesmo aquelas que surjam e não tenham sido antecipadas. Sobre a abertura das escolas, pode ser encontrada aqui informação disponibilizada hoje pela Organização Mundial de Saúde.

Reuniões do Infarmed (que desta vez foram no Porto) – desastre na forma de comunicação –  a sessão foi “dolorosa” de assistir (via youtube). Seria melhor limitar cada intervenção a 3 slides – título do estudo, nome dos autores num, principais resultados do estudo noutro, e implicações potenciais para a decisão pública e individual noutro, ou ter apenas uma única pessoa a falar dos vários estudos, conclusões e implicações para discussão. Em links poderiam ficar disponíveis os estudos para quem quisesse ler os detalhes. Foram apresentações mais orientadas para quem falava do que para quem recebia (sobretudo se transmitida em aberto para toda a população que queira ver). 

Remodelação governamental desta semana – provavelmente muda pouco no funcionamento da resposta à pandemia; só que a saída e entrada de pessoas, na DGS e agora no ministério, tem de ser acompanhada de sinais que permitam manter total confiança da população na condução das atividades necessárias. 

Discurso de Ursula von der Leyen, a vir colocar as políticas de saúde no centro das preocupações da União Europeia. Será difícil que venha a ter consequências no curto prazo, dadas as diferenças entre os países europeus nos sistemas de saúde, e que são legitimas face às suas preferências, cultura e tradições. 

Alerta: Evitar a indiferença às regras devido ao cansaço. Não houve alterações do vírus. Não houve alterações meteorológicas relevantes. Só houve um mudar gradual no comportamento de cuidado, com provável redução de atenção nas duas últimas semanas de agosto, que deram agora origem a um crescimento elevado. O cansaço que as regras de higiene, distanciamento físico e máscaras possam ter gerado tem que ser ultrapassado por toda a população. Nota de esperança: noticias vindas do frio da Islândia, num estudo publicado no New England Journal of Medicine na semana passada- 91,1% das pessoas que tiveram covid-19 e foram testadas para o desenvolvimento de resposta ao vírus, apresentaram anticorpos ao fim de 4 meses, aparentemente numa situação de estabilidade. 

A semana de 25 de Setembro

Número da semana: 58, o número de páginas do Plano da Saúde para o Outono-Inverno 2020-21. Documento muito centrado para dentro do Ministério da Saúde (interrogação forte) – seria muito importante ter um documento voltado para o cidadão – o que fazer em condições normais de vida (sem covid e sem suspeita), o que fazer com suspeita (quem contactar como contactar etc), o que fazer com covid-19, e depois garantir que há respostas. 

Análise da semana:

Continuam as subidas nos indicadores habituais, sendo menos pronunciado o crescimento de novos casos esta semana, mas continuando o crescimento do número de internados, de internados em UCI e de óbitos. No caso dos internamentos, ainda longe de se esgotar a capacidade de tratamento no Serviço Nacional de Saúde, mas será de esperar ainda algum crescimento nas situações de internamento dado o desfasamento temporal para o crescimento face ao indicador que é dado pelo número de novos casos.

Contexto internacional – não só de subida de casos como de contestação explicita ou por vezes implícita. Vemos isso em vários países. 

Sobre o tema da semana, a vacina, falemos do que se deveria estar a fazer, para assegurar a boa utilização de vacina  – conhecer melhor barreiras à vacinação, motivos para hesitações, envolvendo as pessoas e não apenas por “ordem” – a hesitação em Portugal medida há uns meses era maior do que a tradicional em Portugal, significa por isso que há trabalho a fazer, a preparar desde já.

Com dados de Abril 2020:

Fonte: Sebastian et al. 2020

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27 de agosto125115240
28 de agosto a 3 de setembro154185340
4 de setembro a 10 de setembro198241439
11 de setembro a 17 de setembro308302610
18 de setembro a 24 de setembro348332680

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841
28 de agosto a 3 de setembro333841
4 de setembro a 10 de setembro337347
11 de setembro a 17 de setembro545959
18 de setembro a 24 de setembro652868

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta: A importância de continuar a acompanhar a situação nos lares mas sem levar a um isolamento extremo dos residentes nessas estruturas. A perda de contato com familiares pode, por si só, levar a uma sensação de abandono que origina situações de morte prematura. E se há lares com surtos, também se deve reconhecer que há muitos outros que têm conseguido evitar esses surtos, e que todos têm feito um esforço enorme para responder aos problemas criados pela COVID-19. O alerta é não deixar que essa resposta leve a que se esqueça outras dimensões também elas relevantes para a vida dos residentes nestas estruturas. Dar liberdade de escolha do modelo a seguir dentro das regras gerais, com a utilização de equipas rápidas de intervenção se houver motivos para isso. O encontrarem-se casos sem sintomas poderá ser porque houve deteção suficientemente cedo? 

Nota de esperança: Esta semana a nota de esperança vem da Finlândia, e na lógica de encontrar formas rápidas de testar para a presença de pessoas com COVID-19. O método que está a ser experimentado é antigo – a utilização de cães, que conseguem identificar o cheiro de uma pessoa infetada com a COVID-19. De acordo com uma notícia do NYTimes, que apareceu também noutros órgãos de comunicação social, demorará 1 minuto para que um cão consiga identificar se um lenço com uma amostra de suor de uma pessoa tem sinais de COVID-19, que em caso afirmativo leva a um teste mais habitual. Encontrar formas diferentes de identificar pessoas com covid-19 contribui para a esperança de se retomar a capacidade de deslocação e de vivência comunitária.


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Gabinete de crise, rádio observador – e a COVID-19 a crescer de novo

Na passada semana voltamos a evolução negativa, que desde então só se reforçou.

Número da semana: 540 – média do número de novos casos nos últimos três dias (terça, quarta e quinta). Sinal de alerta, para que não entremos na mesma dinâmica que observamos noutros países europeus.

A close up of a map

Description automatically generated

Análise da semana:

Globalmente estamos a ver um aumento global de casos, sem haver um motivo biológico para que tal aconteça (por exemplo, condições ambientais que facilitem mais a transmissão agora do que nos meses anteriores). A minha presunção é que resulta sobretudo do comportamento das pessoas, seja cansaço, necessidade de socialização, balanço diferente dos riscos, ou necessidade financeira de trabalhar. Ou um pouco de tudo isto em doses diferentes, o que é também verdade na gestão dos surtos nos lares.

A existência de brigadas rápidas para apoiar nos surtos, nos lares e noutros locais, aparenta estar a ser tratada, o que tem de fazer parte da resposta pública.

Segundo declarações oficiais, Portugal está preparado para um “recrudescimento da doença”, e logo nesta mesma semana começa-se a fazer a prova disso mesmo, com um aumento muito significativo de novos casos de infeção.

O isolamento do vírus está a criar o vírus do isolamento, que em muitas situações é também ele muito negativo para a saúde das pessoas idosas. Há aqui que fazer um equilíbrio de riscos, e favorecer quebrar o isolamento mantendo uma forte protecção com a existência de testes fáceis e rápidos bem como proteção adequada, de funcionários e de visitantes.

Na discussão sobre “responsabilidades”, esta tem sido colocada nos proprietários dos lares.

 Mas mais do que responsabilidades interessa que haja uma atuação rápida e eficaz. 

Não nos podemos esquecer que nos lares temos residentes, funcionários, familiares que querem visitar, e profissionais de saúde. A gestão coordenada das atividades de todos implica equilíbrios diferentes. Os residentes têm diferentes autonomias e diferentes necessidades, que pedem respostas diversificadas no seu acompanhamento. Em momento de grande pressão ou de falta de recursos, torna-se mais fácil uniformizar, o que pode levar como resultado a uma certa falta de humanidade nesse acompanhamento. E claro que os receios dos próprios funcionários afeta o seu trabalho (voluntariamente, reduzindo contactos por exemplo, ou involuntariamente). O papel dos profissionais de saúde, do SNS, tem que incluir também o apoio psicológico e funcional, no sentido de sugerir procedimentos ou dar sinais de alerta, dos funcionários dos lares (aspeto que é raramente referido).

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27 de agosto125115240
28 de agosto a 3 de setembro154185340
4 de setembro a 10 de setembro198241439

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841
28 de agosto a 3 de setembro333841
4 de setembro a 10 de setembro337347

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta: A passagem ao estado de contingência em todo o país, com a aplicação das mesmas medidas que estavam a ser aplicadas em Lisboa, poderá não ser suficiente para inverter esta tendência recente. Vai depender mais do comportamento e dos receios pós-férias e regresso ao trabalho e às aulas do que do formalismo das medidas anunciadas. É certo que durante algum tempo o crescimento fora da área de Lisboa foi menor do que na capital, mas nas últimas semanas não tem existido diferença sensível, daí que não haja grande motivo para esperar que a mera passagem a estado de contingência altere a evolução recente, e que possam ter que vir a ser adoptadas algumas medidas adicionais.

Nota de esperança: o número de novos casos com contágio via superfícies tem sido muito mais baixo do que o receado inicialmente.Sem retirar importância à limpeza dessas superfícies, pois não deixam de ser fonte potencial de contágio, é um bom sinal não serem o principal meio de passagem do vírus entre pessoas. Importante num momento em que se dá um regresso à utilização de transportes públicos por mais gente.


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Missão Cancro e a investigação europeia

Uma das novas iniciativas da Comissão Europeia, da lavra de Carlos Moedas como Comissão Europeu, foi a criação de “Missões”, com a definição de objectivos para investigação científica que tenham apelo e capacidade de mobilização da sociedade europeia. Das cinco missões definidas, uma é dedicada ao cancro – o grupo que está a preparar propostas para o que será a missão e para os planos de ação associados disponibilizou um documento com 13 recomendações gerais em Junho de 2020, disponível aqui.

O objectivo proposto para a Missão Cancro é “By 2030, more than 3 million lives saved, living longer and better. ” As recomendações procuram cobrir a necessidade de gerar conhecimento básico, mas também incide sobre prevenção, tratamento e o depois do tratamento (uma vez que cada vez mais se consegue assegurar vários, por vezes muitos, anos de vida após um episódio de tratamento).

Neste contexto, quem quiser dar a sua opinião sobre alguns aspectos que irão ajudar a definir melhor o que será a missão cancro, pode responder aqui a algumas perguntas, que depois serão enviadas como contributo.

Claro que houver preferência por enviar contributos directamente, estes podem ser remetidos por correio electrónico para RTD-SANTE-CANCER-MISSION@ec.europa.eu


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Observatório mensal da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 68 – Junho/Julho/Agosto 2020)

Entre férias e outras obrigações, foi sucessivamente passando o momento de cada nova divulgação da execução orçamental em Julho e Agosto. Mas voltemos agora ao que nos dizem os novos números referentes aos três meses (maio, junho e julho) desde a última edição deste Observatório.

Encontramos um padrão antigo – crescimento – regularização – crescimento – regularização crescimento. Desta vez, os ciclos têm sido mais curtos, dois a três meses, desde o inicio do ano, mas são basicamente idênticos ao padrão do passado – num mês há uma queda acentuada do stock de dívida (regularização provável, decorrente de verbas que tenham sido recebidas pelos hospitais EPE) mas depois volta a crescer a um ritmo relativamente constante. O ano de 2020 ainda assim tem tido um crescimento, descontadas as quebras de stock de dívida por regularização, menor do que foi em 2019. Esta evolução pode estar a ser ajudada por alguma quebra de atividade resultante da COVID-19, que em termos líquidos poderá não estar a ser uma sobrecarga nestas contas dos hospitais (por enquanto? ainda não passou tempo suficiente para que entrem na lista dos pagamentos em atraso, só 6 meses depois, o que remete para os valores de outubro / novembro esses efeitos).


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Gabinete de crise, rádio observador – sobre o início do novo ano escolar

Quando iniciamos esta colaboração entre a Universidade Nova de Lisboa e a Radio Observador não estava à espera que chegássemos ao programa 25, mas foi esta semana. Pode ser ouvido aqui e sobre o inicio do novo ano escolar.

Número da semana: 2 milhões; em números redondos o número de alunos em Portugal, em todos os graus de ensino. Vão começar o ano letivo em condições totalmente novas, com riscos novos e com necessidades de comportamento social novas. São cerca 200 mil docentes e não docentes. Mais de 8 mil estabelecimentos de ensino em todos os níveis de ensino. Os dados são do ano passado da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência. Vão ser duas semanas de arranque de aulas exigentes e de expectativa.

Análise da semana

A abertura do ano escolar tem levado a um debate (e a indecisões), resultado da grande incerteza que ainda permanece quanto à COVID-19 e como possa afetar e ser transmitida pelas crianças.

De acordo com vários estudos, que continuam a sair, o risco de doença nas crianças parece ser muito baixo. As situações fatais associadas à COVID- 19 em crianças envolvem outros problemas de saúde dessas crianças, pelo que é preciso ter em atenção o que possam ser casos de maior risco. Ainda assim, estes estudos indicam que o risco para as crianças de voltar à escola é praticamente inexistente. Resta por isso saber mais sobre o que possa ser o seu papel na transmissão da COVID-19 dentro da população. 

Além do risco de doença COVID-19, é importante conhecer que anseios, preocupações e expectativas as crianças e jovens têm no regresso às atividades escolares. É provavelmente necessário que lhes seja explicado que novas rotinas vão ser adoptadas e porquê. E reconhecer as incertezas que existem. A elaboração de planos de contingência claros e anunciados previamente, de saber o que se vai fazer se algumas situações mais prováveis de ocorrerem é também uma potential fonte de segurança. Com tantos alunos, docentes e não docentes, em milhares de estabelecimentos de ensino, o haver alguns casos de COVID-19 numa escola é mais uma questão de quando do que de saber se vai ou não acontecer.

um estudo recente feito em Rhode Island, nos Estados Unidos, em Junho/Julho de 2020 encontrou muito pouca transmissão secundária a partir de crianças até aos 12 anos, resultado também dos cuidados tidos para evitar essa transmissão. Mas não foram zero casos. Houve vários casos de crianças e/ou funcionários das escolas sem sintomas (só encontrados porque a regra era testar toda a gente).

As recomendações seguidas foram as conhecidas: utilização de máscaras pelos adultos, manter grupos escolares separados, ficar em casa se houver algum tipo_de sintoma e limpar frequentemente superfícies que sejam tocados por muita gente. Fizeram verificação diária de sintomas nas crianças e adultos. Tiveram 52 casos confirmados ou prováveis, 30 eram crianças e 22 adultos.  As suspeitas sobre possíveis casos levaram a parar 89 turmas, e ficaram 687 crianças e166 adultos em quarantina. O número de crianças envolvido nos centros analisados foi de 18945 crianças. Ou seja, há risco de perturbação, que acontecerá nalguns casos mas não é uma situação descontrolada.

Esta semana do Gabinete de Crise não foi boa. Manteve-se, infelizmente, a rampa ascendente em novos casos, e mesmo o número médio diário de internados aumentou ligeiramente. Foi uma evolução partilhada por vários pontos do pais, e à semelhança de semanas anteriores, muito assente em surtos localizados e surtos em lares de idosos. 

A semana foi dominada pelas decisões sobre a Festa do Avante. E aqui, é natural mas se calhar não justificada a perplexidade de muitas pessoas. Estava a ser estranho a não publicação das regras aplicadas pela DGS (devido a medo de “luta política”? mas acabou por suceder). Agora, se um dia se pretende retomar alguma normalidade de espetáculos e eventos, então a Festa do Avante deveria ser vista como um teste, vigilância muito apertada, regras claras e explicadas, e seguimento nos 14 dias depois da festa das pessoas presentes. Dá trabalho? Sim, certamente, mas é uma forma de se aprender.  Podemos acabar por ter apenas a convulsão política sem que daí nada se retire para a forma de lidar com a pandemia. Espero que também se esteja a procurar aprender com as feiras do livro que estão a decorrer. 

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27 de agosto125115240
28 de agosto a 3 de setembro154185340

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841
28 de agosto a 3 de setembro333841

Nota: valores arredondados à unidade

Mito: é possível abrir as escolas sem qualquer risco? Não! Haverá sempre algum risco para alunos e para docentes e funcionários. O essencial é tomar as medidas que controlam esses riscos, incluindo a paciência que será necessária para manter hábitos de limpeza frequente de espaços e de distanciamento físico. Mas ficar tudo em casa também levanta problemas para o futuro. A gestão do risco será o elemento crucial. Vimos que noutros países tem sido possível abrir as escolas sem que haja uma explosão de casos, embora por vezes seja preciso colocar em quarentena algumas turmas e se calhar mesmo escolas.

Esperança da semana: se há duas semanas, falei da esperança em se ter um teste de saliva rápido e fiável, esta semana trago mais um elemento de esperança construído em cima destes testes – um estudo publicado na revista New England Journal of Medicine veio trazer a possibilidade de a realização de auto-teste de saliva, em que esta é recolhida pela própria pessoa, que depois a coloca no aparelho de teste, ser, segundo experiências realizadas, tão fiável como o teste com base na zaragatoa manipulada por um profissional de saúde. Ora, isto significa que não só os testes em breve serão mais baratos, como serão auto-administrados, sem necessidade de locais especiais, e também sem risco para os profissionais de saúde. É mais um passo que se adivinha para novas formas de controle da pandemia.