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são os italianos e espanhóis mais ricos que os alemães?

A propósito de um trabalho do Banco Central Europeu, surgiu a informação que os cidadãos dos países do Sul da Europa – em particular, espanhóis, italianos, cipriotas, seriam mais ricos que os alemães. Paul de Grauwe olhou para a questão através das desigualdades que também existem na Alemanha (aqui).

Uma questão similar tinha-me sido levantada há dias por um colega. Utilizando dados do inquérito SHARE, para 2011, que abrange apenas cidadãos acima de 50 anos mas tem um conjunto alargado de países inquiridos, entre os quais Portugal, é possível olhar um pouco mais para esta discussão, para este grupo da população e analisando um dos principais activos – a propriedade de habitação própria.

A importância desta discussão está em levar a questionar o apoio do Norte da Europa, leia-se Alemanha, ao Sul, leia-se países do Mediterrâneo pertencentes à zona euro.

Primeiro dado, os alemães têm por escolha comprar menos habitação própria. Esse facto é muito claro na população acima dos 50 anos, sendo mais natural no Sul da Europa uma percentagem muito elevada de pessoas acima desta idade que é dono da sua casa. (a responsabilidade dos gráficos e de imprecisões que neles possam constar são minha responsabilidade)

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Os alemães por outro lado são os que têm menos dívidas na aquisição de habitação própria.

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Em termos de rendimento ajustando para os níveis de preços em cada país e para a composição dos agregados familiares, na população com mais de 50 anos, os alemães não são os mais ricos, sendo mesmo ultrapassados pelos espanhóis. Mas como estamos a falar de habitação própria e resultante de valores auto-reportados pelos próprios donos das habitações, a existência de uma “bolha” de preços na habitação em Espanha poderá reflectir-se em valorizações pessoais e não de mercado (valor de transacção) das habitações. O valor de mercado é aquele pelo qual conseguimos vender não aquele pelo qual gostaríamos de vender ou que achamos que é “justo” vender. Por isso, a percentagem de proprietários sem dívida relacionada com a habitação poderá ser uma melhor aproximação da riqueza da população com mais de 50 anos de cada país, e nesse indicador os alemães surgem muito claramente diferenciados do sul da Europa (tal como os holandeses).

É preciso ter o cuidado de estes valores não serem rendimentos nominais de cada cidadão, e dizerem respeito a uma parte da população apenas.

Ainda assim, é notável que as diferenças entre os cidadãos de diferentes países assinalem rendimentos mensais que depois de ajustados para a dimensão do agregado familiar e poder de compra que não são muito diferentes entre países e em particular a Alemanha não aparece como uma posição de muito maior rendimento que os restantes, pelo menos nesta população. Se tal se deve à generosidade dos sistemas de pensões ou a outro motivo, é algo que não é possível aqui distinguir.

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e um pouco de história económica…

De vez em quando sabe bem “mudar de ares”, no caso, assistir ao “Portuguese Economic History Workshop“, realizado a 12 de Dezembro no ICS. Tive a oportunidade  de comentar o texto de Sofia Teives Henriques, “Without steam in the age of coal and dams in the age of electricity: a natural resource explanation for portuguese economic divergence“. Porque o trabalho me despertou a atenção, e pelas ideias que lança, decidi partilhar aqui a minha visão sobre o estudo e sobre as suas implicações e lições. (o restante programa e papers apresentados no encontro podem ser consultados no site indicado acima).

A tese principal é fácil de enunciar depois de ler o texto – na primeira revolução industrial, baseada no carvão, a tecnologia disponível estava adaptada para as características do carvão inglês, e não o carvão português era escasso (logo caro) como diferente do inglês. A estrutura produtiva portuguesa permaneceu trabalho intensiva. Na segunda revolução industrial, baseada na electricidade, Portugal parecia apresentar condições de partida distintas – tinha mais água que carvão, e poderia por isso ter tido um processo de industrialização mais seguro, as faltavam: a) procura de electricidade, dado que não tinha sido construída a base industrial durante o período de carvão que pudesse agora justificar a procura de electricidade como fonte de energia; b) não havia experiência com a tecnologia.

Sendo uma tese interessante, duas coisas chamaram a atenção. A primeira claramente referida no texto – frequentemente a “tecnologia” importada via equipamentos não era totalmente utilizada por falta de capacidade técnica. Ou seja, faltava um factor produtivo complementar, capital humano, sem o qual a própria rentabilidade dos equipamentos e da tecnologia eram menores, além de que não se procedia a uma adaptação generalizada dessas novas tecnologias da época às características dos recursos naturais portugueses. Não era só falta de carvão, havia algo mais em falta. Fica a pergunta de saber se esta interpretação é lícita e se tem algum poder explicativo.

O segundo aspecto é mais subtil, e está associado com o que vem primeiro – a disponibilização de uma tecnologia com uma energia mais barata, que leva ao desenvolvimento de uma base industrial (que parece ser o argumento principal para a falha portuguesa durante o período do carvão); ou é necessário ter uma base industrial adequada para que a nova forma de energia seja plenamente utilizada? (que parece ser o argumento principal para a falhar portuguesa durante o período da electricidade). Querer os dois argumentos ao mesmo tempo, para períodos diferentes, é que a ser a interpretação correcta, necessita de algo mais em termos de discussão e ligação. Um ponto de ligação possível é, a meu ver, o meu primeiro aspecto focado – a falta de capital humano para saber como usar as tecnologias. Enfim… para discussão e esclarecimento pelos historiadores económicos, que sabem muito mais disto e poderão certamente clarificar.

Por o encontro ter sido internacional, o comentário foi feito em lingua inglesa e é nessa versão que o disponibilizo (para poupar o trabalho de tradução, ainda não confio no google translator o suficiente para o fazer automaticamente). (também pode ser visto em formato slide aqui)

1.  Getting inside the paper

  • Clear research question – did differential conditions of access to coal determine the relative lack of success of the Portuguese Industrial Revolution?
  • The arguments are laid out in a nice way
  • (and readable to the non-expert )
  • My ignorance has an advantage – I can ask any question, even “silly” ones

2. Overview

Main argument:

  • First industrial revolution – technology intensive in coal, technology adapted to UK conditions
  • Portugal lacked the resources (coal), and did not have an obvious cheap alternative – remained labour intensive
  • Second industrial revolution – based on electricity
  • Portugal had more water than coal – but lacked:
  • Demand for industrial use of electricity – cost from being behind in the first industrial revolution
  • No experience with the technology
  • Development based on electricity was hindered by low industrial development since coal time

3. Broad issues and questions

•Why the inability to adapt? Looking at technology, in the sense of production function, it seems that there was a lack of human capital as well – p. 148 & ft 386 & p.363
•“never used due to lack of capital to hire an engineer”
•“lack of scientific knowledge of industrialists, who do not even know how many turns does a wheel make per second”
•“Portugal did not participate in scientific innovations of the 1870s-1880s”
•Why not the entry of new firms funded by international capital? (political decisions to close the market? International environment did not favor investment in Portugal?)
•What was the role of market power in keeping innovations away? (Arrow substitution effect in monopolies & innovation incentives)
4. Smaller points
•Prices of coal, table 1 – increasing in the UK, Germany, Canada, France, Spain, but decreasing in Portugal – level is higher in the beginning but not so much at the end – what was going on?
•International comparison of costs of internal transportation in other countries?
•How were imports of equipment organized? Monopolies? Competitive imports without barriers – licensing, duties, etc…
•What is the relevant theory of technological adoption? “economic incentives to adopt steam technology is to compare the relative coal to labour prices” – expected demand, prices of final products, current market structure: incentives vs conditions?
•Role of international trade? (p.155), it seems to me from reading the paper that even in a close economy adoption would be low – “quality” of labor input to make technology work was lacking
•Portugal was poor in coal, but also in ore and other metals – lack of complementary resources, it was not only cost and quality of coal?
•Expansion of railways drained resources from other (tradable) sectors? Both financial and physicial
•“steel needed a minimum operative scale” – natural monopoly in Portugal? What does it really mean?
•Technology was driven by UK; but no local adaptation existed, lack of local R&D as a “missing input”?
•“Portugal did not benefit from the presence of early international companies as Italy did”, why?
•Electricity as missed opportunity, what it that way? Technology was dictated by geography, but something different could have been done? Engineering skills for dams where not there?
•Classification of causes to endogenous vs exogenous conditions?
•The answer to the research question: “the labor intensive path chosen during the First Industrial Revolution implied low levels of energy demand and prevented capital accumulation”
•How many industries / companies were born at the time elsewhere? It was an issue of critical mass? Exports not a substitute for a strong internal market?