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gabinete de crise, radio observador – vivendo com o coronavirus (47)

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com algum atraso, aqui ficam mais duas semanas do Gabinete de Crise, referentes à semana terminada a 31 de Julho e à semana terminada em 7 de agosto.

Semana de 31 de Julho:

Número da semana: 0,9 – valor abaixo do qual tem estado o famoso Rt, o número médio de casos secundários por nova infeção, nas últimas duas semanas. É um dos sinais importantes de ter finalmente uma tendência negativa no surgimento de novos casos. A referência é estar abaixo de 1, e estar abaixo de 0,9 é então um bom sinal.

Embora a pandemia nunca estivesse fora de controle, no sentido em que o SNS teve sempre larga capacidade de resposta disponível, ficamos todos muito mais descansados por perceber que o famoso planalto das discussões passou a ser uma rampinha negativa nas últimas semanas, em vez da rampinha positiva que surgiu depois do início do processo de desconfinamento.

Análise da semana – felizmente, nada de novo, os vários indicadores de pressão sobre o SNS (novos casos, internados, internados em UCI e óbitos) mantiveram a sua trajetória descendente.

Temos que começar a perceber melhor os comportamentos individuais e como evoluem. Dois exemplos rápidos – distanciamento físico de pelo menos 1 metro – no início de abril, cerca de 65% dos portugueses inquiridos (num estudo comparativo internacional referido aqui noutros programas) disse respeitar, baixou para 55% dois meses depois, no início de junho. E este foi um padrão geral nos países do estudo (Alemanha, Holanda, Itália, França, Dinamarca, Reino Unido e Portugal). O mesmo acontece quando se fala em beijos e abraços– menos pessoas dizem agora evitar. 

E voltando ao uso de máscaras, Portugal é o país, destes 7, onde mais pessoas dizem ser provável ou muito provável usar máscara em local público e quando recomendado pelas autoridades de saúde (96%), e é muito diferente na Dinamarca (apenas 64%). E já agora, Alemanha e Holanda 80%, Reino Unido 83%, França 86%, Itália 91%. No Sul parece existir mais predisposição para usar máscaras – é uma questão de terem sido mais atingidos pela pandemia (França e Itália), ou sociologicamente são “zonas demarcadamente diferentes”?

As máscaras de que já falamos aqui várias vezes levaram também a comportamentos que ajudam a reduzir o contágio – normalmente falamos nas máscaras como forma de conter as partículas, mas encontramos duas outras formas pelas quais podem contribuir para contrariar a covid-19. Uma é tecnológica – esta semana falou-se na certificação de uma máscara portuguesa que tem um tratamento que permite inativar o vírus que contacte com a máscara. Pode ser o princípio de tecnologias para tecidos que sejam usados de forma mais geral. Outra é de comportamento – as pessoas com máscara levam menos vezes as mãos à cara (nariz, boca, olhos) – artigo saído há 2 dias no Journal of the American Medical Association. 

Alerta: qual será o comportamento sazonal do contágio da covid-19? Temos ainda muitas incertezas, embora o que se passa na Austrália seja importante – estão agora no inverno, nas regiões mais a Sul, e houve um reacender de contágios. Há ainda muita incerteza sobre o papel que a humidade do ar possa ter (transmissão mais fácil em tempo frio mas seco) ou sobre se é resultado de as pessoas passarem mais tempo em espaços fechados. É da biologia (humidade) ou do comportamento humano (mais tempo juntos). 

Daqui até ao final do Verão iremos ter mais informação dos países que neste momento estão a passar pelo inverno. O alerta é que se tenha atenção às informações que forem surgindo, até porque é provável que haja notícias falsas ou enganosas, pelo menos, como tem sucedido ao longo dos últimos meses.

Esperança da semana: o retomar de mais destinos e origens de viagens aéreas, com regras adicionais para a realização de testes, decidido ontem (dia 30 de julho). É esperança no retomar de circulação de pessoas, importante para famílias, mas também para o turismo. É esperança por haver condições de viagem ligadas à realização de testes, para que se evitem casos importados de covid-19, ou pelo menos se minimizem e controlem rapidamente essas “importações” não desejadas. Por exemplo, na Nova Zelândia, os casos mais recentes têm sido todos importados, que ao serem detetados levam a que se quebre a cadeia de transmissão. 

Semana de 7 de Agosto

Número da semana: 20 – número de pontos percentuais de diferença na redução de ansiedade (diferente de preocupação ou seguir noticias) reportada em dois inquéritos, que cobriam também pessoas com 60 anos ou mais (início de abril e inicio de junho). Ou seja, do início de abril, no pico do nosso desconhecimento e receios, até inicio de junho, um mês depois do desconfinamento, existiu uma redução na ansiedade com que as pessoas de mais idade olham para a pandemia. Em geral, e decorrente de toda a informação que vai sendo dada, atribuem-se um maior risco de virem a ter a infeção e de ter um problema de saúde, mas nem por isso estão mais ansiosas que as pessoas mais novas. E curiosamente a redução da ansiedade foi notória na população com 60 anos ou mais, mas não tanto na população mais nova (o retomar trabalho presencial poderá ter substituído uma fonte de ansiedade por outra?).

Análise da semana – olhando para os números da semana “Gabinete de Crise”, a semana que passou foi a melhor desde que começamos a fazer este acompanhamento de valores, a 8 de maio (que parece já ter sido há tanto tempo) – em Lisboa finalmente consolidou-se uma tendência de redução de novos casos, em média semanal, com uma estabilização no resto do país. Estamos, globalmente, numa situação melhor do que sucedia quando saímos do confinamento. Também o número de pessoas internadas, em UCI e de óbitos tem mantido uma tendência para baixar. 

Não é de menosprezar esta situação, uma vez que o estamos a conseguir sem o fecho da sociedade e da economia que ocorreu de meados de março ao início de maio. 

De algum modo, podemos dizer que estamos realmente a aprender a viver com o vírus. Tem sido uma expressão que já usamos algumas vezes, e que se mantivermos esta realidade de hoje, será um sinal muito positivo. Tanto mais que é um resultado de todos – autoridades de saúde, profissionais de saúde, e sobretudo de todas as pessoas que têm respeitado e procurado que se respeite as novas cautelas de higiene (lavagem de mãos) e de distanciamento. 

Também vimos que vão surgindo surtos, aparentemente detetados de forma rápida. E assim terá de continuar a ser. Alguns desses surtos têm sido em lares de idosos, mas como temos visto noutros países, certo tipo de instalações fabris também surgem como “hotspots”.

O conselho cientifico para a COVID-19 de França fez, a 27 de julho, várias recomendações: a necessidade de manter a capacidade informativa das autoridades de saúde, ver os testes na dupla perspectiva de diagnósticos dos casos individuais e conhecimento da evolução da pandemia para fins de saúde pública, sendo que o acesso à possibilidade de fazer testes faz parte do processo de garantir a confiança do cidadão no sistema de saúde, recomendou também o acompanhamento dos riscos de saúde mental, e o papel dos empregadores nesse acompanhamento. E para a população reformada recomendou que se vá relembrando o risco de contaminação por pessoas assintomáticas, sugerindo que quem tem mais de 60 anos evite aglomerações ou situações em que não consigam manter a distância física, sugere também que usem máscaras sempre que estejam fora de casa e em locais de grande circulação de pessoas (como mercados e supermercados). Mas também recomendam que o estado assegure que cada pessoa tem disponível uma máscara cirúrgica, por dia, para que possam sair de casa nos seus afazeres normais. 

Uma das características da pandemia é a diversidade de situações que acarreta – desde sem sintomas até complicações graves, diversidade essa que também existe na população idosa (digamos, mais de 60 anos), e que faz com medidas transversais para este grupo sejam problemáticas. Os diferentes graus de autonomia e de capacidade de gestão do dia a dia são mais acentuados nesta população, e têm de ser considerados – desde as pessoas que estão acamadas em casa ou em instituições, até aos que com idade avançada possuem plena autonomia de vida.

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
22 a 28 de maio20635241
29 maio a 4 junho25926285
5 de junho a 11 de junho28942331
12 de junho a 18 de junho25952311
19 de junho a 25 de junho25775332
26 de junho a 2 de julho28768355
3 de julho a 9 de julho28781368
10 de julho a 17 de julho25572327
18 de julho a 23 de julho18447231
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
22 a 28 de maio1353373
29 maio a 4 junho1247061
5 de junho a 11 de junho740462
12 de junho a 18 de junho342772
19 de junho a 25 de junho442670
26 de junho a 2 de julho547873
3 de julho a 9 de julho850173
10 de julho a 17 de julho546967
18 de julho a 23 de julho444362
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta: é perigoso usar o ar condicionado ou uma ventoinha para refrescar dentro de casa? Se estiverem apenas as pessoas habituais da casa, e o ar condicionado introduzir ar exterior (não for apenas recirculação de ar interno), então não tem grande risco. Se houver visitas em casa (poucas, obviamente), então é melhor não ter nada disto em funcionamento – nunca se sabe se uma das pessoas de fora estará assintomática e a transmitir o vírus, que o ar condicionado ou a ventoinha podem “atirar” para cima de uma pessoa saudável. Ou seja, se sozinho em casa, então não há grande risco; com mais gente, é melhor abrir janelas nas noites de verão quente.

Esperança da semana: a utilização bastante generalizada de máscaras que se observa – nas ruas, nas praias, nos supermercados, nos transportes, nas bombas de gasolina, e por ai fora. Há também a versão “nariz de fora”, mas até tem sido pouco comum.

A adaptação de comportamento (máscaras, lavagem de mãos e distanciamento físico) tem sido o “medicamento” mais seguro na limitação da propagação do vírus. O reconhecer deste esforço coletivo deve ser feito.  

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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