Durante 115 minutos, contando o intervalo, ficamos especializados em treino de bancada, e em que a esperança toma o lugar de qualquer racionalidade. E há um certo prazer nessa esperança irracional. A imprevisibilidade do jogo e de tudo o que envolve são importantes, bem como a previsibilidade de todo um trabalho prévio que tem de ser feito. A comparação entre selecções, e jogadores, acaba por ser inevitável.
Portugal não tem uma selecção magnifica, e por vezes tem jogos excepcionais com equipas grandes, mas essa não é a regra. Ganhar ao Brasil, Alemanha e França são tarefas usualmente impossíveis. Ganhar à Inglaterra e à Holanda tornou-se regular. Com a Espanha, depende dos dias, se for campeonato perdemos 1-0, se for fora de provas oficiais até ganhamos.
Calculo que nos próximos dias se vá dissecar a forma física dos jogadores – a onda de lesões, as opções de estágio, a preparação física – mas mesmo sem lesões, selecções como as de Espanha e Inglaterra também regressam a casa sem grande história para contar. Os trocadilhos com “tudo o Bento levou” vão certamente surgir e inundar as redes sociais. Suspeito que o “inconseguimento” também terá o seu papel nos comentários.
A época foi longa, e trouxe cansaço, alguns jogadores poderão ainda a estar a jogar com lesões não totalmente recuperadas, mas não acredito que não haja empenho, afinal para vários deles este será provavelmente o último campeonato do mundo em que jogam.
Mais importante, e interessante de um ponto de vista de treinador de bancada, é perceber que os treinadores das outras equipas também fazem o seu trabalho de casa – avaliam a selecção portuguesa, analisam à exaustão os videos certamente, e encontram os pontos fracos (e fortes) dos nossos jogadores e da sua forma de jogar colectivamente. E tratam de arrumar as suas equipas para esse fim. O que deixa um dilema em cada jogo ao seleccionador/treinador – ou “inventa” fugindo ao que as outras equipas esperam, ou “mantém” esperando que a qualidade individual dos jogadores consiga sobrepor-se às estratégias de anulação da forma usual de jogar da equipa portuguesa que as outras equipas adoptam.
Assim, o que mais custa ver nos jogos da selecção portuguesa é a falta de “invenção” num jogo que as outras equipas já descobriram como explorar as debilidades da equipa portuguesa, tal como perceberam como “desmontar” a equipa espanhola, com o resultado que se viu. É obviamente fácil falar como treinador de bancada, e entre o aperfeiçoar de mecanismos existentes entre os jogadores e introduzir algo novo mas imperfeito na execução, há um julgamento a ser feito pelo treinador. Da forma como os passes têm andado a falhar, talvez a inovação devesse ganhar um pouco mais de atenção.
Assim, 0 2 – 2 com os Estados Unidos são apenas o resultado destes factores acumulados: jogadores lesionados, jogadores cansados, rotinas conhecidas e previstas pela equipa adversária, pontos fracos identificados e explorados pelos outros treinadores, e mesmo assim, no final, a alma de marcar um golo a 20 segundos do final. Não alinho por isso com a falta de empenho dos jogadores, falta algo diferente.
Em termos de teoria dos jogos, o que era uma “estratégia dominante” deixou de o ser face ao que os treinadores das outras equipas conhecem da equipa portuguesa, hora de tentar “trembling hand”? (não me atrevo a falar em “estratégias mistas”, que implicava algo mais).
Curioso que nenhum dos treinadores portugueses neste mundial teve vida fácil.