Um amigo e colega, Francesco Franco, chamou-me a atenção para um recente texto de Amartya Sen, prémio Nobel da Economia em 1998, publicado no Corriere della Sera (quem não souber italiano, pode abrir o link no browser Chrome e ter uma tradução aceitável para perceber o texto), onde descreve a experiência da sua mulher numa ida de emergência ao Serviço Nacional de Saúde italiano, relatando como foi operada a meio da madrugada por um cirurgião que provavelmente não estaria disponível aquelas horas no sector privado em Boston (onde Amartya Sen reside). O interessante da história é Amartya Sen, que tem também experiência de viver em Inglaterra com um Serviço Nacional de Saúde, se ter dado ao trabalho de agradecer de forma tão pública, fazendo o contraponto tão claro com o que teria nos Estados Unidos, com uma outra forma de organização da prestação de cuidados de saúde. Curiosamente, a mulher de Amartya Sen foi tratada no hospital Gemelli em Roma, que está ligado ao Vaticano, e que presta serviços ao Serviço Nacional de Saúde italiano. A satisfação de Amartya Sen com o Serviço Nacional de Saúde italiano é não só mérito do sector público, mas também de como o sector público, neste caso, se associou com um hospital que não é público para a disponibilização de serviços. Há provavelmente mais nesta história do que apenas o confronto público em Itália – privado em Boston.
Observatório mensal da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 27 – Julho 2016)
Com algum atraso, devido ao momento do ano, a análise do dívida dos hospitais EPE com base na execução orçamental de Julho mostra uma aceleração dessas dívidas, claramente visível no facto dos três últimos valores conhecidos terem um crescimento médio mensal em valor absoluto superior ao que é a tendência histórica (juntando os períodos de crescimento da dívida dos hospitais EPE desde Janeiro de 2013).

Há, no texto de análise da execução orçamental, uma potencial justificação: a “evolução no 1º semestre não reflete ainda as ações desenvolvidas no sentido de regularizar as dívidas a fornecedores, nomeadamente a utilização de saldos de gerência de 2015 (até junho foram utilizados 70 milhões de euros para este fim).”
Se passado meio ano ainda não foi feita essa utilização, a questão que se coloca é saber porquê. O aspecto preocupante contudo não é o nível absoluto, mas o ritmo de crescimento. Estando os hospitais neste momento já a operar com o orçamento de 2016 (ou deveria ser esse o caso), então se este orçamento fosse suficiente para cobrir as suas despesas não deveria haver mais crescimento da dívida dos hospitais EPE (a dívida passada lá estaria à espera de ser paga com os saldos de gerência). Havendo esse crescimento, ou a despesa dos hospitais EPE está em crescimento acima do orçamento razoável, ou o orçamento inicial não era razoável. Mas qualquer que seja a resposta, há um problema que não foi ainda resolvido. De acordo com a estimativa englobando a informação mais recente, o ritmo de crescimento das dívidas dos hospitais EPE é de cerca de 30 milhões euros por mês.
Com o novo portal do SNS e a sua área dedicada ao tema “Transparência” é possível olhar para a dívida total, vencida e pagamentos em atraso. Os valores apresentados são essencialmente os mesmos que estarão na base do valor global divulgado pela Direção-Geral do Orçamento na Execução Mensal (encontrei uma diferença de 0,06%). Desta informação, referente a Maio de 2016, 5 hospitais eram responsáveis por 60,35% dos pagamentos em atraso, e o top 10 correspondia a 80,91% do total dos pagamentos em atraso. Ou seja, o problema aparenta estar concentrado num grupo pequeno de hospitais (alguns são hospitais grandes, outros nem tanto).

a sensação de estar a ficar velho surge quando
European Health Economics Association
The 2016 conference of the European Health Economics Association took place in Hamburg in July 2016 (website here, contains program with abstracts of papers presented).
It was a great conference, organised by an excellent team lead by Jonas Schreyoegg.
It was also the end of my term as President of the European Health Economics Association. The new President is Andrew Jones (University of York), and the Assembly of Delegates voted for Lise Rochaix (Paris School of Economics) to be President-Elect (taking office in two years).
All current and past members of the Executive Committee of EuHEA and current and past members of the Assembly of Delegates were and are extremely helpful in building up EuHEA (an association of national associations and groups related to health economics). Thank you all for your efforts in the starting years of EuHEA.

Present, future and past presidents of EuhEA (July 2016)
Opinião sobre a evolução da ADSE
tornada pública no início de Agosto, disponível no site da ADSE (aqui) para quem tiver paciência para ler e não ficar apenas pelos resumos saídos na imprensa.
Dilema: ter sanções ou não ter sanções?
A grande discussão económica das últimas semanas, brevemente interrompida pelos sucessos desportivos recentes, é se a União Europeia irá, ou não, aplicar sanções de natureza económica a Portugal, no cumprimento das regras a que Portugal voluntariamente se comprometeu quando integrou como fundador a zona euro.
É evidente que para Portugal, agora e neste momento, é melhor não sofrer sanções. E será sempre verdade “agora e neste momento”, qualquer que ele seja. O que está em causa não é se as sanções por si vão ajudar a economia portuguesa. Não vão. A questão é saber se Portugal (e já agora cada um dos restantes países do euro, pelo menos) tem capacidade de viver num mundo de decisões de política económica com regras fixadas previamente. O propósito dessas regras é evitar erros de política económica ou aproveitamento dos mecanismos europeus à custa dos restantes parceiros (e se todos fizerem isso, no final todos ficarão pior – é o velho problema da “conta do restaurante” ).
A criação de regras tem o potencial de gerar melhores decisões de política económica em geral, mas tem que lutar contra a tentação de subverter essas regras no futuro, argumentando que não se aplicam. Este debate sobre a relevância das regras é permanente. Há cinco anos, num outro texto, procurei explicitar o que nos diz a análise económica (ver aqui).
Mas qual é o problema de Portugal argumentar que não lhe devem ser aplicadas as sanções previstas pelos tratados que Portugal livremente assinou? Se o argumento se baseia em não estarem preenchidas as condições para essa aplicação, então a discussão é sobretudo uma discussão técnica, e deverá ser conduzida nesse plano. E Portugal tem neste caso toda a razão em discutir com os serviços da Comissão Europeia que preparam os documentos para a decisão política.
Mas se o argumento é que apesar de estarmos nas condições de aplicação de sanções, essa aplicação é prejudicial à economia portuguesa e como tal não deverá ser aplicada, então estaremos a ajudar a minar a credibilidade da estrutura montada para o enquadramento das decisões económicas, e também a minar a credibilidade nacional (quando Portugal se comprometer no futuro com decisões de longo prazo, os nossos parceiros “aprendem” desta situação que procuraremos renegociar mais tarde, o que afectará os termos com que quererão trabalhar com Portugal). O que se joga com as sanções a Portugal e Espanha no contexto europeu é a credibilidade de um sistema em que podem ser tomadas decisões de longo prazo e esperar que os países as cumpram versus um sistema de negociação permanente, com a incerteza a ele inerente. A discussão que tem sido feita em Portugal mostra a preocupação (grande) com o momento presente, ignorando os efeitos de longo prazo na credibilidade e reputação do país e dos mecanismos europeus (aspecto em que Portugal não está sozinho, claro).
o “nosso” Euro 2016
Sim, este é mais um texto de parabéns à seleção portuguesa, e a todos os que nela participam, não esquecendo os 11 milhões, que serão mais do que isso, que fora do campo com ela estiveram.
Desde há 50 anos que as gerações de portugueses têm os “seus” jogos de uma época. No campeonato do mundo de 66, foi a glória do jogo com a Coreia do Norte, com Eusébio, e a derrota face à Inglaterra com as lágrimas de Eusébio. A este não assisti, mas ouvi falar repetidas vezes, e a internet permite rever a qualquer momento.
No campeonato da Europa de 1984, perder a meia-final contra a França de Platini, nos últimos momentos, e depois de ter estado a vencer. Menos de dois anos depois, a glória de um golo do meio do nada de Carlos Manuel num jogo na Alemanha, que levou a Seleção ao mundial do México.
Muito mais tarde, no Europeu de 2000, a reviravolta no jogo com a Inglaterra, com Figo, João Pinto e Nuno Gomes a marcarem os golos. Foi um dos dois jogos de glória dessa geração. Mas a meia-final contra a França e o penalty atribuído a Abel Xavier deixaram uma vez mais em lágrimas uma geração.
Quatro anos volvidos, a mesma geração, novo jogo épico – o Portugal Inglaterra, em que uma “bomba” de Rui Costa leva para as grandes penalidades, com Ricardo a entrar para a história – em 5 minutos defende uma grande penalidade sem luvas para logo de seguida rematar ele para fechar a vitória. As lágrimas apareceram depois, com a derrota na final frente a uma Grécia férrea.
Entramos depois de 2004 na época de Cristiano Ronaldo, onde a Seleção vai às fases finais, passa as fases de grupos mas acaba eliminada sem chegar às finais. O jogo mais marcante terá sido o que colocou Portugal no Mundial do Brasil, contra a Suécia, em que Ronaldo marca os três golos de Portugal no jogo para uma vitória que deixa Zlatan Ibrahimovic em casa. É o triunfo do capitão que corre e marca golos.
Em várias ocasiões, a França surge no caminho, e consegue sempre vencer. Até ontem.
O jogo de ouro da Geração Ronaldo tem a particularidade de Ronaldo não ter jogado. Mas as lágrimas de dor e depois de alegria de Ronaldo fecham um ciclo de 12 anos, para ele e para os portugueses. Vencer a França em Paris trouxe um sentido profundo de mudar o destino habitual. Mas este campeonato europeu não foi só este jogo.
Foi dito e redito. Vai ser analisado e reanalisado. Como todos têm direitos a bitaites, aqui ficam alguns. Os meus 6 destaques desta Seleção.
1. Fernando Santos, o treinador – jogaram 21 dos 23 jogadores (só os dois guarda-redes suplentes ficaram de fora). Construiu uma equipa dentro e fora do campo. Falou sempre com determinação, mesmo que por vezes não quiséssemos acreditar no que dizia quanto a regressar a 11 de julho com a taça. As escolhas que fez, retrospectivamente, tiveram todas bons resultados. Ficamos a saber que jogar bem não é igual a jogar bonito. Sim, o engenheiro sabe de futebol, mesmo que faça menos alarde disso que outros treinadores portugueses.
2. Cristiano Ronaldo, o capitão – vimos um Ronaldo capitão, a sacrificar-se pela equipa, a lutar pela equipa, aqui e ali com os tiques de vedetismo dentro de campo (podia ter deixado o Raphael Guerreiro marcar um ou outro livre, sobretudo depois de ter acertado pela milionésima vez no “boneco” da barreira). Foi um Ronaldo que queria o sucesso da equipa, e não o seu sucesso individual. Marcou dois golos para a história deste Euro – um de calcanhar e um de cabeça, este decisivo para abrir o caminho para a final. O Ronaldo capitão nas grandes penalidades contra a Polónia mostraram uma determinação dele e da equipa.
3. Pepe, o varre-tudo – Há anos que Pepe impressiona como defesa central, mas também como assumiu a sua condição de português. Quando fala sobre os jogos nota-se esse sentimento. Pepe varreu tudo na defesa em muitos jogos, e em vários deles seria, a meu ver, o homem do jogo. Ontem foi, e teve a sorte de na única vez séria que foi ultrapassado por um jogador francês ter um poste a ajudar.
4. Rui Patricio, o guardião – O guarda-redes pode ir do céu ao inferno em questão de segundos. Quando Rui Patricio desce ao inferno, recebe o cognome de Franguício. Mas nos momentos decisivos do jogo de ontem, os “frangos” ficaram em casa, os galos da França não cantaram porque Rui Patricio defendeu tudo o que foi preciso, e não foi fácil. Se houve sempre a sensação de que a França poderia marcar um golo (e teve ocasiões para tal), com o decorrer do jogo nunca foi por falta de confiança do e no guarda-redes. Deveria ter sido o homem do jogo.
5. Éder, o improvável – o único goleador dos 23 escolhidos por Fernando Santos era, foi, o “patinho feio” do grupo, como muitos falaram. Também tratado por o “pino” e ser representado por um pino de trânsito em vários pontos das redes sociais. Também achava graça às piadas sobre a improbabilidade do Éder vir a marcar o golo decisivo. Uma sua entrevista no início do Euro mostrava um jogador humilde, consciente até da imagem que tinha mas determinado a dar o seu contributo. Ontem, depois de entrar no jogo, vimos um Éder que conseguiu segurar o jogo fisico dos franceses, ganhando várias faltas importantes (e que poderiam ter resultado em golo), dando um ponto de referência avançado seguro para os médios colocarem as bolas e por fim marcar O golo do jogo e do Euro 2016 português.
6. A teimosia de toda a equipa – jogaram muitos prolongamentos, não desistiram quando estiveram a perder e recuperaram sempre, não houve histerias visíveis de desentendimentos quando estiveram em desvantagem. A teimosia chama-se hoje resiliência para lhe dar um ar mais positivo. Seja o nome que quiserem. Mas a teimosia de não desistir, e de chegar lá apesar do que os “outros” diziam, o querer este campeonato fez com que esta equipa conseguisse jogar e ganhar mesmo sem o seu jogador mais emblemático em campo. Aliás, tão equipa é que Cristiano Ronaldo lesionado se tornou em Cristiano Ronaldo treinador (só agora, a rever imagens do jogo me é possível aperceber do que foi esse papel do Cristiano Ronaldo, resultado de um querer ganhar por e com todos mesmo não estando dentro do campo de jogo).
Este foi um jogo de gerações!
Pela mão de meu filho, Henrique Pita Barros, o passado veio dar apoio
“Já há 500 anos Camões pensava no jogo de hoje…
Cessem do sábio croata e do islandês
Os jogos grandes que fizeram;
Cale-se de Bale e de Lewandowski
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem os deuses do futebol obedeceram.
Cesse tudo o que a França canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
É hoje!” (retirado do facebook)
E uma fotogaleria dos momentos mais marcantes do jogo de ontem (“roubadas” em vários locais, os direitos de autor pertencem a quem tirou as fotos):

A primeira defesa de Rui Patrício, a mostrar os perigos da França e a segurança da defesa portuguesa.

Desde os tempos do liceu que não via uma “paralítica” destas. Na jogada que foi, é inevitável pensar no propósito maldoso da jogada, de lesionar um outro jogador para dar vantagem à própria equipa. Mais intencional, mais (muito mais) eficaz e mais subtil que os pontapés altos de Bruno Alves.

Um sonho que se parece esfumar

o momento de transição de capitão (e braçadeira retornaria mais tarde, para receber a taça)
O insólito do jogo foram as traças que por ali andavam, que aliás motivam duas teorias diferentes, sobre “ajudas sobrenaturais”



Cá se fazem, cá se pagam. Censuráveis as duas, com consequências mais graves a primeira.

Ainda o espirito de grupo, aqui com o humor dos adeptos e uma traça na câmara, que parece um fantasma negro em jogo.
A internet a divertir-se à conta do Éder:

A resposta do Éder, a melhor de sempre:
Ronaldo transformado em treinador, nas costas de Fernando Santos



Já nos treinos, Ronaldo dava a táctica do jogo.








O regresso com a taça!

até a policia de trânsito contribui para a festa!

Observatório mensal da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 26 – Junho 2016)
Os resultados da execução orçamental divulgados em junho, referentes a maio, podem ser resumidos numa velha expressão: plus ça change, plus c’est la même chose.
A evolução referente ao mês de maio vem mostrar que a descida da dívida dos hospitais EPE ocorrida no mês anterior foi meramente pontual. O valor do mês de maio recupera essa queda de abril, e recoloca o valor total na mesma tendência de subida. Esta tendência tem assim um “período de vida” de 10 meses e mostra uma vez mais como efeitos pontuais (de descontos de final de ano, por exemplo) não afectam uma tendência mais permanente e que acaba por vir ao cima.
Em termos estatísticos, não se rejeita a possibilidade de a tendência de subida da dívida dos hospitais EPE que se está a verificar desde o final do Verão do ano passado ser igual à que existiu em 2013, 2014 e durante parte de 2015 (três meses), registando como valor médio de subida mensal de 29 milhões de euros.
O crescimento médio em valor absoluto só desde Setembro de 2015 foi de 20 milhões de euros por mês, embora a variabilidade de mês para mês não permita eliminar a possibilidade de pertencer à mesma tendência dos meses de crescimento da dívida dos últimos 4 anos.
Assim, deve haver neste momento preocupação em perceber o que está subjacente a esta subida da dívida, e que acções estão, ou deverão, ser tomadas para evitar este crescimento. É um problema ainda por resolver.



Custos de crescimento do Brexit para o Reino Unido
para quem quiser ver um resumo de uma quantificação feita há dois anos, ver aqui, o original está aqui, de um grupo de pessoas da London School of Economics. Porque perde o Reino Unido nessas contas: barreiras ao comércio com a União Europeia. Outros factores que não são fáceis de incluir como efeitos sobre o investimento, sobre a imigração e alteração da regulação económica, não foram contemplados. Estimativa de perda entre 1,1 e 3,1% do PIB com o saída da União Europeia.
E há ainda a distribuição desses custos, que poderão ter consequências importantes. A esse respeito, uma extraordinária notícia sobre a Cornualha – votaram pela saída da União Europeia, mas agora querem que o Governo inglês compense a perda de fundos comunitários que vão ter (noticia aqui) (“Not only do Cornwall’s many farmers and fishermen benefit from the Common Agricultural Policy and Common Fisheries Policy respectively, but the county receives tens of millions of pounds a year in structural and convergence funds to support local economic growth and communities. In the 2014-2020 budget, Cornwall has been allocated 592 million euros from the convergence fund to assist with further development. If Britain leaves the EU before 2020 the government should seriously consider keeping this fund up.”)
Não é difícil adivinhar que iguais pedidos vão surgir de outras regiões de Inglaterra que recebam fundos, e de actividades que recebam apoios da União Europeia, ou até mesmo o sistema de ensino superior e investigação que se candidata com grande sucesso aos fundos europeus nessa área. Chegar a um entendimento não será fácil. E os defensores do Brexit, como Nigel Farage, no dia seguinte já estão a negar o que disseram antes da votação (ver aqui).
Brexit e uma avalanche de opiniões
O resultado do referendo no Reino Unido trouxe a decisão de saída da União Europeia. Os próximos tempos vão ser avassaladores nos comentários e análises. Não é difícil antecipar que haverá quem anuncie o fim do “projecto europeu”, como quem defenda que sem os ingleses se poderá avançar para “mais projecto europeu”.
O processo de saída do Reino Unido levará até dois anos depois do pedido dessa saída, que terá de ser feito, e David Cameron no seu discurso de demissão referiu que será o próximo primeiro-ministro inglês a fazer esse pedido. O que só sucederá em Outubro, dado que Cameron anunciou que permanecerá até lá.
Os resultados do referendo vão ter consequências de curto prazo e de longo prazo importantes, para a Inglaterra/Reino Unido, para a União Europeia e para Portugal.
No caso inglês, o problema maior do resultado do referendo vai ser provavelmente político – A Irlanda do Norte e a Escócia votaram a favor de permanecer na União Europeia, as ideias sobre a independência na Escócia devem voltar, reforçadas pela vontade de pertencer à UE – o que a suceder cria dois problemas – como separar a Escócia do Reino Unido? Como fazer a adesão da Escócia à União Europeia?
E também têm o problema político de uma Inglaterra que tem uma divisão Londres / resto do país. Os mapas de votação são muito claros quanto a isso (ver abaixo, retirados do Guardian). Poderá ser este um resultado de um discurso continuado de muitos anos (desde sempre?) contra a União Europeia e contra as suas instituições?
Em termos económicos, a Inglaterra tem mostrado ter uma economia com capacidade de ajustamento, e encontrará o seu novo espaço, com novos acordos, revisão da legislação para expurgar o que quiser do normativo europeu, etc.
Para a Europa, o desafio principal será o de gerir as relações económicas e políticas durante o processo de saída. Não há nada que impeça a criação de tratados que mantenham continuidade nas relações económicas vigentes. Sendo a primeira separação de um país da União Europeia, haverá um caminho de aprendizagem, mas que não tem de ser traumático. E dentro da Europa há o exemplo da República Checa e da Eslováquia, que resultaram da cisão de um país. Mais fortes serão as pressões para referendos nalguns países da União Europeia, o que terá tensões que se poderão transmitir a nível europeu.
Para Portugal, a principal mudança nos próximos meses virá do turismo, e do que for a evolução do câmbio da libra inglesa face ao euro. A concretizar-se uma desvalorização da libra face ao euro, os turistas ingleses terão menos poder aquisitivo, podendo vir a gastar menos em turismo. Se a saída do Reino Unido significar, por outro lado, que o euro se desvaloriza face ao dólar, poderão surgir melhores oportunidades de exportação para mercados onde o dólar seja a moeda de referência. Nada fácil antecipar o que possa ser este impacto.

