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Guião da reforma do Estado (4)

Na secção 1.4 é discutida a carga fiscal em relação à despesa pública. A principal ideia retomada é a de descida do IRC para promover investimento e emprego.

Há aqui três aspectos centrais que têm de ser muito mais claros.

Primeiro, o papel da descida do IRC – sem mais informação sobre como é que se estimam os efeitos anunciados, pode mesmo ser contrária aos objectivos anunciados, de um ponto de vista de eficiência de funcionamento da economia e não apenas de redistribuição dentro da sociedade. Voltarei provavelmente a este tema mais tarde, e já o foquei num post anterior (aqui): “sobre a alteração do IRC será extremamente útil e de esclarecimento para todos que o Governo publique um conjunto de quadros simples indicando, por classe de dimensão de volume de negócios, quais os benefícios retirados, e por sector de actividade. É que se em abstracto a ideia considerada boa é a de dar recursos para investimento às empresas, deve-se saber quais as empresas que mais beneficiam potencialmente, por classe de dimensão da empresa e por sector de actividade. Gostaria de confirmar que beneficiam mais as pequenas e médias empresas em sectores que produzem bens transaccionáveis, as mais sensíveis a não terem acesso a fundos para o seu desenvolvimento, do que as grandes empresas em sectores de bens não transaccionáveis e protegidos.”

Segundo aspecto, há uma discussão sobre carga fiscal e valores médios de tributação enquanto para avaliar os efeitos de distorção sobre a economia interessa sobretudo os valores marginais de imposto. A análise deverá ter uma componente relativa aos efeitos de eficiência, e não apenas referente aos efeitos de distribuição.  Um exemplo muito simples, com tributação sobre salários: suponha-se um vencimento mensal de 1000 euros. Comparem-se duas estruturas de tributação: uma tem uma taxa única de 24%, qualquer que seja o nível de rendimento. Origina uma receita fiscal de 240€. Uma outra estrutura fiscal, tem uma taxa de 0% na parte do salário até 600 euros, e uma taxa de 80% na parte do salário acima de 600 euros. A receita fiscal obtida é de 240€. Ou seja, ambas as opções dão a mesma receita média, logo a mesma carga fiscal média mas vão gerar distorções distintas. Suponhamos que a esta pessoa é proposto um aumento de trabalho remunerado a 100€ mais por mês – no primeiro caso, receberá líquidos 76€ pelo trabalho adicional, no segundo caso receberá 20€ – o interesse em aceitar esse trabalho adicional é muito menor no segundo caso.

Terceiro aspecto, é dito que é pertinente reduzir a carga fiscal para acentuar o crescimento económico, mas não é dito qual o mecanismo económico pelo qual se espera que esse efeito apareça, e sem o conhecer não é possível dizer se apenas baixar carga fiscal terá algum efeito – o que nos remete de algum modo para o segundo aspecto apresentado anteriormente, que taxas provocam que distorções? Sem esse conhecimento, é fácil ter resultados inesperados. Retomando o exemplo acima, aumentar a zona de isenção (de 600 para 750 euros, digamos) e aumentar a taxa de imposto na zona não isenta para manter a receita fiscal constante, levaria a taxa marginal para perto dos 100% (96% mais exactamente), pelo que não seria feito qualquer esforço individual para fazer crescer o produto em 100€ de remuneração dado que apenas 4€ ficariam para o agente que desenvolveu esse esforço adicional.

 


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Guião da reforma do Estado (3)

O primeiro capítulo do documento é pouco interessante. Procura fazer uma revisão da situação actual, mas sem recurso a informação quantitativa. A opção é lícita, até certo ponto. Importa conhecer e dar a conhecer alguns números para que cada leitor possa fazer o seu juízo. O equilíbrio entre a afirmação política e o facto técnico também deveria ser procurado. Há afirmações que são do domínio político, enquanto outros aspectos são factos técnicos. A distinção poderia ter sido facilmente feita indicando-se em nota de pé de página links para documentos ou fontes de dados que corroborem as afirmações realizadas. Como exemplo, não teria dado grande trabalho introduzir referências à informação constante dos documentos de execução orçamental (ver aqui) para suportar as afirmações sobre as componentes mais importantes da despesa pública.

A discussão sobre as medidas chumbadas pelo Tribunal Constitucional  (p.14) mistura os aspectos de curto prazo com as decisões de longo prazo. No curto prazo coloca-se a questão dos cortes salariais, mas se a intenção é terem uma natureza de longo prazo, ou se é pretendido que a possibilidade de redução salarial seja um instrumento de gestão da despesa pública numa perspectiva de longo prazo, então a introdução do tema de revisão constitucional deveria ser explicitamente feita. Pode até ser que as condições políticas não permitam fazer essa revisão constitucional. A mistura de aspectos de curto e longo prazo é porém pouco útil para organizar a discussão.

Mais importante é a discussão do que decorre das nossas obrigações internacionais por se estar dentro da zona euro. É colocado destaque na ideia de que em breve vamos readquirir a soberania perdida. Na verdade, do ponto de vista da condução das políticas económicas, essa soberania será mais ilusória do que real, uma vez que a dívida não desapareceu, e ter-se-á que procurar os mecanismos que permitam o seu pagamento. Envolverá mecanismos de compromisso do Estado para não voltar a entrar num processo de despesa excessivo, e envolverá uma gestão cuidada dos processos de financiamento do Estado.

E aqui surge um dos primeiros pontos em que é de exigir uma reflexão adicional. O discurso adoptado no documento está essencialmente preso à ideia de que só podemos ter o Estado que temos capacidade de pagar. Esta é uma ideia pouco motivadora. Mais interessante, a meu ver, será perceber como é que o Estado se pode organizar de forma a que cumprindo as funções que a sociedade pretenda que tenho promove e estimula o crescimento económico e o desenvolvimento social. É diferente ter que pensar um Estado que se mete dentro de uma restrição orçamental, como objectivo, de um Estado que se tenha por objectivo cumprir funções embora sujeito a uma restrição orçamental.


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Guião da reforma do estado (2)

Hoje tinha planeado entrar numa análise mais de detalhe do guião. Só que as reacções ao próprio documento criam-me alguma confusão.

Consigo arrumar essas reacções em três categorias

a) as propostas serem demasiado vagas.

b) as propostas serem fora de tempo.

c) as propostas serem “velhas” em grande medida.

Vejamos cada uma destas reacções – as propostas serem demasiado vagas, dando-se como exemplo o documento do FMI do início do ano. É certo que as propostas apresentadas no guião não são de detalhe. São ideias, não propostas concretas. Esta observação, sendo verdadeira, parece-me pouco útil. Se houvesse propostas muito detalhadas, então o documento não teria uma dimensão legível, e facilmente se diria que não há uma visão de conjunto. Na versão actual, não é inteiramente clara qual é essa visão de conjunto, mas num documento de 900 páginas, como seria pelo menos a dimensão caso cada ideia fosse desenvolvida adequadamente, certamente ficaríamos perdidos.

A este respeito, uma das reacções que ouvi na rádio imputada a um partido da oposição, que se apresente uma proposta legislativa no parlamento para discussão, é que me parece despropositada. É demasiado tarde, e no Parlamento há uma componente de discussão política pura em que a liberdade de pensamento de cada lado fica claramente limitada pelo posicionamento político e pela necessidade de falar para a televisão. Há um trabalho técnico a ser feito antes disso, e uma necessidade de ouvir a população nalguns casos que torna desejável um processo mais longo, de consensualização, antes de chegar ao Parlamento. Sem menorizar o papel do Parlamento, há momentos e discussões em que se torna desejável ter um processo de discussão prévio a esse passo. A reforma do Estado é para mim uma dessas discussões. Mas deixemos a componente política para os comentadores respectivos.

Não se deveria esperar que o guião da reforma do estado fosse a resposta a todos os anseios de todos os portugueses. Mas que constitua um ponto de partida para uma discussão séria. A reacção de que são ideias vagas é uma forma de fugir a essa discussão. Cabe ao Governo agora apresentar ideias concretas para cada área, e aos outros partidos políticos e à sociedade comentar, melhorar e apresentar alternativas. O erro será pensar que a reforma do Estado se esgota nesta apresentação do guião. No entanto, a esmagadora maioria das reacções parecia esperar que este documento fosse a palavra final. Caso em que acusariam o Governo de autismo muito provavelmente. A pergunta que deve ser colocada é diferente: este guião impede que se inicie um processo de discussão, primeiro geral, e depois particular, sobre a extensão da intervenção do Estado? para mim a resposta é não.

A mensagem implícita que encontro nesta reacção de vacuidade é a incapacidade que temos como sociedade de preencher objectivamente esses campos, talvez porque na verdade gostamos do Estado como está, no que faz, só queríamos que ele custasse menos. Mas isto é basicamente preguiça de fazer o trabalho de perceber porque temos intervenção do Estado em cada área (que problema resolve?) e quais as alternativas possíveis.

A segunda reacção, as propostas serem fora de tempo. Era desejável que estas ideias tivessem sido apresentadas antes, no início da legislatura? claramente. Era bom que tivessem sido apresentadas pouco depois de o ano passado se ter falado no assunto? sem dúvida. Estava a ficar desesperante os sucessivos adiamentos da sua apresentação por Paulo Portas? obviamente. Mas isso é passado, adianta pouco dizer que se deveria ter apresentado mais cedo. Significa apenas que não devemos perder tempo a discutir o tempo de apresentação, e passar a dar consequências a esta apresentação do guião. A menos que nem Governo nem oposição nem sociedade como um todo estejam na disposição de realmente fazer a reforma do Estado. Pode ser que o guião seja apenas para “entreter” a troika até junho de 2014. Só que esse tipo de “jogo” normalmente acaba mal. Apesar de haver os que dizem que este é um problema político, há uma realidade económica que não desaparece. Lamento.

A terceira reacção, as propostas serem em grande medida conhecidas e não trazerem nada de novo. Também aqui não discordo particularmente. Há aqui e ali algumas ideias não exactamente novas mas mais clarificadas. Na verdade seria complicado ter ideias completamente novas em todas as áreas. É possível ter ideias novas – eu, pelo meu lado, gostaria que se criasse um grupo de implementação da reforma liderado por um holandês, e tendo na sua composição um irlandês e um alemão. Apenas pela eficácia que normalmente conseguem introduzir no processo de concretização. As ideias podem não ser novas, e na verdade eu prefiro deixar a inovação toda para o processo de fazer acontecer. Fazer acontecer significa aqui, discutir, definir as medidas, fazer as escolhas, e dar seguimento em termos de implementação.

Juntando tudo, as reacções até agora parecem-me pouco úteis para fazer progredir a discussão, concordando-se ou não com o conteúdo do documento. A principal falha do documento acaba por ser igual à principal falha das reacções: como é decidimos que alterações fazer no Estado e como é que as colocamos em prática? Para não ser acusado de não ser coerente com estas perguntas, remeto para o final do post passado, como ponto de partida: cada secretaria de estado indicar em que medida o guião lhe diz respeito, com referência às perguntas

a) qual é o problema em causa que justifica a intervenção do Estado? (a existência da secretaria de Estado, o que é que ela resolve (não o que faz…)?

b) em que medida o funcionamento actual permite atingir esse objectivo (eficácia)?

c) em que medida há opções alternativas para atingir esse mesmo objectivo?

d) qual dessas alternativas é a que tem menor custo (social, económico, etc.) de atingir o objectivo proposto?

e) que mecanismos de monitorização e aperfeiçoamento vão ser adoptados depois de escolhida a opção?

f) qual o processo de aplicação da opção proposta?

 

(isto é um pouco repetitivo, é falta de ideias novas, espero que sejam vistas como concretas e ainda a tempo de serem aplicadas)

 

ps. continua segunda-feira…

 


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Guião para a reforma do estado (1)

Ontem o Governo divulgou, através de Paulo Portas, o documento guião para a reforma do Estado. Vai levar vários dias a ler e comentar, e a concorrência será grande.  O primeiro ponto de registo é a forma como foi anunciado e introduzido. Depois de praticamente um ano de “ameaça” sobre a reforma do estado e sobre os riscos de se identificar essa reforma com meros cortes no orçamento, é interessante registar que o documento não é uma lista de cortes (esses pertencem ao orçamento do Estado). O outro elemento importante é colocar a atenção e esforço na construção para o médio e longo prazo. É a perspectiva correcta para uma reforma deste teor,  e só se pode lamentar que o documento tenha levado um ano a ser produzido (foi um ano que se perdeu de discussão).

Torna-se inevitável que esta reforma do Estado vá temporalmente além do mandato deste governo. Contudo essa característica não pode ser motivo para evitar a discussão e não levar a sério as contribuições que sejam realizadas. Com o aproximar das eleições legislativas, tudo o que for desconfortável na reforma do estado será previsivelmente colocado de lado. É importante que o processo pelo qual se vai realizar a discussão (admitindo que vamos realmente discutir a reforma do estado) tenha mecanismos que impeçam esse “deslize” da discussão.

Sobre o processo, a introdução do documento é desde logo clara: “o método proposto para reformar é o do gradualismo”, o que quer que isso queira realmente dizer. Seria útil que houvesse nos próximos dias uma clarificação do processo de discussão, e de como as contribuições podem ser realizadas, e de como serão acomodadas na discussão. E esse processo pode ser diferente de área para área.

No que foi anunciado, há aspectos que dependem apenas da vontade do Governo e da sua capacidade de liderança interna em promover as transformações – por exemplo concentrações de organismos dentro da Administração Pública, ou junção de funções similares realizadas em diferentes ministérios (foram mencionadas as situações dos gabinetes jurídicos e das secretarias gerais na apresentação pública).

Também a gestão dos recursos humanos depende essencialmente do Governo, e foi referida a opção por ter menos funcionários públicos melhor remunerados e com maior produtividade (suponho). Aqui o trabalho a realizar é sobretudo dentro da Administração Pública e não é claro que tenha que ser debatido publicamente e politicamente. Mas seria importante, e retomando o tema dos textos aqui colocados no início da semana, saber que a Administração Pública vai ter mecanismos de gestão de talento, e mais do que atrair com boas remunerações profissionais adequados (o que será um desafio) é necessário perceber como vai lidar com os problemas de falta de desempenho. A falta de desempenho pode resultar de muitas razões, e nem sempre o despedimento é a melhor solução, nem a única, pelo que ter mecanismos para a sua resolução não poderá ter como única resposta facilitar os despedimentos ou a criação de bolsas de disponíveis na função pública. Não é dessa forma que as melhores organizações resolvem os problemas, embora esse instrumento tenho que eventualmente estar disponível de alguma forma.

De resto, numa primeira leitura breve do documento, a sensação que fica é a de somatório de contribuições de pessoas de várias áreas com as suas ideias, mas não é totalmente claro que se tenha uma visão clara de conjunto. E será igualmente relevante que essa visão de conjunto se vá construindo.

Calculo que durante os próximos dias vários comentadores venham dizer que estão desiludidos com o guião da reforma do Estado. É natural. Cada um teria em mente um documento diferente, como se cada um esperasse que o Governo apresentasse um documento como ele, comentador, o faria. Não é possível isso suceder, na medida em que cada pessoa pensaria e daria ênfase a aspectos diferentes. Ao começar a ler, sinto naturalmente os meus próprios enviesamentos, mas o aspecto principal é saber se este documento pode dar início a uma discussão séria sobre a reforma do Estado. E a essa pergunta a minha resposta é um sim. O documento não é particularmente longo, e permite entrar em discussões sectoriais de detalhe com alguma base. Digo alguma base porque será necessário que agora, para as ideias apresentadas, se tenha um mínimo de método, respondendo às seguintes questões, com evidência: a) qual é o problema em causa que justifica a intervenção do Estado? b) em que medida o funcionamento actual permite atingir esse objectivo (eficácia)? c) em que medida há opções alternativas para atingir esse mesmo objectivo? d) qual dessas alternativas é a que tem menor custo (social, económico, etc.) de atingir o objectivo proposto? e) que mecanismos de monitorização e aperfeiçoamento vão ser adoptados depois de escolhida a opção? f) qual o processo de aplicação da opção escolhida?

Um bom ponto de partida, quanto a mim, seria cada secretaria de estado, uma vez publicado o guião, indicar em que medida o guião lhe diz respeito, com referência às perguntas acima indicadas.

Claro que isto não vai acontecer neste país. Mas devíamos ser exigentes a esse ponto. De colocar a própria administração pública a contribuir para a discussão do guião da reforma do Estado de uma forma técnica.

 

(continua amanhã….)


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Guião para a Reforma do Estado – o documento

disponível aqui, a discussão começa amanhã.


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jantares, debates, enfermeiros e sistema de saúde

A semana passada decorreu um jantar debate com a presença do Ministro da Saúde organizado pela Ordem dos Enfermeiros (noticia aqui) (3 de Outubro 2013). O debate foi orientado para três grandes grupos de questões: reforço dos sistemas de saúde, expansão do papel da enfermagem e respostas aos desafios políticos. Decidi colocar aqui as principais ideias que retive desse debate.

A componente de reforços dos sistemas de saúde é normalmente uma área consensual, e hoje em dia não há grande divergência nas grandes linhas de importância das desigualdades sociais para as desigualdades em saúde, da crescente importância das condições crónicas, e do “mantra” de saúde em todas as políticas. Aspectos genéricos sobre os quais é fácil ter a concordância de todos.

Um tema interessante introduzido para discussão foi o da definição dos indicadores relevantes, com a distinção entre o que são indicadores que os “técnicos” gostam de calcular e os indicadores que interessam às pessoas. Esta é uma discussão menos óbvia do que parece: os técnicos podem querer calcular apenas os indicadores que conseguem mesmo que traduzam pouca informação, os técnicos podem querer calcular indicadores que decorrem das perguntas a que querem responder, as pessoas querem conhecer os indicadores do que pensam que é relevante para o seu conhecimento e para as suas escolhas e podem estar certas ou não. Cada indicador deve ter um objectivo no seu cálculo, e se é produzida informação com esse indicador, deve-se saber para que serve essa informação, em que medida leva ou não a decisões diferentes.

Ainda nestes aspectos gerais, surge mais uma vez como incontestada a ideia de um Serviço Nacional de Saúde de cobertura universal, equitativo no acesso e no financiamento, e de elevada qualidade.

Também recorrente nestas discussões é referência à prevenção, como promessa de sempre que fica sempre aquém do que se planeia. A verdadeira questão não é saber se a prevenção é relevante e sim porque não se concretiza. Uma das razões, a meu ver, está dificuldade de medir o resultado da prevenção – é medir o que não acontece, e ligar esse “não acontecimento” à actividade de prevenção. A segunda dificuldade está no tempo que demora a produzir resultados.

A expansão do papel da enfermagem é um tema mais polémico, embora do ponto de vista da análise económica não coloque grandes problemas. É um problema sobretudo de gestão das relações entre classes profissionais, de “reservas” de áreas de actuação, que sendo manifestamente do interesse individual podem facilmente divergir do interesse colectivo (embora normalmente as associações de profissionais apresentem os argumentos sob a capa do interesse colectivo, naturalmente).

A definição do papel do enfermeiro de família permitirá concretizar a curto prazo esta ideia, e elaborar um plano de acção para a aplicação concreta deste conceito. (há um grupo de trabalho que deve dar origem a alguma decisão)

Os desafios políticos envolvem a gestão das mudanças que é preciso fazer, em que a avaliação de impacto e a utilização de evidência para promover e justificar propostas ainda se encontram num patamar baixo. Há aqui o desafio de mudar o tipo de despesa e de organização, que normalmente envolve grupos que ganham e grupos que perdem, conseguir situações em que ninguém piore pode ser complicado mas deverá ser um primeiro nível de tentativa, como forma de reduzir resistências. Claro que quando as resistências se colocam em termos de posições relativas, não é possível gerar contextos em que ninguém piore e alguns melhorem, pelo que haverá nesse caso um julgamento a fazer.

Mais dentro da intervenção da Ordem dos Enfermeiros foi referido o documento com 15 propostas da Ordem dos Enfermeiros que estão a ser contempladas e apreciadas de acordo também com a informação e conhecimento disponíveis. Se assim for, e algumas das propostas resultarem em algum tipo de decisão, será um exemplo de boa contribuição institucional para a evolução e melhoria do sistema de saúde português.


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e o que pode resultar dos resultados das autárquicas?

ao contrário do que se possa pensar do título, não estou a pensar em leituras políticas a nível nacional, ou a nível local sequer, ou em política.

A questão mais interessante, do ponto de vista económico, e ligando à reforma do estado, é outra. Com as eleições realizadas, e com o decréscimo do número de câmaras municipais nas mãos dos partidos da coligação governamental, será que se conseguirá desbloquear uma verdadeira reforma da administração local. A união de freguesias foi uma resposta tímida ao desafio do Memorando de Entendimento de obter uma administração local mais eficiente. Dizer que se reformou a organização administrativa do país com essa união de freguesias não é razoável.

Mas com esta mudança no mapa autárquico, a resistência informal (via pressão interna dos partidos) será substituída por pressão pública, o que tornará mais claros os argumentos a serem usados nalguma tentativa de reforma.

Um segundo aspecto de interesse dos resultados é o aumento de casos em que cidadãos agrupados de forma não partidária ganham a presidência de câmaras municipais. Uma vez que existe literatura a demonstrar o efeito dos ciclos eleitorais na despesa pública feita pelas autarquias (ver aqui os diversos trabalhos de Linda Veiga e associados, Universidade do Minho), será interessante seguir se o comportamento destes novos eleitos irá seguir o padrão habitual e associado a presidentes eleitos em listas de partidos ou não.

 


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Sextas da reforma – primeira sessão

Na passada sexta feira, 20 de Setembro decorreu com a intervenção de Kristina Lundqvist,  “qualidade e utilidade da informação financeira na administração pública” a primeira sessão de um ciclo de conversas entitulado “sextas da reforma“, sobre a reforma do estado.

Para quem não teve a possibilidade de estar presente, deixo aqui as impressões directamente do meu bloco de notas:

Introdução prévia à apresentação, realizada por Teodora Cardoso: Parlamento português aprova mais de 40 000 dotações de despesa, muitas de pequeno montante; na Suécia o valor é de 540, no Reino Unido de 450 e em França 256. O nível de granularidade de informação tem que ser muito grande para estas aprovações todas. Não contribuem para a transparência nem para a disciplina orçamental. E as mais de 40 000 dotações de despesa estão sempre a ser alteradas (não por votação no Parlamento, mas envolvem um processo consumidor de tempo). Gastam-se recursos sem haver realmente gestão das despesas. Há um enviesamento deficitário no sistema orçamental uma vez que se baseia numa previsão de receita normalmente optimista, mas a despesa fica logo inscrita, mesmo que a previsão da receita não se venha a verificar. A autorização do limite de aumento da dívida pública é também bastante generoso, permitindo acomodar a redução da receita que gera défice face a uma despesa que se realiza na mesma. Este enviesamento é reforçado pela perspectiva anual das decisões, uma vez que muita despesa tem implicações para os anos seguintes. A situação sueca é radicalmente diferente. Na Suécia há pragmatismo e organização. Não há improvisação no orçamento e por isso tem-se algo a aprender com esta experiência sueca.

Apresentação de Kristina Lundqvist

Procuram ter informação financeira de boa qualidade a tempo e para múltiplos fins. O organismo sueco é o National Financial Management Authority, (SVE).

A Suécia tem dívida pública sobre PIB à volta dos 40%, resultado em parte do enquadramento orçamental estabelecido nos últimos 20 anos.

O orçamento de estado sueco tem 23 áreas de despesa, monitorização mensal da despesa e em 2000 houve a fixação de um objectivo de excedente orçamental. A informação financeira produzida pelo SVE inclui a monitorização mensal do orçamento do estado, a publicação trimestral de estatísticas financeiras e a publicação anual de contas consolidadas.

Os utilizadores da informação financeira são: Parlamento, Ministério das Finanças, entidades estatísticas, instituto para a investigação, bancos, etc.

Os relatório são tornados disponíveis publicamente. Publicam previsões actualizadas trimestralmente.

Têm rotinas de produção de informação estabelecidas para cada mês, envolvendo reporte dos organismos governamentais, processamento da informação e publicação mensal dos resultados.

As estatísticas financeiras incluem as receitas, as despesas por tipo de despesa e as despesas por objectivo.

O relatório de consolidação das contas do governo central é apresentado no Parlamento até 15 de Abril de cada ano.

A recolha e consolidação dos dados financeiros é feita a partir de 230 organismos com sistemas contabilísticos separados, a base de dados central agrega tudo. A ESV garante a qualidade dos dados. Dão depois informação financeira agregada nas várias dimensões.

A base de dados é parte de um sistema de informação de maior dimensão, usado para o estabelecimento do orçamento do estado. A ESV tem a seu cargo a gestão e manutenção deste sistema de informação.

Como assegurar a qualidade dos dados? Regras claras e divulgadas, treino e formação, auditoria e outros controles.

Sobre as regras contabilísticas, vão desde uma lei orçamental global até orientações e manuais, as regras são obrigatórias para os diferentes organismos governamentais. As excepções têm que ser solicitadas e adoptadas. O que não estiver dentro destas regras tem como referência as regras de contabilidade utilizadas no sector privado.

Oferecem formação, conferências e orientação – apesar das semelhanças com o sector privado, há a necessidade de promover informação e formação (cursos, seminários, conferencia anual, newsletter, FAQ colocadas no sítio de internet). Também respondem a emails e telefonemas que lhes sejam dirigidos.

As conferencias são financiadas por pagamentos dos participantes.

Há auditoria da informação financeira. Uma auditoria externa pelo Swedish National Audit Office, e uma auditoria interna (os organismos públicos de maior dimensão têm que possuir uma auditoria interna). As auditorias internas são apoiadas pelo ESV.

Produzem um rating da gestão financeira. Reflecte em que medida a prática de cada organismo está de acordo com os princípios contabilísticos. Têm 26 questões em práticas e rotinas de resposta dada pelos próprios e 17 questões respondidas pelo ESV.

As previsões trimestrais são sobre receitas e despesas, limita da despesa e objectivo de excedente orçamental. Os ministros não têm capacidade para intervir no ESV, fazendo com que as previsões tenham credibilidade. As previsões são realizadas até 2017 (neste momento) e envolvem 14 pessoas, com especialização numa área especifica para ter o conhecimento necessário para fazer a previsão.

Têm como objectivo de excedente orçamental 1% do PIB, calculo em média do ciclo económico, para evitar políticas pró-cíclicas. É difícil definir e medir o que é ciclo económico e sobre o valor de excedente de 1% tem havido discussão sobre ser demasiado elevado.

O sistema foi desenvolvido desde meados dos anos noventa e foi evoluindo gradualmente. Não sendo perfeito vai sendo aperfeiçoado com o tempo.

Comentários e debate; perguntas e respostas.

Há iniciativas em curso em Portugal para rever brechas no processo orçamental.

Revisão do processo orçamental: tem que se automatizar um bom processo. O nível de detalhe exigido dispersa a atenção e tem impacto na “qualidade de vida” dos organismos e na responsabilização da sua actividade.

A conta geral do estado tem 8000 páginas. Transferiu-se o foco prospectivo de gestão para o retrospectivo da inspecção.

Perspectiva de inicio de controlo: sistemas de informação – há passos a dar na integração desta função. Há diferentes níveis de agregação (atomização) para diferentes organismos. Há que melhorar.

Na Suécia a maioria das funções sociais está nas autarquias. Como é integrada a despesa das autarquias no orçamento do estado? As autarquias também têm uma regra de orçamento equilibrado que é verificada, apesar de serem um sector autónomo.

O governo central faz transferências para as autarquias? E que percentagem do PIB? Sim, o dinheiro é transferido para as autarquias. É um valor substancial.

Como é que a organização da administração pública está especificada? O que significa um organismo ser responsável perante o conselho de ministros? Um ministro não pode alterar dotações orçamentais? A reafectação de verbas de um organismo para outro dentro do mesmo ministério tem que ser aprovado em conselho de ministros. É uma decisão colectiva. Dentro do mesmo organismo não pode alterar dotações orçamentais com um fim específico.

Quem fornece as previsões macroeconómicas para que as previsões orçamentais sejam compatíveis com elas? O ESV faz as previsões macroeconómicas.

Qual a base para estabelecer o limite da despesa? Qual é a regra seguida? O limite é estabelecido em termos nominais e com três anos de avanço. É proposto pelo Governo, tendo em conta o objectivo de variação da dívida, o crescimento da economia, a inflação, bem como a tendência histórica.

Os limites da despesa cobrem toda a despesa, incluindo os financiados de outra forma? Apenas incluem o que é financiado por impostos.

Comentário: decorreram oito anos entre o início e o estabelecer do enquadramento orçamental. É um processo que leva muito tempo. É preciso uma visão partilhada entre governo, níveis de administração e actores políticos. É necessário um compromisso político durável e capacidade institucional para aplicar. Em Portugal tem-se falhado nas diversas tentativas. Falha-se na visão partilhada. Falha-se na capacidade do Ministério das Finanças.

Qual o grau de autonomia e independência na produção das previsões pelas várias instituições? Não existe coordenação entre instituições na produção de previsões.

Que grau de centralização existe e/ou é desejável na recolha a partir dos sistemas de informação dos vários organismos? É um problema ter tantos sistemas de informação. Muitos dos organismos têm sistemas similares. Organismos muito pequenos adquirem fora. Começaram há um ano a experimentar um serviço partilhado que fará a contabilidade de um universo alargado de organismos. Mas a responsabilidade permanece com o organismo.

É feita revisão dos limites de despesa? Os limites normalmente não sofrem alteração. Até agora só foram revistos uma vez e no sentido de os baixar, quando a atual coligação de direita iniciou funções governativas na Suécia.

(alterado a 25 de Setembro de 2013)


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Tempos de conferências

No espaço de 10 dias duas conferências em Portugal para dar atenção:

dias 6 e 7 de Setembro, a conferência do Instituto de Políticas Públicas, sobre o novo contrato social e a reforma do estado, programa aqui

dias 13 e 14 de Setembro, a conferência da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Portugal Europeu. E agora?, com programa aqui. A propósito desta conferência colocaram-me o desafio de responder a duas perguntas: o que é a Europa para si? e quando se sente europeu?

A resposta a esta segunda questão está aqui. A resposta à primeira pergunta foi mais difícil, porque para a Europa surgem dois aspectos: história e diversidade, Grécia, Roma, as aventuras marítimas de Espanha e Portugal, a Revolução Francesa e a França como centro cultural, a construção europeia e Bruxelas como capital dessa construção, e a emergência da Alemanha como potência económica. Colocar tudo isso numa única referência não foi fácil, mas está aqui o resultado.

Falaremos depois do que valer a pena destas conferências.


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no regresso às aulas, relembrar a importância do TPC

A reforma do estado voltou a acender discussões depois do recente chumbo do Tribunal Constitucional a medidas avançadas pelo Governo. Desta vez a tempo de serem corrigidas ou encontradas outras. Deveria este processo ser eventualmente encarado com mais normalidade.

Mas o que realmente me choca é que dentro de poucos meses fará um ano (doze meses, trezentos e sessenta e cinco dias) que se falou pela primeira vez na dura reforma do estado que aí vinha, com um corte de 4 mil milhões de euros para serem decididos até Janeiro (ou Fevereiro, não me recordo exactamente) de 2013. Na altura desse anúncio, era relativamente claro que sem uma ideia do que deverá ser as funções do Estado (o que assegurar e como assegurar) dificilmente faria sentido falar em cortes só por cortes. E o primeiro passo para ter essa ideia é ter um mapa do que o Estado faz e não faz, porque faz e para quem faz. O Estado português nem sabia a quantos funcionários pagava há uns tempos (?). Antes do Verão iria ser apresentada uma proposta de reforma do Estado, mas dissolveu-se na espuma da praia. Provavelmente, seria uma colecção de medidas em que a coerência global seria difícil.

Dado que é relevante fazer a reforma do Estado, devemos aproveitar o regresso às aulas, para se fazer o TPC necessário para iniciar esse processo. O trabalho para caso em causa não é reunir mais uma comissão que emita mais um relatório. Neste momento, o melhor ponto de partida é mesmo ter uma descrição detalhada do que faz e para quem faz cada serviço do Estado. Em termos técnicos ter uma espécie de matriz input-output dos serviços da administração pública. Sem esse conhecimento, será muito difícil gerar qualquer solução que tenha capacidade de perdurar.

Seria provavelmente revelador saber por serviço do estado em que se gasta o tempo e os recursos – a responder a outros serviços do estado? a fazer outros pedidos a outros serviços do estado? a interagir com a “sociedade”, prestando serviços ou solicitando acções dos cidadãos? Não será fácil fazer esta tipologia nem construir esta matriz, só que sem ela dificilmente se terá ideia das repercussões de cortar aqui ou ali.

Reforma do estado implica mais do dizer que a administração pública vai fazer tudo o que fazia antes mas a pagar menos aos trabalhadores e a despedir uns quantos. Avançar desta forma vai apenas fazer com a uma degradação no curto prazo do funcionamento do estado se venha a responder com mais contratação no futuro, logo que acabar o programa de ajustamento e as restrições, e rapidamente voltaremos a cair na mesma situação.

O TPC para férias teria sido criar esta informação. Mas se não foi feito, talvez até à discussão do Orçamento do Estado se possa fazer?