Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time


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António Ferreira: Reforma do sistema de saúde (2)

Continuando a leitura comentada do livro de António Ferreira, chega-se ao capítulo das estratégias:

  • educação para a saúde e prevenção – ok, mas creio que falta algo mais do que apenas dizer que se deve gastar mais em prevenção, que tipo de prevenção, que tipo de envolvimento dos cidadãos (relatório Gulbenkian coloca o cidadão como o agente principal); problema técnico – num período de transição poderá ter-se de gastar mais, como fazer chegar os ganhos futuros aos dias de hoje? prevenção tem o problema de se pagar o que não se vê (se é evitado não acontece), pagar apenas por processo?
  • cuidados prolongados e domiciliários – com um papel para os cuidadores informais, mas também para cuidados que sejam mais acompanhamento do que intervenção? será sobretudo um problema de organização e menos um problema financeiro?
  • focalização no cliente – naturalmente, mas há que pensar no que é liberdade de escolha e as suas implicações – o que não for escolhido encerra? mesmo que sirva alguns? liberdade de escolha não pode ser liberdade de lançar impostos sobre os outros pela despesa desnecessária.
  • formação dos profissionais – certo, mas adicionava a isso a criação dentro de cada instituição de mecanismos que obriguem de forma rotineira a pensar na sustentabilidade (e que sejam a negociação permanente com o ministério da saúde ou com a ACSS de reforços de verba)
  • investigação – novamente surge a questão da linha da actividade empresarial, onde fica e que implicações tem?
  • exportação – idem


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Dezembro em Lisboa

Apesar da(s) crise(s), Sol em Dezembro é ainda algo imbatível na cidade de Lisboa. 15º bastante soalheiros, a contrastar com as inundações ocorridas nas chuvadas deste Outono. Depois de mais uma parte do grupo Espirito Santo ter ido parar a mãos chinesas. Depois de ouvir ontem o pedido do autarca de Óbidos para que não haja mais pessoas a deslocarem-se até lá, porque “está um caos” de tanta gente a ir à Obidos Vila Natal, o melhor é mesmo aproveitar estes dias.

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António Ferreira: Reforma do sistema de saúde (1)

A intervenção como comentador do livro de António Ferreira “Reforma do sistema de saúde –a minha visão” na sessão organizada pela APAH em parceria com a Bristol-Meyers Squibb permitiu-me a leitura do livro numa lógica de elementos para discussão.

Tendo feito alguns comentários diretamente, há ainda assim um corpo adicional de notas, comentários e perguntas, que decidi colocar para discussão neste e nos próximos textos.

António Ferreira, o conhecido Presidente do Conselho de Administração do Hospital de São João, é uma pessoa de afirmações fortes. O livro que escreveu fornece uma leitura agradável, foi claro o esforço de procurar chegar ao cidadão que não é especialista, sem que se deixe de sentir o estilo do autor, quase como se o pudéssemos realmente ouvir falar em diversas partes do livro. Como seria de esperar o livro está fortemente marcado pela sua experiência de gestão hospitalar. Aliás, quem vá à procura apenas das frases fortes que costuma usar nas suas intervenções públicas encontra-as aqui em muito menor grau, a favor de uma maior clareza de pensamento e argumentação, que o tempo mediático dessas outras intervenções não permite. Devo dizer que partilho de várias das preocupações apresentadas, mesmo que aqui e ali tenha algumas diferenças de caracterização, e noutros casos creio que será preciso mais discussão sobre os vários tipos de solução, mas a seu tempo faremos essa discussão.

No balanço de uma frase: satisfeito com os resultados obtidos em termos assistenciais, com a certeza do desastre se continuarmos como até aqui na parte de custos e despesa.

Antes de apresentar a sua visão, António Ferreira percorre um caminho de caracterização da situação do sistema de saúde português no contexto europeu, com recurso aos dados da OCDE.

Recolhe dessa caracterização diversos factos, que organiza sob o título de evidências:

  • o SNS está falido – embora falte aqui uma definição do que é falido, pois o sentido empresarial do termo não é diretamente aplicável, uma vez que a mesma entidade, o Estado, determina em grande medida as receitas e as despesas. Falido deve ser visto aqui como a incapacidade política (será apenas económica do país?) de garantir os fundos necessários para os níveis assistenciais pretendidos. Aspecto que depende tanto dos objectivos como das restrições. Mais importante é saber o que teria sucedido se tivesse sido dado mais receita / transferência… mas orçamento demasiado curto justifica divida a acumular-se – qual o equilíbrio sobre a forma de determinar o valor a ser pago, ainda antes de discutir a forma como será pago?
  • a ADSE é economicamente insustentável – neste campo, poderíamos discutir o papel da dupla cobertura da ADSE, e que caminho tomar, mas como as decisões políticas já aumentaram as contribuições da ADSE de modo a que esta é hoje contribuinte líquida para o orçamento, o aspecto financeiro está ultrapassado. A defesa da extinção da ADSE é uma possibilidade, como também deve ser a sua passagem a associação mutualista gerida pelos próprios beneficiários que dela queiram fazer parte (e nesse contexto alargar a outros fora do sector público?). Mas não é um elemento crucial do que António Ferreira discute como propostas.
  • não existe em Portugal, economia privada da saúde – não tenho a certeza de que seja verdade, sempre houve economia privada da saúde em Portugal, creio que deve ser lido como não existe em Portugal espaço para actividade hospitalar privada de grande dimensão. Mas mesmo isso não tenho a certeza que seja hoje verdade. Mas mais uma vez não é algo que seja crucial para o que discute António Ferreira.
  • o sistema de saúde português favorece algumas regiões em detrimento de outras – bom, comparar despesa média sem ajustar pelo risco para acomodar as diferentes populações é suas necessidades é um passo que precisa de ser dado antes de retirar esta conclusão, que provavelmente será verdade no sentido em que com todos os factores que afectam a despesa será muito improvável que dê exactamente o mesmo valor em todas as regiões. Resta saber se a dispersão que existe é aceitável ou não. E aqui mais do que olhar para despesa vale a pena olhar para outros indicadores, reconhecendo ainda que diferentes regiões podem atingir os mesmos objectivos assistenciais de forma diferente – por exemplo, a proximidade ao cidadão no Alentejo implica maior dispersão física dos equipamentos e dos profissionais de saúde do que em Lisboa, e pode ter custos superiores, justificados pelos objectivos assistenciais. Mas a maior proximidade em Lisboa pode levar a maior utilização, fazendo subir a despesa. Na tabela 8 de indicadores, gostava de ter visto também o indicador de despesa em medicamentos por mil habitantes, até pelo papel que o medicamento tem na discussão posterior.
  • a economia está em recessão e o défice público é uma constante – mas não será sempre assim; é interessante retirar implicações para o que possa ser uma forma de organização do sistema de saúde que isole mais das flutuações da economia?
  • Portugal gasta mais do que os seus parceiros e do que pode – o gastar mais ou menos é uma escolha legitima de cada país; não há razão para a média da OCDE ser o padrão adequado – neste ponto, em lugar desta discussão é preferível pensar em termos de value for money, aspecto que é tratado, e bem, por António Ferreira, mais à frente.
  • o sistema de saúde assenta em cuidados curativos agudos e no medicamento – totalmente de acordo, e de acordo com a necessidade de transformação desta característica, e não é só a longevidade, é a morbilidade associada com os últimos anos de vida que nos deve preocupar em termos de objectivos assistenciais e de despesa – reduzir essa morbilidade permite pessoas mais saudáveis e menos despesa. Mas o envelhecimento por si só não fará explodir a despesa em saúde (mas a inovação dirigida a essa população envelhecida sim).
  • previsão de crescimento explosivo dos custos – bom a previsão usa dados desde 1970, e pelo que percebi não desconta a inflação ocorrida, pelo que tende a ter natureza exponencial. De qualquer modo, revendo para a existência de pressão para subida da despesa, creio que não haverá grande discussão sobre a direcção do movimento, mesmo que a magnitude não seja a indicada. É de realçar que em termos de despesa per capita, despesa em % do PIB e até despesa pública como parte da despesa total em saúde estamos no grupo europeu sem ser um caso extremo.
  • estado não conseguirá acompanhar o crescimento da despesa pelo que a presença pública diminuirá – importante será também saber quanto da despesa é determinada pelo sistema público, serviço nacional de saúde, mesmo que seja paga por dinheiro privado (pagamentos directos) e quanto passa para fora, passando a ser relação entre privados, em formato de seguro ou de pagamento directo.
  • desafio da internacionalização – há um problema básico que tem sido largamente ignorado – como é que empresas do estado vão competir num mercado global (ou europeu)? haverá certamente intervenção da Comissão Europeia para evitar ajudas de estado – se querem estar na internacionalização, a possibilidade de falência terá que seguir os moldes empresariais, mesmo que isso implique cortes de serviço à população. Será mesmo possível seguir este caminho em Portugal, e com que sucesso?
  • houve ganhos em saúde extraordinários – ok
  • sistema de saúde português tem recursos adequados, é acessível, menoriza diferenças sociais e tem boa qualidade – então o problema é apenas gastar a mais, ou ser demasiado para um país como Portugal, ou para as finanças públicas; é um problema financeiro, de organização ou de expectativas excessivas face à riqueza do país?
  • sistema não se preparou para a pressão demográfica
  • os portugueses não estão satisfeitos com a resposta do sistema de saúde e têm hábitos de vida pouco saudáveis – teria sido apropriado separar em dois pontos distintos.

Sobre a avaliação dos portugueses quanto ao sistema de saúde, além do habitual pessimismo, há que ressalvar que quem usa o SNS tem melhor opinião do que quem não usa e forma opinião apenas por ouvir falar.

Senti a falta de um capítulo sobre o papel dos profissionais de saúde, como está a mudar e como evoluíram os recursos humanos, até porque depois terão um papel relevante na discussão sobre soluções.

O sector público pode ajustar de três formas – preço/custo, quantidade e grau de cobertura – gostava de ver mais claro como é que a(s) solução(ões) proposta(s) se divide(m) nestes elementos.

 

(continua amanhã)


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Direcção-geral de saúde, ébola e viajantes

Numa recente viagem de regresso de Bruxelas, num avião da TAP, foi distribuído um panfleto, em três línguas, sobre o Ébola, a dar informações básicas sobre o que fazer, e com a indicação de um site (http://www.ebola.dgs.pt) para mais informações.

Excelente iniciativa, o panfleto é rápido e informativo, o site está bem desenhado, de fácil consulta e informação actualizada.

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Dois pontos de melhoria imediata: o site poderia ter uma parte de informação em inglês e em francês, dado que também quem ler o panfleto e que não fale português poderá querer consultar; e uma rápida revisão de gralhas (no panfleto surge “call immediatly” em vez do correcto “call immediately” – bom, pelo menos quando me foi distribuído, é possível que entretanto se tenha corrigido em novas impressões, a verificar na próxima viagem).

 


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PT, Oi e credibilidade intertemporal

Segundo as últimas notícias, a Oi terá tomado a decisão de vender a PT Portugal à Altice. Além da curiosidade de saber se já falaram com Armando Almeida (que dizia há tempos não lhe terem dito – então – que a PT Portugal ia ser vendida), a cronologia de toda a operação da PT com a Oi, com a suposta fusão que afinal já não vai ser, mostra como os anúncios empresariais devem também ser lidos à luz da lógica de credibilidade intertemporal (que não se aplica apenas às políticas públicas) – se uma empresa, ou conjunto de empresas, ou empresários, anunciar uma decisão futura que vai contra os seus melhores interesses nessa data de tomada de decisão, então não lhe devemos dar crédito. Esta preocupação assume no caso da PT especial acuidade, pois os vários intervenientes quererão anunciar que têm planos “fantásticos” para o desenvolvimento da empresa, para fazer passar a aceitação da operação (será tanto verdade para a Altice como para qualquer outra empresa, fundos de investimento e parceiros e incluindo Isabel dos Santos se vier a anunciar objectivos para a PT).

A descrição de Nicolau Santos no Expresso é reveladora de como esses interesses de cada uma das partes se sobrepuseram sempre aos anúncios realizados sobre intenções de desenvolvimento. Mais do que intenções, é necessário saber que compromissos sérios cada concorrente a ficar com a PT Portugal está disposto a assumir. Até lá, a perspectiva de desmantelamento da PT Portugal não pode ser descartada.


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Sextas da Reforma – última sessão

Terminou esta sexta-feira, dia 5 de Dezembro, a série de sessões das Sextas da Reforma sobre a reforma da administração pública.

Na sessão de encerramento, houve as intervenções de quem preside às três instituições que promoveram estas sessões, das quais os principais pontos que anotei foram (e podem não ser o que consideraram mais relevante):

Artur Santos Silva (Fundação Calouste Gulbenkian)

A reforma da organização e gestão do sector publico é fundamental para Portugal enfrentar a actual situação portuguesa.

Como fazer uma reforma não tem uma resposta simples. Necessita de políticas sólidas e devidamente preparadas. Ter em conta a resistência cultural à mudança. É preciso que as reformas lançadas tenham suficiente capacidade de implementação. O livro que reúne os textos constitui uma base de trabalho a que nenhum governo devia ser indiferente.

Princípios, que são recomendações,

  • acabar com o ciclo de reformas permanentes que geram incapacidade de mudança de facto;
  • reconhecer que mudanças que perduram levam tempo a construir e necessitam de regras claras e estáveis;
  • necessidade de um consenso político para que as mudanças tenham tempo de produzir mudança
  • melhorar a qualidade do enquadramento normativo;

Como instrumentos, receberam destaque:

  • boa informação, fidedigna e a tempo, como conceito distinto de muita informação;
  • gestão das finanças públicos com um processo orçamental modernizado,
  • uma nova política de recursos humanos, que reconheça a adaptação continua de competências e uma capacidade de renovação de pessoas.

É necessário alteração orgânica do próprio estado. Reformar a própria forma de gestão do estado. Alteração de processos e dos serviços tal como se faz no microcosmos. Necessita de alterar a forma como a administração pública se reforma com os agentes externos (cidadãos, empresas e sector social).

É necessário depositar confiança nos actuais responsáveis da administração pública. Cultura de meritocracia e atrair as pessoas mais qualificadas. Reforçar de forma estável os quadros da AP com quadros de qualidade para preparar com rigor e segurança as políticas de reforma.

Tomar como exemplo a Finlândia para se conciliar contas públicas sãs com uma administração pública moderna.

É fundamental relançar uma nova vaga esperança de futuro, conhecendo com verdade a situação. Portugal tem que descobrir um novo caminho que seja capaz de a todos mobilizar.

Teodora Cardoso (Conselho das Finanças Públicas)

A reforma não está feita. Esta reforma abrangente não é um big bang. Não é apresentar um novo conjunto de leis. É um processo prolongado que leva tempo a conceber e a colocar em prática. É um processo que verdadeiramente nunca termina. Apesar de tudo houve reformas importantes e deve-se construir sobre elas. Foram feitas num período difícil para as contas públicas, para a administração pública e para o país.

A carreira pública é ainda altamente motivadora e que é preciso estimular. Nenhum país pode funcionar sem uma boa administração pública. Reforço do capital humano na administração pública, para tarefas de grande exigência técnica. As reformas dos últimos três anos foram reformas de emergência ou de pano de fundo, mas não criaram uma carreira motivadora no serviço público. É necessário um trio de competências: capacidade técnica, capacidade de gestão e capacidade …?

As carreiras têm que ser pensadas em termos de conseguir recrutar, bem como desenvolver a carreira em concorrência com o mercado de trabalho.

Também a feitura das leis tem que se alterar para melhorar a qualidade das leis. Hoje em dia o estado tem pouca capacidade de feitura de leis. Isto custa caro, e tem uma dimensão de captura do Estado. Fazer esta reforma não é o mesmo que cortar salários.

Mostramos que somos capazes de fazer coisas na reforma da administração públicas, mas ainda falta fazer muito. Não é possível voltar atrás.

Carlos Costa (Banco de Portugal)

Resumo feito em 7 aforismos:

  1. não gere quem não quantifica
  2. não gere quem acumula números sem critério e sem escrutínio
  3. não gere quem não define objectivos nem define métricas
  4. não gere quem não confia na organização
  5. não gere quem não cuida da organização e não parte da organização que tem. A definição de uma estratégia não pode ser feita de forma separada
  6. não gere quem não conhece ou ignora a restrição de meios e recursos
  7. não gere quem está confrontado com objectivos voláteis (não podem oscilar com os tempos e os estados de humor).

É preciso consensos estáveis para reformar. Foram sessões abrangentes. Com utilidade prática, no sentido de definir propostas de reformas, propostas para criar processos de reformas. Reformar exige continuidade, persistência e tempo. É necessário aprender permanentemente. Não temos sequer aprendido com erros. Houve exemplos de sucesso, que são uma razão para confiar e que com um enquadramento apropriado em termos de método se conseguirá atingir os objectivos desejados.


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Uma vista de olhos europeia sobre a saúde

Saiu o “health at a glance 2014“, que também tem tido destaque na imprensa. Como as organizações libertam primeiro para os orgãos de comunicação social, e convém ler antes de comentar (embora também seja frequente ver o comentar antes de ler), os pontos de discussão acabam por ser liderados por essas escolhas. Mas vejamos o que uma primeira leitura do documento revela:

a) em termos de estado de saúde e de “recursos físicos” (incluindo recursos humanos e equipamentos), Portugal não destoa dos restantes países da Europa. Não está nem na frente nem na cauda. Claro que se pode fazer melhor e deve-se ter essa ambição (talvez possamos passar a ter o primeiro terço dos melhores resultados dentro da OECD como meta, em vez da média? e depois os 20% melhores? objectivos em termos relativos são sempre perigosos, mas se servirem para focar a atenção, então pelo menos que se tenha como alvo algo mais exigente que a média). Principal nota de preocupação, o crescimento do tempo de espera para intervenção, a seguir com os números mais recentes. Note-se que em 2011 já tinha ocorrido um aumento dos tempos de espera, com redução em 2012, e novamente subida em 2013. Mas sempre acompanhado com aumento de actividade (ver aqui o relatório mais recente do SIGIC que se encontra no site da ACSS). A capacidade de resposta do serviço nacional de saúde não foi suficiente em 2013, mas não por corte da actividade.

b) em termos de despesa, corremos o risco de voltar à eterna discussão de despesa per capita versus despesa em percentagem do PIB, que é relativamente estéril nas suas consequências, pois gastar por gastar é pouco interessante como critério. Mais importante porém é que a evolução dos últimos anos reflectirá sobretudo a evolução em preços, que foram a principal variável de ajustamento da despesa pública (não a única, mas a principal). Com reduções de salários e de medicamentos a serem, numa estimativa por alto, cerca de 2/3 do ajustamento da despesa, é inevitável que a despesa per capita se reduza (e a despesa como percentagem do PIB também, embora aqui a evolução negativa do PIB também altere o indicador). Ora, se o sistema de saúde estivesse a fazer exactamente o mesmo mas pagando menores preços e salários, a redução da despesa per capita seria um bom sinal – para os mesmos resultados, tinha-se menor despesa. Claro que “tudo o resto” não ficou constante, mas este exemplo ilustra apenas a dificuldade em retirar uma implicação negativa da redução da despesa quando há fortes efeitos preço envolvidos.

c) o outro aspecto que chama a atenção é o aumento da despesa privada out-of-pocket, ou seja, pagamentos directos feitos pelas Familias no momento de utilização de cuidados de saúde. Esta despesa corresponde a falta de protecção financeira dada pelo Serviço Nacional de Saúde (e outros mecanismos complementares – os seguros não devem ser incluídos aqui, pois são protecção financeira, mesmo que paga privadamente, não correspondem a despesa no cidadão no momento de utilização). Ora, a evolução das despesas privadas em saúde em pagamento directo era perfeitamente previsível, e na verdade aumentam a equidade do financiamento do serviço nacional de saúde. Bom, sendo provavelmente pouco intuitiva esta afirmação, convém perceber de onde virá este aumento e porque era previsível – as deduções em sede de IRS das despesas privadas em saúde reduziram-se fortemente durante este período e reduziram-se mais para os grupos de rendimento mais elevado. As alterações dos benefícios fiscais fazem com que despesa privada que era deduzida via sistema fiscal ao imposto pago se traduzissem na verdade em despesa privada. Como só deduz esta despesa privada quem paga imposto, por um lado, e como tradicionalmente as classes de rendimento mais elevado gastam mais em cuidados de saúde privados, a consequência imediata da redução dos benefícios fiscais está no aumento da despesa privada em saúde. Essa evolução pode ser melhor vista não nestes números da OCDE e sim na evolução dos valores detalhados na Conta Satélite da Saúde publicada pelo INE (e onde presumo seja obtida a informação usada pela própria OCDE). Não é possível querer ao mesmo tempo reduzir os benefícios fiscais, tornando menos regressivo o financiamento público da saúde, e reduzir a despesa privada. Ou seja, parte substancial deste efeito está associada com medidas da área das deduções fiscais e não com um aumento da utilização de cuidados de saúde privados por falta de resposta do Serviço Nacional de Saúde (que seria a interpretação natural, caso não tivesse ocorrido esta alteração fiscal).

Sobre a conta satélite da saúde e pagamentos privados, ver aqui. E como ilustração do efeito acima, o gráfico seguinte

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Sobre o relatório Gulbenkian “Um futuro para a saúde”

hoje, em debate com a Comissão Parlamentar da Saúde, uma forma esquemática de arrumar as recomendações, numa interpretação pessoal (isto é, que não é necessariamente partilhada pela equipa toda que participou no relatório)

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e duas perguntas gerais

 


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Pacto para a saúde (3)

O segundo ponto da proposta de pacto para a sustentabilidade do SNS é a discussão da percentagem da despesa pública para o medicamento e inovação.

Este ponto é quase uma sub-divisão do anterior, e alguns dos argumentos aplicam-se de igual modo. Por exemplo, qual a base da percentagem? novamente o PIB, ou o total da despesa pública, ou o total da despesa pública em saúde? E os mesmos problemas de em anos bons se atingir o tecto especificado, e em anos maus ser necessário reduzir a respectiva despesa. Neste caso, é mais fácil antever que o ajustamento fosse realizado através dos preços dos medicamentos, implicando uma revisão do mecanismo de formação de preços.

Além dessa transposição dos argumentos anteriores, há aspectos adicionais a considerar.

Desde logo, saber se faz sentido uma visão de silo sobre a despesa com medicamentos. Se houver diferentes alternativas terapêuticas para o mesmo objectivo de tratamento, em que uma tem mais despesa pública em medicamentos e outra menos, um tecto à despesa pública cria desde logo um enviesamento na escolha. A menos que seja anunciado que o tecto será cumprido com redução de preços automática em todos os medicamentos. Mas uma regra desse tipo tem também os seus problemas, na medida em que repercute sobre terceiros os custos associados com as decisões – suponhamos que em Novembro se tinha atingido o tecto da despesa com medicamentos, então toda a despesa seguinte seria feita com custo zero para o sector público, na medida em que seria automaticamente repercutida em preços mais baixos, necessariamente com efeitos retroactivos. Dificilmente se vê como esta poderá ser uma situação adequada do ponto de vista de utilização racional e económica do medicamento, independentemente da gestão política do sistema.

Vejo como muito complicado que uma regra automática deste tipo possa substituir decisões tão racionais quanto possíveis no dia a dia de prescrição, por um lado, e na aprovação dos medicamentos para comparticipação pelo SNS, por outro lado. O foco de atenção deverá estar mais nos mecanismos descentralizados do que numa regra global.

A questão da inovação merece, por seu lado, uma atenção especial, pelos custos e pelas implicações que tem. Tem sido evidente que os novos medicamentos a surgir disponíveis trazem um preço associado muito elevado. E para esse preço muito elevado coloca-se a questão de saber se vale a pena face ao benefício que trazem, primeiro aspecto, e saber se há capacidade orçamental para os pagar, segundo aspecto.

Os dois aspectos encontram-se de alguma forma ligados. Na avaliação económica de inovação, se for incluído no custo de oportunidade as implicações em termos de orçamento (no limite, para orçamento fixo, o custo de oportunidade será dado pelo benefício que deixa de ser recolhido por se desviar fundos de outras actividades para o novo medicamento a ser comparticipado), então o segundo aspecto automaticamente está respondido. Mas incluir o verdadeiro custo de oportunidade, num contexto de orçamento global fixo – independentemente da forma como seja fixado para cada ano -, não é um exercício técnico fácil.

A opção que tem sido feita de acordos que implicam um controle orçamental da despesa, limitando o número de doentes a serem tratados e/ou envolvendo cortes de preços, terá sempre limites. Por exemplo, a credibilidade de o SNS dizer que trata apenas alguns doentes e não outros, mesmo que estejam em situações clínicas similares, apenas porque não quer exceder o orçamento (e de um ponto de vista da sociedade, não meramente orçamental, não haverá razão para essa limitação). Ou seja, é uma solução que também tem os seus problemas.

Idealmente, à introdução de inovação deveria ser contraposta a saída do que estivesse a ser menos benéfico para os doentes, qualquer que seja a respectiva área. De uma forma simples (muito simples, mas serve para introdução do argumento), se houver um orçamento fixado para a despesa pública em saúde, a melhor forma de o afectar a diferentes usos, seria, para todos os usos possíveis, fazer uma ordenação das intervenções, quaisquer que fossem, de acordo com o benefício gerado (e seria necessário ter uma medida de benefício suficientemente universal) por unidade de custo/preço. O orçamento seria sucessivamente utilizado por intervenções com benefício / custo cada vez menor. Quando se esgota o orçamento, ficam de fora as intervenções que menores resultados produzem. Neste contexto, introduzir uma inovação significa alterar esta ordenação de algum modo, e se tiver associado um benefício / custo elevado leva a que algo no final da lista seja excluído (pode ser ou não no campo do medicamento).

Claro que se pode argumentar que também há outras despesas públicas que não terão tanto efeito, e nesse caso, poderiam sair menos intervenções da área da saúde e haver algum aumento de orçamento para a saúde.

Um aspecto central deste quadro conceptual é que a visão de silo dentro do campo do medicamento dificilmente será óptima de um ponto de vista social.

A dificuldade deste quadro conceptual está em conhecer todas as relações benefício / custo das intervenções realizadas em saúde, sendo complicado o exercício por algumas serem mutuamente interdependentes (por exemplo, as diferentes respostas que podem ser dadas pelos cuidados de saúde primários, ou pelos cuidados hospitalares, ou pelos cuidados continuados). Na verdade, não é preciso conhecer toda a ordenação, basta conhecer na “fronteira de inclusão”, e o novo sistema de avaliação de tecnologias em saúde, anunciado publicamente e em fase de ser produzida a respectiva legislação, poderá começar a fornecer uma base de informação necessária para pensar em exclusões originadas por entrada.

Podem, e devem, ser encaradas outras alternativas, ou pelo menos ser discutidas de forma detalhada. Por exemplo, a ideia que criação de um fundo para financiar inovação – como é que se enquadra no processo de decisão? quais as propriedades do seu financiamento a longo prazo? quem decide e como?

Também outras ideias podem ser exploradas, como as próprias empresas submeterem redução de preços noutras áreas de tal forma que a despesa nos seus produtos como um todo não se altere do ponto de vista da despesa pública; poderá ser uma via interessante, embora tenha o risco de quase constituir um “direito adquirido” sobre a despesa pública. Esse risco poderá ser mitigado de alguma forma?

Pensar em termos de “cost off-set”, isto é, despesas hoje pouparem custos futuros tem o problema de a restrição orçamental hoje ser forte, e o custo de oportunidade dessas poupanças futuras surgir elevado por causa disso; que mecanismos poderão ser criados para que essas poupanças futuras possam ser “trazidas” para o momento actual, e quem suporta os riscos que eventualmente lhe estão associadas?

Até se pode pensar em soluções mais radicais, quando é proposta uma “inovação” para comparticipação, é também proposta uma “descomparticipação” ou terminar uma intervenção, da mesma ou de outra empresa, no campo do medicamento, ou fora dele, como ponto de partida para o processo de decisão.

A dimensão do mercado português, desde que as decisões aqui tomadas não afectem outros mercados de maior significado, favorece encontrar soluções que podem não ser possíveis em mercados alargados.

A introdução do que for verdadeiramente inovador, em termos de benefícios para os doentes, tem que encontrar uma forma de lhes chegar, atendendo às restrições existentes. É um princípio que será provavelmente indisputado. Pelo que a discussão tem que recair sobre as formas e condições de o fazer.

Apesar de no espaço de um blog não caber encontrar uma solução (ou soluções, pode não ser apenas uma), creio que o argumento para não pensar em termos de percentagem da despesa pública é forte, mesmo que essa fosse uma solução aparentemente simples.

Onde entra aqui a contribuição para o Pacto possível? na discussão dos princípios a adoptar e dos mecanismos de decisão. Sendo a inovação, nomeadamente nos medicamentos, um dos principais factores de crescimento da despesa pública em saúde, é de todo o interesse que a questão seja colocada. Cabe agora encontrar a resposta.

 

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Pacto para a saúde (2)

Continuando ainda no primeiro ponto da proposta do Ministério da Saúde, alguns números ácioápidos ajudam a enquadrar a discussão. A primeira figura apresenta a percentagem da despesa pública em saúde (tendo como fonte a execução orçamental, valores consultados na Pordata) sobre o PIB. A segunda figura apresenta a despesa pública em saúde, valor em milhões de euros, contendo três séries: o valor real, conforme a execução orçamental; o valor hipotético caso fosse usada uma regra que fixasse a despesa pública em saúde igual à média da percentagem do PIB nos últimos 10 anos; o valor hipotético caso fosse usada a média dos últimos 5 anos. Tomou-se como ponto de partida 2006, uma vez que a execução orçamental de 2005 reflecte o orçamento desse ano, em que também houve uma “limpeza” de dívidas anteriores.

Dada a tendência ascendente da despesa pública em saúde, limitar o crescimento ao que resultaria de manter o rácio face ao PIB igual ao valor médio dos últimos 10 anos traduziria-se num corte mais elevado do que o registado na evolução real. Se for a média dos últimos 5 anos, então o efeito seria menor mas excepto para 2013 haveria sempre menor despesa do que a evolução real. Em valor acumulado de 2006 a 2013, qualquer uma das regras implicaria menor despesa pública em saúde (com a série baseada na média de 5 anos, a despesa acumulada em 2006-2013 seria 95% da real, e com a séria baseada na média de 10 anos seria de 85%).

Claro que se fosse estabelecido um rácio de 6%, as conclusões seriam radicalmente diferentes e haveria sempre maior despesa com a regra do que com o valor real.

Embora esta simulação rápida tenha sido feita com a execução orçamental, conjecturo que as conclusões não seriam muito diferentes se fosse usado o orçamento ou a despesa do SNS. Como houve dívidas acumuladas, utilizar o orçamento do SNS é menos interessante, e como houve despesas da ADSE que passaram a ser incluídas no orçamento do SNS, utilizar a execução orçamental é uma forma mais rápida de olhar para o problema, facilmente replicável.

Figura 1

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Figura 2

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o slide 28

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