Momentos económicos… e não só

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O relatório da OCDE (2)

Ainda na introdução do relatório da OCDE, há uma referência à necessidade de uma estratégia abrangente para aumentar a produtividade, depois de uma nota de cautela sobre o papel dos estabilizadores automáticos (aceitar quebras de receita e aumentos de despesa associados com a evolução do ciclo económico como algo próprio do mecanismo de ajustamento da economia).

Esta necessidade de distinguir o imediato (papel dos estabilizadores automáticos) e do longo prazo (aumentar a produtividade) deve-se reflectir depois nas próprias medidas que sejam sugeridas.

Aumentar a produtividade é diferente de aumentar a produção.

A partir de uma situação de desemprego e menor utilização da capacidade produtiva instalada pode-se aumentar a produção estimulando a procura. Mas estimular a procura não garante aumentar a produtividade – produção realizada por hora trabalhada.

Daí que seja crucial ter no processo de ajustamento mecanismos que permitam aumentar a produtividade num horizonte longo, e não apenas aumentar a produção nos próximos meses ou ano.

Esta distinção tem também importância para a forma como lemos ou procuramos estatísticas sobre o actual momento da economia portuguesa.

O foco na execução orçamental e no valor do défice público concentra as atenções no curto prazo.

Mas deveria haver um esforço de também ser dada informação sobre crescimento da produtividade por sector de actividade económica.

A interpretação dos dados exige sempre algum cuidados.

Duas análises que me parecem relevantes são a) perceber quais os sectores que poderão vir a ter maior crescimento da produtividade; b) um sector pode ter tido crescimento da produtividade apenas porque reduziu actividade e trabalhadores, com a redução do valor da produção a ser menor que a redução no número de trabalhadores e horas trabalhadas. Ou seja, interessa o aumento da valor da produtividade por hora trabalhada que esteja associado com a capacidade de crescimento do sector (aumento da produção como resultado do aumento da produtividade).

Esta informação dará pistas mais seguras sobre a recuperação da economia e sobre as perspectivas de longo prazo.


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Portugal na Europa

Desde há algum tempo a esta parte, e como resultado do pedido de assistência que Portugal fez à troika, a relação de Portugal com a Europa (isto é, com os países da União Europeia) tem sido mais discutida. Embora pareça haver uma maioria silenciosa a favor da manutenção de Portugal na zona euro (e nem sequer se fala em deixar a União Europeia), a discussão passa por realmente por vários temas, de natureza diferente, e que facilmente se confundem dependendo de quem os estiver a discutir. Esses temas misturam a economia com a política em doses diferentes. Ainda esta semana o programa prós e contras teve essa característica, e fora desse contexto continua uma discussão sobre a saída de Portugal do Euro, liderada em grande medida por João Ferreira do Amaral.

Os três problemas que se misturam são, a meu ver,

– a influência política e a “voz” de Portugal na Europa;

– a imagem externa de Portugal e o programa de ajustamento actual;

– a economia e a estrutura produtiva do país.

Os três são diferentes e fazer o melhor possível em cada um deles implica sacrifício nos restantes, não é razoável pensar que no imediato se consegue satisfazer de forma plena os três. Além disso, há tensões de curto versus longo prazo nestes objectivos.

Não pretendo reduzir tudo aos seguintes elementos, que são apenas uma ilustração destas tensões.

Partamos do princípio que os outros países europeus têm desconfiança sobre a capacidade do Estado português conseguir equilibrar as suas contas e ir pagando a sua dívida. A capacidade de Portugal ter “voz” na condução dos destinos europeus é menor – quem confiaria a escolha de destino de férias ao colega que se sabe estar profundamente endividado e que pede dinheiro emprestado a todos, sem se saber se algum dia pagará? E quem lhe emprestar dinheiro vai querer saber como ele paga, da primeira vez até pode emprestar sem mais perguntas, mas quando esse amigo aparecer segunda vez a dizer que já gastou tudo, e que para pagar a dívida de cartão de crédito precisa que lhe empreste mais dinheiro, a sua dúvida será que devo emprestar para que ele pague o cartão de crédito ou isso é um problema desse colega? E aqui entra a imagem externa – se vir que esse colega vendeu o carro que tinha para pagar parte da dívida, então tenderá a levá-lo mais a sério. Só que a venda do carro pode ser um problema se a principal função desse colega consistir em visitar clientes na sua viatura, tendo agora que usar outro tipo de transporte, utilizando mais tempo, para visitar clientes que são menos e mais exigentes nas suas compras. O ideal seria esse colega mudar de funções, e vender online, mas ele detesta computadores – a recuperação da imagem afecta a capacidade produtiva, e mudar a capacidade produtiva sendo a solução exige…. mudança.

Claro que para Portugal a prazo não se pode deixar de mudar a estrutura produtiva, mas há vantagens em fazê-lo alterando a imagem externa para melhor, e ganhando capacidade de influenciar as decisões políticas na União Europeia.

Encontrar o equilíbrio entre estas três questões não será fácil, e será sempre criticado – nunca se alcançará o melhor possível em todas as três ao mesmo tempo pelo que se pode sempre apontar que houve uma que podia ser melhor, omitindo que para o fazer outra teria que ser sacrificada.

Pode também suceder que esteja a ver mal, e que afinal as três áreas possam ser alcançadas em todo o seu potencial máximo ao mesmo tempo. Mas pelo menos no curto prazo parece-me complicado que assim seja.


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a (triste) situação da economia portuguesa

recebi há dias, de uma pessoa de fora de Portugal, quatro perguntas e tive alguma dificuldade em responder de forma que fosse liberta dos meus preconceitos técnicos e de cidadão português.

Como foi um exercício de síntese, deixo as perguntas para que cada um também  possa pensar no que seriam as suas respostas  (deixo também as minhas respostas, mas o desafio é mesmo cada um responder às perguntas em duas linhas ou menos – muito mais haveria para dizer em cada pergunta). As perguntas ilustram também as preocupações de quem nos olha de fora.

1. Qual a situação actual da economia portuguesa?

Triste. Recessão mais forte do que esperado pelas projecções oficiais. Desemprego mais elevado. Risco de desemprego estrutural fixar-se em valores muito elevados é grande.

2. Qual a situação política actual?

Mais tensa desde Setembro de 2012. Nas últimas duas semanas pareceu haver mais flexibilidade para um entendimento com a oposição por parte do Governo. Maioria no Parlamento aparenta ser estável. Discurso do Presidente da República no 25 de Abril incendiou a oposição.

3. Como está a decorrer a implementação do programa de ajustamento?

Na componente formal, são adoptadas as medidas exigidas e as leis decorrentes são publicadas. É menos claro se a essa componente formal corresponde uma transformação estrutural. As empresas parecem ter passado a fazer um esforço sério (de sobrevivência) para exportarem mais. As famílias reduziram o seu consumo, sobretudo de bens duráveis. No sector público, é pouxo claro o que possa ter mudado. Cortar salários, como foi feito, não é mudança estrutural.

4. Consequências da decisão do Tribunal Constitucional?

A primeira foi emocional: o sentimento de que há limites ao que um Governo pode fazer, o que em momentos de desconfiança para com os agentes políticos tem algum valor. Em termos económicos, vai obrigar o Governo a procurar outras fontes de poupança de despesa, restando saber se será por corte geral ou se por começar a redefinir uma maior eficiência e campo de intervenção público.

5. Qual a atitude dos Portugueses perante a União Europeia?

Não encontro uma rejeição da União Europeia enquanto tal, nem uma animosidade especial contra a Comissão Europeia. A saída de Portugal da zona euro não é uma solução com grande apoio.

6. Qual o caminho futuro para Portugal?

Caminho longo de recuperação. Há a necessidade de ter liderança política e económica clara e esclarecida, com melhoria do processo de decisão pública. Dois aspectos chave para as políticas públicas internas: o risco de desemprego estrutural, e o “controle” da economia pelo Estado (não é só impostos, mas todos os contratos de concessão, exclusividade, licenciamentos, protecções mais ou menos encapotadas).


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são os italianos e espanhóis mais ricos que os alemães?

A propósito de um trabalho do Banco Central Europeu, surgiu a informação que os cidadãos dos países do Sul da Europa – em particular, espanhóis, italianos, cipriotas, seriam mais ricos que os alemães. Paul de Grauwe olhou para a questão através das desigualdades que também existem na Alemanha (aqui).

Uma questão similar tinha-me sido levantada há dias por um colega. Utilizando dados do inquérito SHARE, para 2011, que abrange apenas cidadãos acima de 50 anos mas tem um conjunto alargado de países inquiridos, entre os quais Portugal, é possível olhar um pouco mais para esta discussão, para este grupo da população e analisando um dos principais activos – a propriedade de habitação própria.

A importância desta discussão está em levar a questionar o apoio do Norte da Europa, leia-se Alemanha, ao Sul, leia-se países do Mediterrâneo pertencentes à zona euro.

Primeiro dado, os alemães têm por escolha comprar menos habitação própria. Esse facto é muito claro na população acima dos 50 anos, sendo mais natural no Sul da Europa uma percentagem muito elevada de pessoas acima desta idade que é dono da sua casa. (a responsabilidade dos gráficos e de imprecisões que neles possam constar são minha responsabilidade)

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Os alemães por outro lado são os que têm menos dívidas na aquisição de habitação própria.

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Em termos de rendimento ajustando para os níveis de preços em cada país e para a composição dos agregados familiares, na população com mais de 50 anos, os alemães não são os mais ricos, sendo mesmo ultrapassados pelos espanhóis. Mas como estamos a falar de habitação própria e resultante de valores auto-reportados pelos próprios donos das habitações, a existência de uma “bolha” de preços na habitação em Espanha poderá reflectir-se em valorizações pessoais e não de mercado (valor de transacção) das habitações. O valor de mercado é aquele pelo qual conseguimos vender não aquele pelo qual gostaríamos de vender ou que achamos que é “justo” vender. Por isso, a percentagem de proprietários sem dívida relacionada com a habitação poderá ser uma melhor aproximação da riqueza da população com mais de 50 anos de cada país, e nesse indicador os alemães surgem muito claramente diferenciados do sul da Europa (tal como os holandeses).

É preciso ter o cuidado de estes valores não serem rendimentos nominais de cada cidadão, e dizerem respeito a uma parte da população apenas.

Ainda assim, é notável que as diferenças entre os cidadãos de diferentes países assinalem rendimentos mensais que depois de ajustados para a dimensão do agregado familiar e poder de compra que não são muito diferentes entre países e em particular a Alemanha não aparece como uma posição de muito maior rendimento que os restantes, pelo menos nesta população. Se tal se deve à generosidade dos sistemas de pensões ou a outro motivo, é algo que não é possível aqui distinguir.

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a mensagem de Ano Novo do PR

A mensagem de Ano Novo do Presidente da República tocou nos tópicos do momento: espiral recessiva, desemprego jovem, redução défice, impacto sobre as famílias, dúvidas sobre a justiça dos sacrifícios, importância do OE, utilidade dos sacrifícios, nível insustentável da dívida do Estado, honrar compromissos internacionais, renegociar não é solução, crescimento negativo é um problema para alcançar o equilíbrio das contas públicas, interromper ciclo negativo de crescimento, unir os portugueses, o problema é falta de crescimento económico, exige esforços, problema da recessão da zona euro, e a crise económica em Espanha, relevância dos apoios da UE ao investimento e da melhoria das condições de financiamento das empresas junto do sector bancário, diálogo e consenso, encontrar soluções, melhorar clima de confiança.

Em termos gerais, não há grande novidade – já era esperada a preocupação com a “justiça dos sacrifícios”, susceptível de criar mais tensões na sociedade portuguesa.

O desejado crescimento económico joga-se no sector privado, uma vez que claramente não será possível fazer, nem seria desejável que o fosse, via despesa pública. Só que é mais fácil enunciar do que concretizar.

O que seria ideal ter em 2013: A criação de um ambiente estável para investimento em áreas produtivas inseridas no comércio internacional e que gerem emprego (sejam intensivas em trabalho, no jargão económico).

Perigos em 2013: O crescimento da economia informal. Ao aumento da pressão fiscal e da pressão inspectora do Ministério das Finanças irá provavelmente corresponder um aumento da economia paralela. Resta saber que dimensão terá e que efeitos provocará na economia formal.


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para o dinheirovivo.pt de hoje,

um comentário sobre o mercado de trabalho, pois aparentemente teremos subido uns pontos no ranking OCDE da flexibilidade do mercado de trabalho. Só que o que há a fazer não termina no ranking, aliás será até o menos relevante. Trabalhar para os rankings não é o objectivo, por isso devemos procurar outras indicações sobre o que se está a passar, e montar todos os mecanismos necessários ao bom funcionamento do mercado de trabalho, independentemente do lugar no ranking, pois facilmente outros países mudam as suas regras e voltamos a descer no ranking, além de a posição no ranking não garantir nada.

De caminho, sugestão de leitura: o relatório sobre evolução do desemprego, aqui, publicado antes do Verão (seria bom ir tendo actualizações semestrais dos fluxos laborais).

 

Rankings e mercado de trabalho

03/12/2012 | 01:04 | Dinheiro Vivo

Os números de desemprego continuam a ser o principal sintoma de dificuldades da economia portuguesa e constituem uma das áreas mais sensíveis da governação no atual momento.

As reformas introduzidas no mercado de trabalho nacional alteraram já a forma como este é classificado pelas organizações internacionais em termos de rigidez de funcionamento. Infelizmente, o problema de desemprego não se resolve com alterações de posição no ranking internacional da flexibilidade laboral, nem as medidas adoptadas se podem limitar a alterar o que consegue fazer uma melhoria no ranking. Trabalhar apenas para as posições do ranking não será suficiente para reduzir o desemprego.

É preciso saber que sectores de actividade económica estão a alimentar os números de desempregados. Se forem em grande medida dos sectores ditos de bens não transacionáveis ou de empresas com pouca viabilidade, então há que perceber que a recuperação da economia portuguesa, quando ocorrer, não irá provavelmente criar empregos nesses sectores ou empresas. Os valores disponíveis apontam para que praticamente todos sectores de actividade estão a libertar pessoas para o desemprego, mas com maior expressão na construção e nas actividades de “alojamento e restauração”.

O ajustamento da economia portuguesa significa que os novos empregos, quando surgirem, serão em actividades distintas das que eram predominantes antes da crise, pelo que os desempregados destes sectores deverão procurar outros sectores para trabalhar.

O mercado de trabalho tem, por isso, o desafio de conseguir fazer a transição de trabalhadores de umas actividades para outras. Há a necessidade de assegurar dois aspectos cruciais. Por um lado, que o tempo passado em situação de desemprego não é muito prolongado – quanto maior o afastamento temporal do mercado de trabalho menor a capacidade do trabalhador de voltar a trabalhar. Por outro lado, as competências e conhecimentos que poderão ser requeridos num novo emprego poderão ser substancialmente diferentes do que era exigido no anterior trabalho.
O verdadeiro sucesso das políticas para o mercado de trabalho não vai estar na subida nos rankings da flexibilidade, e sim na capacidade de fazer a passagem de trabalhadores de sectores ou actividades que decrescem em relevância para sectores que apresentem potencial de crescimento. O ideal, para o reequilíbrio da economia portuguesa, é que o crescimento de emprego se venha a registar nos chamados sectores de bens transacionáveis. E é essa informação que deve ser apresentada para se avaliar do sucesso (ou não) das novas regras para o mercado de trabalho.


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do dia de hoje,

pode-se gostar ou não gostar do António Nogueira Leite, não se lhe pode negar a coragem de falar o que pensa, e concordando-se ou não, reflectir sobre o que afirma na entrevista ao dinheirovivo.pt.

Não é uma entrevista política, nem tem as frases mais fortes que por vezes António Nogueira Leite (ANL) usa, e por isso, mesmo não nos distrai do essencial.

Dois pontos de destaque, para reflexão:

Primeiro, o papel da Caixa Geral de Depósitos no sistema financeiro português – ANL defende a sua manutenção como banco público, apesar da tradicional “permeabilidade às pessoas da política” que o banco tem. Mesmo que actualmente essa permeabilidade seja menor, como ele afirma e eu não tenho forma de confirmar ou infirmar, não há qualquer mecanismo conhecido que impeça essa permeabilidade de voltar, ou que simplesmente “ela” tenha adoptado outras formas menos visíveis. Havendo um banco de fomento (e concordo com ANL em que ainda sabemos pouco sobre o que é essa proposta e que papel vai ter), irá também nele colocar-se esta mesma questão. Curioso é a “permeabilidade” ser referida não como vindo dos “principais ministérios”, o que a coloca noutros níveis, talvez de projectos privados de quem está próximo do poder de decisão público? Na dúvida, e apesar de entender as vantagens atribuídas a ter-se um banco público, ter a CGD privada poderá ser uma melhor forma de defender o cidadão pequeno depositante, o cidadão contribuinte, o cidadão, o sistema bancário e a economia. A discutir com calma.

ps. fora deste contexto português, muito interessante o trabalho do New York Times sobre a tributação nos Estados Unidos, segundo os vários tipos de impostos (cortesia do facebook de Ricardo Reis)

Segundo, a reforma do Estado. Não se realiza em três meses. Não se pensa nem se faz tendo em mente poupanças orçamentais. Essas devem ser resultado de um objectivo mais vasto e da estruturação do Estado para servir o país num horizonte alargado. Deve ser o resultado de uma vontade colectiva, em que as vantagens e desvantagens das várias opções são analisadas. Não o fruto de uma corrida contra o tempo, mesmo que haja etapas intermédias temporais a cumprir. O ónus de conseguir fazer essa reforma, ou de preparar os seus princípios, pertence em primeiro lugar ao Governo, que tem de encontrar o equilíbrio entre celeridade (ficar paralisado nestas discussões é o mais fácil) e fazer de forma apressada. Mas também recai sobre a oposição política, na medida em que a atitude mais imediata e de vantagem política é a de bloquear sem alternativas, a defesa do status quo é sempre mais fácil, nomeadamente se em épocas de incerteza se acenar com dúvidas e mais incerteza. Os actores políticos devem ao país uma discussão séria, consequente e rápida (mas não entre três meses) sobre o assunto. Não sendo os problemas simples, terá de haver esclarecimento e não apenas combate político baseado na melhor frase do dia para a televisão, rádio ou jornal.


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“redução dos juros pagos ao Estado facilitava financiamento à Economia”

É o titulo de uma notícia de hoje, em que o presidente de um dos principais bancos a operar em Portugal defende que se o Estado baixar o custos dos fundos públicos que empresta aos bancos torna mais fácil o financiamento à economia, que se tem como objectivo desejável, e que tornaria até desnecessário a criação de um banco de fomento, uma das ideias que tem sido referida para ajudar à recuperação da actividade empresarial em Portugal.

Parece ser consensual que é desejável uma maior capacidade de concessão de crédito às empresas portuguesa. Não contesto. É razoável afirmar que se baixarem os custos dos bancos com o fundo de recapitalização estes poderão mais facilmente conceder crédito.

Mas chegados a este ponto não devemos parar. Não é claro se a maior facilidade de crédito que está implícita se reflecte só em montante ou também em preço do crédito concedido. Caso o Estado reduza a taxa de juro anual a ser paga pelos bancos, então estes deveriam baixar nos mesmos pontos percentuais a taxa de juro que exigem nos empréstimos, ou pelo menos nos novos empréstimos, ou numa média dos empréstimos que tenha em conta o peso destes fundos cedidos pelo estado no desenvolvimento da actividade bancária de empréstimos – o aspecto essencial é que essas poupanças deveriam ser passadas aos consumidores, isto é, a quem pede emprestado aos bancos. De outro modo, a redução da taxa de juro anual a ser paga ao Estado seria apenas uma transferência do Estado (dos contribuintes) para os bancos, caso estes em nada alterassem as taxas de juro praticadas. Aliás, se houvesse grande concorrência no mercado bancário a passagem dessa redução de custos aos consumidores seria mais facilmente consumada. Claro que baixar os custos dos bancos os leva a reduzir a taxa de juro que pedem nos empréstimos que concedem, mas esse efeito está presente mesmo que os bancos actuassem como um monopólio. Logo não é apenas o sentido da variação que interessa, é também a magnitude dessa variação. O problema está em como fazer a monitorização de saber se uma redução dos pagamentos ao estado se traduz sobretudo num maior financiamento e menor taxa de juro de empréstimos à economia, ou se resulta apenas em maiores resultados para os bancos. E se adicionalmente essa medida for vista como alternativa à criação de um banco de fomento, então os bancos ainda conseguem evitar concorrência adicional no mercado. (nota: sobre a criação de banco de fomento é legitimo ter outras dúvidas, mas fica para discussão noutro momento)

O elemento de discussão é quanto de uma eventual redução de juros pagos ao Estado é apropriado como “renda económica” pelos bancos e quanto dessa redução é passada à economia via juros mais baixos. A resposta não é simples porque na taxa de juro estabelecida em cada contrato de crédito entram em conta muitos factores, incluindo o risco do projecto financiado. Só que essa dificuldade não pode ser obstáculo a que se analise de forma exigente em que medida custos mais baixos para os bancos são passados para a economia.

Só depois de respondida esta pergunta, qual a taxa de passagem das poupanças de custos para os consumidores, é que se deveria pensar numa redução dos juros pagos ao Estado pelos bancos. Para saber se vamos estar a beneficiar a economia, ou sobretudo a “subsidiar” os bancos. Tudo dependerá do grau de concorrência efectiva que exista no mercado bancário português. De momento, não tenho respostas, apenas a pergunta. A seguir com atenção.


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viver acima das possibilidades

Uma das frases que mais entrou no grupo de termos frequentes usados em discussões sobre o estado da economia portuguesa é que “vivemos acima das possibilidades”, e como tal contraímos dívida que temos de pagar. Esta mesma frase é rejeitada por muitos outros, que reclamam o que agora se chama (novo termo da moda) “narrativa alternativa”.

Parte das reacções ao termo “viver acima das possibilidades” está associada à censura implícita que o termo parece conter, e a reacção é, também muitas vezes, implícita, porque não havemos de ter a expectativa de uma vida melhor. Se juntarmos a isto o termo “empobrecer” e a exigência de que “temos de empobrecer”, o que conseguimos realmente ter é uma tensão e animosidade crescente.

Pessoalmente, creio que devíamos abandonar estes termos e focar apenas em dois, ajustamento do consumo e aumento da produtividade. E para justificar porquê e porque não têm estes termos a carga negativa dos que têm sido frequentemente usados, nada melhor do que recorrer a um pequeno modelo económico (no sentido de simplificação da realidade, para fazer ressaltar os elementos essenciais).

Ponto primeiro, focar a atenção na decisão de cada cidadão ou agregado familiar. Depois, mais tarde, junta-se o resto da economia. Nos últimos 25 anos o que encontramos? em 1986 a adesão à então CEE e em 1992 o programa do mercado único. Foram tempos de crescimento económico na economia portuguesa. Inicia-se depois a preparação para o euro, que conseguimos fazer. No momento de entrada do euro, temos três características económicas fundamentais para as decisões de consumo: redução das taxas de juro, redução da taxa de inflação e expectativas de crescimento económico.

Como é que estes factores afectam o padrão de consumo?

Entra agora o modelo económico, muito simplificado. Suponhamos que antes desta entrada no euro, um cidadão comum tinha um rendimento de 5 e esperava ter no futuro um rendimento de 5. Faria umas poupanças, pelas quais receberia um juro, ou até poderia pedir um empréstimo, pelo qual pagaria uma outra taxa de juro.

Com a entrada no euro, por via do efeito do crescimento económico que todos esperam, faz uma revisão dos seus rendimentos futuros, que passam a ser de 7. Como deve agora ajustar o seu consumo? bom, poderá pensar em pedir emprestado, permitindo-lhe consumir mais hoje à custa de algum consumo no futuro, por exemplo consumir 5,9 hoje e 5,9 no futuro, em que os 0,2 que faltam para a soma dos rendimentos é o juro que paga no empréstimo que transfere rendimento e consumo do futuro para o momento presente. E este endividamento não tem nada de mal, e corresponde a um processo de decisão racional e equilibrado.

Adicionemos aqui a redução da taxa de juro, que passou de valores como 17% ao ano para cerca de 4 a 5%. Só para dar uma ideia esta redução de taxa de juro permite reduzir para cerca de 1/3 a prestação mensal associada com um empréstimo a 30 anos para compra de casa. Pedir emprestado torna-se mais barato. Ou seja, é preciso sacrificar menos de rendimento /consumo futuro para um mesmo aumento de consumo hoje. Ou, para o mesmo sacrifício de rendimento futuro, obtém-se mais consumo hoje. Também aqui a reacção normal será a de aumento de consumo hoje, aumento de endividamento. Mais uma vez é um processo de decisão racional e equilibrado.

Qual é então a razão do ajustamento actual e do “viver acima das possibilidades”? Bem, esta argumentação de efeitos esteve baseada num pressuposto, o que no futuro o crescimento económico iria garantir um rendimento de 7. Infelizmente, não foi isso que sucedeu. A economia portuguesa não cresceu de forma a satisfazer as expectativas de consumo criadas e que estiveram subjacentes na criação de dívida privada. No exemplo acima, em vez de ter 7 no momento futuro, quando lá se chegou tem-se apenas os mesmos 5, que se revelam então insuficientes para manter o consumo de 5,9 que vinha do passado e pagar os juros. Surge então neste momento a necessidade de ajustar o consumo.

O “viver acima das possibilidades” resulta então de não se terem concretizado expectativas de crescimento da economia. Um exemplo de textos técnicos que antes da entrada no euro encontravam fortes efeitos positivos pode ser encontrado aqui, mas já em Dezembro de 2000 o Banco de Portugal alertava para os perigos de endividamento e de consumo acima do que se produz, aqui, lendo-se na página 6 “A economia não pode continuar indefinidamente com níveis de despesa muito acima do que produz.” O crucial é aqui o indefinidamente – o comportamento individual acima descrito envolve um primeiro momento de endividamento, e um segundo momento de pagamento sem redução de nível de vida se a economia crescer, mas com redução do nível de consumo se a economia não crescer.

Porque a economia não cresceu é tema para outras discussões, mas pelo menos que a frase “viver acima das possibilidades” não seja interpretada de forma negativa ou culposa do ponto de vista das decisões individuais. Mostrou apenas que os portugueses reagiram de forma natural ao enquadramento económico em que se encontravam. Não impede que seja necessário um ajustamento. É. Já quanto às decisões de despesa pública, também deverá ser objecto de análise própria.


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o regresso do estado gestor de empresas

ao mesmo tempo que se afirma defensor da iniciativa privada, o estado recupera todo o voluntarismo do estado gestor de empresas.

Não sendo viável o estado empresário – o estado lançar-se ele próprio em novos negócios – o mais próximo que consegue é o ser o estado gestor. Na versão estado empresário o mais próximo será o anunciado (? pelo menos na imprensa) banco de fomento. Mas na versão estado gestor, observamos vários exemplos em que o estado afirma, determina, o que as empresas privadas devem ou não devem fazer. Há uma diferença grande entre criar enquadramento e depois deixar funcionar a iniciativa privada, e ser o estado a substituir-se às empresas privadas na tomada de decisão.

A situação que melhor ilustra este aspecto nos dias que correm é o dos combustíveis low-cost. Aparentemente, as duas opções a serem consideradas são

a) o estado obrigar as bombas privadas a oferecerem combustível low-cost, e provavelmente terão que fixar também o respectivo preço, de outro modo as empresas terão a liberdade de aproximar o preço deste tipo de combustível ao que já vendem actualmente, o que levantará a questão de saber se fixam o preço apenas para estas bombas ou para todas, incluindo as que têm apenas combustível low-cost, mas então não estarão já a fixar coisas a mais e a reduzir a própria concorrência no mercado – aliás, se decidirem fixar o preço do combustível low-cost terão que criar um comité de análise, que não poderá deixar de ter as principais operadoras, que com isso farão com que os preços fixados sejam provavelmente superiores aos que actualmente existem, ou então terão que dar representação desproporcionada aos pequenos operadores, só que parte substancial das bombas low-cost são de grandes superfícies comerciais, e isto tudo já ficou uma grande embrulhada – ter o Estado Combustíveis SGPS não se afigura particularmente atractivo

b) o estado facilitar as condições em que pequenos operadores podem abrir e ter postos de combustível low-cost. Aqui, o argumento é distinto e consiste em facilitar o acesso a liquidez desses pequenos operadores para que entrem no mercado. É uma opção mais natural numa economia de mercado. Na verdade, o pensamento deverá ser em termos de reduzir as barreiras à entrada que possam existir e que antecipo o acesso à liquidez seja apenas uma delas. Certamente a primeira a ser ultrapassada, mas depois é fácil imaginar que o próprio acesso ao produto venha a ser dificultado. Ou seja, será necessário assegurar que esses pequenos operadores têm capacidade para comprar gasolina e gasoleo que possam depois vender. Dado o número de refinarias existentes em Portugal e sua propriedade, dadas as condições de armazenagem em tanques existente em Portugal e sua propriedade, será de seguir com atenção essa capacidade de aquisição. Não haverá certamente recusas de venda, mas dificuldades no abastecimento, problemas técnicos, condições abusivas impostas para esse abastecimento de combustível para revenda dos pequenos operadores. Será um campo fértil mas difícil para a actuação / monitorização da autoridade da concorrência. De outro modo, não será difícil prever que os investimentos dos pequenos operadores, apoiados por fundos públicos, resultarão em falências a breve ou médio prazo, traduzindo-se depois num baixo retorno no investimento realizado (seguindo aliás uma tradição portuguesa de mal investir, mas essa é outra história).

Ou seja, do que está em discussão, ainda assim, a opção b) faz mais sentido, mas convém que seja acompanhada pela Autoridade da Concorrência.