Momentos económicos… e não só

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13ª conferência nacional de economia da saúde (3)

Os aspectos de “economia comportamental” (“behavioral economics”) também tiveram espaço de destaque na 13ª Conferência Nacional de Economia da Saúde, com uma apresentação plenária de Matteo Galizzi e com vários trabalhos associados ao tema em diversas sessões.

A apresentação de Galizzi focou no que é a definição de “economia comportamental”, em que difere da “economia convencional”, e em que medida temos conhecimento suficiente para estabelecer políticas com base nas análises de economia comportamental.

O primeiro aspecto importante foi distinguir economia comportamental de economia experimental. A segunda identifica uma forma de análise, usando experiências sociais controladas, normalmente em laboratórios próprios, em que as pessoas são colocadas perante alternativas e têm de tomar decisões. A economia experimental é uma metodologia que tanto pode ser usada na economia comportamental como na economia convencional.

E então, qual a definição de economia comportamental? É proposta a definição de ser a aplicação à economia convencional do conhecimento acumulado das áreas de psicologia e de conhecimento cognitivo.

Qual a contribuição da economia comportamental? Três aspectos foram identificados por Galizzi – os chamados “nudges” (não conheço uma boa tradução em português, a ideia é dar pequenas chamadas de atenção ou pequenas mudanças de enquadramento para a decisão que levem a que de facto se inicie o processo de mudança), políticas de fornecimento de informação e políticas de incentivos baseadas em resultados da economia comportamental.

Um exemplo simples das diferenças entre a economia convencional e a economia comportamental apresentado foi o do conjunto de opções de escolha. Segundo a teoria económica convencional, dar mais opções não é pior. Segundo a economia comportamental, mais opções podem levar a um cansaço no processo de escolha, levar mesmo a uma paralisia na análise ou levar a fazer menos porque se perde muito tempo na análise de todas as opções.

Outra contribuição da economia comportamental está no papel de pequenos elementos, embora alguns tenham posteriormente mostrado ser menos importantes do que parecia à partida. O exemplo apresentado foi o da informação sobre produtos alimentares – será que mais informação nas embalagens leva a escolhas diferentes das pessoas? Curiosamente a evidência não é conclusiva, e até encontram casos de comportamento perverso – por escolher primeiro num produto uma embalagem de comida mais saudável, as pessoas sentem-se mais à vontade para ter “desvios” menos saudáveis noutros casos.

Um terceiro aspecto focado foi o papel dos incentivos monetários, que podem ter efeitos não pretendidos noutros comportamentos além do visado pelos incentivos. Os incentivos monetários funcionam em alguns casos, mas não sempre.

Relativamente aos “nudges”, a ideia central é fazer pequenas mudanças no enquadramento da decisão para obter alterações de comportamento, sendo um exemplo o que sucede com a doação de órgãos. Quando se passa a ter que declarar que não se pretende doar tem-se uma situação muito diferente de quando é necessário declarar que se está disponível para doar órgãos em caso de morte. A inércia domina a escolha, o enquadramento que é dado à decisão determinará a opção dominante.


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mascotes & exames

Ontem, pela primeira vez, tive uma mascote a assistir (auxiliar?) a um exame. Aqui fica a foto da mascote:

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palavras

Troika,  “mercados” (investidores financeiros internacionais), orçamento, redução do défice público e austeridade.

Estas palavras têm-se tornado quase sinónimos nas discussões em Portugal. É errado fazê-lo.

De momento é certo que todas elas parecem querer traduzir a mesma coisa, mas há mais além do óbvio na sua utilização.

Temos, como país, um problema imediato. Despesa pública acima das receitas, que gera a necessidade de colocação de dívida. Quem compra essa dívida (em grande medida, os investidores financeiros internacionais, através dos leilões de dívida pública, mas depois querem ter a possibilidade de vender e comprar consoante as suas próprias necessidades e interesses, no que são mercados financeiros) precisa de ter uma certa certeza de que vai recuperar o que emprestou. Quanto maior incerteza relativamente a essa capacidade de recuperar o que empresta, maiores serão os juros cobrados. E claro que se continuar a aumentar o défice público, aumenta a necessidade de colocação de dívida, até ao ponto em que se deixa de conseguir pedir emprestado, e nesse caso o estado deixa de pagar os juros da dívida anterior, deixando de pagar a quem emprestou. Assim, quanto maior o défice maior a incerteza que os investidores de hoje na dívida pública portuguesa têm quanto à possibilidade de virem a recuperar o seu capital investido no futuro. A independência destes mecanismos só é possível quando se tem moeda própria (em vez de emitir dívida emite-se moeda – que tem outras implicações -), ou quando alguém empresta sem ter que se estar a ver emissão a emissão (é o que nos fez a troika nestes três anos), ou quando as condições de funcionamento do estado garantem que haverá capacidade de pagamento. Não tendo a primeira, o desafio destes anos é deixar a segunda opção (troika) para passar à terceira.

Esta terceira opção depende da forma como esses investidores avaliam a capacidade de pagamento. Aqui entram os ratings das agências de avaliação (que depois de terem tido grande destaque há três anos passaram agora a um estranho silêncio), mas também a forma como esses investidores incorporam as decisões e também o processo de tomada de decisão português na sua percepção de como serão as políticas públicas portuguesas nos próximos anos, que lhes garanta o pagamento da dívida pelo estado português. Aqui a instabilidade política, por exemplo, mostra que o processo de decisão público em Portugal não é fiável. Logo o risco de não conseguirem ser pagos aumenta. Logo ou aumentam os juros ou optam por não emprestar. Mas também a capacidade de crescimento da economia, com o consequente aumento de receitas fiscais por esse motivo, é relevante. E igualmente aí não temos grandes novidades positivas a apresentar, pelo menos por enquanto. A pergunta que cada um deve fazer é: se tivesse 100,000 colocava em dívida pública portuguesa ou preferia colocar num banco suíço ou, vá lá, alemão? Se a sua resposta não for a primeira opção, porque deveria ser essa a resposta dos outros?!  Uma reforma do estado clara, que desse alguma certeza sobre processos e rumo da despesa pública ajudaria não só pelo volume de despesa que fosse menor mas pelo processo que garantisse um controle de défices futuros.

Estes são os factores de curto prazo para a reforma do estado. A eles acrescem os factores de longo prazo. É necessário ter um estado que proteja os cidadãos em diferentes dimensões e que ao mesmo tempo contribua para a liberdade económica e para o crescimento económico através da facilitação das condições para esse crescimento. Definir as fronteiras da intervenção do estado, por um lado, e o modo como o estado actua dentro do que for considerado a sua intervenção natural é o aspecto central para esta perspectiva de longo prazo.

Cortes como os que são efectuados nas pensões e nos salários, da forma como estão a ser anunciados e sem serem acompanhados de mecanismos e de um sentido de propósito comum à sociedade, são uma mensagem de cortar agora para cumprir o objectivo imediato, mas logo que seja possível voltaremos à prática antiga se nos deixarem. E estou a admitir que os cortes conseguem atingir os objectivos de défice público estipulado (o que é discutível e discutido, para a discussão técnica sugiro a leitura do que o Francesco Franco vai escrevendo).

Ou seja, mesmo sendo necessário cortar salários e pensões, é importante saber porquê, a quem, por quanto tempo, em que se baseiam esses cortes e qual a contribuição esperada para um melhor funcionamento do estado, como contribui para os objectivos de curto prazo e como contribui para os objectivos de longo prazo. Não são perguntas fáceis, mas não as responder deixará um sentido de arbitrariedade no que é feito, e mais do que isso será facilmente reversível ao primeiro virar de esquina.


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e como ler o orçamento e as discussões dos últimos dias…

os últimos dois dias foram de discussão sobre os detalhes do orçamento do estado. E esta discussão tem na verdade pouco adiantado, por vários motivos:

a) surgiram imediatamente as queixas “individuais”, as mais claras dos juízes (aqui) e da restauração (aqui, entre outros), que escondem o conjunto global

b) discute-se a equidade e justiça, remetendo quase imediatamente para as decisões passadas e futuras do Tribunal Constitucional. Ora, a discussão das medidas deste ano não pode ser desligada do cumulativo das medidas que são tomadas desde 2010, pelo menos no caso da função pública. E com tantas pequenas e grandes coisas que foram sendo feitas, é difícil ter uma visão de conjunto – o correcto seria comparar o salário hora efectivo na função pública por tipo de trabalho desenvolvido em 2009 – antes de qualquer medida – e o previsto para 2011, liquido de impostos. Só assim se poderá ver a compressão de salários e a distribuição do esforço realizado, pois houve cortes parciais, retirada e reposição de subsídios, alterações das horas extraordinárias, alteração do horário de trabalho e aumento de impostos.

Aspecto seguinte será a comparação com o sector privado, que tanto tem sido usado politicamente, por função desempenhada, atendendo aos aumentos de impostos e às baixas de salários que foram registadas.

c) Em toda esta discussão, falta um enquadramento geral de reforma do estado, de saber qual o estado que realmente se pretende num horizonte de pelo menos dez anos para Portugal. E aqui o governo falhou rotundamente. O único choque de expectativas que resultou da apresentação do orçamento do estado é a falta dessa visão enquadradora, que foi anunciada repetidamente que seria apresentada, primeiro antes do Verão, depois a seguir ao Verão e finalmente no Orçamento do Estado. Não aconteceu. Sem essa visão, é difícil perceber qual o caminho que se pretende tomar. E fica sempre a dúvida, provavelmente injusta, de saber se é por falta de visão (terminar o programa formal de ajustamento e acabarem as revisões periódicas e mediáticas da troika não é uma visão), ou se é por se ter uma visão mas não se querer apresentar (dando margem a que todas as teorias de conspiração ideológica surjam).

d) O orçamento de 2014 , tal como os orçamentos anteriores, tornaram-se instrumentos de negociação entre interesses diversos, e não um instrumento de gestão. As previsões macroeconómicas estão sempre sob a suspeição de serem aquelas porque são as que dão jeito. As receitas previstas frequentemente surgem para justificar a despesa, quando se não forem cumpridas nada acontece nesse lado, mas as despesas são realizadas na mesma. E hoje em dia não consigo perceber se o orçamento é um instrumento técnico ou um instrumento político. Instrumento técnico que deverá reflectir as opções políticas, ou instrumento político de luta partidária, e depois logo se vê o que são as contas e a gestão do sector público? Ser as duas coisas ao mesmo tempo é contraditório. O que remete para a observação anterior – se houvesse um documento de estratégia de reforma do estado, um documento político, o orçamento seria o documento técnico da sua aplicação. Assim, está tudo baralhado.


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13ª Conferência Nacional de Economia da Saúde (2)

 

Na 13ª Conferência Nacional de Economia da Saúde, houve dois trabalhos sobre temas próximos, e que se complementam (Álvaro Almeida, “o efeito dos sistemas de incentivos na produtividade dos profissionais de saúde: o caso da actividade cirúrgica de um hospital do SNS”; e o meu trabalho “The efficiency spillovers of intramoenia activity”)

 

Ambos os trabalhos procuram analisar o efeito da produção adicional proporcionada pelo SIGIC na produtividade. Enquanto Álvaro Almeida procura analisar a produtividade das equipas envolvidas na produção adicional, a minha preocupação foi com a criação de efeitos globais, em que eventuais melhorias de funcionamento associadas com essa produção adicional se alarga a toda a actividade realizada. São, por isso, dois trabalhos perfeitamente complementares.

 

No trabalho de Álvaro Almeida comparam-se cirurgias idênticas em tudo menos no regime de trabalho das equipas – num dos casos é o regime normal, de programa anual de actividade, e no outro caso é a produção adicional, que tem um sistema de incentivos diferente. Na produção adicional há recompensas associadas com incentivos monetários, com maior flexibilidade na gestão do seu tempo, liberdade de constituição das equipas, etc. São analisadas em detalhe as várias fases do procedimento cirúrgico (em termos de tempo do processo). São usados dados de 2010. Os resultados apontam para uma maior rapidez quando se trata de uma intervenção de produção adicional, com uma produtividade 35% superior. As diferenças são significativas em todas as fases e em todo o tipo de cirurgias.

 

Como explicações possíveis para a diferença de produtividade encontrada, conjecturam os autores que estarão o interesse em resolver rapidamente o trabalho, maior flexibilidade na organização da intervenção, maior colaboração entre as equipas.

 

No outro trabalho, usando um indicador mais agregado mas similar, o tempo de internamento, procurou-se avaliar se nos hospitais onde há mais actividade adicional também a actividade normal beneficia de mudança de métodos de trabalho e organização. É usada informação agregada pelo que não se consegue, nem é o objectivo, identificar o que está na base do efeito de organização global.

 

Em termos de regularidade estatística encontra-se um efeito de menor tempo de internamento nos casos que são produção adicional, usando dados de 2010, o que é um resultado consistente com a análise detalhada de um hospital, e encontra-se também uma regularidade de mesmo os casos que são produção normal terem um menor tempo de internamento quanto maior é a proporção de casos de produção adicional no hospital, para o mesmo GDH.

Os slides referentes à minha apresentação deste trabalho encontram-se disponíveis aqui


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13ª Conferência Nacional de Economia da Saúde (1)

No fim de semana passado decorreu a 13ª Conferência Nacional de Economia da Saúde, onde foram apresentados muitos trabalhos de interesse, vários sobre Portugal e outros metodológicos.

Nos próximos dias irei revendo algumas das sessões em que participei.

Houve dois trabalhos sobre impacto das taxas moderadoras (“No bang with this buck – the impact of a rise in co-payments on the demand for emergency services” apresentado por Pedro Ramos e “Aumento das taxas moderadoras nas urgências hospitalares: que impacto sobre a procura” apresentado por Sara Soares). O primeiro trabalho incidiu sobre 3 serviços de urgência no Norte do país, que fazem parte da mesma rede de referenciação, usando informação clínica (©Alert) e informação administrativa (©Sonho), cobrindo os períodos Janeiro a Junho de 2011 e de 2012. A análise incidiu sobre a proporção de casos de baixa gravidade (cores verde e azul na triagem de Manchester) e de elevada gravidade (cores laranja e vermelha).

A análise não encontra um efeito relevante do aumento das taxas moderadoras. Em mais detalhe, encontram um efeito de moderação na urgência básica, mas não o aumento das taxas moderadoras não tem efeito nas urgências médico-cirúrgicas e nas urgências polivalentes.

Na própria apresentação, foram reconhecidas quatro limitações ao estudo, não ser uma população longitudinal, ser um período de análise curto sem tendência, não ser tratado o efeito de compensação pela existência de isenções e sua variação, e não se separam os efeitos da crise.

Como comentário, esta análise avalia a composição de casos, mas deixando de fora os amarelos, poderá ser sempre duvidoso interpretar o que se passa – por exemplo, redução de azuis e verdes em termos relativos significa que algum grupo teve de aumentar em termos relativos. Mas será diferente se o total de casos se mantiver constante e aumentarem os amarelos, ou se o número de casos total se reduzir. Para uma interpretação completa dos resultados é necessário, parece-me, conhecer não só a evolução em termos relativos mas também a evolução em termos absolutos.

Por outro lado, o que se mede então é a sensibilidade relativa de dois grupos, casos graves e não graves, às taxas moderadoras, a menos que se aceite como hipótese que os doentes mais graves não são sensíveis à taxa moderadora, o que significa à partida que neste grupo por definição não há resposta ao aumento das taxas moderadoras e como tal a análise não permite inferir sobre casos que foram impedidos de ir à urgência quando tal é desejável, por existência da taxa moderadora. Esta preocupação não é tratada, por definição, nesta análise.

O outro trabalho sobre taxas moderadoras e seu efeito foi apresentado por Sara Soares, usando dados de um hospital da zona de Lisboa. As principais regularidades encontradas são: aumento da procura de urgências em todos os grupos (isentos vs não isentos). A principal conclusão é que o aumento do preço não teve impacto nas decisões de procura.

Tomando os dois trabalhos em conjunto, antes de poder ter uma conclusão final sobre a pergunta de qual o efeito do aumento das taxas moderadoras, há que ter um melhor tratamento das situações de isenção – não basta saber quem esteve ou não esteve isento em cada momento, pois o comportamento pode mudar com a mudança de situação – deixar de ser isento, passar a estar isento, pelo que temos de considerar quatro grupos – isentos antes e depois do aumento das taxas, isentos antes e não isentos depois, não isentos antes e isentos depois, nunca isentos – que terão reacções distintas ao aumento das taxas moderadoras. Adicionalmente, há que distinguir entre situações de redução da procura que são desejáveis (casos que não têm gravidade e devem ser solucionados noutro ponto do sistema de saúde, ou nem sequer originar um contacto com o sistema de saúde) e redução indesejada de procura (casos em que seria desejável ir à urgência mas em que o valor da taxa moderadora impede essa ida).

Temos, assim, ainda algum trabalho pela frente para perceber estes efeitos.


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jantares, debates, enfermeiros e sistema de saúde

A semana passada decorreu um jantar debate com a presença do Ministro da Saúde organizado pela Ordem dos Enfermeiros (noticia aqui) (3 de Outubro 2013). O debate foi orientado para três grandes grupos de questões: reforço dos sistemas de saúde, expansão do papel da enfermagem e respostas aos desafios políticos. Decidi colocar aqui as principais ideias que retive desse debate.

A componente de reforços dos sistemas de saúde é normalmente uma área consensual, e hoje em dia não há grande divergência nas grandes linhas de importância das desigualdades sociais para as desigualdades em saúde, da crescente importância das condições crónicas, e do “mantra” de saúde em todas as políticas. Aspectos genéricos sobre os quais é fácil ter a concordância de todos.

Um tema interessante introduzido para discussão foi o da definição dos indicadores relevantes, com a distinção entre o que são indicadores que os “técnicos” gostam de calcular e os indicadores que interessam às pessoas. Esta é uma discussão menos óbvia do que parece: os técnicos podem querer calcular apenas os indicadores que conseguem mesmo que traduzam pouca informação, os técnicos podem querer calcular indicadores que decorrem das perguntas a que querem responder, as pessoas querem conhecer os indicadores do que pensam que é relevante para o seu conhecimento e para as suas escolhas e podem estar certas ou não. Cada indicador deve ter um objectivo no seu cálculo, e se é produzida informação com esse indicador, deve-se saber para que serve essa informação, em que medida leva ou não a decisões diferentes.

Ainda nestes aspectos gerais, surge mais uma vez como incontestada a ideia de um Serviço Nacional de Saúde de cobertura universal, equitativo no acesso e no financiamento, e de elevada qualidade.

Também recorrente nestas discussões é referência à prevenção, como promessa de sempre que fica sempre aquém do que se planeia. A verdadeira questão não é saber se a prevenção é relevante e sim porque não se concretiza. Uma das razões, a meu ver, está dificuldade de medir o resultado da prevenção – é medir o que não acontece, e ligar esse “não acontecimento” à actividade de prevenção. A segunda dificuldade está no tempo que demora a produzir resultados.

A expansão do papel da enfermagem é um tema mais polémico, embora do ponto de vista da análise económica não coloque grandes problemas. É um problema sobretudo de gestão das relações entre classes profissionais, de “reservas” de áreas de actuação, que sendo manifestamente do interesse individual podem facilmente divergir do interesse colectivo (embora normalmente as associações de profissionais apresentem os argumentos sob a capa do interesse colectivo, naturalmente).

A definição do papel do enfermeiro de família permitirá concretizar a curto prazo esta ideia, e elaborar um plano de acção para a aplicação concreta deste conceito. (há um grupo de trabalho que deve dar origem a alguma decisão)

Os desafios políticos envolvem a gestão das mudanças que é preciso fazer, em que a avaliação de impacto e a utilização de evidência para promover e justificar propostas ainda se encontram num patamar baixo. Há aqui o desafio de mudar o tipo de despesa e de organização, que normalmente envolve grupos que ganham e grupos que perdem, conseguir situações em que ninguém piore pode ser complicado mas deverá ser um primeiro nível de tentativa, como forma de reduzir resistências. Claro que quando as resistências se colocam em termos de posições relativas, não é possível gerar contextos em que ninguém piore e alguns melhorem, pelo que haverá nesse caso um julgamento a fazer.

Mais dentro da intervenção da Ordem dos Enfermeiros foi referido o documento com 15 propostas da Ordem dos Enfermeiros que estão a ser contempladas e apreciadas de acordo também com a informação e conhecimento disponíveis. Se assim for, e algumas das propostas resultarem em algum tipo de decisão, será um exemplo de boa contribuição institucional para a evolução e melhoria do sistema de saúde português.


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International Forum on Innovation on Mental Health

que decorreu no início de Outubro, tem aqui disponíveis os documentos das apresentações, e fotos para quem tiver curiosidade: a apresentação de Michael Marmot sobre Determinantes sociais da saúde mental e os comentários, meu e de Harry Minas (de que recomendo a leitura pois foi uma visão complementar à de Marmot bastante interessante).

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poupanças e credibilidade

O Governo anunciou um novo instrumento de poupança, que foi prontamente divulgado como sendo competitivo com os depósitos a prazo.

Este novo instrumento é bem vindo, pois é de todo o interesse que as poupanças privadas sejam canalizadas directamente seja para aquisição de dívida pública, como neste caso, seja para financiamento empresarial (para a qual ainda não existem instrumentos além da bolsa de valores que tenham capacidade de atracção para ambos os lados, quem empresta e quem pede emprestado).

Este novo instrumento irá novamente colocar à prova a credibilidade interna no estado português. Com a quebra de sucessivos “contratos” com os cidadãos, incluindo instrumentos passados de poupanças, conseguir convencer que as regras deste novo instrumento serão mantidas é um desafio a seguir.

A duração do instrumento, sendo de média duração, ajuda a essa credibilidade. Resta saber como será entendido pela população.


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Ainda a conferência de Michael Marmot e o universalismo proporcional

 

Como ponto forte da sua intervenção sobre determinantes sociais da saúde mental, na conferência da Global Mental Health Platform, Marmot introduziu a ideia de universalismo proporcional. Isto é, nenhum grupo deve ser deixado de lado, mas os diferentes grupos devem ser tratados de forma proporcional. Num contexto de recursos escassos, isto significa que por pouco que se faça nuns grupos, haverá recursos que são desviados de outros.

A noção de universalismo proporcional precisa no entanto de receber maior definição. Por exemplo, definir grupos prioritários de acção e não incluir outros é na verdade uma forma de proporcionalidade. Se se definir que todos os elementos da sociedade são em princípio abrangidos (universalidade na cobertura) mas que apenas alguns serão explicitamente considerados para intervenção tem-se proporcionalidade, que é diferente de dizer que todos os grupos têm que receber atenção estritamente positiva do sistema de saúde.

Embora o argumento formal de Marmot tenha sido as desigualdades, e usa a noção de proporcional para afirmar que os mais desfavorecidos devem receber proporcionalmente mais, durante a apresentação apresentou outro argumento, de natureza completamente diferente: um sistema de saúde montado a pensar apenas num grupo de pessoas, nomeadamente nas de menores condições económicas na sociedade, será um sistema de baixa qualidade, e para assegurar que se tem um sistema de elevada qualidade então tem-se que incluir todos com atenção estritamente positiva. Não utilizou estas palavras, foi mais rápido, algo que  numa minha  proposta de resumo numa frase seria: um sistema de saúde para pobres será um pobre sistema de saúde. Por detrás desta afirmação está num entanto presente uma concepção sobre a forma como os sistemas de saúde (ou suas partes) são construídas, e que não sendo trazida para a discussão não se pode avaliar se é uma visão correcta ou não, ou se está sequer baseada em qualquer tipo de evidência (o que faz com que tenha um tratamento diferente das questões associadas com desigualdades, onde se tem feito muito trabalho empírico).

A própria noção de universalismo proporcional precisa de receber mais conteúdo em termos do seu alinhamento com as preferências da sociedade sobre intervenção em saúde.

Coloquei a votação duas propostas de intervenção, precisamente para ver se existe, ainda que informalmente e com pequenos números, numa amostra de conveniência e provavelmente enviezada e não representativa (todas as ressalvas de que não é um trabalho científico, apenas uma exploração), alguma tendência clara nas escolhas. As mesmas questões foram colocadas à audiência da conferência, que teve a possibilidade de votar online durante cerca de 45 minutos.

Há duas intervenções de política de saúde disponíveis, que utilizam exactamente os mesmos recursos. Uma das opções tem que ser escolhida. Os resultados de cada uma das intervenções, medidas num score de saúde mental na escala 0 a 100 são os apresentados nos dois quadros seguintes. A primeira linha apresenta a situação de partida (igual em ambas as opções). A segunda linha contém os benefícios de cada opção.

Opção A Opção B
Pobres Ricos Pobres Ricos
Antes 30 80 Antes 30 80
Depois 50 90 Depois 60 80
Escolha uma das opções:
A: 20
B: 21

Embora não tenho aqui feito uma separação entre as escolhas realizadas pelas pessoas que assistiram à conferência de M Marmot e as que responderam depois ao desafio do post neste blog, os resultados são essencialmente os mesmos: uma divisão das pessoas entre as duas alternativas, que não são aliás muito diferentes (propositadamente). A alternativa A aproxima-se da ideia de universalismo proporcional com todos os grupos a receberem atenção estritamente positiva, enquanto a opção B tem apenas intervenção num dos grupos. As diferenças entre as duas opções estão em A ter menor beneficio para um grupo e maior noutro grupo, pois em B a intervenção é direccionada apenas para um dos grupos.

A minha interpretação, no que pode ser uma hipótese para trabalho posterior mais rigoroso, é a de, não havendo grandes diferenças de benefícios, a divisão desses benefícios entre os diferentes grupos estar associada com uma certa indiferença em termos agregados. Indiferença tem aqui um sentido técnico de se ter 50% das pessoas a preferir um aumento de benefícios de 20+10 face a 30+0 (ver o quadro). Não se tendo explorado as motivações para cada escolha, não é possível saber se quem optou por A prefere de facto que todos sejam beneficiados, ou se pretendeu dividir os ganhos possíveis pelos grupos, ou outra motivação subjacente à escolha.

Longo texto para um comentário curto: é diferente ver o universalismo proporcional como resposta a uma escolha da sociedade baseada em preferências sobre tipos de intervenção ou como resposta à forma como os sistemas de saúde são construídos. Fica para esclarecer noutra altura por M Marmot.