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Gabinete de Crise, Rádio Observador, a vacina que veio (?) do frio

A habitual discussão do Gabinete de Crise na Rádio Observador foi centrada, esta semana, na vacina anunciada pela Rússia e sobre se será sobretudo um instrumento de propaganda, ou não.

Número da semana: 300 milhões – o número de doses pré-compradas pela União Europeia, à AstraZeneca, com opção de mais 100 milhões (a União Europeia a 27 tem 447 milhões de habitantes). Estão também em negociação com outras companhias que estão a procurar encontrar uma vacina. É uma iniciativa europeia que dá a cada país uma segurança sobre aceder à vacina e sobre o preço a que o irá fazer. Além da segurança que possa transmitir, é um exemplo de como a coordenação a nível europeu pode ser útil para cada país. Além disso, é intenção fazer chegar parte das vacinas a países em desenvolvimento. Para Portugal, virão, desta aquisição 6,9 milhões e 20 milhões de euros (resolução de ontem do Conselho de Ministros, e sendo parte ou a totalidade recuperada pelo REACT-EU (Recovery Assistance for Cohesion and the Territories of Europe)). A União Europeia tem feito vários acordos destes, ajudando na tomada de riscos por parte das empresas que estão a desenvolver as vacinas. Claro que a aquisição só tem lugar se a vacina for eficaz e segura, o que só se saberá no final do ano.

Esta atuação da União Europeia é também importante num contexto em que a procura de vacina se tornou uma corrida de prestígio “geo-politico” entre Europa, Estados Unidos, China e Rússia. Esta última procurou colocar-se à frente, anunciando uma vacina ainda antes dos testes mais amplos na população. É uma jogada de risco – se a vacina for boa, a Rússia ficará com os louros de ter sido a primeira, se não for boa, terão que “disfarçar” de algum modo. Além do dinheiro que possa estar envolvido nas vendas de uma nova vacina, o prestígio científico dos países parece estar também a ser jogado.

Havendo várias vacinas concorrentes a serem testadas, usando caminhos alternativos para procurar criar imunidade, é natural que daqui a algum tempo haja várias vacinas, que poderão ter diferentes níveis de eficácia, e que poderão ter diferentes preços. Veremos depois como os elementos de eficácia, custo e geopolítica das vacinas irão interagir.

Análise da semana – esta semana, em média, foi melhor que a semana passada, sobretudo à conta de uma evolução positiva em Lisboa. Nos óbitos e internados em UCI tem existido nas últimas semanas alguma estabilidade, só o número de internados continua numa rampa descendente. 

Esta evolução, de uma pequena rampa descendente, é mais favorável do que temos assistido noutros países europeus, nomeadamente os do Sul da Europa, para quem o turismo é também uma atividade económica importante. Portugal tem estado a contra-ciclo de vários outros países europeus – enquanto houve uma quebra acentuada em vários deles, Portugal tinha uma “rampinha ascendente”, mas depois passamos a “rampinha a descer” enquanto esses outros países entraram num “elevador a subir”.

Há uma informação essencial que não temos publicamente – quantos dos casos surgidos dizem respeito a cadeias de transmissão conhecidas? É que surtos com 70 ou 80 casos num lar fazem subir os novos casos, mas permitem parar mais facilmente a transmissão do que esse mesmo número de casos que tivesse resultado de contágio em transportes públicos ou em restaurantes, por exemplo. E é neste contexto que vemos Portugal a passar a integrar o “corredor aéreo” inglês para turismo, e a saída de países como a França (que criou uma corrida ao regresso).

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Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 21 de agosto11581196

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 21 de agosto333238

Nota: valores arredondados à unidade

Mito: as verificações de temperatura, feitas nalguns locais como aeroportos ou restaurantes, não são um teste à COVID-19. Detetam apenas se a pessoa tem febre, temperatura elevada, o que pode ser devido a várias causas. E há pessoas que têm COVID-19 sem terem febre. Por isso, são quando muito um sinal imperfeito sobre a COVID-19, permitindo apenas encontrar os casos suficientemente graves para terem febre. A sua facilidade e baixo custo de aplicação justificam que se use em locais de circulação em massa, mas sabendo-se que vão existir erros (pessoas não detetadas, e algumas com febre não terão COVID-19). Mais cedo ou mais tarde, estas verificações de temperatura serão provavelmente substituídas por testes com mais precisão.

Esperança da semana: a aprovação pelas autoridades americanas (FDA) de um teste para a presença da COVID-19, baseado na saliva, que custa cerca de 10 USD, segundo as estimativas que têm sido dadas, e que não exige nenhum produto ou processo difícil de obter. Este teste foi desenvolvido pela Yale School of Public Health, e promete dar um resultado em pouco tempo (menos de três horas, segundo as notícias que saíram). Embora já existam outros testes baseados em saliva, este tem a vantagem de usar materiais que existem com abundância (e logo de muito mais baixo custo). Um teste rápido e barato permite testar muito mais e com isso fazer uma identificação mais rápida de quem está doente, para ser separado e tratado. Mesmo sem termos uma vacina, um teste destes pode fazer muito para se retomar uma maior normalidade na vida diária. Se conseguirem baixar o tempo de realização do teste para 15 ou 20 minutos, pode-se passar a fazer testes antes de sair para a escola ou para o trabalho, antes de ir a um filme ou teatro ou fazer uma viagem. Permite testar as pessoas antes de um concerto ou de uma reunião de trabalho. Será um passo importante para um novo normal mais próximo do antigo normal do que a vida que experimentamos nos últimos meses.


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Comentários ao Plano Costa Silva (13)

Saltando um pouco a ordem de apresentação no Plano Costa Silva, o tema que comento hoje do Plano é referente à saúde.

O Plano Costa Silva, no que se refere à área da Saúde, fala em investimento no Serviço Nacional de Saúde (SNS), embora as medidas indicadas não digam realmente respeito ao SNS. É certo que a área da saúde não se limita ao SNS e que há espaço para iniciativas, no campo da recuperação económica, que envolvam atividades produtivas e de inovação associadas à saúde. Mas a compreensão do que é o Serviço Nacional de Saúde e qual o seu papel em Portugal é essencial para estabelecer um plano de ação que faça sentido no contexto do esforço de recuperação económica e definir como o SNS contribui ou pode contribuir, bem como beneficiar desse esforço.

O Serviço Nacional de Saúde tem duas dimensões essenciais. A primeira é a dimensão proteção, assegurar a proteção financeira dos residentes em Portugal face a despesas em cuidados de saúde. Este papel de proteção financeira significa que o SNS tem uma componente de recolha de fundos (via orçamento do Estado, ou seja, via impostos, como elemento dominante). Atua como um seguro público, contendo também elementos de redistribuição de rendimento. Esta dimensão do SNS responde ao que que nas discussões internacionais sobre sistemas de saúde é denominado “Cobertura Universal” de seguro de saúde. Não é uma dimensão que seja discutida ou aflorada no Plano Costa Silva, nem tem que o ser. Contudo, saber que ela está presente e que é essencial para justificar a existência de um SNS ajuda a compreender que os objetivos do Serviço Nacional de Saúde são principalmente ligados à proteção da saúde da população e não o desenvolvimento económico do país ou do sector da saúde ou dos grupos profissionais e/ou das atividades económicas na área da saúde. A contribuição do SNS para a recuperação económica deve ser vista como um benefício adicional que possa ser recolhido por melhor alcançar os objetivos de proteção da população. 

A segunda dimensão do SNS, e aquela que é mais facilmente e mais frequentemente identificada pela generalidade das pessoas, é a prestação direta de serviços de saúde à população, através das várias entidades que fazem parte do SNS neste campo da prestação de cuidados de saúde.

A prestação de cuidados de saúde em Portugal é feita por unidades do SNS e também por entidades privadas, sendo que dentro destas encontramos entidades com fins lucrativos (por exemplo, clínicas, laboratórios de análises, e os grupos de prestação com rede hospitalar, entre outros) e entidades sem fins lucrativos (por exemplo, as unidades de prestação de cuidados das Misericórdias).

O Serviço Nacional de Saúde na sua dimensão de proteção financeira recorre, no contexto português, à prestação de serviços por parte de entidades privadas. Os exemplos quantitativamente mais significativos estão na produção, distribuição grossista e dispensa de medicamentos (o circuito dos laboratórios e companhias farmacêuticas às farmácias comunitárias) e nos laboratórios de análises e entidades que realizam exames (em geral, meios complementares de diagnóstico e terapêutica). No campo dos cuidados continuados, é significativa a participação das instituições privadas sem fins lucrativos, em que sendo os serviços por elas prestados pagos pelo Serviço Nacional de Saúde fazem parte da cobertura e proteção dada pelo SNS ainda que não sejam instituições do SNS. Note-se que serviços prestados por entidades privadas mas pagos por outras fontes públicas como a Segurança Social, não são cobertura do SNS embora sejam parte do sistema de proteção social público. É possível ter cobertura de seguro público de saúde, assegurado pelo Serviço Nacional de Saúde. 

Creio que não está em discussão no Plano Costa Silva promover o desenvolvimento económico “centrado nas empresas” e na inovação através de uma reorientação da atividade prestadora com uma sua redução na componente pública e um aumento da atividade privada, com ou sem fins lucrativos. Ou seja, do Plano Costa Silva não resulta, e bem, a sugestão de reconfigurar o Serviço Nacional de Saúde na sua dimensão de prestação de cuidados de saúde.

Sendo assim, o que resta para discussão no âmbito do Plano Costa Silva, é como as atividades produtivas na área da saúde, definidas de forma ampla, e o Serviço Nacional de Saúde interagem. O aspeto que se torna aqui central é a aquisição de bens e serviços por parte das unidades do Serviço Nacional de Saúde que prestam cuidados de saúde à população. É desta forma, no modo o SNS organiza a prestação que faz de cuidados de saúde que poderá eventualmente contribuir de forma diferente do que sucede hoje para o crescimento das empresas portuguesas (ou pelo menos, com localização das suas atividades produtivas em Portugal). 

O primeiro elemento a ter em conta é que o desenvolvimento económico na área da saúde tem desde logo uma das limitações globais à economia portuguesa apontada noutro local do texto do Plano Costa Silva: a dimensão do mercado português. O crescimento de empresas privadas de base nacional só pode ser realizad considerando o mercado internacional como o relevante (mercado europeu, pelo menos; mercado mundial, desejavelmente). Muito dificilmente o SNS conseguirá dar dimensão (permitir aproveitamento de economias de escala) para que empresas nacionais tenham um crescimento sustentado e contribuam de forma visível para o desenvolvimento económico geral, além de, como anteriormente foi referido, não ser esse o objetivo do SNS. 

O mencionar, repetidamente, que o objetivo do SNS é procurar a melhor saúde da população, incluindo nesse objetivo considerações de equidade, é propositado Não será certamente aceitável que o SNS utilize um dispositivo médico, por exemplo, de qualidade inferior e preço superior a uma alternativa disponível apenas porque é produzido por uma entidade nacional (ou localizada em Portugal). Assim, o desenvolvimento de atividades de inovação na área da saúde é importante para a economia nacional mas não cabe ao SNS promovê-las com discriminação positiva que vá contra os objetivos centrais do SNS. A promoção direta da inovação e das atividades produtivas no setor da saúde deve ser feita no contexto de política industrial e não no contexto de política de saúde.

E tendo-se em vista o desenvolvimento sustentado de empresas portuguesas nesta área, é essencial que se pense em mercado europeu, que se trabalhe, a nível político, para igualdade de oportunidades para todas as empresas do espaço da União Europeia. Se se quiser defender a ideia de o SNS privilegiar as empresas portuguesas, que lhe vendem bens e serviços, então também se tem que aceitar que o mesmo tratamento preferencial a empresas domésticas possa ser feito por outros países. A capacidade de Espanha, França, ou Itália, por exemplo, darem “escala” às respetivas empresas nacionais é bastante superior à portuguesa, o que muito provavelmente faz com que um explícito enviesamento para empresas nacionais acabe por trazer mais dificuldades de crescimento de longo prazo às empresas portuguesas. É aliás revelador que os habituais exemplos de empresas portuguesas bem sucedidas na área da saúde sejam empresas que estão sobretudo no mercado internacional. Tal não é fruto do acaso. É resultado dos fundamentos económicos. 

Esta caracterização significa que o investimento no Serviço Nacional de Saúde deve ser guiado pelas necessidades e objetivos do SNS, e que o seu contributo para o desenvolvimento e crescimento de empresas portuguesas que apostem em inovação não resulta da criação de escala para que possam ser competitivas no mercado internacional.

É necessário pensar no SNS e na sua ligação ao tecido empresarial de forma diferente, do que tem sido e do que é proposto ainda que implicitamente no Plano Costa Silva.

A sugestão é pensar na relação das entidades do SNS com os seus fornecedores de um modo que ajude à identificação de oportunidades de inovação, que começando localmente possam, algumas pelo menos, alcançar escala internacional. Tal poderá suceder na prestação direta de serviços à população mas será muito mais provável que ocorra na criação ou aperfeiçoamento de bens e serviços utilizados por prestadores de cuidados de saúde (públicos ou privados). Por exemplo, um hospital ao identificar uma necessidade específica tem que ter disponíveis os mecanismos formais e de apoio que lhe permitam estabelecer uma relação com um ecossistema de inovação de base local ou próxima (universidades/centros de investigação) para encontrar uma solução para o problema encontrado. O desenvolvimento, inicialmente na esfera local, dessa solução poderá depois, através de instrumentos de política industrial, receber as condições necessárias para ganhar escala e operar no mercado internacional (vender a outros prestadores, públicos ou privados, de outros países essa mesma solução). 

O principal contributo do Serviço Nacional de Saúde está na identificação e eventual exploração de oportunidades de inovação e não no fornecimento de escala de longo prazo (que é limitada pela dimensão do país) ou na criação de “mercado protegido” (que seria prejudicial ser for uma estratégia seguida por todos os países).

Partindo deste princípio genérico, o passo seguinte é a definição de medidas concretas que permitam às entidades do SNS ter este papel. Sem preocupação de exaustividade, sugerem-se para discussão as seguintes propostas:

  1. Usar os processos de contratação pública (e privada) para desenvolver inovação. A natureza particular dos bens e serviços de saúde criam barreiras específicas, entre elas a informação sobre as necessidades que possam ser inspiradoras de inovação e a estabilidade de decisões de aquisição (para permitir o tempo de realizar a inovação). Os processos de contratação e aquisição de bens e serviços deverão ser conhecidos, regulares (estabilidade no tempo) e serem claros nas dimensões de inovação que permitem (não serem apenas determinados pelo preço mais baixo). A existência de plataformas de diálogo local sobre a evolução das necessidades sentidas pelos prestadores de cuidados de saúde e sobre as capacidades existentes nas empresas e nos centros de inovação será um elemento facilitador importante. A definição dos termos de contratação ou de aquisição de bens e serviços deverá ter em conta estes diálogos, sem contudo criarem mercados protegidos. As parcerias para a inovação entre prestadores de cuidados de saúde do SNS, empresas e universidades/centros de investigação poderá ser facilitada pela disponibilização de minutas de contratos tipo de parceria que reduzam os custos da sua elaboração (estes contratos tipo devem ser facilmente monitorizáveis e procederem a uma divisão dos ganhos de inovação que ocorram, não sendo obrigatória a sua utilização).
  2. Criação de apoio à formação de profissionais de saúde em investigação e desenvolvimento, tecnologia, evolução digital e empreendedorismo, na ótica de fornecer os conhecimentos necessários para a identificação de oportunidades, por um lado, e para uma adequada gestão das relações de parceria, por outro lado. Idealmente, deverá utilizar-se uma entidade existente para organizar esta iniciativa, sendo avaliada pelos resultados produzidos em termos de parcerias de inovação realizadas a três anos envolvendo profissionais que tenham participado nestas ações.
  3. Promoção de exercício anual de “horizon scanning” e elaboração de cenários a médio e longo prazo para a prestação de cuidados de saúde a nível global, divulgados dentro do sistema de saúde português, como serviço público de informação sobre a qual ideias possam ser desenvolvidas. Por exemplo, um primeiro exercício poderá ser sobre o papel da inteligência artificial na prestação futura de cuidados de saúde (promessas, becos-sem-saída, áreas desconhecidas, etc).
  4. Definir mecanismos que facilitem a inovação na área da saúde por parte de sectores tradicionais da economia portuguesa (por exemplo, mobiliário)
  5. Criar formas de divulgação e programas de apoio que vençam barreiras iniciais para levar a que inovações desenvolvidas no âmbito da saúde possam ter aplicações noutras áreas. 

Colocando a inovação no centro da relação do SNS com a atividade empresarial torna-se relevante conhecer como atualmente se caracterizam os vários potenciais intervenientes. Em particular, saber como as diferentes entidades do SNS pensam, se é que pensam, nas suas necessidades que requeiram elementos de inovação; saber como as universidades, centros de investigação, centros de incubação de novas empresas e empresas encaram estas relações; saber como as entidades públicas de apoio à inovação olham para a adequação dos instrumentos que disponibilizam, etc…

De momento, não existe, na medida do meu conhecimento, um ponto de consulta onde toda esta informação esteja recolhida e disponível para a definição das adequadas políticas públicas (no campo da inovação) e para a definição de estratégias dentro das unidades que fazem parte do SNS. Está atualmente em curso um trabalho sobre o que se entende por inovação em saúde por quem procura fazer essa inovação em Portugal, e que posicionamento têm tido diversas organizações nacionais. Os primeiros resultados deverão estar publicamente disponíveis em Outubro.[1]

Em conclusão, o Plano Costa Silva partilha da ideia genérica de que o sector da saúde é uma área de crescimento económico interessante para empresas de base portuguesa. Tem porém um equívoco central no papel que o SNS pode ou deve desempenhar. A principal recomendação ao Plano Costa Silva é que procure repensar, de forma inovadora, o modo como as entidades prestadoras de cuidados do SNS podem identificar e oferecer oportunidades iniciais de desenvolvimento de inovação. É necessário, em fases mais avançadas, que existam mecanismos facilitadores da internacionalização das empresas que sejam bem sucedidas nessa inovação. A pequena dimensão do mercado nacional é uma limitação a ser reconhecida desde o início.


[1] Estudo financiado pelo Nova SBE Health Economics and Management Knowledge Center, contando com a colaboração do Health Cluster Portugal.


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Comentários ao Plano Costa Silva (12)

Os comentários de hoje vão as subsecções dedicadas pelo Plano às cidades e mobilidade, e cultura, serviços, turismo e comércio.  No primeiro caso, cidades e mobilidade urbana, três tipos de efeitos: maior uso da eletricidade como energia de base para modos de deslocação, menor mobilidade por teletrabalho, mais economia “partilhada”. 

Aqui, torna-se especialmente interessante pensar na “economia da partilha”, pois passa-se a colocar a questão de como fornecer o acesso aos modos de deslocação partilhados, serão novas empresas com novos modelos de negócio (como o foi a Uber e similares) ou serão alargamentos da cadeia vertical? Acesso generalizado significa capacidade instalada excedentária, o que se todos ou grande parte dos consumidores estiverem na “partilha” significa que haverá provavelmente grandes empresas envolvidas para conseguirem cobrir os custos fixos dessa capacidade excedentária. A forma como formalmente se organiza então a partilha poderá ser muito diferente, em termos de modelo de negócio, do modelo modelo Uber. Na parte da cultura, turismo e comércio, há que atender a um elemento económico fundamental – tendem a ser atividades económicos intensivas em trabalho, jargão económico para dizer que têm muitos trabalhadores pela própria “tecnologia” associada – e a redução da sua atividade implica necessariamente um volume de desemprego. Como parte importante desses trabalhadores é pouco qualificada tecnicamente, sobretudo no turismo e comércio, as oportunidades que têm de encontrar colocação noutros sectores acaba por se decidir com base em salários (mais) baixos. Além de haver uma componente de trabalhadores informais que por isso mesmo podem escapar aos mecanismos de apoio social criados no âmbito da pandemia. Aqui mais do que a “revitalização”, ou seja apenas retomar os níveis de atividade anteriores à pandemia, é necessário perceber como se pode melhorar a mobilidade entre sectores de atividade económica destes trabalhadores, e de uma forma que permita maior produtividade e logo maiores salários. Não me pareceu que o Plano Costa Silva tivesse dedicado pensamento suficiente a este problema.


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Comentários ao Plano Costa Silva (11)

O Plano dedica uma subsecção a “Infraestruturas de transporte e mobilidade”, em que se fala da construção de infraestruturas (físicas) como “alavanca da economia nacional”, o que provavelmente será o caso, mas então parece-me que se está novamente no “modelo de baixos salários” que se queria evitar? Por outro lado, a construção de infraestruturas é provavelmente a forma mais rápida de retomar alguma atividade económica – o que se mostra a necessidade de uma visão integrada de todos os elementos da economia, e como se conjugam, o que não sucede de forma completa neste Plano. Basta pensar se que a construção de infraestruturas é uma “alavanca”, então é possível que o investimento privado se dirija para a construção (afinal, é onde vai estar dinheiro), e como tal não se investe nas biotecnologias e no mar. Não contesto, de todo, a importância de infraestruturas de qualidade para o transporte público e para uma nova mobilidade citadina – a prazo, serão importantes quer para lidar com uma população envelhecida mas que se pretende ativa, e com a capacidade de atrair e reter jovens profissionais em áreas de ponta (com elevado valor da produtividade, e logo salários elevados). O comentário é que essa visão de conjunto tem que estar presente, para se perceber em que ponto da estrutura económica se pode criar maiores efeitos de “arrasto” do resto da economia e efeitos alinhados com a visão estratégia global para a recuperação económica e crescimento de longo prazo. (claro que é mais fácil juntar estas palavras todas do que realmente apresentar essa visão, só que antes de passar a planos concretos, é crucial conseguir ter e transmitir essa visão de integração).

Seguem-se alguns parágrafos, cada um dedicado a um tema, sem grande concretização:  infraestruturas ambientais e de energia, transição digital , consolidar o Serviço Nacional de Saúde (que tratarei num comentário próprio, em mais detalhe); reconversão industrial, com retomando as ideias de clusters. Curiosamente, pensei a dada altura que o Plano se orientaria mais para competências – independentemente do setor onde se aplicam – do quem em setores, uma vez mais. A tentativa de adivinhar sempre um futuro através de identificação de sectores dificilmente consegue ser evitada neste tipo de documentos. Parece-me mais interessante que as políticas públicas ajudem, ou não atrapalhem, elementos que levem a novos modelos de produção ou a experimentação de novos modelos de negócio, do que dizer que o futuro da economia portuguesa passar pelas plataformas logísticas, tratamento de resíduos, economia circular, mar, etc…(há 12 áreas “magnificas” identificadas).

Nesta parte da renovação empresarial fala-se, corretamente, da necessidade de introduzir mais prática de investigação e desenvolvimento e consequente inovação nos setores tradicionais. Embora também aqui sinta a falta de alguma informação mais sobre as ideias que o Plano quer colocar para discussão. Apoiar todos os sectores ao mesmo tempo significa que não se irá apoiar nenhum de forma consistente. Ou então é criar instrumentos de apoio, e cada sector é apoiado na medida em que se consiga mostrar mais capaz de os aproveitar (cada empresa em termos absolutos dos resultados que poderão obter, e em termos relativos face ao que as outras empresas apresentam). Em concreto, a discussão de “incentivos” deveria fugir ao tradicional efeito subsídio – sobretudo evitar que haja projetos de investimento que apenas são rentáveis enquanto durar o subsídio público, desejavelmente os incentivos deveriam ter um elemento associado com o desempenho conseguido (e não apenas com a “execução de verbas”, forma elegante de dizer que desaparece o dinheiro sem que nada mude), como é estes “incentivos” contribuem para a capitalização das empresas portuguesas, como contribuem para a internacionalização, que “barreiras” permitem ultrapassar que não seriam ultrapassadas se não houvesse os “incentivos”, como é que os “incentivos” contribuem para uma melhor qualidade de gestão das empresas nacionais (em vez de apenas para uma melhor capacidade de exercer influência para receber os incentivos)? 

A dado ponto do Plano (p.45) são referidas 11 empresas (e “muitas mais”) como exemplos empresariais de desenvolvimento e crescimento com base na ciência e tecnologia. Para estes exemplos, seria muito interessante saber uma decomposição do seu sucesso entre esforço do empresário/empresa, sorte no mercado, mecanismos de política industrial gerais e “visão estratégica do sector público” específica. 

Decorrente desta discussão surge então a “dinamização de um cluster do hidrogénio em Portugal”. Este aspeto específico tem tido discussão na praça pública, pelo que não sinto especial vocação para comentar adicionalmente tirando o comentário geral de esta dinamização dever ser “remover barreiras” e não “promover taxas de retorno elevadas e sem risco” via subsídios artificiais – ou seja, a haver apoios, porque é que os fundos para esta “dinamização” têm maior taxa de retorno que dirigir os fundos para outras alternativas de aplicação.

Surge também a discussão sobre os “recursos minerais estratégicos”, com enfoque nos que estão no “mar profundo”. De toda a discussão sobre a utilização destes recursos, e sobre a sua extração, fiquei com duas grandes questões por resolver, a que o texto do Plano não dá resposta: a) fazemos apenas extração ou o Plano prevê que em cima destes recursos minerais se cria valor acrescentado? b) será que o desenvolvimento desta “extração” pode colocar desafios ao desenvolvimento de novas tecnologias de uma forma que crie efeitos mais gerais, que desafios para a engenharia e outras áreas?

No campo seguinte, da transição energética, nada de novo a assinalar, dentro da lógica da transição para a “economia verde”. 

O tópico seguinte é sobre a coesão do território, a dúvida principal que fica é sobre como lidar com o problema de aglomeração natural de atividades económicas criarem desequilíbrios geográficos internos na distribuição de empresas e pessoas. Não é possível todas as zonas terem todas as atividades produtivas – que equilíbrio se pretende ter entre diversificação geográfica e economias de escala, por um lado, e entre concentração geográfica e solidariedade interna entre regiões? E voltamos à necessidade de uma visão de conjunto – se é escolhido dar “incentivos” para algumas atividades, se estas atividades têm de ser desenvolvidas por empresas suficientemente grandes para terem economias de escala e assim serem competitivas nos mercados internacionais, para o que precisam de elevada produtividade (que trará consigo salários mais elevados), a diversificação regional poderá não ser possível, e neste caso são os apoios públicos podem gerar desigualdades regionais na criação de riqueza, que terão depois de ser compensadas com alguma forma de redistribuição. E claro dar apoio a algumas atividades significa não dar a outras, pelo que haverá mais crescimento de emprego numas zonas no que noutras “Isto anda tudo ligado” 

E inevitavelmente, ao falar do território, não se deixaria de falar do turismo no interior do país como elemento do desenvolvimento local. Num contexto atual de menor mobilidade global do turismo, o que será o papel deste turismo? Sobretudo turismo interno, como se viu na “enchente do Gerês” deste Verão?  A capacidade do turismo interno ser sustentável depende naturalmente de como a economia se comportar.

No caso da agricultura, chamou a atenção de se falar de uma medida muito concreta “o reforço de financiamento em iniciativas como a do Centro Fraunhofer Portugal dedicado à agricultura de precisão”. Não conheço o que faz este centro, mas a predisposição para ter identificação de necessidades (encontrar soluções para problemas) a serem colocadas ao sistema científico e de inovação é uma forma promissora – haverá certamente iniciativas a conhecer na relação universidade / agricultura nas universidades do interior (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Universidade de Évora, Universidade da Beira Interior) e nos Institutos Politécnicos. Desde que a aposta no sistema científico de base universitária não seja apenas a proposta Universidade do Atlântico (ou haverá fundos para todos?). 

Embora não seja dito, há o risco de se reforçar a divisão entre interior rural e litoral tecnológico, mas se pretendendo-se mudar indústria para o interior, perde-se terreno agrícola. E se as explorações agrícolas tiverem que aumentar a sua dimensão média (nada é dito quanto a isso no documento), não haverá a consequência de ainda menor densidade populacional a prazo? Ou estará na “deslocalização interna” de serviços, nomeadamente os que possam ser prestados à distância, (e não produção de bens) a forma de manter ou aumentar a população nas zonas do interior? O quadro global de equilíbrio geral da economia e da população não é todo claro, e medidas tomadas com base em abordagens parciais podem facilmente ter efeitos inesperados.


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Comentários ao Plano Costa Silva (10)

O elemento seguinte na discussão do Plano Costa Silva é o “modelo geopolítico”, onde se retoma José Saramago e a “Jangada”, com a ideia da projeção de “softpower” para o mundo. Neste aspecto geo-politico, ao contrário da discussão das vantagens competitivas, há a enumeração de instrumentos. Contudo não há qualquer referência a quem paga, quanto se paga e que se retorno se pode esperar. Num documento que se propõe ser de visão estratégica para a recuperação económica, faria sentido ter essa informação. Sendo esta parte voltada para o posicionamento político de Portugal no mundo, abstenho-me de comentar, por não ser do meu campo de conhecimento (mesmo que como cidadão possa ter opinião sobre o assunto).

A subsecção que surge depois tem como título “Transformar a crise em oportunidade”. A primeira parte é dedicada ao potencial da exploração económica do mar como elemento para a recuperação económica tendo dois pontos fundamentais: recursos minerais estratégicos e conhecimento sobre o mar. Mas além da criação de “uma grande Universidade do Atlântico”, não há propriamente uma indicação ou sugestão de como a restante parte da visão pode “arrastar” os setores tradicionais. E a criação de uma universidade demora mais tempo do que o necessário para poder contribuir para a recuperação económica. É uma ideia para o médio e longo prazo – colocar Portugal na linha da frente da produção do conhecimento científico sobre o mar – e vai exigir investimento em recursos que não terão logo efeito, e definição clara de como o valor do conhecimento gerado será depois transformado em valor económico. Dizer apenas, com muitas palavras, que as empresas portuguesas não podem ficar de fora dos mercados internacionais, sobretudo querendo usar a inovação como essencial para o seu crescimento é retomar ideias que já tinham sido apresentadas.

Logo de seguido, e de uma forma que aparece um pouco “caída do céu”, entra-se numa discussão sobre a estrutura produtiva, onde se recuperam aspetos que há pelo menos 25 anos estão em todas as discussões sobre o desenvolvimento da economia portuguesa: mais investimento privado, mais emprego, mais qualidade do trabalho (mais capital humano), mais investimento em inovação, mais investimento público em infraestruturas e menos custos de contexto (regulação, justiça, energia), e com preocupações de “redistribuição”. Só que nada se diz sobre que prioridades, se é de apostar em tudo um pouco, ou se algum elemento deve ser tratado primeiro (por exemplo, vale a pena procurar atrair mais investimento privado nacional e estrangeiro se não se reduzirem os custos de contexto? Ou como aumentar a qualidade do trabalho? – uma possibilidade é facilitar a mobilidade de trabalhadores entre empresas para que consigam encontrar os pares empresa-trabalhador mais produtivos (rever a sugestão de ler o livro de Mário Centeno sobre o mercado de trabalho é automático aqui). E mesmo nos programas de “combate às desigualdades”, quais são os que vale a pena manter e os que vale a pena mudar ou eliminar? Quaias as necessidades de redistribuição que ainda não estão cobertas e precisam de programas adicionais? Estes programas de redistribuição ajudam também na criação de riqueza, ou na procura da redistribuição reduz-se a riqueza para redistribuir? É natural que nem toda esta discussão conseguisse ser colocada neste documento, mas sendo assunto tratado em vários documentos e trabalhos ao longo de décadas em Portugal, seria pelo menos adequado haver aqui uma síntese das principais dificuldades e equilíbrios entre diferentes objetivos. Se não aprendermos melhor com o que correu bem e correu mal nos, pelo menos, últimos 25 anos, então o mais provável é que se faça desaparecer os fundos (ou que nem cheguem a aparecer, por falta de ideias válidas e que não repitam erros passados), e daqui a 10 anos haverá novo Plano de Recuperação Económica. 


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Comentários ao Plano Costa Silva (9)

Continuando na leitura, chega-se à seção de oportunidades e vantagens competitivas de Portugal. O rumo da discussão toma desde logo a direção da energia e das transformações nesta área, mas depois cobre tudo um pouco – robótica, materiais, e até um “impacto extraordinário na longevidade da vida humana” (o que quer que isso seja, estamos a falar de 10 anos, 30 anos? Além da longevidade devia-se focar na qualidade da vida em idades avamçadas). E de repente foca-se nos elementos de transformação digital, tocando nas buzzwords atuais. Passado essa parte, cai-se na discussão do “controlo dos minerais estratégicos”, procurando uma visão de geopolítica e cruzada destes vários elementos. É uma discussão interessante pela que mostra dos interesses do autor. Infelizmente, é pouco consequente em termos de opções estratégicas para a recuperação económica. Dado que se está, supostamente, a falar de vantagens competitivas de Portugal, era importante ter uma discussão do posicionamento face aos restantes países – distinguir entre tecnologias e infraestruturas que é preciso um país ter para que as empresas possam participar plenamente nos mercados internacionais e elementos que permitam uma vantagem única e não imitável (pelo menos imediatamente) nem substituível às empresas de base portuguesa. Essa informação é necessária para conseguir definir então estratégias de investimento, e também também definir o que faz sentido dentro dos “seis futuros” que são apresentados (bem, na verdade não são “seis futuros”, são ideias que se podem complementar ou substituir). E sobretudo nessa discussão dos “seis futuros”, ou melhor de elementos de evolução possíveis, é preciso adicionar quais os agentes económicos e/ou políticos essenciais – é que o problema não se resume a “escolher” deste menu de ideias aquelas que se pretendem alcançar, é preciso saber como e quem o faz, e que instrumentos diretos e indirectos podem ser usados – definir um objectivo de um “futuro” e depois não ter instrumentos para lá chegar não terá grande utilidade.


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gabinete de crise, rádio observador – sobre apps covid

O tema desta semana no Gabinete de Crise foi a nova app stayaway covid, o programa pode ser ouvido aqui. O resumo da minha participação segue abaixo, como usual.

Número da semana:  13% – proporção de portugueses que se revelaram contrários ou fortemente contrários à ideia de instalação de uma app para fazer o seguimento dos contatos de quem esteja com COVID-19 confirmada. 

É o valor mais baixo dentro dos países europeus com quem temos feito um trabalho de comparação do apoio às políticas seguidas:

Portugal: 13% contra (19% indiferentes)

Reino Unido: 13% contra (26% indiferentes)

Itália: 15% contra (23% indiferentes)

Dinamarca: 16% contra (25% indiferentes)

França: 25% contra (33% indiferentes)

Alemanha: 25% contra (28% indiferentes)

Holanda: 25% contra (30% indiferentes)

(amostras de cerca de 1000 pessoas em cada país)

Numa app voluntária se apenas os claramente favoráveis instalarem a app, não se atingirá um valor de adesão superior a 70% em nenhum país e em vários fica-se abaixo dos 50% – em França, quase 2 milhões de pessoas instalaram a aplicação, quase 500 mil desinstalaram pouco depois (informação de final de junho, após três semanas disponível). Na Noruega, a app foi suspensa em meados de junho por problemas de privacidade (atualização permanente da localização da pessoa via telemóvel, tinha sido instalada por 1,5 milhões de utilizadores e tinha 600 mil ativos (cerca de 10% da população, 16% da população com mais de 16 anos). 

Análise da semana – 

Piorou ligeiramente o número de novos casos, em Lisboa e fora de Lisboa, mas ainda sem problemas de congestão nos serviços de saúde, aumentaram os óbitos também ligeiramente; nos internados seja em UCI ou não, continuou a melhoria, mas há um desfasamento temporal entre a subida de novos casos e os internamentos. Sinais mistos esta semana. 

O desafio imediato – controlar surtos; nomeadamente nos lares. Pensar melhor o que pode ser feito ativamente, em vez de ser apenas reativo. Desafio a 1 mês, a reabertura do ano escolar (podem voltar a existir surtos nas escolas). O desafio em 2 meses – como ter a “máquina da saúde pública” para o outono, nomeadamente nos transportes e eventualmente empresas e locais de trabalho. 

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta: as aplicações digitais, a lançada agora oficialmente ou outras, não substituem o processo tradicional de identificação de contactos (é um alerta para as autoridades de saúde não relaxarem, para não reduzirem as equipas de saúde pública) – pela necessidade de abarcar pessoas que não instalam a aplicação, pela necessidade de ter informação mais detalhada. 

Mesmo que a aplicação tenha a capacidade tecnológica de realizar o que se espera dela – identificar sem falhas quem esteve próximo, ou suficientemente próximo, de uma pessoa com COVID-19, há que pensar como se incluem populações vulneráveis ou quem não tem telemóvel por opção. Há também que assegurar que não transmitida mais informação do que o estritamente necessário para o que se pretende, e que essa informação não acaba por ser usada para outros fins. 

Esperança da semana: A esperança é que a tendência decrescente de novos casos COVID-19 em Portugal seja retomada na próxima semana, resultado das precauções e cuidados da população portuguesa, tornados de algum modo permanentes enquanto o vírus da COVID-19 andar em circulação. A esperança é que o número mais elevado de ontem tenha sido excepcional nesta “rampinha negativa”.

Nas últimas semanas a “mobilidade” medida pela Google aumentou consideravelmente em Portugal na categoria de praias, parques, marinas, etc. Nas últimas semanas conciliou-se esta mobilidade com redução de casos. Aproveitar o Verão está, até agora, a ser compatível com o controle da pandemia; é essencial que o continue a ser.

Portugal está novamente a contraciclo da Europa, uma Europa onde o crescimento do número de novos casos COVID-19 levanta preocupação, e ainda estamos longe do período mais temido, anunciado para o Outono.

Sobre a aplicação stayaway covid, recebeu a bênção oficial com o Decreto-Lei no 52/2020 de 11 de agostoUma pessoa fica a saber que tem a COVID-19, médico tem que dar código para incluir na aplicação, a aplicação avisa depois quem esteve perto dessa pessoa com risco de contrair a COVID-19, mas o médico precisa de ter “perfil” no sistema, que é dado por alguém da DGS, o sistema cruza dados sobre códigos gerados por cada telemóvel, e depois avisa utilizadores em risco para contactarem os serviços de saúde –  a utilização da app é voluntária, e o contacto com o sistema de saúde também (a DGS não fica a saber que alguém esteve próximo de uma pessoa com covid-19 e não contactou o SNS).


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Comentários ao Plano Costa Silva (8)

Retomando as propostas do Plano Costa Silva, o assunto seguinte na lista é o envelhecimento da população portuguesa. A primeira implicação apontada é o efeito no mercado de trabalho, onde se fala na importância de uma “política de atração de mão de obra qualificada”. Este é um aspecto com o qual tenho total concordância – pensar em como tornar Portugal um país atrativo em termos internacionais (e que por arrasto o tornará também atrativo para os portugueses). É importante que não seja só pelo argumento fiscal – quem vier de fora paga menos impostos sobre o rendimento. Diferente é saber se Portugal deve privilegiar imigração para setores específicos – não creio que seja a melhor forma de pensar na questão. É preciso evitar o risco de dar subsídios cruzados a uns setores para criarem o dito “trabalho quailificado”, que depois desaparece quando esses subsídios terminam (é preciso acabar com a prática de algumas empresas ou setores mais “sexy” do ponto de vista político serem apenas rentáveis enquanto existir dinheiro público a apoiar). Escolher setores de forma central (pelo Governo) tem sempre o risco de falhar os setores de maior futuro. É preferível estabelecer as condições para que Portugal seja atrativo para iniciar empresas e viver, qualquer que seja a origem da pessoa, incluindo ser portuguesa, e deixar depois que os setores sejam definidos pelas oportunidades e pelas ideias identificadas. 

O envelhecimento da população mesmo no âmbito do mercado de trabalho tem outros desafios que foram ignorados, em particular o papel de carreiras profissionais mais longas e com maiores “viragens” de carreira do que no passado, por exemplo. Há várias pessoas com ideias interessantes sobre potenciais mudanças no funcionamento do mercado de trabalho, que facilitem saída de uma área de trabalho e voltar a entrar noutra, de iniciar novas carreiras ou novos projetos, etc. 

A medida nº7 é uma afirmação geral de construção de economia inclusiva. A leitura deste ponto só me suscitou dois pontos rápidos: a) falta de novidade, no sentido que os elementos focados de maior eficiência, melhor aproveitamento da capacidade instalada, atrair investimento, aumentar competitividade, são tudo “ambições de sempre”; b) o interessante e provavelmente importante era ter uma reflexão sobre as barreiras que impediram que no passado se alcançassem esses objetivos, e em que medida agora se tem formas de ultrapassar essas barreiras. De outro modo, com elevada probabilidade se irão adotar medidas já tentadas, e com provavelmente o mesmo resultado final de ausência de efeito relevante. 

Depois de um conjunto de medidas e ideias genéricas, o Plano apresenta uma muito específica, “apoiar a tesouraria das empresas viáveis economicamente”, falando em deduções de prejuízos fiscais. Os problemas focados associados à descapitalização das empresas são sérios, mas não é todo claro como as propostas de dinamização do mercado de capitais (mais fácil de dizer do que fazer, e à semelhança de comentários anteriores, porque falhou no passado e o que fazer para que não volte a falhar), banco de fomento e/ou fundo soberano – como vão “escolher” as empresas viáveis economicamente. Um elemento que julgo interessante pensar é que os mecanismos que sejam criados devem ser tais que são interessantes para as empresas economicamente viáveis, mas desinteressantes para as que não são economicamente viáveis (para que estas nem se candidatem a usar esses mecanismos). Por fim, a discussão deste “apoio à tesouraria” termina com um apelo que não é novo, “maior rapidez do pagamento pelo Estado da sua dívida às empresas” – e novamente, é uma ideia repetida regularmente e por isso gostaria que o Plano fosse específico em como fazer com que aconteça (o que implica saber porque no passado não aconteceu).

Logo de seguida, número 9, vem “Apostar num Estado com mais qualidade” com a menção  “promovendo as suas competências digitais”, simplificar processos, etc. Muito se poderia dizer sobre isto. Deixo apenas a recomendação de quem quiser levar a sério o Plano Costa Silva neste ponto de olhar para as ideias e sugestões apresentadas há vários anos na iniciativa Sextas da Reforma, promovida pelo Banco de Portugal, Fundação Calouste Gulbenkian e Conselho de Finanças Públicas. É trabalho, reflexão e propostas já feitas, em que várias podem ser recuperadas facilmente, permitindo avançar sem ter que se partir do início de tudo.

Décima ideia desta secção – fazer face à diminuição forte do investimento – mas nada é dito sobre o que fazer, e a ideia de recuperar e atrair investimento estava já presente noutras “medidas profundas”. Nada acrescentado por esta entrada, nada a acrescentar em termos de comentários.

Medida nº 11 – melhorar a eficácia dos reguladores – neste ponto, totalmente de acordo com a proposta de “concursos internacionais para quebrar a endogamia típica da sociedade portuguesa”. Não é só para quebrar a endogamia (e as lealdades que com ela surgem), é também na lógica de atrair os melhores “talentos” também neste campo, de trazer ideias e práticas novas. Um primeiro passo, até fácil de dar, seria impedir formalmente que antigos ministros, secretários de estado ou assessores/adjuntos de governantes, sejam nomeados para órgãos de topo dos reguladores nos primeiros cinco anos após exercício de funções públicas no governo português. E já agora porque não revisitar os efeitos sobre as práticas e resultados da regulação em Portugal que resultaram da revisão dos reguladores e suas regras que foi feita na altura da troika? (entre várias outras referências aos reguladores, no Memorandum of Understanding de maio de 2011 constava: “8.3. Ensure that the national regulator authorities (NRA) have the necessary independence and resources to exercise their responsibilities. [2012Q1] In order to achieve this: 

  1. provide an independent report (by internationally recognised specialists) on the responsibilities, resources and characteristics determining the level of independence of the main NRAs. The report will benchmark nomination practices, responsibilities, independence and resources of each NRA with respect to best international practice. It will also cover scope of operation of sectoral regulators, their powers of intervention, as well as the mechanisms of coordination with the Competition Authority. [2011Q4]
  2. based on the report, present a proposal to implement the best international practices identified to reinforce the independence of regulators where necessary, and in full compliance with EU law. [2011Q4]

Uma vez mais, não é preciso reinventar a roda e dar seguimento a esta “medida” do Plano Costa Silva poderá ter em conta o que saiu (e o que não saiu) deste “compromisso” assumido nos tempos da troika. 

Por fim, medida nº 12, “combater a lentidão da justiça fiscal e dos processos de licenciamento” – de acordo, é suficientemente genérico para ninguém estar contra, concordância aliás também existente sempre que no passado se falou da lentidão da justiça portuguesa e da lentidão dos processos administrativos. Mas dizer apenas “promovendo esforços” para alterar isto é muito, demasiado vago, quase mesmo uma garantia de que nada irá mudar. E mais uma vez, tem sido ao longo dos anos faladas várias propostas, tomadas várias iniciativas, sem resultado suficientemente claro. Aprender as lições desse passado recente, antes de adotar medidas que vão utilizar os fundos colocados à disponição de Portugal é um imperativo da boa utilização desses fundos.


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Comentários ao Plano Costa Silva (6)

Na subsecção “constrangimentos estruturais e oportunidades”, Costa Silva propõe falar-se das “medidas profundas” para ultrapassar “constrangimentos estruturais”. Como primeiro passo teria sido útil que apresentasse, por ordem de importância para o “desenvolvimento económico do país”, que constrangimentos identifica e que “instrumentos” ou “medidas” contribuem para que seja ultrapassado, bem como identificar os agentes económicos cruciais para que essas medidas tenham sucesso. Ainda antes de falar das medidas, parece-me claro que faltou algum método na abordagem a esta matéria, que é afinal o que deverá ser o “esqueleto” central do Plano.

Mas vamos às medidas, por ordem da sua apresentação.

1-“Colocar as empresas no centro da recuperação da economia, transformando-as no motor real do crescimento e da criação de riqueza”, com o objectivo de melhorar as suas competências digitais, a “qualificação dos recursos humanos”, a sua participação em programas de inovação, viradas para os mercados externos. Creio que se formos aos programas de governo e dos partidos políticos dos últimos 30 anos que fizeram parte de governos encontraremos objectivos muito semelhantes. O importante é perceber porque é tão difícil alcançar este objectivo, e porque apenas escrevê-lo não fará necessariamente acontecer. Além disso, os “baixos salários” não são exatamente uma escolha, e sim uma consequência da produtividade das empresas, e aqui é certamente relevante ir olhar para as condições de mercado de trabalho (e para evitar problemas de ser uma “visão neo-liberal”, a sugestão é mesmo ir ler o livro de Mário Centeno sobre o mercado de trabalho de há meia década atrás).

Três comentários a esta “medida profunda” (dado que não é “constrangimento estrutural”, “colocar as empresas (…)” tem que ser medida): a) não depende apenas da vontade governamental, e aparenta na verdade ser mais dirigida ao sistema de educação e formação profissional (para das as qualificações, habituar desde cedo a trabalhar no mundo digital, etc.) do que às empresas. A menos que seja apenas a ideia de “despejar” dinheiro nas empresas para que adiram ao digital, para que qualifiquem recursos humanos, e por aí fora. Mas se não vier a predisposição dos trabalhadores para o efeito, então o resultado será sobretudo o dinheiro desaparecer; b) não é claro que este “colocar das empresas no centro” se refere a ajudar as existem a não desaparecer ou se é dada preferência ao nascimento de novas empresas como fator de renovação. São dinâmicas muito diferentes para a economia, sobretudo se se pretende uma transformação da estrutura produtiva. Uma “mudança profunda” seria uma maior preocupação com o “nascimento” de novas empresas, o que significa medidas transversais, e não com apoiar as empresas hoje presentes no mercado (que também podem beneficiar dessas medidas transversais, naturalmente); c) É importante também que se tenha em mente, o que não resulta do que está escrito no Plano Costa Silva, que ao nível do país, o aumento da produtividade média pode decorrer de cada empresa aumentar a sua produtividade mas também de se expandirem mais rapidamente as atividades com maior produtividade (o que pode mesmo significar contração das atividades de menor produtividade, pelo que apoio a empresas pouco produtivas mas que já estão no mercado é um “apoio” ao “baixos salários”. 

Passando agora à segunda “medida profunda”: “criar condições (…) para a diversificação da economia, tornando-a mais resiliente” e “alinhando (…) com o conceito de “autonomia estratégica” da Europa”, seguindo-se menção à produção de bens de equipamento, biotecnologias, medicamentos, dispositivos médicos, economia do mar. Não há qualquer razão para serem estes e não outros os sectores relevantes, nem se sabe em que é baseada a sua escolha. Sobretudo porque este tipo de apostas só sobrevive se as empresas forem as melhores, ou parte das melhores, no panorama europeu. Não basta querer. Além de não saber o que significa, em termos operacionais, uma “economia mais resiliente” e como se vai aferir o contributo de medidas específicas que procurem atingir esse objetivo. E se para ser mais resiliente tiver que ser menos inovadora? Como se vai lidar com as tensões entre os vários objetivos? Tudo isto, a partir da “reorganização das cadeias logísticas e de produção”, o que não estou a ver como se vai fazer em termos de políticas públicas. 

“Medida profunda nº3”: “diversificar a economia em articulação com o perfil de especialização do sistema produtivo nacional” – mas diversificar já estava na medida anterior, tal como as “vulnerabilidades” mencionadas, a cuja resistência deverá estar ligada a noção de “resiliência” da “medida profunda nº2”. E não entendo a referência ao envelhecimento da população no contexto da especialização do sistema produtivo nacional. Aliás, se temos uma população envelhecida, e se os outros países também evoluem nesse sentido, não seria uma “vantagem” ter experiência nacional dos produtos e serviços que essa população envelhecida está interessada em utilizar para diversificar, inovar, colocar valor acrescentado e fugir aos “baixos salários”?  

A “medida profunda nº4” é “Responder a estas limitações estruturais através de um investimento forte na ciência” (e em várias outras coisas, incluindo infraestruturas várias, e capital de risco). Como não foram apresentadas as limitações estruturais (pelo menos, de forma a que conseguisse perceber quais eram), é difícil avaliar quais os investimentos que serão mais interessantes (e o que significa serem interessantes  – os que diversificam mais a estrutura da economia, os que promovem mais o crescimento da produtividade, os que estão alinhados com a “autonomia estratégica” da Europa? todos eles? Apenas os que consigam atingir ao mesmo tempo estes três objetivos?). Uma abordagem diferente é  o resultado final que se pretende alcançar e não no controle do “ processo”, que será impossível de realizar numa economia “centrada nas empresas” (ver acima o primeiro ponto desta lista do Plano Costa Silva).

A “medida profunda nº5” é “contrariar as limitações do mercado interno”, e fala em facilitar a “consolidação das empresas” e a “criação da massa crítica”. Esta medida tem duas componentes: a) participação nos mercados internacionais (é a única forma de explorar economias de escala que não sejam possíveis pelo mercado interno); b) dimensão mínima eficiente para operar nos mercados internacionais. O pior que poderia suceder seria criar grandes empresas nacionais por concentração de empresas mas que não operassem no mercado internacional. E é demasiado fácil usar o argumento da dimensão para criar concentrações de empresas que têm como principal fim explorar o poder de mercado no mercado nacional. Apesar destas ressalvas, este é um objetivo importante – a dimensão médias das pequenas e médias empresas portuguesas é muito provavelmente um dos problemas da estrutura produtiva nacional. O crescimento da dimensão deve então estar ligado à participação nos mercados internacionais, nem que seja ibérico apenas em alguns casos. Assim, os mecanismos de apoio ao crescimento da dimensão média deverão ser em primeira linha mecanismos que ajudem na internacionalização das empresas (o que poderá ser por remoção de obstáculos, e não apenas “despejar” dinheiro), e só numa segunda linha a facilitação da “consolidação das empresas”. Será provavelmente até melhor sinal para o futuro que a consolidação ocorra por serem as empresas mais produtivas e dinâmicas a comprarem os ativos produtivos das empresas menos produtivas – mecanismos que ajudem no crescimento orgânico das melhores empresas e na saída rápida das que não têm possibilidade de sobreviver. 

(amanhã, ou depois, continua a análise…)


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gabinete de crise, radio observador – vivendo com o coronavirus (47)

com algum atraso, aqui ficam mais duas semanas do Gabinete de Crise, referentes à semana terminada a 31 de Julho e à semana terminada em 7 de agosto.

Semana de 31 de Julho:

Número da semana: 0,9 – valor abaixo do qual tem estado o famoso Rt, o número médio de casos secundários por nova infeção, nas últimas duas semanas. É um dos sinais importantes de ter finalmente uma tendência negativa no surgimento de novos casos. A referência é estar abaixo de 1, e estar abaixo de 0,9 é então um bom sinal.

Embora a pandemia nunca estivesse fora de controle, no sentido em que o SNS teve sempre larga capacidade de resposta disponível, ficamos todos muito mais descansados por perceber que o famoso planalto das discussões passou a ser uma rampinha negativa nas últimas semanas, em vez da rampinha positiva que surgiu depois do início do processo de desconfinamento.

Análise da semana – felizmente, nada de novo, os vários indicadores de pressão sobre o SNS (novos casos, internados, internados em UCI e óbitos) mantiveram a sua trajetória descendente.

Temos que começar a perceber melhor os comportamentos individuais e como evoluem. Dois exemplos rápidos – distanciamento físico de pelo menos 1 metro – no início de abril, cerca de 65% dos portugueses inquiridos (num estudo comparativo internacional referido aqui noutros programas) disse respeitar, baixou para 55% dois meses depois, no início de junho. E este foi um padrão geral nos países do estudo (Alemanha, Holanda, Itália, França, Dinamarca, Reino Unido e Portugal). O mesmo acontece quando se fala em beijos e abraços– menos pessoas dizem agora evitar. 

E voltando ao uso de máscaras, Portugal é o país, destes 7, onde mais pessoas dizem ser provável ou muito provável usar máscara em local público e quando recomendado pelas autoridades de saúde (96%), e é muito diferente na Dinamarca (apenas 64%). E já agora, Alemanha e Holanda 80%, Reino Unido 83%, França 86%, Itália 91%. No Sul parece existir mais predisposição para usar máscaras – é uma questão de terem sido mais atingidos pela pandemia (França e Itália), ou sociologicamente são “zonas demarcadamente diferentes”?

As máscaras de que já falamos aqui várias vezes levaram também a comportamentos que ajudam a reduzir o contágio – normalmente falamos nas máscaras como forma de conter as partículas, mas encontramos duas outras formas pelas quais podem contribuir para contrariar a covid-19. Uma é tecnológica – esta semana falou-se na certificação de uma máscara portuguesa que tem um tratamento que permite inativar o vírus que contacte com a máscara. Pode ser o princípio de tecnologias para tecidos que sejam usados de forma mais geral. Outra é de comportamento – as pessoas com máscara levam menos vezes as mãos à cara (nariz, boca, olhos) – artigo saído há 2 dias no Journal of the American Medical Association. 

Alerta: qual será o comportamento sazonal do contágio da covid-19? Temos ainda muitas incertezas, embora o que se passa na Austrália seja importante – estão agora no inverno, nas regiões mais a Sul, e houve um reacender de contágios. Há ainda muita incerteza sobre o papel que a humidade do ar possa ter (transmissão mais fácil em tempo frio mas seco) ou sobre se é resultado de as pessoas passarem mais tempo em espaços fechados. É da biologia (humidade) ou do comportamento humano (mais tempo juntos). 

Daqui até ao final do Verão iremos ter mais informação dos países que neste momento estão a passar pelo inverno. O alerta é que se tenha atenção às informações que forem surgindo, até porque é provável que haja notícias falsas ou enganosas, pelo menos, como tem sucedido ao longo dos últimos meses.

Esperança da semana: o retomar de mais destinos e origens de viagens aéreas, com regras adicionais para a realização de testes, decidido ontem (dia 30 de julho). É esperança no retomar de circulação de pessoas, importante para famílias, mas também para o turismo. É esperança por haver condições de viagem ligadas à realização de testes, para que se evitem casos importados de covid-19, ou pelo menos se minimizem e controlem rapidamente essas “importações” não desejadas. Por exemplo, na Nova Zelândia, os casos mais recentes têm sido todos importados, que ao serem detetados levam a que se quebre a cadeia de transmissão. 

Semana de 7 de Agosto

Número da semana: 20 – número de pontos percentuais de diferença na redução de ansiedade (diferente de preocupação ou seguir noticias) reportada em dois inquéritos, que cobriam também pessoas com 60 anos ou mais (início de abril e inicio de junho). Ou seja, do início de abril, no pico do nosso desconhecimento e receios, até inicio de junho, um mês depois do desconfinamento, existiu uma redução na ansiedade com que as pessoas de mais idade olham para a pandemia. Em geral, e decorrente de toda a informação que vai sendo dada, atribuem-se um maior risco de virem a ter a infeção e de ter um problema de saúde, mas nem por isso estão mais ansiosas que as pessoas mais novas. E curiosamente a redução da ansiedade foi notória na população com 60 anos ou mais, mas não tanto na população mais nova (o retomar trabalho presencial poderá ter substituído uma fonte de ansiedade por outra?).

Análise da semana – olhando para os números da semana “Gabinete de Crise”, a semana que passou foi a melhor desde que começamos a fazer este acompanhamento de valores, a 8 de maio (que parece já ter sido há tanto tempo) – em Lisboa finalmente consolidou-se uma tendência de redução de novos casos, em média semanal, com uma estabilização no resto do país. Estamos, globalmente, numa situação melhor do que sucedia quando saímos do confinamento. Também o número de pessoas internadas, em UCI e de óbitos tem mantido uma tendência para baixar. 

Não é de menosprezar esta situação, uma vez que o estamos a conseguir sem o fecho da sociedade e da economia que ocorreu de meados de março ao início de maio. 

De algum modo, podemos dizer que estamos realmente a aprender a viver com o vírus. Tem sido uma expressão que já usamos algumas vezes, e que se mantivermos esta realidade de hoje, será um sinal muito positivo. Tanto mais que é um resultado de todos – autoridades de saúde, profissionais de saúde, e sobretudo de todas as pessoas que têm respeitado e procurado que se respeite as novas cautelas de higiene (lavagem de mãos) e de distanciamento. 

Também vimos que vão surgindo surtos, aparentemente detetados de forma rápida. E assim terá de continuar a ser. Alguns desses surtos têm sido em lares de idosos, mas como temos visto noutros países, certo tipo de instalações fabris também surgem como “hotspots”.

O conselho cientifico para a COVID-19 de França fez, a 27 de julho, várias recomendações: a necessidade de manter a capacidade informativa das autoridades de saúde, ver os testes na dupla perspectiva de diagnósticos dos casos individuais e conhecimento da evolução da pandemia para fins de saúde pública, sendo que o acesso à possibilidade de fazer testes faz parte do processo de garantir a confiança do cidadão no sistema de saúde, recomendou também o acompanhamento dos riscos de saúde mental, e o papel dos empregadores nesse acompanhamento. E para a população reformada recomendou que se vá relembrando o risco de contaminação por pessoas assintomáticas, sugerindo que quem tem mais de 60 anos evite aglomerações ou situações em que não consigam manter a distância física, sugere também que usem máscaras sempre que estejam fora de casa e em locais de grande circulação de pessoas (como mercados e supermercados). Mas também recomendam que o estado assegure que cada pessoa tem disponível uma máscara cirúrgica, por dia, para que possam sair de casa nos seus afazeres normais. 

Uma das características da pandemia é a diversidade de situações que acarreta – desde sem sintomas até complicações graves, diversidade essa que também existe na população idosa (digamos, mais de 60 anos), e que faz com medidas transversais para este grupo sejam problemáticas. Os diferentes graus de autonomia e de capacidade de gestão do dia a dia são mais acentuados nesta população, e têm de ser considerados – desde as pessoas que estão acamadas em casa ou em instituições, até aos que com idade avançada possuem plena autonomia de vida.

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
22 a 28 de maio20635241
29 maio a 4 junho25926285
5 de junho a 11 de junho28942331
12 de junho a 18 de junho25952311
19 de junho a 25 de junho25775332
26 de junho a 2 de julho28768355
3 de julho a 9 de julho28781368
10 de julho a 17 de julho25572327
18 de julho a 23 de julho18447231
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
22 a 28 de maio1353373
29 maio a 4 junho1247061
5 de junho a 11 de junho740462
12 de junho a 18 de junho342772
19 de junho a 25 de junho442670
26 de junho a 2 de julho547873
3 de julho a 9 de julho850173
10 de julho a 17 de julho546967
18 de julho a 23 de julho444362
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta: é perigoso usar o ar condicionado ou uma ventoinha para refrescar dentro de casa? Se estiverem apenas as pessoas habituais da casa, e o ar condicionado introduzir ar exterior (não for apenas recirculação de ar interno), então não tem grande risco. Se houver visitas em casa (poucas, obviamente), então é melhor não ter nada disto em funcionamento – nunca se sabe se uma das pessoas de fora estará assintomática e a transmitir o vírus, que o ar condicionado ou a ventoinha podem “atirar” para cima de uma pessoa saudável. Ou seja, se sozinho em casa, então não há grande risco; com mais gente, é melhor abrir janelas nas noites de verão quente.

Esperança da semana: a utilização bastante generalizada de máscaras que se observa – nas ruas, nas praias, nos supermercados, nos transportes, nas bombas de gasolina, e por ai fora. Há também a versão “nariz de fora”, mas até tem sido pouco comum.

A adaptação de comportamento (máscaras, lavagem de mãos e distanciamento físico) tem sido o “medicamento” mais seguro na limitação da propagação do vírus. O reconhecer deste esforço coletivo deve ser feito.