Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time

Comentários ao Plano Costa Silva (11)

Deixe um comentário

O Plano dedica uma subsecção a “Infraestruturas de transporte e mobilidade”, em que se fala da construção de infraestruturas (físicas) como “alavanca da economia nacional”, o que provavelmente será o caso, mas então parece-me que se está novamente no “modelo de baixos salários” que se queria evitar? Por outro lado, a construção de infraestruturas é provavelmente a forma mais rápida de retomar alguma atividade económica – o que se mostra a necessidade de uma visão integrada de todos os elementos da economia, e como se conjugam, o que não sucede de forma completa neste Plano. Basta pensar se que a construção de infraestruturas é uma “alavanca”, então é possível que o investimento privado se dirija para a construção (afinal, é onde vai estar dinheiro), e como tal não se investe nas biotecnologias e no mar. Não contesto, de todo, a importância de infraestruturas de qualidade para o transporte público e para uma nova mobilidade citadina – a prazo, serão importantes quer para lidar com uma população envelhecida mas que se pretende ativa, e com a capacidade de atrair e reter jovens profissionais em áreas de ponta (com elevado valor da produtividade, e logo salários elevados). O comentário é que essa visão de conjunto tem que estar presente, para se perceber em que ponto da estrutura económica se pode criar maiores efeitos de “arrasto” do resto da economia e efeitos alinhados com a visão estratégia global para a recuperação económica e crescimento de longo prazo. (claro que é mais fácil juntar estas palavras todas do que realmente apresentar essa visão, só que antes de passar a planos concretos, é crucial conseguir ter e transmitir essa visão de integração).

Seguem-se alguns parágrafos, cada um dedicado a um tema, sem grande concretização:  infraestruturas ambientais e de energia, transição digital , consolidar o Serviço Nacional de Saúde (que tratarei num comentário próprio, em mais detalhe); reconversão industrial, com retomando as ideias de clusters. Curiosamente, pensei a dada altura que o Plano se orientaria mais para competências – independentemente do setor onde se aplicam – do quem em setores, uma vez mais. A tentativa de adivinhar sempre um futuro através de identificação de sectores dificilmente consegue ser evitada neste tipo de documentos. Parece-me mais interessante que as políticas públicas ajudem, ou não atrapalhem, elementos que levem a novos modelos de produção ou a experimentação de novos modelos de negócio, do que dizer que o futuro da economia portuguesa passar pelas plataformas logísticas, tratamento de resíduos, economia circular, mar, etc…(há 12 áreas “magnificas” identificadas).

Nesta parte da renovação empresarial fala-se, corretamente, da necessidade de introduzir mais prática de investigação e desenvolvimento e consequente inovação nos setores tradicionais. Embora também aqui sinta a falta de alguma informação mais sobre as ideias que o Plano quer colocar para discussão. Apoiar todos os sectores ao mesmo tempo significa que não se irá apoiar nenhum de forma consistente. Ou então é criar instrumentos de apoio, e cada sector é apoiado na medida em que se consiga mostrar mais capaz de os aproveitar (cada empresa em termos absolutos dos resultados que poderão obter, e em termos relativos face ao que as outras empresas apresentam). Em concreto, a discussão de “incentivos” deveria fugir ao tradicional efeito subsídio – sobretudo evitar que haja projetos de investimento que apenas são rentáveis enquanto durar o subsídio público, desejavelmente os incentivos deveriam ter um elemento associado com o desempenho conseguido (e não apenas com a “execução de verbas”, forma elegante de dizer que desaparece o dinheiro sem que nada mude), como é estes “incentivos” contribuem para a capitalização das empresas portuguesas, como contribuem para a internacionalização, que “barreiras” permitem ultrapassar que não seriam ultrapassadas se não houvesse os “incentivos”, como é que os “incentivos” contribuem para uma melhor qualidade de gestão das empresas nacionais (em vez de apenas para uma melhor capacidade de exercer influência para receber os incentivos)? 

A dado ponto do Plano (p.45) são referidas 11 empresas (e “muitas mais”) como exemplos empresariais de desenvolvimento e crescimento com base na ciência e tecnologia. Para estes exemplos, seria muito interessante saber uma decomposição do seu sucesso entre esforço do empresário/empresa, sorte no mercado, mecanismos de política industrial gerais e “visão estratégica do sector público” específica. 

Decorrente desta discussão surge então a “dinamização de um cluster do hidrogénio em Portugal”. Este aspeto específico tem tido discussão na praça pública, pelo que não sinto especial vocação para comentar adicionalmente tirando o comentário geral de esta dinamização dever ser “remover barreiras” e não “promover taxas de retorno elevadas e sem risco” via subsídios artificiais – ou seja, a haver apoios, porque é que os fundos para esta “dinamização” têm maior taxa de retorno que dirigir os fundos para outras alternativas de aplicação.

Surge também a discussão sobre os “recursos minerais estratégicos”, com enfoque nos que estão no “mar profundo”. De toda a discussão sobre a utilização destes recursos, e sobre a sua extração, fiquei com duas grandes questões por resolver, a que o texto do Plano não dá resposta: a) fazemos apenas extração ou o Plano prevê que em cima destes recursos minerais se cria valor acrescentado? b) será que o desenvolvimento desta “extração” pode colocar desafios ao desenvolvimento de novas tecnologias de uma forma que crie efeitos mais gerais, que desafios para a engenharia e outras áreas?

No campo seguinte, da transição energética, nada de novo a assinalar, dentro da lógica da transição para a “economia verde”. 

O tópico seguinte é sobre a coesão do território, a dúvida principal que fica é sobre como lidar com o problema de aglomeração natural de atividades económicas criarem desequilíbrios geográficos internos na distribuição de empresas e pessoas. Não é possível todas as zonas terem todas as atividades produtivas – que equilíbrio se pretende ter entre diversificação geográfica e economias de escala, por um lado, e entre concentração geográfica e solidariedade interna entre regiões? E voltamos à necessidade de uma visão de conjunto – se é escolhido dar “incentivos” para algumas atividades, se estas atividades têm de ser desenvolvidas por empresas suficientemente grandes para terem economias de escala e assim serem competitivas nos mercados internacionais, para o que precisam de elevada produtividade (que trará consigo salários mais elevados), a diversificação regional poderá não ser possível, e neste caso são os apoios públicos podem gerar desigualdades regionais na criação de riqueza, que terão depois de ser compensadas com alguma forma de redistribuição. E claro dar apoio a algumas atividades significa não dar a outras, pelo que haverá mais crescimento de emprego numas zonas no que noutras “Isto anda tudo ligado” 

E inevitavelmente, ao falar do território, não se deixaria de falar do turismo no interior do país como elemento do desenvolvimento local. Num contexto atual de menor mobilidade global do turismo, o que será o papel deste turismo? Sobretudo turismo interno, como se viu na “enchente do Gerês” deste Verão?  A capacidade do turismo interno ser sustentável depende naturalmente de como a economia se comportar.

No caso da agricultura, chamou a atenção de se falar de uma medida muito concreta “o reforço de financiamento em iniciativas como a do Centro Fraunhofer Portugal dedicado à agricultura de precisão”. Não conheço o que faz este centro, mas a predisposição para ter identificação de necessidades (encontrar soluções para problemas) a serem colocadas ao sistema científico e de inovação é uma forma promissora – haverá certamente iniciativas a conhecer na relação universidade / agricultura nas universidades do interior (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Universidade de Évora, Universidade da Beira Interior) e nos Institutos Politécnicos. Desde que a aposta no sistema científico de base universitária não seja apenas a proposta Universidade do Atlântico (ou haverá fundos para todos?). 

Embora não seja dito, há o risco de se reforçar a divisão entre interior rural e litoral tecnológico, mas se pretendendo-se mudar indústria para o interior, perde-se terreno agrícola. E se as explorações agrícolas tiverem que aumentar a sua dimensão média (nada é dito quanto a isso no documento), não haverá a consequência de ainda menor densidade populacional a prazo? Ou estará na “deslocalização interna” de serviços, nomeadamente os que possam ser prestados à distância, (e não produção de bens) a forma de manter ou aumentar a população nas zonas do interior? O quadro global de equilíbrio geral da economia e da população não é todo claro, e medidas tomadas com base em abordagens parciais podem facilmente ter efeitos inesperados.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

Deixe um momento económico para discussão...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s