Momentos económicos… e não só

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acompanhar o ritmo da troika (3)

Do memorando de entendimento resultava um conjunto, ainda vasto, de medidas na área da saúde a estarem concluídas até final do mês de Setembro. Os pontos 2 a 5 do comunicado do Conselho de Ministros indicam que se cumprem as datas previstas, pelo menos para alguns. Do mesmo comunicado resulta que algumas outras medidas previstas para terem lugar até final do ano recebem já acolhimento.

Data a ser cumprida Medida Revisão 01.09.2011 Estado
30-09-2011 Revisão substancial das isenções actuais, com definição de critérios em cooperação com o Ministério da Segurança Social. Mantém-se. (3.51) Aprovado em Conselho de Ministros de 29.09.2010, ponto 3
30-09-2011 Aumento das taxas moderadoras em determinados serviços, assegurando que as taxas moderadoras são menores nos cuidados de saúde primários do que nas consultas extermnas,do que nas urgências Mantém-se. (3.51) Aprovado em Conselho de Ministros de 29.09.2010, ponto 3; mas será preciso esperar por portaria para saber valores
30-09-2011 Fixar o preço máximo do primeiro genérico introduzido no mercado como 60% do preço do medicamento originador relevante. Preço máximo do primeiro genérico passou a 50% do preço do medicamento originador relevante. Aprovado em Conselho de Ministros de 29.09.2010, ponto 5
30-09-2011 O sistema de monitorização deverá estar baseado numa unidade própria do Ministério da Saúde, como o Centro de Conferência de Facturas. Mantém-se. (3.59) Despacho n.º 12950/2011

 

 

 

 

 

Data a ser cumprida Medida Revisão 01.09.2011 Estado

 

31-12-2011 Novo: redução automática do preço dos medicamentos de marca quando a patente expira. (3.55) Aprovado em Conselho de Ministros de 29.09.2010, ponto 5
31-12-2011 Novo: Centrar a responsabilidade de estabelecer o preço dos medicamentos no Ministério da Saúde (por exemplo, no Infarmed). (3.56) Aprovado em Conselho de Ministros de 29.09.2010, ponto 5
31-12-2011 Rever o sistema de referenciação internacional, passando para o sistema de três países da União Europeia com preços mais baixos ou países com níveis de PIB per capita comparáveis. Mantém-se. (3.57) Aprovado em Conselho de Ministros de 29.09.2010, ponto 5
31-12-2011 Sistema de monitorização da prescrição de medicamentos e de meios de diagnóstico, a nível individual de prescritor, em valor e em volume. Comparação com guidelines. Fornecer informação de retorno trimestral, focando em especial nos medicamentos mais caros e nos medicamentos mais usados. Mantém-se. (3.59) Despacho n.º 12950/2011

 

31-12-2011 Indexação automática das taxas moderadoras à inflação. Mantém-se (3.51) Aprovado em Conselho de Ministros de 29.09.2010, ponto 3

Destas medidas podemos retirar

a) que apesar da indicação de aumento das taxas moderadoras, há a visão correcta de “A revisão do sistema de taxas moderadoras é perspectivada como uma medida catalisadora da racionalização de recursos e do controlo da despesa, ao invés de uma medida de incremento de receita, sem prejuízo da garantia de acesso e de qualidade dos cuidados prestados.” (citação do Comunicado do Conselho de Ministros). Assim, aumentos para valores próximos dos máximos permitidos por lei não parecem estar no horizonte (embora se tenha que esperar pela divulgação dos valores concretos). O valor máximo de 1/3 do preço de GDH já aproximaria a taxa moderadora de co-pagamento de facto. Igualmente interessante será vir a saber se o aumento será diferenciado de acordo com o nível de cuidados, com aumento maior nas urgências hospitalares, sendo essa a via preconizada, e bem, pelo Memorando de Entendimento. Esta diferenciação não é novidade uma vez que está presente no actual sistema de taxas moderadoras, importa saber se será aumentado o sinal de que as pessoas se devem dirigir aos cuidados de saúde primários.

Para mais informação sobre as taxas moderadoras, ver o esclarecimento da Entidade Reguladora da Saúde, aqui, que contém também ligação para a legislação e actuais valores das taxas moderadoras.

b) Relativamente ao sector do medicamento, as imposições também parecem estar a ser respeitadas dentro e até nalguns casos com adiantamento do prazo. Dentro do que foi anunciado, a adopção de três países da zona euro é adequada, na medida em que incluir países fora da zona euro traria para dentro do sistema de fixação de preços os problemas de variação cambial do euro face às moedas dos países externos à zona euro – que não são fáceis de abordar, e que introduzem aleatoriedade que nada tem a ver com o funcionamento do sector do medicamento.

c) A redução dos preços dos medicamentos de marca no momento de expiração da patente vence por via administrativa a inércia dos preços e substitui-se o que se esperaria ser a pressão concorrencial da produção de genéricos. Conjuntamente com a medida de medicamentos genéricos só poderem entrar com preço 50% abaixo do preço do medicamento original, fica por clarificar com a leitura do diploma se é antes ou depois da redução do preço do medicamento original. (mas talvez algum leitor do blog possa conhecer e ajudar aqui a clarificar desde já).

d) o sistema de monitorização, com o despacho do Secretário de Estado da Saúde, datado de 16 de Setembro, dá desde este momento o pontapé de saída para acontecer alguma coisa, poderá não ser perfeito, e como diz o próprio despacho “sem prejuízo da implementação de um mais amplo mecanismo de monitorização e informação de retorno ao médico prescritor, deve fazer -se uso da informação já actualmente disponível e sedimentar procedimentos existentes.” Como o perfeito é inimigo do bom, é melhor avançar com qualquer coisa do que nada ter, e a experiência poderá desde logo ditar ajustamentos ao próprio modelo de informação de retorno prestada. Será importante que se faça um seguimento da evolução do padrão de prescrição face à informação que é transmitida aos médicos e à actuação que possa haver por parte de cada Presidente de Conselho Clínico de ACES. Assim, o acompanhamento deveria inquirir daqui a algum tempo qual o tratamento dado no contexto de cada ACES a esta informação. Não estou aqui a sugerir qualquer policiamento, e sim a recolha do que é a melhor prática em termos de utilização de informação e disseminação dessa prática, por um lado, e vir a conhecer que informação adicional será relevante transmitir aos prescritores e ao Presidente do Conselho Clínico sobre os padrões de consumo. Deverá também haver o compromisso de se revelar publicamente, de forma anónima obviamente, qual o padrão de prescrição, de algum modo normalizado para a população servida (por exemplo ao nível de cada ACES).

(post gémeo com Estado Vigil)


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acompanhar o ritmo da troika (2)

Há dois dias coloquei aqui a questão de saber se a avaliação preliminar das PPP teria sido feita, e se a inclusão das PPP da saúde também ocorreu.

Hoje recebi de mão amiga a informação que saiu num site, Agencia Financeira, e segundo a qual o estudo preliminar teria sido entregue (não sendo aparentemente público). Fica aqui a actualização / rectificação.

Também hoje sairam mais medidas na área da saúde que preenchem exigências da troika, mas voltarei a elas em breve.


Governo recruta consultora internacional para avaliar PPP

Equipa de Passos Coelho espera estudo detalhado das Parcerias Público-Privadas que deverá ficar pronto em Março

O Governo vai recrutar uma consultora internacional para fazer um estudo detalhado das Parcerias Público-Privadas (PPP), que poderá levar à renegociação e que deverá estar concluído até ao final de Março de 2012.

«O Governo vai recrutar uma consultora internacional para fazer um estudo mais detalhado das PPP, em articulação com o Instituto Nacional de Estatística (INE) e o Ministério das Finanças», lê-se na primeira actualização ao Memorando de Entendimento com a troika, divulgada esta terça-feira.

O estudo, que deverá estar concluído no final de Março de 2012, «vai avaliar a viabilidade de renegociar qualquer PPP ou contrato de concessão para reduzir as obrigações financeiras do Governo», segundo o documento.

No âmbito do memorando de entendimento assinado com a Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu, Portugal entregou, a 31 de Agosto, um relatório sobre as principais PPP e concessões.

Na altura, a secretária de Estado do Tesouro e Finanças, Maria Luís Albuquerque, disse que o relatório entregue à troika contempla o estudo de 36 PPP, e de «cerca de quatro dezenas de concessões consideradas relevantes».

O relatório só será tornado público «quando tiver o acordo» da missão conjunta nesta matéria, acrescentou ainda a secretária de Estado.


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acompanhar o ritmo da troika (1)

 

Uma das medidas da troika com potenciais implicações para a saúde, mas que me tem passado despercebida é esta –  até 31.08.2011 “3.18 Following the recommendations of the July tecnical assistance mission, perform an initial assessment of at least the 20 most significant PPP contracts, inclined the major Estradas de Portugal PPPs, covering a wide range of sectors. [end-August 2011]” (o bold é do documento original).

Data a ser cumprida Medida Valor Revisão 01.09.2011 Valor
31-08-2011 Realizar com o apoio do FMI e da CE uma avaliação das 20 PPPs mais importantes. (não é claro se alguma PPPda saúde está incluída) ?? Mantém-se. ??

Não há indicação que tenha sido cumprida, e se há alguma PPP da saúde incluída nas 20 mais importantes. Seria bom ter essa lista de 20 PPPs. Mas a medida diz “at least” pelo que seria interessante incluir pelo menos uma PPP da saúde nesta lista, mesmo que não esteja no Top 20.
Não encontrei qualquer referência à concretização desta medida, nem sequer um comentário no “First update” do Memorando de Entendimento, que tem data de 01.09.2011, no documento disponível no site do Governo e elaborado pela ESAME – Estrutura de Acompanhamento dos Memorandos. Apenas na revisão feita pela Comissão Europeia, disponível aqui, surge informação adicional, embora sem indicar se as PPP na saúde estão também sob atenção especial, ou se vão incluídas no bloco geral, depois das Top 20. Aliás, a Comissão Europeia recomenda que sejam analisadas em detalhe todas as 33 PPPs encontradas. De qualquer forma, se é para ser feita uma avaliação inicial, estaria à espera de ver essa análise inicial publicamente divulgada, mesmo sabendo que haverá depois uma análise aprofundada.

(post gémeo com o blog Estado Vigil)


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impostos, benefícios fiscais e a troika

Estava novamente a reler o “first update” de 01.09.2011 do “Memorandum of Understanding on Specific Economic Policy Conditionality”, por outras razões, e às tantas li dois aspectos que me parecem contraditórios, será só a mim?

“1.22 Reduction of personal income tax benefits and deductions, with a yield of at least EUR 150 million in 2012. Measures include:

i. capping the maximum deductible tax allowances according to tax bracket with lower caps applied to higher incomes and a zero cap for the highest income brackets;”

e logo depois

“1.27 Increase efforts to fight tax evasion, fraud and informality to raise revenue”

mas retirar totalmente as deduções ficais em despesas que impliquem a passagem de recibo para os níveis de rendimento mais elevado não é um convite quase explícito para que haja evasão fiscal?

Creio que no passado já ouvi defender que a “eficiência fiscal” no sentido de não dar incentivos à evasão fiscal incluía deduções fiscais para despesas associadas com profissões liberais ou situações onde se torne especialmente fácil acordar-se em não passar recibo (perdendo-se mais em rendimento não tributado do que benefício fiscal). Ficava mais descansado se fosse anunciado que estas contas foram feitas, e que a solução encontrada, de não haver benefícios fiscais para rendimentos muito elevados, é a melhor.


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para leitura dos próximos dias

Saiu recentemente  a avaliação da Comissão Europeia dos primeiros meses do Memorando de entendimento, para leitura e comentário nos próximos tempos: aqui. Será também instrutivo ir comparando com as revisões de situação da Grécia e da Irlanda, para se ir vendo de quem estamos mais próximos aos olhos da Comissão Europeia, da Irlanda ou da Grécia.


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o resultado da primeira avaliação pela troika do cumprimento do memorando

A primeira avaliação pela troika do cumprimento do memorando de entendimento foi hoje disponibilizada no site do ministério das finanças: aqui


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Educação, Ciência e Ensino Superior – Documento de Estratégia Orçamental

O Documento de Estratégia Orçamental apresenta também algumas ideias sectoriais, e uma das áreas é a educação, ciência e ensino superior.

Em termos de medidas de contenção de despesa, há duas grandes intervenções a julgar pelo que foi escrito:

a) racionalização da rede escolar – ou seja, fecho das escolas demasiado pequenas para que possam prestar um serviço efectivo à população jovem

b) regresso dos professores às escolas, por redução da sua presença em organismos centrais ou regionais do Ministério – esta será uma medida com efeitos importantes, uma vez que as despesas com pessoal são uma componente muito grande neste ministério.

Curiosamente, não há aqui uma quantificação precisa do que se espera ter em termos de redução da despesa.

Do lado da Ciência e Ensino Superior, é dito muito menos em termos de princípios de onde se pretende actuar, mas é dado um valor de redução global de 9,6%.

A sensação que fica da leitura é que na Educação pré-Ensino Superior tem-se uma ideia do rumo a seguir, mas sem quantificação; no Ensino Superior e Ciência faltando uma linha clara de rumo, avança-se um número de corte (aparentemente cego). Na Ciência, a grande linha de  orientação expressa neste documento é a orientação para outras fontes de financiamento, nomeadamente recorrendo ao financiamento comunitário disponível em regime competitivo, o que irá originar uma necessidade de maior excelência nas propostas de investigação científica, e uma maior integração nas redes europeias. Restará saber se em alguns domínios particulares, a especificidade Portugal não terá de ditar uma abordagem distinta (por exemplo, se em biologia nada de específico poderá existir, em estudo da lingua portuguesa, aceito que possa haver menos receptividade europeia; será algo a ser discutido).

Cabe aqui a declaração de conflito de interesses: sou docente do ensino superior público, e como tal serei afectado pelos cortes que venham a surgir.


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Documento de estratégia orçamental (II)

O Documento de Estratégia Orçamental estabelece – suponho que o podemos tomar como compromisso – uma agenda de transformação estrutural da economia portuguesa.

Tenho desde logo problemas com o título – o Estado NÃO consegue transformar estruturalmente a economia, excepto nas direcções erradas – pode certamente nacionalizar tudo ou contratar funcionários públicos, mas não pode assegurar que serão criadas novas empresas privadas, ou que volume de emprego privado será criado.

O Estado pode criar as condições necessárias para essa transformação estrutural possa ter lugar. E pensar deste modo retira das mãos do Estado o poder de controlar e dirigir directamente a economia, para o poder de enquadrar e permitir direcções de exercício de liberdade económica.

Mas vejamos a agenda de transformação:

– privatizações – a redução do Estado empresário é fundamental em várias dimensões, de financiamento, de falta de concorrência, de protecção implícita, e vai obrigar em alguns sectores a um maior rigor de acompanhamento regulatório e ou de defesa da concorrência. Resta saber se o Estado, nas suas diferentes vertentes, não será “capturado” pelas grandes empresas privatizadas. É um risco a acautelar.

– aumento da concorrência – apenas publicar uma nova lei será pouco eficaz, não são a actuação da Autoridade da Concorrência terá de corresponder à nova lei (ainda desconhecida), como o sistema judicial terá que dar resposta. O novo tribunal especializado é uma incógnita.

– desvalorização fiscal – claramente, só cá está porque foi explicitamente mencionada pela troika. É claro do documento que não se acredita no poder da desvalorização fiscal. Uma desvalorização fiscal faseada é uma boa forma de dizer que não produz efeitos, e deixar cair na primeira oportunidade (se vier a existir de todo).

– liberalização das profissões reguladas – não é claro, neste documento, quais são, mas pelo menos fica a intenção de maior acesso ao exercício destas profissões por profissionais qualificados de outros países da União Europeia. A melhor forma de introduzir concorrência é abrir a entrada. Assim se concretizem as intenções. Não faltarão os protestos das profissões.

– reforma do sistema judicial – é dos aspectos mais essenciais a serem resolvidos, o mais rapidamente possível. Gostava de começar por ver discutido porque é que no entender deste Governo as reformas anteriores não resultaram, e apoiar esse diagnóstico com dados. Isto porque temos ouvido repetidas vezes falar da importância desta reforma, sucessivos governos anunciaram várias reformas (ou remendos), mas em cada momento que se inicia uma nova reforma / remendo esquece-se a evidência sistemática, e tudo aparenta ser baseado em palpites ou esperanças (mais ou menos informados). O que é pouco para uma área central.

– funcionamento do mercado de trabalho – dada a importância política e junto da população, bem como da demagogia na discussão à sua volta, é dito surpreendentemente pouco nesta parte do documento.

Depois desta agenda de transformação, o documento entra no cenário macroeconómico, e a maior surpresa desse cenário macroeconómico é não se ter a mínima ideia de como cada elemento da agenda de transformação contribui em termos de recuperação orçamental e em termos de crescimento económico. Não era suposto as duas coisas estarem ligadas? A agenda de transformação não é para crescer mais? Só sabendo a contribuição de cada medida, isoladamente e em conjunto, se poderá falar de prioridades e contributos.

Na discussão do cenário macroeconómico a evolução das grandes rubricas habituais, consumo, investimento, exportações, etc…, é completamente desligada dos efeitos da agenda de transformação. Ou esta só tem efeitos depois do prazo do cenário (e devia ser dito), e ficamos sem saber o que nos guia durante os próximos anos; ou não se tem qualquer ideia dos seus efeitos, e nesse caso damos um passo em frente com base na fé.

Tenho que reconhecer, honestamente, que não é fácil fazer a ligação entre as medidas da agenda da transformação e o crescimento da economia, efectivo e do produto potencial. No entanto, a dificuldade de o fazer significa que provavelmente apenas o Governo terá os recursos técnicos e de informação para estabelecer alguma presunção de efeitos. O Estado deve ter consigo uma exigência de rigor técnico que lhe permita responder a estas questões, de uma forma tecnicamente sustentada. Se existe essa análise e é considerada demasiada técnica para uma comunicação geral, então poderia ser disponibilizada em documentos técnicos para quem quisesse ver.


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mais um passo

Mais um passo foi dado no sentido de sabermos o que o Governo realmente pretende como concretização do memorando de entendimento.

O Documento de Estratégia Orçamental 2011 – 2015 é mais um (mais um…) passo intermédio até ao desvendar do plano de acção, prometido para o Orçamento. Ainda assim, o seu conteúdo vai para além do aumento de impostos que tem sido divulgado pela imprensa. O aumento de impostos está lá, é verdade, mas devemos olhar com atenção para os outros aspectos tratados no documento. Na verdade, devemos ver este documento como um compromisso do Governo consigo mesmo e com os cidadãos.

Uma parte importante do Documento é dedicado à organização interna do Estado. Mas vamos por partes na análise do documento.

A primeira parte é, como vem sendo usual nestes documentos, de enquadramento macroeconómico. O enfoque na descrição histórica cai sobre o baixo crescimento da produtividade e logo da economia. Mas reconhece dois aspectos importantes:

a) que parte substancial do problema económico é interno, poderá ter sido revelado mais cedo ou agudizado pela crise internacional, mas não deixa de ser um problema interno. A mera recuperação das outras economias não o irá resolver.

b) que o Estado tem um problema grave – falta de disciplina orçamental que assenta em grande medida num débil processo orçamental – ou seja, o Estado não consegue ter disciplina porque não tem internamente os meios para verificar essa disciplina.

Adicione-se aqui uma miopia sempre presente nas previsões económicas, traduzidas no quadro que mostra as diferenças entre a realidade e os documentos PEC – programas de estabilidade e crescimento – sucessivos. Se as melhores previsões oficiais que se conseguiram fazer foram estes, como se podia esperar que os credores acreditassem no rumo da economia portuguesa?

A correcção do processo orçamental e uma maior precisão técnica nos documentos elaborados são melhorias internas do Estado que têm de ser feitas. A primeira é essencial para haja de facto contenção da despesa, e nos deixemos de lamentar com o ciclo de conferência de imprensa – aumento de impostos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(ps. amanhã continuarei com a análise do documento)


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Seguir a candeia que vai à frente

Dos três países do euro em apoio da troika, temos olhado mais para a turbulência da Grécia do que para a calma da Irlanda.

Talvez seja a altura de um maior equilíbrio nas nossas atenções. Saiu há dois dias o resultado do acompanhamento do FMI à Irlanda, aqui. O resumo é simples: estão a tomar as medidas acordadas, estão a fazê-lo antes do tempo acordado, esperam crescimento positivo para 2011, criaram um conselho de finanças públicas, tudo isto apesar da febre de downgrade da Moody’s também os ter atingido. Continuam o seu caminho com aparente calma.

Interessante também no que possa constituir de exemplo, a nomeação de Stefan Gerlach para um posição importante no Banco Central da Irlanda (noticia aqui): nasceu na Suécia, leccionava em Frankfurt, depois de ter passado por várias posições internacionais de destaque. O lema irlandês foi pescar o melhor possível no lago de talento global. É um passo que também ganharíamos em dar, de uma forma generalizada, em Portugal.

Olhemos, por isso, mais para a Irlanda como sendo a candeia que vai à frente.