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Lisboa, mobilidade e casos da COVID-19 – vivendo com o coronavirus (42)

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Tem ganho destaque nos últimos tempos o crescimento do número de casos de COVID-19 na zona de Lisboa. Diversas explicações têm sido avançadas, mas sem haver ainda uma clara definição do que está por detrás desse crescimento. Considerando o período desde 11 de maio (uma semana depois do início do processo de reabertura da sociedade e da economia), verifica-se a regularidade de um crescimento linear do número de novos casos. É um crescimento pequeno, quando visto em média diária de acréscimo, mas persistente. Ao fim de 7 semanas já quase duplicou o número de novos casos (por dia) em média. Não sendo ainda uma situação de emergência, é claramente uma evolução que se torna necessário travar.

Embora seja fácil argumentar que foi um desconfinamento demasiado rápido, os números de mobilidade indicam que o retomar da atividade normal em termos de deslocações até estar a ser mais lenta na zona de Lisboa do que no resto do país, em todas as categorias de mobilidade, incluindo lazer e praias e parques, por um lado, e deslocações mais ligadas a atividade profissional, por outro lado.

Estes números corroboram de algum modo as preocupações com as condições de vida (habitação e deslocações para o emprego) da população residentes nas zonas que mais têm contribuído para este crescimento (e que foram sujeitas a medidas adicionais de restrição de mobilidade).

Tentando sistematizar:

  1. O número de novos casos em áreas específicas da zona de Lisboa tem tido um crescimento linear nas últimas 7 semanas (ver figura abaixo).
  2. O número de novos casos no resto do país tem sido baixo, mas constante, praticamente sem crescimento, e caracterizado sobretudo por surtos (o que significa que a maior parte do país está sem sobressalto).
  3. Número de doentes internados e doentes internados em UCI baixou muito até ao início do Junho, voltou a subir devagar a partir daí (consequência de estar a ocorrer um crescimento lento, mas persistente, de novos casos diários) (ver figuras no final).
  4. A pressão sobre os hospitais da zona de Lisboa está a subir e a fazer-se sentir com notícias sobre a necessidade de coordenação para partilha de esforços.
  5. Na zona de Lisboa, quase duas dezenas de freguesias voltaram a ter medidas mais apertadas; deslocações para trabalho continuam a ser possíveis.
  6. Com o aumento do número de infetados (os novos casos estão a crescer mais rapidamente que o número de pessoas que deixa de estar infetada), há a necessidade de recursos humanos para seguimento de linhas de contágio, uma necessidade previsível desde o início do processo de abertura. Aparenta não ter sido feito, se atendermos a declarações que têm sido feitos pelo presidente da associação nacional de médicos de saúde pública.
  7. A realização de testes para encontrar quem esteja infetado mesmo que não apresente (ainda) sintomas não tem sido um problema.
  8. Quando se fala da zona de Lisboa e se olha para o padrão de mobilidade das últimas semanas, disponibilizado pela Google, vê-se que o problema não tem sido o aumento dessa mobilidade, que foi menor na região de Lisboa do que no resto do país. Não foi também uma questão de surtos pontuais muito volumosos. (figuras abaixo)
  9. A pressão política está a aumentar sobre o Governo, sendo que a aposta na fase final da Liga dos Campeões e alguma outra comunicação menos bem conseguida conseguiram gerar confusão desnecessária, que acresce à pressão dos números.
  10. Olhando para a experiência de outros países, e dada a disseminação da COVID-19 em países com os quais temos ligações aéreas frequentes (com a frequência que o tempo atual deixa), é necessário ter um controle apertado à entrada, para encontrar e isolar os casos importados (a questão não é se vão existir, e sim se vão ser encontrados a tempo de evitar propagação interna). Quando se fala em abrir novamente ao turismo, este é um aspeto fulcral, para segurança de quem cá está e de quem vem. 
  11. Neste momento, tão importante como assegurar que existem os meios humanos e técnicos necessários, bem como a rapidez de decisão na intervenção, é necessário sentir que não há fadiga governamental.
  12. Há que definir rapidamente estratégias que permitam quebrar as cadeias de contágio mais cedo. Para isso, é preciso haver conhecimento atempado dos processos de contágio (o que tem sido menos bem conseguido) e intervenção rápida das autoridades de saúde, depois de detetados casos (o que tem sucedido).
  13. Para onde olhar? Para onde já se tinha identificado que poderiam surgir problemas – transportes públicos, capacidade de isolamento em contexto de habitação conjunta, grupos difíceis de rastrear, como imigrantes a trabalhar em obras ou serviços onde a informalidade lhes permite laborar. Perceber como é que a combinação de vários destes fatores faz com que haja problemas na zona de Lisboa mas não noutras zonas do país onde as mesmas atividades também estão presentes.
  14. Uma palavra final para a tensão política em crescendo e que aparenta, segundo alguns relatos, ter envolvido também alguma tensão com a equipa técnica de apoio. Não é claro o que se passou, mas na verdade é mais importante o que venha a passar. Parece-me que será útil ter reuniões fechadas em que os membros do Governo, com a responsabilidade da decisão política, possam discutir livremente com os técnicos, sem receio de que essa discussão seja transformada em instrumento de luta política. E só depois haver as reuniões técnicas mais abertas (mas onde já não deverá ser o Governo a colocar as suas questões e dúvidas). Será também útil que o trabalho técnico de suporte tenha uma apreciação crítica interna, também ela reservada de forma a garantir que é gerado o melhor conhecimento para a decisão política. No contexto político em que começa a emergir nos últimos dias, o modelo atual de reuniões no Infarmed estará provavelmente esgotado e será repensado.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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