Momentos económicos… e não só

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Estudo para a Ordem dos Médicos (6)

A sétima secção do trabalho para a Ordem dos Médicos foca numa leitura global sobre como foi afectada a qualidade dos cuidados prestados. Estando a atenção focada na qualidade dos cuidados prestados, não é porém definido o que foi apresentado como “qualidade dos cuidados”. Qualidade neste contexto torna-se algo demasiado amplo – qualquer coisa que um médico não goste do que tenha sucedido nos últimos anos pode ser enquadrado como menor qualidade. Sem ser dada uma noção de qualidade, as perguntas devem ser na verdade interpretadas como lendo satisfação com o exercício da profissão. E esta será um aspectos dos mais influenciados potencialmente pela auto-selecção na resposta ao questionário.

Assim, os números devem ser lidos como dizendo que 80% dos médicos sentiu algum impacto no exercício da sua actividade nos últimos anos. Se for esta a melhor leitura, até diria que o valor é baixo face ao que seria esperado encontrar (todos ou quase todos terem sido afectados, sobretudo no sector público).

As respostas merecem algum tratamento adicional, para análise de regularidades que possam estar presentes. Por exemplo, nos hospitais EPE 84% dos médicos dizem que as reformas no SNS já afectaram a qualidade dos cuidados que prestam e 27% considera não ter condições necessárias para tratar os doentes conforme as leges artis. O que deixa um grupo grande que foi afectado mas que nem por isso deixou de poder tratar de acordo com as leges artis. E 85.2% dos médicos que responderam e trabalham nos EPE considera que o SNS não consegue acomodar mais cortes sem comprometer os cuidados prestados, valor elevado mas natural de defesa do status quo, por um lado, e da potencial auto-selecção nas respostas, por outro lado.

Numa apreciação global, os resultados do estudo têm que ser vistos com bastante cuidado por conta da forma como as perguntas foram feitas (ou como se presume que tenham sido feitas uma vez que o questionário usado não foi disponibilizado em anexo ao estudo), e da forma como a amostra se auto-seleccionou. Apesar disso, vários dos resultados são plausíveis no sentido dos efeitos detectados. Sobretudo os que tenham a ver com a experiência directa dos médicos. Mais incertos são os resultados que se baseiam unicamente nas percepções que os médicos possuem.


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Sobre o Relatório de Primavera 2015 (5)

A “disponibilidade de camas nos hospitais e na rede nacional de cuidados continuados integrados” é outra secção do acesso, mas começa por referir o número de camas de internamento hospitalar – que é cada vez menos indicador de capacidade face ao crescimento da cirurgia de ambulatório (o que é aliás reconhecido adiante no relatório). Acresce que se houver maior capacidade de resolução de problemas nos cuidados de saúde primários pode-se observar uma redução de internamentos. Uma vez mais olhar apenas para a oferta de camas não fornece grande informação. O crescimento das camas no sector privado, cerca de 2000 em 10 anos, não é claro que seja uma compensação da redução de camas no sector público ou que esteja a satisfazer uma procura que não encontra resposta no sector público. Para isso seria necessário conhecer as respectivas distribuições geográficas e casuística tratada nas camas de cada sector (ajustando para o efeito de crescimento das actividades de ambulatório). Volta também a comparação com a média europeia nas camas hospitalares, sem uma justificação de porque é essa comparação informativa e relevante. Na medida em que Portugal tenha uma rede de cuidados de saúde primários mais extensa e generalizada do que outros países, não seria de esperar este efeito? Não se pode ver estes aspectos desligados do conjunto, numa mentalidade de silo.

Segue-se a análise da rede de cuidados continuados, onde se constata um aspecto conhecido, a necessidade de expandir a rede. Neste ponto, mais do que a necessidade de expansão é ponto de discussão a forma como essa expansão deve correr, em termos de definição de prestadores e de forma de pagamento.


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e não param de surgir documentos sobre o sector da saúde,

agora do Tribunal de Contas (aqui), com o título, “Auditoria orientada para a verificação dos impactos da Lei dos Compromissos e dos Pagamentos em Atraso (LCPA) nas Administrações Regionais de Saúde”.
Fica para leitura depois de férias, ainda há outras coisas na pilha de leituras a fazer.


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Sessão dos prémios “Saúde Sustentável”

No dia 7 de Julho decorreu a entrega dos “Prémios Saúde Sustentável”, promovidos pela Sanofi e pelo Jornal de Negócios. Nessa sessão, estive num painel de debate sobre o tema da sustentabilidade. Aspectos que retive dessa discussão, em forma de notas breves (e não muito organizadas):

  1. Efeitos do período de ajustamento (2011-2014) na saúde: há pelo menos 15 anos que se discute a sustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde, e possivelmente será uma discussão que continuará durante muito tempo. Não é específica do período de ajustamento. Em termos de indicadores de saúde, não pioraram, o que demonstra uma capacidade de resistência da população. Houve durante este período um maior aperto orçamental nas organizações do SNS (redução de custos, redução de salários), no qual houve também uma diminuição no investimento em equipamento (e na manutenção do existente).
  2. Quando se fala de sustentabilidade, há múltiplas visões a considerar. Há uma visão macro que é conseguir fundos suficientes para satisfazer as necessidades adequadas da população de cuidados de saúde em tempo útil. Há uma visão dinâmica, em que não interessa apenas a despesa ocorrida num ano e sim a sua trajectória. Há uma visão abrangente, em que a sustentabilidade não é um problema meramente de arquitectura financeira do sistema de saúde. Um mau desenho da componente financeira do sistema de saúde inviabiliza a sustentabilidade financeira, mas um bom desenho apenas não a garante. É necessário olhar para o longo prazo e perguntar que necessidades de cuidados de saúde e como as satisfazer?. Há uma visão agregadora, a sustentabilidade resultará de muitas pequenas acções, de todos os agentes, no dia a dia.

Dos outros participantes, algumas notas das principais ideias:

Couto dos Santos – notas positivas deste período: 1) estimulou a tomada de decisões; 2) apertos geram adaptação – encontrar potencialidades para atingir outros resultados; 3) contributo do sector privado para a sustentabilidade – o poder político deve ver o todo do sistema de saúde e não apenas o sector público. Como nota negativa, a tendência para ter uma análise só de números, a economia não se deve sobrepor à política; e também não gosta da discussão de despesa em percentagem do PIB. Também a reforma hospitalar cai nesta nota negativa.

[estas notas negativas merecem dois comentários: primeiro, a minha concordância com a irrelevância de discutir percentagens do PIB como objectivo e garantia de despesa pública, e por várias razões: primeiro, interessa utilizar adequadamente os recursos disponíveis, gastar por gastar é errado, tal como é errado não gastar onde se tem ganhos evidentes de saúde; em segundo lugar, é uma regra que se derrota a si própria – nos anos de crescimento do PIB, vai-se gastar mesmo que com pouco resultado, nos anos sem crescimento ou com crescimento no PIB vai-se argumentar que a despesa em termos absolutos não pode descer para não prejudicar a população. Mais interessante será se um compromisso de percentagem do PIB para despesa pública em saúde for usada para alimentar um fundo de estabilização, que permita suavizar flutuações nas verbas canalizadas para o Serviço Nacional de Saúde, o que por sua vez permite estabelecer orçamentos plurianuais e horizonte estável de gestão para as instituições do SNS.

O outro comentário diz respeito à reforma hospitalar – cada vez mais parece-me melhor olhar para a reforma hospitalar não como um big-bang de transformação e sim como um processo contínuo de melhoria dentro de cada hospital, procurando responder à evolução das necessidades da população. E apesar dos comentários habituais sobre o hospitalocentrismo em Portugal e sobre o caminho a percorrer de levar a passar algumas das actividades assistenciais para os cuidados de saúde primários, ainda assim temos dos sistemas de saúde europeus com maior papel para os cuidados de saúde primários.]

Martins Nunes: O sector da saúde foi o sector que melhor resistiu à tempestade financeira; a crise conduziu a uma questão política importante: todos os partidos em apoio do Serviço Nacional de Saúde; a crise teve efeitos nas pessoas, e o CHUC respondeu criando um centro de trauma psicogenético, para ter capacidade de resposta face às necessidades de saúde da população. Encerraram hospitais psiquiátricos mas abriram outro tipo de resposta. Há uma dívida geral para com os profissionais de saúde, que se empenharam na defesa do Serviço Nacional de Saúde mesmo em contexto de corte salarial. Sobre as questões de substituição de equipamento, há um investimento diminuto desde 2005/2006, pelo que resolvendo o problema financeiro há que entrar neste campo. Há um problema generalizado da introdução da inovação e dos preços dos respectivos produtos. Portugal tem que transformar conhecimento em valor e procurar a internacionalização. Não é possível fazer uma reforma estrutural sem envolver os profissionais de saúde, o que se consegue criando compromissos a nível político e a nível de profissionais de saúde, bem como envolver os utentes (e aumentar a respectiva literacia em saúde). Nas escolhas mais difíceis tem que se encontrar a capacidade de fazer compromissos. Há três pontos essenciais: a) conhecer o que se passa dentro de cada instituição, incluindo a sua história; b) transformar os actores da reforma nos autores da reforma; c) fazer uma adequada gestão das expectativas (e em tempos de crise, são baixas e favoráveis à mudança).

Leal da Costa: A apresentação de resultados de saúde pela DGS mostra que houve melhorias ao longo do tempo; a sustentabilidade deve ser vista como continuidade do Serviço Nacional de Saúde no tempo; estão garantidas as condições de sustentabilidade para manter uma boa prestação de cuidados; não esquecer a relevância do contínuo espacial – o SNS garante uma equidade geográfico, o acesso a cuidados de saúde está garantido a todos os portugueses; há vulnerabilidades da sustentabilidade, nomeadamente nos factores determinantes da saúde como os maus hábitos de vida, o tabaco a alimentação; há consenso político sobre a incapacidade de injectar mais dinheiro no SNS sem haver crescimento económico; o SNS vai ter que ser mais eficiente, com melhor critério na utilização de recursos; apostar na prevenção; para o futuro é necessário ter novo pensamento sobre a forma de tratar; pensar nos cidadãos com maior papel na defesa da sua saúde; a inovação terapêutica tem que ser mais adequada no seu custo.


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Dejá Vu e as despesas privadas em saúde

Noticias do dia de ontem

OCDE
CRISE LEVOU PORTUGUESES E GREGOS A TEREM MAIS DESPESAS DE SAÚDE NO PRIVADO
As despesas de saúde privada em Portugal e na Grécia tiveram o maior crescimento da área da OCDE desde 2009 a 2013, significando já um terço da despesa total em saúde, segundo um relatório divulgado. As “Estatísticas de Saúde 2015” da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que a despesa de saúde continuou a tendência decrescente em Portugal, Grécia e Itália no ano 2013. “A maioria dos países membros da OCDE da União Europeia indicou gastos com a saúde per capita abaixo dos níveis de 2009. Fora da Europa, estas despesas aumentaram a uma taxa de 2,5% ao ano desde 2010”, refere a OCDE. Três quartos dos gastos com a saúde continuam a ser financiados por fontes públicas nos países da OCDE, “mas as medidas de contenção de custos tomadas por alguns estados levaram a um aumento do consumo privado”, seja através de seguros de saúde ou de pagamentos diretos pela família. A OCDE destaca mesmo que “alguns dos países mais atingidos pela crise tiveram aumentos significativos” nos pagamentos diretos no momento de utilização dos cuidados de saúde (pagamentos ‘out-of-pocket’). Como exemplos surgem Portugal e a Grécia, que entre 2009 e 2013 viram as despesas de saúde privada aumentarem, respetivamente, para 28% e 31% do total. (Jornal de Notícias)

MINISTÉRIO DIZ QUE DESPESA DAS FAMÍLIAS COM SAÚDE DIMINUIU EM 2013

Em reação a um relatório da OCDE que acusa um aumento das despesas da saúde privada em Portugal, o ministério contra-argumenta recorrendo a dados do INE que consideram mostrar “o peso expressivo do sector público na prestação de cuidados de saúde”. O Ministério da Saúde reagiu ao relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que reporta um aumento das despesas de saúde privada em Portugal. Segundo o Instituto Nacional de Estatística a despesa corrente das famílias em 2013 terá diminuído 4,7%. Segundo as “Estatísticas de Saúde 2015” da OCDE, despesas de saúde privada em Portugal e na Grécia tiveram o maior crescimento da área da OCDE desde 2009 a 2013, significando já um terço da despesa total em saúde. Este é um dos indicadores que foi destacado pela própria organização internacional. (Público)
O que é dejá vu nisto – os valores da OCDE retomam apenas o que estava na Conta Satélite da Saúde e que se conhecia em termos de evolução – pela redução das deduções fiscais em termos de IRS era forçoso que houvesse um aumento da despesa privada em saúde (por diminuição da despesa fiscal). Este é um tema que já tem sido discutido neste blog num passado recente e menos recente.
Além, disso, de um ponto de vista conceptual, a parte relevante é saber onde aumentaram estas despesas agregadas e se provocaram um aumento das restrições financeiras das famílias – ou seja, aplicar o conceito de despesa catastrófica em saúde.
Acresce que olhar apenas para despesa sem olhar para resultados é redutor, como tenho argumentado noutros comentários – se há menor despesa sem penalização dos resultados em saúde, o sistema é mais eficiente; logo só olhar para a despesa pressupondo que toda a despesa é igualmente boa no sentido de melhorar a saúde da população é incorrecto (aliás, reconhecido pela própria OCDE quando faz análises de eficiência de sistemas de saúde).


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Sobre os últimos dez anos do sector da Saúde,

Do desafio de um comentário aos últimos anos no sector da saúde em Portugal, pelo Observador que disponibilizou aqui um texto, acabei por escrever uma rápida visão.

O período 2005-2015 tem dois momentos marcantes. O primeiro é o lançamento das reformas Correia de Campos, logo a partir de 2005 – a criação das Unidades de Saúde Familiar e a Rede Nacional de Cuidado Continuados Integrados. A primeira corresponde a uma reformulação dos cuidados de saúde primários, na sua organização interna e na sua relação com a população que atendem. A segunda corresponde a colmatar uma falha de cobertura do Serviço Nacional de Saúde e que numa visão a prazo das necessidades de uma população envelhecida é uma resposta que faltava. O segundo momento marcante é o programa de ajuda financeira internacional, a meio de 2011, com os compromissos assumidos com a Troika (agora gostam de lhes chamar instituições, sem qualquer motivo real). Se o primeiro momento foi de lançamento, não chegou a ser de conclusão. Assim, o segundo momento, a partir de meados de 2011, tinha na verdade um duplo objectivo – conseguir alcançar os compromissos de medidas que gerassem poupanças para a despesa pública e, ao mesmo tempo, concluir as reformas que vinham do momento anterior. Conseguiu-se o primeiro objectivo, sobretudo por conta de efeitos “preço” – reduções de preços e de salários -, progrediu-se menos do que seria desejável no segundo, conclusão das grandes reformas iniciadas a partir de 2005. Mas o objectivo de reduzir despesa sem perda de capacidade assistencial, em cobertura e qualidade, foi conseguido, mesmo que problemas pontuais sejam apontados (e alguns deles provavelmente surgiriam mesmo que não tivesse existido o esforço de redução da despesa pública em saúde).

Paralelamente pairou, durante todo o período, o que se pode chamar de “fantasma da reforma hospital” (talvez o termo “dementor” no sentido da saga Harry Potter seja até mais apropriado) – é reclamada como essencial, não é realmente especificada em que consiste em termos de objecto final, e quem governa diz que a faz, quem está na oposição diz que não a vê. Neste aspecto, provavelmente a melhor forma de ver não é pensar em que hospitais devem estar abertos e com o quê, e sim adoptar uma lógica de processo dinâmico. Os hospitais têm que evoluir permanentemente para estar a par das melhores práticas clínicas e das melhores práticas de gestão que lhes permitam ter os meios para as melhores práticas clínicas. Ou seja, é necessário ter os mecanismos internos de evolução sempre a funcionar, como ter um enfoque permanente na melhoria contínua da qualidade (nem sequer é uma ideia original) e dar maior atenção à qualidade da própria gestão realizada.

Durante estes anos, a despesa em saúde e a despesa pública em saúde subiu primeiro e desceu depois. Mas essa evolução da despesa tem que ser confrontada com os indicadores assistenciais, pois os efeitos assistenciais são sobretudo determinados pela parte “quantidade” da despesa, enquanto o ajustamento desde 2011 foi sobretudo realizado pela parte “preço” da despesa, e no caso da despesa pública em saúde sem praticamente alterar a parte “cobertura”. A única exceção foram as reduções das deduções fiscais em saúde. Essas reduções fazem com que despesa privada das Famílias que era anteriormente, no final, suportada pelo Orçamento de Estado via sistema fiscal passe a ficar como despesa privada. Afecta sobretudo quem beneficiava dessas deduções fiscais. A redução do preço dos medicamentos, por seu lado, e neste aspecto de proteção das despesas diretas das Famílias, deverá ter beneficiado sobretudo os grupos de menores rendimentos (aqueles para os quais a principal componente de despesa privada em saúde está precisamente na sua parte na aquisição de medicamentos).

Por fim, precisamos de conhecer mais sobre os efeitos dos tempos de crise económica em aspectos que não estão, ou não deveriam estar, diretamente associados ao sector da saúde, como os custos de transporte ou de ausência no emprego, implicando eventualmente barreiras de acesso a cuidados de saúde em caso de necessidade.


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Linhas para o programa eleitoral do PSD+CDS (8).

Continuando na senda das garantias da coligação PSD – CDS, a sétima é sobre colocar na “Constituição um limite à dívida pública”, com um “garantimos que pugnaremos”, pois não podem garantir nesta altura mais do que tentar.

Associada aos compromissos vem a oitava garantia “Garantimos que a próxima legislatura dará particular importância
às questões da demografia, da qualificação das pessoas e da coesão do território”. Além de alguma repetição de aspectos anteriormente mencionados, teria sido importante ter aqui informação sobre avaliação de políticas passadas nestas áreas e a evidência sobre o seu funcionamento (ou não). É relevante conhecer as intenções, mas também gostava de saber se conhecem os factos. Por exemplo, quando se fala em “discriminação positiva de várias políticas públicas a favor dos territórios de menor densidade”, sabe-se qual é a densidade óptima de cada unidade territorial (e qual a unidade territorial em que estão a pensar quando se fala em menor densidade? e é densidade populacional ou outra?

A nona garantia retoma igualmente aspectos anteriores “Garantimos um Estado mais justo e eficiente, queremos uma sociedade com maior autonomia e liberdade de escolha”. E neste ponto há maior detalhe do que podem ser medidas concretas. Ainda assim, creio que se envereda pelo discurso fácil da defesa da liberdade de escolha como contraponto à burocracia, sendo que estes dois aspectos não são necessariamente opostos. Além de que burocracia oferece maior igualdade de tratamento, por exemplo.

Terminando as garantias, fica-se à espera do programa eleitoral para uma comparação maior com o programa do PS, sobretudo no campo da saúde.


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Estatísticas sobre a saúde dos Portugueses, pela Direcção-Geral da Saúde

Documento disponível aqui, contendo informação sobre mortalidade, morbilidade e estilos de vida que afectam a saúde, em Portugal. Sobre os últimos dez anos, mostrando a evolução registada, numa tendência de tempo longo de melhoria.


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Estudo para a Ordem dos Médicos (5)

Ainda na análise do estudo para a ordem dos médicos, a sexta secção trata da situação dos médicos. Por um lado, esta informação deverá ser mais fiável porque diz respeito aos próprios. Por outro lado, o enviesamento por auto-selecção na resposta poderá ser mais significativo. Os resultados são, tal como em secções anteriores, plausíveis na direcção do sentido encontrado (a magnitude poderá ser empolada pela auto-selecção na resposta).

Interessante a conclusão de “os médicos mais novos no sector público tendem a estar mais motivados, realizados e menos esgotados do que os colegas no sector privado, situação que se inverte à medida do tempo de trabalho”, pois está em linha com outros estudo. Ter os médicos das UCSP (centros de saúde tradicionais) a sentirem maiores dificuldades financeiras que os médicos das USF é igualmente esperado. E também era de esperar que nos hospitais fosse nas PPP a menor presença de dificuldades económicas, depois EPE e depois SPA.

A comparação com o sector privado é mais delicada, pois a opção por estar apenas no sector privado poderão não estar desligada das dificuldades económicas (e já agora, o que é dificuldade económica pode ser diferente de pessoa para pessoa, sem saber como foi feita a pergunta não é possível saber que amplitude de interpretação pode ser dada), e ligado também à carga de trabalho em cada um dos sectores. Também se deve pensar aqui em termos de expectativas que tivessem face ao que recebem. De um ponto de vista económico era interessante ver também se esta característica de dificuldade económica tem associação com zonas geográficas especificas e maior ou menor presença de médicos nessas zonas, no que respeita à actividade no sector privado.

É referida uma análise estatística da probabilidade de emigrar (suponho que a variável em estudo seja se alguma vez pensou ou está a pensar emigrar), em função de características e condições individuais. Contudo, as regressões logísticas realizadas não são apresentadas. A referência às mesmas é feita na nota de pé de página 2, que indica os factores potencialmente explicativos utilizados. Esses factores explicativos, tal como apresentados, não contemplam a idade e a situação conjugal, dois aspectos que podem ter impacto importante na decisão de emigrar ou não (eventualmente com efeito não linear na idade). A conclusão de que a realização profissional pode ser um factor para emigração mais forte do que o ganho de remuneração é interessante, e enquanto tal fornece um argumento adicional para pensar como se pode atrair médicos para zonas com necessidade dentro de Portugal (uma versão de “vá para fora cá dentro”).


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Estudo para a Ordem dos Médicos (4)

Uma outra secção (a quarta) do relatório feito a pedido da Ordem dos Médicos diz respeito à formação médica. Sendo este um aspecto sobre o qual se conhece pouco e como referido no relatório normalmente “ignorado na discussão sobre a reforma do sector da saúde”, é bastante útil a sua inclusão.

Era importante, para perceber melhor as percentagens apresentadas, quais os números absolutos na amostra e no universo em estudo. Por outro lado, é necessário ter em conta que os aspectos mencionados são susceptíveis de terem enviesamentos específicos – é tentador dizer-se que se quer mais tempo dos tutores/orientadores, que se querem mais actividades formativas, etc.

Ainda assim, mesmo descontando essas possibilidades, há uma razoável concordância sobre problemas e estrangulamentos. Teria sido útil saber se as percepções dos médicos internos e dos médicos tutores, numa mesma instituição, são coincidentes ou não. E conhecer a variabilidade de situações de instituição para instituição. Num trabalho passado, detectou-se que esta variabilidade era enorme – nalguns locais havia presença efectiva do tutor, incluindo reuniões semanais de análise de investigação, enquanto noutros o médico interno servia como substituto do tutor, com um mero contacto telefónico a saber se estava tudo bem. Situações extremas, mas que espelhavam o que era há alguns anos uma enorme diversidade de situações na formação. Além dos valores médios que são dados pelo inquérito, importava saber se esta heterogeneidade se mantém, e se tem alguma tipologia (por exemplo, quando o tutor está só no sector público, ou está no sector público e no sector privado, há alguma diferença sistemática?).

A quinta secção é dedicada à percepção dos médicos sobre o comportamento dos doentes, o que significa que se pergunta ao médico qual a sua interpretação da percepção que tem do que fazem os doentes. Aqui serão mais fiáveis as respostas que digam respeito à intervenção do médico e às suas acções do que quando são interpretações sobre o porquê do comportamento dos doentes. Por outro lado, é mais plausível que estas percepções sobre o comportamento dos doentes não afectem de forma relevante a predisposição para responder ao questionário, e sejam relativamente independentes dessa decisão (claro que é uma hipótese que deverá ser testada, mas mesmo assim julgo ser menos problemático o problema de auto-selecção de resposta por estes motivos do que a insatisfação com a “interferência” no trabalho).

O ter aumentado a percentagem de pessoas que pede medicamentos mais baratos deverá ser um resultado fiável, plausível, sendo então que o período de crise terá afectado de forma importante este pedido. Também o fraccionamento dos pagamentos é plausível,  com um aumento de situações, em que tal é pedido.

Já quanto aos “motivos económicos”, sendo percepção dos médicos, torna-se complicado saber se é essa a real motivação dos doentes (por exemplo, será sempre mais fácil um doente dizer que abandonou a terapêutica por motivo económico do que dizer que não confiou no que o médico lhe prescreveu, ou deixou de tomar porque se sentiu melhor). Além de que noutras análises se tem encontrado que se interpreta em excesso o “motivo de restrição financeira de acesso” – isto é, quem olha de fora pensa ser mais frequente do que realmente é. Apesar de tudo, os resultados vão num sentido plausível – é natural que as restrições financeiras tenham aumentado, e é natural que haja menor incidência desse aspecto nos doentes que vão ao sector privado (até porque os doentes com maiores restrições financeiras irão proporcionalmente menos ao sector privado). Mas também é verdade que os médicos poderão esperar que essas restrições estejam menos presentes no sector privado, e que essa percepção genérica afecte as respostas que dão. Sem saber as perguntas exactas, e saber se houve alguma exploração para conhecer a base da resposta, não é possível ter confiança nos valores apresentados. E igualmente aqui é preciso ter o cuidado de fazer a interpretação correcta. Seguindo o que se presume ter sido o estilo das perguntas, deve-se ler que 53,3% dos médicos acha que houve “maior abandono de terapêutica por motivos económicos”, e não que 53,3% dos doentes abandonou a terapêutica por motivos económicos. Era importante ter completado esta informação com análise mais detalhada em termos quantitativos – por exemplo, perguntado ao médico se na última consulta detectou algum destes efeitos, que decisões tomou, etc.

Olhando por especialidade, a ordenação de abandono de terapêuticas tem alguma razoabilidade – a medicina física e de reabilitação e a psiquiatria são áreas onde a sensibilidade a factores externos para abandonar a terapêutica será maior. Já noutras especialidades merece maior análise perceber porque mais de 60% dos médicos indica um aumento do abandono da terapêutica, por exemplo em anestesiologia ou medicina interna (abandono de que terapêuticas?).

Sobre a possibilidade dos doentes estarem a faltar mais às consultas, embora seja natural pensar que sim, creio que vale a pena algum cuidado adicional, já que a percepção pode ser diferente da realidade, e a forma dos doentes reagirem em tempos de crise pode ter outras características. Ou seja, há hipóteses alternativas que têm de ser consideradas e que podem ou não ser relevantes. Por exemplo, se houver custos de transportes significativos, os doentes podem não marcar consultas em vez de faltar. Neste caso, se marcam é porque pretendem ir e vão. A existência de custos de transporte significativos poderá até estar associada com menor número de faltas às consultas. Não pretendo afirmar que seja este o caso, apenas ilustrar que há outras possibilidades. De modo similar, se houver um acesso mais fácil à marcação de consultas (via internet, funciona para alguns casos pelo menos), então também poderá haver maior número de faltas não por dificuldades de acesso mas sim por excesso de facilidades de acesso. Não houve essa preocupação de distinção de diferentes efeitos.

Como tudo se baseia em percepções dos médicos, por uma questão de coerência interna dessas respostas, é de esperar que os médicos que referem aumento do abandono da terapêutica também indiquem mais faltas às consultas. Ou seja, as duas respostas poderão estar a capturar a mesma percepção, apenas de forma diferente. Esse grau de concordância e sua discussão teria sido útil.

(nota: as considerações sobre as despesas directas das famílias e comparação em contexto internacional não são particularmente úteis para perceber os resultados do estudo.)