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webinar da Ordem dos Médicos – vivendo com o coronavirus (45)

A semana passada, sexta-feira 17 de julho, participei no 𝗪𝗲𝗯𝗶𝗻𝗮𝗿 “Economia da Saúde: Oportunidades e Desafios numa Nova Era, a convite da Ordem dos Médicos. Foi uma boa troca de impressões, com Adalberto Campos Fernandos, Carlos Cortes e Miguel Guimarães (a sessão pode ser vista no link acima).

Não houve oportunidade de responder a muitas das perguntas e dos comentários durante a sessão, pelo que irei tratar aqui alguns deles, com base nas notas tomadas durante a sessão, sem nenhuma ordem especial.

1- Será que os profissionais de saúde estarão disponíveis para eventuais novos sacrifícios numa segunda vaga de infeção? 

Não é fácil adivinhar o que sucederá, embora sempre que houve necessidade de apelar ao sentido de missão dos profissionais de saúde em situações excepcionais, a resposta foi positiva. Assim, a presunção é que sim, que estarão disponíveis.

2- Copiando diretamente do chat, “Saúde a quanto obrigas?: mais dinheiro? [sim, mas sem saber atribuído cegamente], mais competência técnica de gestão? [sim, definitivamente uma área a melhorar]  mais inovação transversal? [sim, mas não é a primeira prioridade]  mais aprendizagem learning by doing?  [sim, associada a mecanismos de aprendizagem cruzada dentro do SNS] Mais adaptação (digital based)?  [sim, melhor aproveitamento das oportunidades digitais] Ou sobretudo mais Profissionais de Saúde a gerir a complexidade da situação values patient oriented? [não vejo que o mero aumento do número de profissionais de saúde, sem alteração dos outros elementos atrás referidos, fosse suficiente]

3O PPBarros é neste caso o paciente? Ou um mero utente SNS em ambiente economicopandemico? [utente SNS]

4- Ainda se justifica a tradicional abordagem de separação entre: Primary Care/Secondary Care

Tertiary Care? 

sim, ainda se justifica, quanto mais não seja porque seguem mecanismos de pagamento (financiamento das organizações) suficientemente diferentes. Mas o que a pergunta pressupõe é se esta é uma distinção que se manterá relevante no futuro. A minha resposta é provavelmente sim, manter-se-ão como entidades distintas, sem prejuízo da necessidade de assegurar a continuidade de cuidados prestados. Também será de esperar que cada organização tenha evoluções onde as fronteiras associadas a esta classificação se esbatem (basta pensar que os cuidados de saúde primários venham a ter alguns meios de diagnóstico e que a hospitalização domiciliária se expanda, para que haja alguma convergência nas margens da atividade de cada nível de cuidados).

5- como devemos auditar as gestões hospitalares?

É possível criar mecanismos de avaliação da gestão hospitalar, incluindo com uma componente quantitativa da qualidade de gestão. Esse trabalho foi iniciado noutros países. Também pode ser realizado em Portugal se houver disponibilidade das entidades para o efeito. Até agora, apesar de um par de tentativas nesse sentido, não houve abertura ou interesse em fazer essa avaliação. Mas acabará por ser feito um dia. (para ver um exemplo dessa avaliação internacional, é procurar os trabalhos de Carol Propper)

6- É verdade que os médicos não gostam de deixar o SNS, mas infelizmente a desorganização, a má gestão e pouca otimização dos recursos desmotiva os médicos e outros profissionais de saúde que se cansam pela exaustão. e por vezes acabam por serem mobilizados para o privado. Como devemos resolver este grave problema… de que forma devemos manter o NOSSO SNS saudável com o melhores profissionais?

É necessário uma nova política interna do SNS para lidar com os profissionais de saúde. A lógica de “command & control”, de muito valor dado à hierarquia, tem que se alterar, para encontrar espaço e flexibilidade para que diferentes caminhos profissionais possam ser experimentados. A recompensa do mérito, e a procura de soluções para o menor desempenho, têm que ser procuradas de forma ativa. A gestão tem que ser verdadeiramente gestão de longo prazo das competências e anseios dos profissionais de saúde (e nem tudo se resume a maior remuneração).

7- Para os profissionais de saúde esta resposta significou um grande esforço até por necessidade de conciliação entre o trabalho e cuidado permanente aos filhos–não será de aproveitar para repensar vínculos, flexibilização de horários etc?

Ver a resposta à questão 6.

8- Como desenvolver nos Sistemas Nacionais de Saúde (pós pandemia), uma “nova onda” de “Complex Transformation” englobando:

clinical and information technology,  managerial and leadership skills,  ensure the optimal delivery of healthcare? Sem effective management, a coordenação em healthcare não é possível…

Não tenho uma resposta clara. Mas certamente há que aproveitar este momento de experiência e de desequilíbrio para melhorar a gestão no SNS.

9- A semana de 4 dias, será que corresponde às necessidades?

Não sei. Depende da produtividade em 4 dias versus em 5 dias, havendo, ou não, emprego adicional para compensar a redução dos 5 para os 4 dias. É pelo menos uma ideia que vale a pena explorar de forma controlada em algumas atividades, para se aprender como a sociedade se ajusta.

10- E as listas de espera dos doentes oncológicos cirúrgicos? Não deveríamos dar prioridade ao tratamento cirúrgico destes doentes, em vez de tratar tantos doentes benignos? Se temos tantos doentes à espera, porque não optimizamos os recursos físicos e humanos que temos (relembro a problema do hospital dos Covões – CHUC que está subaproveitado!)? Não nos esqueçamos que tem morrido muito gente devido à pandemia, mas não por COVID-19… Não deveria haver mais transparência periódica (e de fácil acessibilidade) de todos estes outcomes e da gestão das instituições de saude (3/3 M ou 6/6 M)? A autonomia qb é necessária, mas tem de ser auditada.

Há aqui diferentes aspectos a considerar. Desde logo, a questão de qual o “custo de oportunidade” das decisões atuais – o que se deixa de fazer e onde, que implicações tem utilizar recursos num lado e não noutro. Vão ter que ser feitas escolhas, inevitavelmente, e que terão custos em termos do que se deixa de alcançar em termos de saúde da população.

11- Obrigado pelo debate. Como aproveitar as sinergias entre os setores público, privado e social para recuperar as listas de espera, com transparência?

A resposta de um economista é: contratos bem especificados, de acordo com as necessidades sentidas, e a que possam concorrer todos em condições de igualdade. Esta resposta “choca” com a visão de que o recurso ao sector social pode ser aceitável (sector social = sector privado sem fins lucrativos explicitados), mas recorrer ao sector privado (com fins lucrativos) é “destruir o SNS”. Mas se pusermos os interesses dos doentes em primeiro lugar e se for procurar os melhores mecanismos para alcançar objetivos assistenciais, deverá ser quase inevitável o recurso ao sector privado (com e sem fins lucrativos). 

12- A investigação é crucial…. e a boa investigação é importante para a nossa economia! Mas infelizmente, esta não é uma prioridade para os nossos gestores. Como deveremos contornar este problemo?

Criar mecanismos que permitam aos gestores recolher ganhos da investigação que apoiam ou promovam.

13- As queixas dos doentes em relação à dificuldade de desconfinamento dos médicos de família tem alguma razão de ser?

Não sei a resposta. 

14- O Dr. Cortes tem razão em aludir à ineficácia dos serviços informáticos. Terá uma ideia das causas que o afetam?

Não tenho uma lista completa. Mas à cabeça coloco: internamente, frequentemente os programas não têm suficientemente contributo/teste/experiência de quem os usa; externamente, a interoperabilidade entre sistemas de informação não é suficientemente cuidada. 

15- A “integração de cuidados”, enquanto expressão, está tão esvaziada como “o superior interesse da criança” – neste momento significa zero e, do meu ponto de vista, terá forçosamente substituída pela “continuidade de cuidados”


Totalmente de acordo.

16- Quando fala na integração dos serviços sabe que para  que funcione é preciso dispor de serviços informáticos capazes. Não o referiu. Porquê?

Porque não me lembrei. É certamente uma condição necessária para que possa funcionar. 

17- Numa primeira fase de resposta houve pouca solidariedade entre os diferentes  hospitais, como melhorar o comportamento de rede para o futuro?

Partilha imediata das experiências de cada um, para que se possa conhecer o que andam a fazer. Ou se for pretendido dar um sinal agora, muito claro, dar uma “recompensa” a quem teve melhor comportamento de rede, criar a sensação de que vale a pena ter cooperação na rede do SNS. Com visibilidade interna e externa dessa “recompensa”. Para definir o que deve ser essa recompensa, a minha sugestão é falar com os hospitais que melhor comportamento de rede tiveram e perguntar-lhes o que valorizam receber como “recompensa”. 

18- Sou médico no CHUC. hospital  que se encontra num processo turbulento da sua identidade” gostaria de que me explicassem  se é possível nessa altura encerrar serviços essenciais num dos polos sem um ” arranjo satisfatório para os receber no outro polo? Nessa fase da pandemia acham que é sensato fazer isso nessa altura ?

A minha impressão é que as relações dentro do CHUC já têm estas tensões de “pólos” há algum tempo. Honestamente, sem uma análise detalhada da situação concreta, não consigo ter opinião formada. Certo é que dada a proximidade entre pólos, ou o mais pequeno assume uma vocação sobretudo local, ou não faz sentido ser um “gémeo” (e será preferível que até desapareça se todas as necessidades puderem ser satisfeitas no ponto central, sem necessidade real de pólos). Se a visão for de ter serviços sobretudo de proximidade, então deveria ser pensada a independência do pólo (pensar centralmente quando a intervenção é eminentemente local, mesmo que ao nível da região, normalmente significa não recolher as vantagens de conhecimento associadas à proximidade para uma melhor intervenção junto da população). Numa versão mais sintética, e com apelo histórico, “independência ou morte”.

19- Houve muito trabalho que foi feito localmente nos hospitais, com pouca coordenação nacional, ao nível de montagem dos circuitos dos doentes, auditoria aos planos de contingência activados etc. A quem cabia este trabalho?

Não vejo mal que os hospitais se juntem e decidam como fazer essa coordenação nas suas zonas geográficas relevantes. A necessidade de reação rápida não é compatível a meu ver, com a criação de grupos de trabalho que façam propostas de montagem de circuitos dos doentes, que depois terá de ter um outro grupo de trabalho para implementação. Aqui, é confiar que a autonomia de gestão pode funcionar mais rapidamente e melhor que qualquer mecanismo centralizado.

Para a auditoria, deverá ser feita por entidade central do Ministério da Saúde. 

20- E programas de qualidade com capacitação dos profissionais?

Sem dúvida. Apenas em aberto se devem ser preparados diretamente pelo Ministério da Saúde (centralmente) ou por cada organização. Provavelmente uma situação mista. Alguns elementos dos programas de qualidade deverão ser transversais e comuns a todos, e preparação central faz sentido; noutros casos, pode haver necessidade de capacitação específica à atividade local da organização (populações especiais, problemas de saúde com maior expressão, etc.). Faz parte da boa gestão (que falta) e é parte integrante do que noutra resposta designei com “lidar com os profissionais de saúde”. 

21- Boa noite e um cumprimento amigo a todos.  Gostei de vos ouvir, mas deixem-me que lance aqui um pouco de confusão (e cinismo). O nosso SNS comportou-se muito bem nesta situação, mas porque tivemos a sorte de que a pandemia não nos atingiu com a intensidade que atingiu outros países (Espanha, Itália, RU, p.e) De fato, nós estivemos sempre muito longe de atingir a saturação em ocupação de camas e a grande maioria dos profissionais de facto esteve “de férias”, porque tudo o resto parou. E agora vamos pagar caro por isso. As listas de espera nunca mais vão ser recuperadas e já é notícia hoje que muita gente está a morrer por falta de cuidados noutras áreas patológicas, quer porque os serviços estiveram parados, quer porque os doentes não os procuraram. E nem quero pensar no caos que eventualmente irá surgir daqui a uns meses se houver nova vaga pandémica…

Este é um “bom problema” por assim dizer, visto à posteriori. Com a informação disponível no inicio de março, não ter parado parte da atividade normal, e ter ido atrás, de forma ativa, dos doentes que preferiram afastar-se, poderia ter resultado muito mal se tivesse ocorrido sobrecarga do SNS. A boa situação conseguida não é independente de se ter tido menor carga de outros doentes. Agora, hoje, com mais informação é possível planear de forma diferente e fazer um balanço diferente. Calculo que se a atividade normal não tivesse tido  um travão e tivéssemos tido um SNS a “rebentar” e com infeção COVID-19 generalizada nos hospitais, e a contagiar doentes com outras patologias, provavelmente estaríamos hoje a lamentar não ter parado parte da atividade normal. Ou seja, na verdade não sabemos o que é o contrafactual das decisões tomadas. Dito isto, concordo que no momento atual, há que dar atenção à recuperação da atividade normal, enquanto se mantém alerta sobre a evolução da pandemia. E tempos novos podem pedir soluções novas. 

22- Dado o actual cenário que nos fala em mudança, não deveríamos pensar num comportamento organizacional diferente? Mais custo-efectivo e sem ser focado em consultas 1:1 e só numa classe mas, privilegiar outras intervenções como grupos ou a integração vertical de cuidados com os cuidados de saúde primários, isto na vertente da maximização das estruturas existentes? 

Nas atuais condições, é de aproveitar para não só pensar como testar modelos organizacionais distintos, com mudanças até de cultura organizacional que alguns modelos possam induzir. O testar de novos modelos organizacionais deverá ser feita rapidamente, para aproveitar a disponibilidade mental atual para o fazer, fazer em pequena escala, avaliar imediatamente e espalhar caso sejam bem sucedidos (e fechar caso não apresentem vantagem). O único reparo é a integração vertical de cuidados – nem sempre a complexidade acrescida dessa integração vertical em termos funcionais é compensada pelos ganhos, ou é melhor que formas alternativas de alcançar o mesmo resultado de integração vertical por outros mecanismos (contratos e preços nas relações verticais são, em determinadas condições, uma alternativa à integração funcional). 

23- Ao mesmo tempo, vocacionar os serviços para entreajuda de profissionais (situações de burnout) contemplar na organização hospitalar de grupos de intervenção (Balint)?

De acordo. Nada a acrescentar.

24- Lamento que nunca se refira a prática médica privada,  que teve de parar durante a pandemia, passando os médicos a dedicar-se exclusivamente ao SNS, com toda a dedicação. E que agora retomam o seu compromisso com os seus doentes, com quem tinham responsabilidades. Faz parecer que a medicina privada não conta, do ponto de vista clínico, científico, de qualidade. Tem o mesmo valor. Paga impostos. Enfim, a Ordem dos Médicos é de todos os médicos. E quem está  nos dois lados contribui duplamente, ao contrário do que muitos pretendem difundir.

O debate centrou-se no SNS, porque foi o ponto central de resposta à COVID-19. No caso do sector privado, teve vários pontos de choque: nos profissionais de saúde (que tiveram que virar todas as suas atenções para o SNS), nos doentes (que reduziram a sua procura), numa preparação para eventualmente suplementar o SNS se fosse necessário (não foi, e alguma tensão que começou a existir dissipou-se). Também interpreto o “recato comunicacional” do sector privado e do seu papel como uma forma de não criar “ruído” desnecessário na resposta à pandemia.

25- Sou médico tenho falado com muitos colegas de vários hospitais . Quase todos estão desiludidos com a gestão no hospital onde trabalham situação que vem muito antes da pandemia e que se agravaram agora.

Esse é problema de décadas. Lembro-me de em 2012, no primeiro ano da troika, se ter feito uma auscultação  nos serviços de saúde e ter-se encontrado a mesma reação – desilusão com a gestão em tempos de crise, que agrava o sentimento que vinha de trás. A qualidade da gestão no SNS, a vários níveis, necessita, há muitos anos, de um impulso positivo. 

26-  De que forma (ponto de vista económico e impacto no investimento da saúde) podemos esperar algum cenário desfavorável e como preparamos para as recentes mudanças nas estruturas políticas europeias, por exemplo no Eurogrupo.

A União Europeia tem planeado dar uma atenção maior à área da saúde em geral, no plano de recuperação económica que está a ser montado. De momento, tudo aponta para termos um cenário mais favorável, em termos de investimento, do que estava previsto antes da pandemia.

27- Como podemos incentivar as gerações mais jovens de médicos para ter uma atitude mais participativa na governação dentro da saúde. 

Dando-lhes voz. Dando-lhes “trabalho” para fazer – pensar propostas, fazer a sua aplicação e fazer a sua avaliação. 

28- Que alterações no actual modelo de RRHH dentro da saúde podem influenciar uma melhor racionalização dos recursos económicos no futuro

Introduzir dois elementos: a) planeamento do percurso profissional com visão de longo prazo, adoptado a cada par médico – local (por exemplo, para quem for para unidades do SNS no interior, dar a possibilidade ao fim de 6 anos de ter um ano “sabático” numa instituição de saúde à sua escolha no espaço europeu); b) para as situações de menor desempenho, encontrar soluções alternativas de funções e/ou locais de exercício de funções, em vez de complacentemente deixar arrastar situações negativas. 

29- De que forma a Ordem poderá servir de ponte entre os médicos mais jovens que querem ter uma atitude mais participativa formando parte das soluções e propostas a medio e longo prazo?

Ver resposta à pergunta 27. 

30- O que é que o Dr Pita Barros nos poderá dizer sobre fusão de grandes hospitais como o que aconteceu em Coimbra sob ponto de vista custo beneficio?

Não posso dizer muito. As poucas avaliações realizadas que conheço indicam os centros hospitalares não geraram poupanças, e até levaram a aumentos de custos (deseconomias de escala). Um exemplo de estudo é: cost effects of hospital mergers in Portugal 

31- Relativamente ao financiamento, como é que a tutela (o Governo, nomeadamente o ministério das finanças) encara o encaminhamento de determinados impostos ou taxas directamente para o orçamento do Ministério da saúde? Exemplos. os impostos que incidem sobre o tabaco, bebidas espirituosas. certos alimentos menos saudáveis etc…

Essa é uma pergunta que tem que ser feita ao Governo. De qualquer forma, esses impostos se cumprirem o seu papel de alterar comportamentos nunca terão grande receita (porque precisamente pretendem reduzir as decisões que são penalizadas pelos impostos). Por isso, não será adequado que sejam encarados como fonte importante de financiamento das despesas públicas em saúde. 

32- Gostava de saber como vai ser possível o SNS responder ao grande a um possível aumento de doentes no SNS com as dificuldades sócio-económicas estão previstas e, consequentemente, a restrição orçamental familiar para recorrer à saúde privada.

Terá que responder, mas tenha-se em atenção que também alguns cuidados com pouco valor gerado, em termos de saúde, podem ser evitados e abrir espaço para outros cuidados com maior valor.

33- Sou médico interno da formação geral e concordo com a generalidade do que foi dito. Acrescentaria apenas que um dos aspetos que muitas vezes é esquecido é a literacia da população, não só para a saúde, como para a vertente política e económica. A meu ver, parte da solução para revitalização do SNS passaria por colaboração com o Ministério da Educação no sentido de reformar planos curriculares. Os nossos alunos são expostos a programas educativos desastrosamente desatualizados, excessivamente teóricos e desconectados dos reais problemas civis. Uma população iletrada na saúde é uma população que toma más decisões, que nos custam a todos.

A literacia em saúde é importante, mas não é a resposta “mágica” para tudo. Ainda assim, é certo que a educação para a saúde deverá ter uma revisão. 


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O fim das sessões no Infarmed – vivendo com o coronavirus (44)

Há cerca de duas semanas e meia, depois do relato público de alguma tensão no que ficou conhecido como sendo “as reuniões no Infarmed”, era previsível que estas terminassem.

A surpresa foi a rapidez com que tal sucedeu. Conhecendo estas reuniões apenas das declarações públicas que eram realizadas depois de cada uma delas, feitas por vários dos participantes, encontrava dois propósitos centrais para a sua existência.

Um propósito que reconheci nessas reuniões foi a transmissão de informação técnica sobre a evolução da pandemia aos partidos com assento parlamentar. O segundo propósito era a discussão com a equipa técnica que preparava essas reuniões. Para que o primeiro objectivo não fosse tido como mera acção de propaganda do governo, e como tal colocado na arena da luta política, era necessário que o próprio poder político, no caso representado pelos membros do governo e em certa medida pelo Presidente da República, estivessem na reunião também a ganhar conhecimento e eventualmente a colocar questões. Neste contexto, os dois propósitos que descrevi eram atingidos com uma única reunião. E permitia também um sinal politico para a população de união global de esforços. 

Manter esta situação é relativamente simples quando a informação transmitida é nova para todos e quanto as opções para a decisão política não são muitas, nem é fácil explicitar alternativas credíveis de atuação. 

Contudo, a partir de algum tempo, a novidade técnica das reuniões esvai-se de alguma forma, começa-se a ter que tomar decisões mais complexas no campo da política de saúde, como as decisões referentes à reabertura de atividades económicas e suas regras, lidar com a imposição de ritmos diferentes de aumento de mobilidade da população por zonas consoante os riscos de contágio, gerir opiniões dentro e fora das reuniões no Infarmed, etc.

A própria disponibilidade para uma “harmonia política” de resposta à pandemia vai-se diluindo. Instala-se no campo político o que decidi chamar de “fadiga política”. Ao fim destes meses, não é só a população em geral que tem algum cansaço mental com o processo de limitação de contágio. Também no campo político, a vontade do governo em mostrar que “tudo está a melhorar” choca com parte da realidade – no caso, o não se ter conseguido evitar uma tendência positiva de novas infeções, tendência pequena e ainda gerível no contexto do Serviço Nacional de Saúde, mas que tem estado presente.

Como esta evolução recente, no último mês e meio, resulta sobretudo do comportamento da população, e é dificilmente antecipável pelo governo, por qualquer governo, onde e como se poderá observar novos surtos de contágio, os caminhos de decisão política são bem mais incertos do que nos primeiros dias da pandemia. E como nesta fase a evolução dos comportamentos sociais pode facilmente fugir às “regras” que os modelos de previsão estatística estabelecem, a análise técnica não consegue ultrapassar essa incerteza. Quando uma epidemia está descontrolada, torna-se mais fácil encontrar previsões técnicas do que quando nos encontramos num contexto de surtos que são imprevisíveis quanto ao seu momento, dimensão e duração.

Esta incerteza técnica só aumenta a “fadiga política” do lado do governo.

Simultaneamente, do lado dos partidos da oposição, a passagem do tempo vai adicionando pressão a que mostrem em que domínios diferem do governo, escrutinando a ação deste e propondo alternativas. A “fadiga política” atinge também a oposição, e leva à procura da afirmação pela diferenciação.

Neste contexto, as reuniões no Infarmed, onde o governo coloque dúvidas e perguntas aos especialistas presentes, irão ser uma tentação crescente para passarem a ser parte da normal discussão política. Não se chegou a esse ponto, tanto quanto me apercebi, mas é uma previsão não muito difícil de fazer para o que teria sucedido caso as reuniões tivessem continuado nos mesmos moldes.

Como os dois objectivos que referi não desapareceram, o fim das reuniões no Infarmed significa que terão de ser encontrados outros processos, outros mecanismos, para serem atingidos esses objectivos. E será complicado fazê-lo.

As reuniões no Infarmed não tinham como objectivo o diálogo político entre o governo e os partidos da oposição. Logo, para o primeiro objectivo, de comunicação de informação sobre a evolução da pandemia aos partidos com assento parlamentar, não é difícil criar um sistema de comunicação que faça chegar essa informação, de modo a que seja recebida no mesmo momento e formato do que sucederia com a manutenção das reuniões no Infarmed. Poderá, e talvez deva, ser adicionada a possibilidade de os partidos políticos colocarem, por via digital (por exemplo gerida pela Assembleia da República), questões técnicas de clarificação a serem respondidas pelo grupo de investigadores e técnicas que preparou a informação. São obviamente necessárias algumas regras e disponibilidade das partes para que essa ligação seja útil mas não é certamente difícil estabelecer um modelo de comunicação que até seja mais clarificador do que o modelo apresentação-pergunta-resposta-declaração à saída da reunião. Veremos se o “mundo político” consegue ter também a sua transformação digital nesta componente de transmissão de informação.

O segundo objectivo, garantir uma interação regular entre o apoio técnico e o decisor político, é também fácil de assegurar por outros mecanismos, assim o governo os crie e utilize. Aliás, no atual contexto de maior incerteza sobre o que possa ser a melhor política a seguir em função da última informação disponível, creio que haverá vantagens em ter formas múltiplas de ouvir opiniões. Do grupo técnico a que o governo tem recorrido, mas também fora dele, para evitar um efeito de “bolha de opinião”. E face ao que tem sido publicamente expresso por vários médicos de saúde pública, parece que até faz sentido que o topo da hierarquia do ministério da saúde possa falar e ouvir diretamente quem está a fazer os contatos e o seguimento das cadeias de transmissão de contágio. Frequentemente as cadeias de transmissão de informação entre níveis hierárquicos perdem informação relevante (as hierarquias são menos eficazes que o vírus em estabelecer cadeias de transmissão). Há modos mais ou menos informais que podem ser usados para obter esse conhecimento direto, que de qualquer forma dificilmente surgiria numa reunião no Infarmed. 

Em conclusão, não há que ficar com saudades das reuniões no Infarmed. Tiveram o seu tempo e a sua função. Foram certamente muito úteis para todos os que nelas participaram, em condições que as justificaram. 

É agora tempo de outro tipo de interação entre políticos e técnicos. 


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Fadiga política

Na semana passada, no Gabinete de Crise da Rádio Observador, falamos da componente de gestão política, a propósito de uma reunião no Infarmed um pouco mais tens, e falamos em “fadiga política”. De uma semana para a outra, transformou-se em “implosão política” das reuniões do Infarmed.

Deixo aqui as minhas notas do Gabinete de Crise da semana passada, sendo que o próximo é já amanhã.

Número da semana: 19 freguesias da zona de Lisboa, que estão com tratamento diferenciado em termos de regime. É a dança do vírus em ação. Iremos provavelmente andar a fechar e a abrir zonas que experimentem surtos localizados, sobretudo quando não se consigam isolar logo as cadeias de transmissão. Desta vez está a ser na zona metropolitana de Lisboa. No futuro poderá ser em zonas de turismo, por exemplo. Até ter uma vacina será provável que se vá tendo esta dança de fechar e abrir em várias zonas. 

Em termos de evolução da situação, depois de duas semanas de alguma melhoria no número de novos casos, voltou-se a ter um certo crescimento em Lisboa (de 256 novos casos diários em média há duas semanas para 270 esta semana). Globalmente também o número de internados subiu na última semana. Por isso, as preocupações com a situação são justificadas, embora não seja ainda uma situação de alarme.

Ganhou destaque esta semana a componente política. Começou com o reporte de alguma tensão na reunião do Infarmed. A necessidade de certezas para a decisão política é difícil de obter com a atual informação – o “respirar” da sociedade não segue uma mecânica que seja fácil de modelizar de forma matemática com todo o rigor. E da mesma forma que assistimos a uma fadiga da população com o confinamento em geral, e uma fadiga dos mais jovens com a falta de socialização, é natural que possa haver uma “fadiga política” – a necessidade de ter boas novidades para apresentar não é necessariamente compatível com uma “maratona” de resposta ao vírus – que será tanto mais maratona quanto mais bem sucedida for sendo essa resposta. Não é só cá em Portugal que temos essa “fadiga política” – na Nova Zelândia conseguiram ter vários dias sem novos casos de COVID-19, para voltarem a casos importados de nacionais que regressaram ao país, e que criaram, para números baixos, um desânimo também visível nas autoridades de saúde. É aliás uma pergunta para a qual gostaria de resposta – será que se pode falar da COVID-19 também como um teste à paciência da classe política?

Aliás, parece aplicável de forma geral um anúncio da Câmara Municipal de Lisboa, Farto do Vírus? Cuidado, ele ainda não se fartou de si. Sinal de oficialmente se reconhece o cansaço das pessoas com o vírus, mas também a fadiga política, em que a CML se substitui a um anúncio da DGS, mais genérico sobre os conselhos de proteção.

Numa perspetiva mais geral, o incidir a pressão política apenas sobre o Ministério da Saúde não é correto, nem justo, a meu ver. Os desafios de desconfinamento envolvem questões de mobilidade das pessoas, que não são algo que caiba ao ministério da saúde tratar, envolvem questões sociais e de trabalho, que também não são do ministério da saúde, envolvem questões de condições de habitação para se poder ter isolamento, que mais uma vez não são do ministério da saúde. Se é certo que na resposta de acompanhamento de casos o ministério da saúde poderia e deveria fazer melhor, a crer em declarações do presidente da associação portuguesa dos médicos de saúde pública, Ricardo Mexia, em termos políticos colocar apenas o ministério da saúde no centro das atenções parece-me exagerado. De qualquer modo, estas tensões são normais em democracia.

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio118110229
15 a 21 de maio15868227
22 a 28 de maio20634240
29 maio a 4 junho25925285
5 de junho a 11 de junho28942331
12 de junho a 18 de junho25852311
19 de junho a 25 de junho25675332
26 de junho a 2 de julho27068338

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11762113
15 a 21 de maio13636103
22 a 28 de maio1353275
29 maio a 4 junho1247061
5 de junho a 11 de junho740361
12 de junho a 18 de junho342771
19 de junho a 25 de junho442770
26 de junho a 2 de julho547873

Nota: valores arredondados à unidade

Mito da semana: devemos andar de máscara mesmo quando fazemos exercício físico? Não. 

Este é um dos poucos casos em que não é recomendado. Deve-se em geral andar de máscara em locais públicos e fechados, e sempre que não for possível assegurar a distância física recomendada de dois metros. Mas quando se faz exercício, as máscaras diminuem a capacidade de respirar de forma normal e confortável. Também leva a que as máscaras favoreçam o crescimento de micro-organismos nocivos. Por isso, a atividade física em locais fechados tem que ser bem planeada. O melhor mesmo é fazer exercício físico ao ar livre, ou em locais arejados, com distância física adequada para com o resto das pessoas, mesmo que seja num contexto de exercício coletivo ou individual. Esperança da semana: baseado apenas em observação de fotos de jornais e reportagens televisivas, a sensação da população estar a retomar a normalidade possível das suas vidas, com atenção e proteção em geral. Encorajador a ministra da saúde ter dito que não encontraram ainda cadeias de transmissão nos transportes públicos – resultado certamente dos cuidados que todos andam a ter. Não é impossível que tenha havido algum caso que tenha passado sem ser detetado, mas a ter sucedido não foi uma situação generalizada. É um passo importante para continuarmos a aprender a viver com a COVID-19 e o seu coronavírus, pelo menos até termos uma vacina.


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para-nacionalização da TAP

Depois de alguma animação, foi finalmente anunciada a decisão sobre o futuro acionista da TAP. Acabou por não ser uma nacionalização, e sim algo próximo da para-nacionalização. Pelo que consegue entender dos objectivos do Governo com esta decisão, pretende-se que o Estado seja acionista público majoritário com gestão privada (anunciada como a equipa de gestão sendo contratada no mercado internacional).

Aqui, a questão central é o que constitui o interesse público, quanto é que ele vale, e se não existe forma menos onerosa de alcançar esse mesmo objectivo de interesse público.

O grande argumento apresentado é que a TAP é demasiado grande para entrar em falência. Sugere-se que no seu desaparecimento imediato não haveria outras companhias de aviação que assegurassem as rotas que a TAP faz hoje, ou que mesmo que houvesse essa substituição, não seria feita com trabalhadores portugueses, e que qualquer outra companhia não adquiriria serviços e produtos a empresas portuguesas. Não vejo porque tenha de ser assim.

A importância da TAP como exportadora – não interessa tanto o volume de vendas que faz e sim os resultados que obtém, e esses não estavam a ser positivos. Ou seja, a TAP presta serviços considerados exportação, mas gasta mais a produzir esses serviços do que as receitas que obtém.

A importância da TAP como empregadora – fechar a TAP e colocar os seus ativos, físicos e contratos com trabalhadores, disponíveis no mercado para outra empresa adquirir não era possível porquê? Implicaria perdas para os seus acionistas, mas esse é o risco empresarial. O problema seria a TAP ser adquirida por alguma empresa que lhe mudasse o nome depois (como a Altice fez com a PT)? Houve realmente alguma quantificação do que seria esta situação alternativa? (não significa que seja necessariamente melhor, mas nem parece que tenha sido analisada). No passado, houve companhias de aviação que fecharam num dia com um nome e nasceram logo no dia seguinte outras companhias com os mesmos ativos e outro nome.

A importância da TAP como compradora de serviços em Portugal – se houver uma companhia de aviação que tome o lugar da TAP, ou uma empresa que adquira a TAP, porque não manteria a aquisição desses serviços? (se não for vantajoso manter, então a TAP está a ser ineficiente na sua gestão, ou uma nova empresa estaria disposta a ser ineficiente apenas para comprar noutro lado, ou ambas – será que é isso que sucede?).

Por fim, o papel das “imposições de Bruxelas” – regressar às queixas sobre ao “não nos deixam”, esquecendo a referência a porque não deixam numa lógica de longo prazo, não é bom – as regras europeias, nomeadamente as de defesa da concorrência, nestes casos tendem a ser mais favoráveis aos pequenos países, numa estratégia de longo prazo, do que aos grandes países. Se o governo alemão (ou o governo francês, ou o governo espanhol, ou o governo italiano) não tivesse qualquer limitação no apoio à “sua” companhia aérea, será que o governo português e a TAP teriam capacidade de fazer sobreviver a TAP? Culpar Bruxelas é fácil, e retira “pressão” interna, mas dificilmente pode ser visto como um bom argumento nessa linha de defesa de interesse estratégico de longo prazo.

Por fim, vamos admitir que há interesse estratégico na TAP, e que está relacionado com as ligações, que poderiam não existir de outro modo, com destinos onde há comunidades portuguesas – mas nesse caso, porque para-nacionalizar uma empresa é melhor do que definir esse interesse estratégico e ver que alternativas existem para o concretizar? (por exemplo, subsidiar passageiros? pagar um montante fixo para que as rotas se mantenham abertas? outra solução – não tenho resposta neste momento, embora me pareça que se deve discutir opções). Calculo que o argumento seja de que agora não há tempo – talvez, mas parece nunca haver tempo para pensar intervenções de longo prazo.

(já agora, se é o interesse estratégico da TAP que está em causa, é de esperar que no plano que o para-ministro António Costa Silva irá apresentar seja dado algum espaço a esse interesse e ao papel da TAP).


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gabinete de crise, radio observador – vivendo com o coronavirus (43)

Esta semana um pouco mais atrasado a dar o resumo do Gabinete de Crise da passada sexta-feira, disponível aqui. Amanhã vai ter nova edição.

O tema da semana foi a saúde mental em tempos de COVID-19.

Número da semana: 45% – percentagem dos portugueses que num inquérito (estudo internacional sobre a COVID-19 em que a Nova SBE esteve envolvida) realizado nas duas primeiras semanas de Abril dizia não ter ansiedade quando perguntado sobre o seu estado de saúde. 

Esse valor era de 64% na Dinamarca, 56% na Holanda, 53% na Alemanha, 44% no Reino Unido, 46% em Itália, 47% em França,. Mas os que diziam sofrer de forte ansiedade eram apenas 3% em Portugal e em Itália, sendo cerca de 6% na Dinamarca, Alemanha e Holanda, 7% em França, e 9% no Reino Unido. Ou seja, nessa fase de muita incerteza e com entre duas semanas a um mês de confinamento, cerca de metade dos portugueses dizia ter ansiedade moderada. E sem diferenças sistemáticas entre grupos etários, e com as mulheres a revelarem estarem mais ansiosas. 
Como lidar com os desafios de saúde mental?

Preocupação atenta será o lema desta semana, como foi nas últimas semanas, e como provavelmente será nas próximas semanas.

Surtos de contágio associados com eventos perfeitamente evitáveis foram a nota dominante das duas últimas semanas, nomeadamente com reuniões ou festas, espontâneas ou não, de jovens. Estas situações que aparentemente se repetem lançam desde já a questão de saber quanto poderá estar associado a necessidades de saúde mental, de retomar alguma normalidade (o que nestes grupos remete para socialização). Mas a incapacidade de conseguir realizar isolamento domiciliário por falta de condições de habitação também tem contribuído para se espalhar o contágio.

Lares – necessidade de manter a preocupação atenta – funcionários e visitas, mas também fornecedores de produtos, etc. Não está a ser muito diferente em Espanha, onde têm existido surtos por vários locais, nas zonas que tentaram readquirir normalidade mais cedo. E com semelhanças com o que vemos

A existência de surtos também cria algumas dificuldades na interpretação do famoso Rt (o número de casos novos gerados por cada infetado). Se houver poucos infetados e de repente houver um surto, o Rt sobe imenso (como valor médio), mas se os casos forem logo isolados, cai de seguida.

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio118110229
15 a 21 de maio15868227
22 a 28 de maio20634240
29 maio a 4 junho25925285
5 de junho a 11 de junho28942331
12 de junho a 18 de junho25852311
19 de junho a 25 de junho25675332

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11762113
15 a 21 de maio13636103
22 a 28 de maio1353275
29 maio a 4 junho1247061
5 de junho a 11 de junho740361
12 de junho a 18 de junho342771
19 de junho a 25 de junho442770

Nota: valores arredondados à unidade

Mito/Alerta da semana: Fazer mais testes significa mais casos. É uma forma imprecisa de falar – os casos existem, quer haja testes ou não. O fazer mais testes para detetar contágios significa apenas que se conhecem mais casos e como tal consegue-se agir mais rapidamente no sentido de conter a cadeia de contágio. Logo, quando muito, mais testes hoje e menos casos no futuro, por intervenção. E quando se fala de testes frequentemente não se é claro sobre se estamos a falar de testes para saber se alguém naquele momento tem COVID-19 – e estes testes devem ser feitos em casos de suspeita ou risco elevado – e testes para saber quem já esteve exposto à COVID-19 alguma vez – e estes testes devem ser feitos por amostragem aleatória para dar uma imagem da epidemia na população. Os testes de que se fala quando se diz que mais testes são mais casos são os primeiros, os que devem ser feitos para encontrar casos atuais para quebrar cadeias de contágio. 

Esperança da semana: há cerca de 15 dias, houve o longo fim de semana do 10 de Junho, onde de acordo com o Google mobility report, a mobilidade dos portugueses em espaços públicos de lazer como praias e parques esteve muito acima do que foi nas semanas e meses anteriores, e acima do período pré-covid (medido no Inverno), e até ao momento não houve surtos identificados com as idas à praia nessa altura. A nota de esperança é que apesar de tudo conseguimos ir à praia mantendo condições de segurança, o que será uma excelente notícia para o Verão, se se confirmar nos próximos dias.


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Lisboa, mobilidade e casos da COVID-19 – vivendo com o coronavirus (42)

Tem ganho destaque nos últimos tempos o crescimento do número de casos de COVID-19 na zona de Lisboa. Diversas explicações têm sido avançadas, mas sem haver ainda uma clara definição do que está por detrás desse crescimento. Considerando o período desde 11 de maio (uma semana depois do início do processo de reabertura da sociedade e da economia), verifica-se a regularidade de um crescimento linear do número de novos casos. É um crescimento pequeno, quando visto em média diária de acréscimo, mas persistente. Ao fim de 7 semanas já quase duplicou o número de novos casos (por dia) em média. Não sendo ainda uma situação de emergência, é claramente uma evolução que se torna necessário travar.

Embora seja fácil argumentar que foi um desconfinamento demasiado rápido, os números de mobilidade indicam que o retomar da atividade normal em termos de deslocações até estar a ser mais lenta na zona de Lisboa do que no resto do país, em todas as categorias de mobilidade, incluindo lazer e praias e parques, por um lado, e deslocações mais ligadas a atividade profissional, por outro lado.

Estes números corroboram de algum modo as preocupações com as condições de vida (habitação e deslocações para o emprego) da população residentes nas zonas que mais têm contribuído para este crescimento (e que foram sujeitas a medidas adicionais de restrição de mobilidade).

Tentando sistematizar:

  1. O número de novos casos em áreas específicas da zona de Lisboa tem tido um crescimento linear nas últimas 7 semanas (ver figura abaixo).
  2. O número de novos casos no resto do país tem sido baixo, mas constante, praticamente sem crescimento, e caracterizado sobretudo por surtos (o que significa que a maior parte do país está sem sobressalto).
  3. Número de doentes internados e doentes internados em UCI baixou muito até ao início do Junho, voltou a subir devagar a partir daí (consequência de estar a ocorrer um crescimento lento, mas persistente, de novos casos diários) (ver figuras no final).
  4. A pressão sobre os hospitais da zona de Lisboa está a subir e a fazer-se sentir com notícias sobre a necessidade de coordenação para partilha de esforços.
  5. Na zona de Lisboa, quase duas dezenas de freguesias voltaram a ter medidas mais apertadas; deslocações para trabalho continuam a ser possíveis.
  6. Com o aumento do número de infetados (os novos casos estão a crescer mais rapidamente que o número de pessoas que deixa de estar infetada), há a necessidade de recursos humanos para seguimento de linhas de contágio, uma necessidade previsível desde o início do processo de abertura. Aparenta não ter sido feito, se atendermos a declarações que têm sido feitos pelo presidente da associação nacional de médicos de saúde pública.
  7. A realização de testes para encontrar quem esteja infetado mesmo que não apresente (ainda) sintomas não tem sido um problema.
  8. Quando se fala da zona de Lisboa e se olha para o padrão de mobilidade das últimas semanas, disponibilizado pela Google, vê-se que o problema não tem sido o aumento dessa mobilidade, que foi menor na região de Lisboa do que no resto do país. Não foi também uma questão de surtos pontuais muito volumosos. (figuras abaixo)
  9. A pressão política está a aumentar sobre o Governo, sendo que a aposta na fase final da Liga dos Campeões e alguma outra comunicação menos bem conseguida conseguiram gerar confusão desnecessária, que acresce à pressão dos números.
  10. Olhando para a experiência de outros países, e dada a disseminação da COVID-19 em países com os quais temos ligações aéreas frequentes (com a frequência que o tempo atual deixa), é necessário ter um controle apertado à entrada, para encontrar e isolar os casos importados (a questão não é se vão existir, e sim se vão ser encontrados a tempo de evitar propagação interna). Quando se fala em abrir novamente ao turismo, este é um aspeto fulcral, para segurança de quem cá está e de quem vem. 
  11. Neste momento, tão importante como assegurar que existem os meios humanos e técnicos necessários, bem como a rapidez de decisão na intervenção, é necessário sentir que não há fadiga governamental.
  12. Há que definir rapidamente estratégias que permitam quebrar as cadeias de contágio mais cedo. Para isso, é preciso haver conhecimento atempado dos processos de contágio (o que tem sido menos bem conseguido) e intervenção rápida das autoridades de saúde, depois de detetados casos (o que tem sucedido).
  13. Para onde olhar? Para onde já se tinha identificado que poderiam surgir problemas – transportes públicos, capacidade de isolamento em contexto de habitação conjunta, grupos difíceis de rastrear, como imigrantes a trabalhar em obras ou serviços onde a informalidade lhes permite laborar. Perceber como é que a combinação de vários destes fatores faz com que haja problemas na zona de Lisboa mas não noutras zonas do país onde as mesmas atividades também estão presentes.
  14. Uma palavra final para a tensão política em crescendo e que aparenta, segundo alguns relatos, ter envolvido também alguma tensão com a equipa técnica de apoio. Não é claro o que se passou, mas na verdade é mais importante o que venha a passar. Parece-me que será útil ter reuniões fechadas em que os membros do Governo, com a responsabilidade da decisão política, possam discutir livremente com os técnicos, sem receio de que essa discussão seja transformada em instrumento de luta política. E só depois haver as reuniões técnicas mais abertas (mas onde já não deverá ser o Governo a colocar as suas questões e dúvidas). Será também útil que o trabalho técnico de suporte tenha uma apreciação crítica interna, também ela reservada de forma a garantir que é gerado o melhor conhecimento para a decisão política. No contexto político em que começa a emergir nos últimos dias, o modelo atual de reuniões no Infarmed estará provavelmente esgotado e será repensado.


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gabinete de crise, radio observador – vivendo com o coronavirus (41)

O programa semana Gabinete de Crise, na Rádio Observador, tendo como convidado José Fragata, cirurgião cardio-torácico e vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa para a saúde.

O resumo habitual da minha intervenção (mais coisa, menos coisa)

Número de semana: 504,4 milhões de euros no Orçamento Suplementar, destinados ao Ministério da Saúde. Destes, 76 milhões de euros para reforço da resposta de medicina intensiva à COVID-19 e 410,2 milhões de euros são para aquisições de bens e serviços que incluem os equipamentos de proteção. Estes últimos valores mostram a importância da proteção dos profissionais de saúde para que o Serviço Nacional de Saúde continue a cumprir o seu papel. Esta proteção vai ser necessária, bem como a preparação dos espaços e a criação de unidades sem doentes COVID-19, e com reforço de toda a proteção dos profissionais nas unidades dedicadas ao tratamento da COVID-19. De qualquer modo, não está em cima da mesa limitar-se a proteção dos profissionais de saúde. 

Três focos desta semana merecem destaque – numa festa do Algarve, em lares no Norte e Centro do país, e no IPO de Lisboa. Todos detetados de forma rápida, e com intervenção também rápida das autoridades de saúde. Mas que que revelam onde temos de estar com atenção.

Na festa do Algarve, a importância das decisões sociais como parte do problema e parte da solução – terá o sucesso da resposta inicial levado a uma diminuição do receio com a pandemia? No início não se sabia muito sobre quem seria afetado e quanto. Ao fim de três meses, esse receio pode diminuir porque muita gente não conhece diretamente quem teve COVID-19 e tenha estado internado. E sobretudo não há muitos desses casos nos mais jovens, contribuindo para reforçar a ideia de que talvez “isto” – a COVID-19 – não seja assim tão grave.

Nos lares, a reafirmação do ambiente de risco nas estruturas residências para idosos, e a necessidade de equilibrar as vidas dos profissionais que nelas trabalham com a segurança de quem lá vive, e a colaboração necessária dos familiares que os visitam.

No IPO de Lisboa, 8 profissionais (3 médicos, 3 enfermeiros, 2 assistentes operacionais) e 12 doentes – voltando a mostrar que os profissionais de saúde continuam a ser um grupo de risco mesmo apesar das medidas de segurança que são tomadas.

Quanto aos indicadores de seguimento, nos casos confirmados, esta semana ligeiramente melhor que a semana passada, no geral e em Lisboa, embora no resto do país já se tenha estado melhor. Estamos numa fase de “cozedura lenta”, à espera de uma baixa mais permanente. O número de internados, no total e em UCI, esta semana subiu ligeiramente, provavelmente como reflexo do aumento de casos confirmados nas últimas duas a três semanas. 

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio118110229
15 a 21 de maio15868227
22 a 28 de maio20634240
29 maio a 4 junho25925285
5 de junho a 11 de junho28942331
12 de junho  a 18 de junho25852311

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11762113
15 a 21 de maio13636103
22 a 28 de maio1353275
29 maio a 4 junho1247061
5 de junho a 11 de junho740361
12 de junho  a 18 de junho342771

Nota: valores arredondados à unidade

Mito da semana: a descoberta de uma cura para a covid-19, como erradamente se poderia pensar de algumas noticia desta semana. O que se encontrou foi um medicamento que parece, ainda à espera de mais dados, ser útil em doentes internados em estado grave. Ou seja, nada que justifique pensar neste medicamento, dexametasona, é a solução para a COVID-19. As precauções para evitar contágio continuam a ser a melhor opção para todos.

Esperança de semana: A abertura das escolas no Norte da Europa, com precauções e sem problemas de aumento de contágios, sugere que está na altura de se voltar à normalidade possível no funcionamento escolar, para minimizar os efeitos sobre as crianças e a sua aprendizagem. A esperança é que aprendamos com quem vai mais avançado, e rapidamente acertemos o ritmo de reabertura de escolas com esses exemplos. 


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Em França, para pensar a vida económica pós-covid-19

Macron em França criou uma comissão de 26 economistas, liderados por Jean Tirole (Nobel da Economia 2014) e Olivier Blanchard – o primeiro mais dedicado a aspectos de regulação e organização de atividades económicos, o segundo mais dedicado na sua carreira a aspectos macroeconómicos, com uma equipa internacional de mais 24 economistas, que até Dezembro de 2020 irá apresentar ideias para o processo de recuperação económica pós-COVID-19. Quem quiser saber um pouco mais das ideias de Jean Tirole sobre o funcionamento das economias, sugiro ler o livro de Tirole “Economia do Bem Comum”, encontra-o aqui (ou nas livrarias) e para uma apresentação do livro, pode ver aqui (sessão em Lisboa, há cerca de dois anos).

A lista completa com breves informações biográficas pode ser encontrada aqui. Esta lista tem investigadores de grande reconhecimento internacional, franceses, mas também pessoas do Reino Unido, da Alemanha. da Itália, de Espanha e dos Estados Unidos, com forte experiência política e de vários sectores:

Mar Reguant (clima), Christian Gollier (clima, decisão em contexto de risco e incerteza, seguros), Dani Rodrik (desigualdades, crescimento económico e desenvolvimento, economia política), Stefanie Stancheva (desigualdades, económica pública, tributação), Axel Borsch-Supan (demografia, segurança social, envelhecimento e políticas públicas – foi o criador do inquérito SHARE – Survey on Health, Ageing and Retirement in Europe, em que Portugal também participa), Carol Propper (demografia, economia da saúde), Claudia Diehl (demografia, imigração e discriminação étnica), Philippe Aghion (processos de crescimento económico), Richard Blundell (economia do mercado de trabalho, economia pública, tributação) , Laurence Boone (economista chefe na OCDE), Valentina Bosetti (economia do ambiente), Daniel Cohen (crescimento económica, finanças públicas, dívida pública), Peter Diamond (economia pública, segurança social), Emmanuel Farhi (economia pública, macroeconomia, finanças), Nicola Fuchs-Schundeln (macroeconomia), Michael Greenstone (economia pública, economia do ambiente), Hilary Hoynes (economia pública, desigualdades), Paul Krugman (macroeconomia, economia internacional), Thomas Philippon (macroeconomia), Jean Pisani-Ferry (economia política), Adam Posen (política orçamental, política monetária, relações económicas internacionais), Nick Stern (economia pública, desenvolvimento económica, alterações climáticas), Lawrence Summers (macroeconomia, economia pública), Laura Tyson (economia internacional, políticas públicas).

O que vierem a sugerir como ideias serão certamente úteis para toda a União Europeia. A seguir com atenção o que vierem a publicar.


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virus democrático ou talvez não – vivendo com o coronavirus (40)

Discussão no programa da Fundação Francisco Manuel dos Santos / Rádio Renascença, Da Capa à Contracapa, disponível aqui. Tal como escrevi há uns dias, o vírus pode ser democrático, mas o que propicia a doença da COVID-19 e potencia as suas consequências, não o será.


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gabinete de crise, na rádio observador – vivendo com o coronavirus (39)

O tema desta semana no Gabinete de Crise, Rádio Observador, foi dedicado às políticas de retoma da economia, com Pedro Brinca como convidado.

Além disso, houve o debate habitual.

Número da semana:  100 milhões de euros.

É aproximadamente o valor dedicado ao reforço do SNS no Programa de Estabilização Económica e Social. Este programa específico é só até ao final do ano de 2020. Sendo um primeiro esforço, acima do que já tinha sido o reforço de verba para o SNS previsto antes de aparecer a pandemia, é um valor que não vai esgotar as necessidades de financiamento adicional do SNS causadas pela COVID-19. É um sinal positivo, mas muito provavelmente insuficiente. Veremos nos orçamentos suplementares que irão surgindo o que será adicionado (porque também estou convencido que haverá mais do que um orçamento suplementar este ano).

A evolução nesta semana, infelizmente, foi mais do mesmo. A necessidade é agora de conter Lisboa mas não deixar que se arraste para o resto do país.

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio118110229
15 a 21 de maio15868227
22 a 28 de maio20634240
29 maio a 4 junho25925285
5 de junho a 11 de junho28942331

Nota: valores arredondados à unidade

Houve uma subida ligeira de internamentos, geral e em UCI, nos últimos dias, esperemos que venha a ser apenas pontual, e não uma inversão permanente numa tendência de descida. Poderá ser apenas o resultado esperado do desconfinamento gradual que está a ser realizado.

Mito da semana: As pessoas sem sintomas não transmitem a COVID-19. 

A evidência recolhida indica que as pessoas ainda sem sintomas mas já infetadas podem transmitir a COVID-19, e podem até ser responsáveis por cerca de 40% das novas infeções.

Este mito vem a propósito de alguma atrapalhação da WHO na comunicação, onde falhou fazer a diferença entre pessoas que têm uma carga viral da COVID-19 tão baixa que nunca chegam a apresentar sintomas (e por terem uma carga viral baixa, terão menor capacidade de transmitir a COVID-19), e as pessoas que têm uma carga viral alta mas ainda não apresentam sintomas, e que podem facilmente infetar outras pessoas antes de esses sintomas aparecerem. Como entre quem não tem sintomas em cada dia, temos uma mistura destes casos, pessoas com baixa carga viral e pessoas com carga viral elevada, e assim com elevada possibilidade de transmitir o vírus. Ou seja, apesar da confusão, não há qualquer motivo para alterar as regras de precaução que têm sido difundidas, desde o lavar das mãos, à limpeza dos espaços e à utilização de máscaras em locais fechados, com pouca circulação de ar fresco, e presença de outras pessoas.

Esperança da semana: o retomar cuidadoso da atividade económica, começando agora a recuperar dos efeitos negativos sobre a vida das pessoas em geral; sabemos que depois de um momento de preocupação muito grande com a doença, as preocupações com a economia, com a situação de emprego e com a capacidade económico ganharam progressivamente mais importância. Esta não é apenas uma questão económica, é também uma questão de saúde e de saúde mental. Como referiu recentemente o Miguel Xavier, que coordena o Plano Nacional de Saúde Mental, a “economia pessoal” é determinante da saúde mental – nas palavras que usou, “trabalho, remunerações, precariedade, condições de vida” e “dever-se dinheiro a alguém” é um dos fatores de risco mais poderoso para problemas de saúde de mental. Assim, o reanimar da economia tem também efeitos positivos na saúde. O que nós vemos na mobilidade das pessoas é que lentamente a utilização de transportes está a aumentar, bem como a mobilidade para os locais de trabalho. Não é um salto imediato, pelas precauções que vai sendo preciso ter, mas é uma evolução que começou até um pouco antes da data oficial de desconfinamento, 4 de maio.