Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time


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mudança de geração,

apenas um comentário rápido sobre a mudança de secretários de estado; se na constituição do actual governo era visível uma mudança geracional, a favor de uma geração mais nova, esta mudança de secretários de estado faz o reverso, vai buscar pessoas de uma geração acima,  em média, e também com mais experiência política. Será um sinal de que a geração abaixo ainda não está preparada para o exercício da actividade governativa? será agora interessante ver que autoridade irá exercer o ministro da economia sobre secretários de estado mais velhos ou/e com mais experiência política, dará para perceber se o ministro da economia teve uma rápida curva de aprendizagem, ou não. Os últimos sinais indicam que teve progressos nessa frente, agora terá um teste à essa experiência adquirida e à liderança que terá de exercer internamente.

 


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a mensagem de Ano Novo do PR

A mensagem de Ano Novo do Presidente da República tocou nos tópicos do momento: espiral recessiva, desemprego jovem, redução défice, impacto sobre as famílias, dúvidas sobre a justiça dos sacrifícios, importância do OE, utilidade dos sacrifícios, nível insustentável da dívida do Estado, honrar compromissos internacionais, renegociar não é solução, crescimento negativo é um problema para alcançar o equilíbrio das contas públicas, interromper ciclo negativo de crescimento, unir os portugueses, o problema é falta de crescimento económico, exige esforços, problema da recessão da zona euro, e a crise económica em Espanha, relevância dos apoios da UE ao investimento e da melhoria das condições de financiamento das empresas junto do sector bancário, diálogo e consenso, encontrar soluções, melhorar clima de confiança.

Em termos gerais, não há grande novidade – já era esperada a preocupação com a “justiça dos sacrifícios”, susceptível de criar mais tensões na sociedade portuguesa.

O desejado crescimento económico joga-se no sector privado, uma vez que claramente não será possível fazer, nem seria desejável que o fosse, via despesa pública. Só que é mais fácil enunciar do que concretizar.

O que seria ideal ter em 2013: A criação de um ambiente estável para investimento em áreas produtivas inseridas no comércio internacional e que gerem emprego (sejam intensivas em trabalho, no jargão económico).

Perigos em 2013: O crescimento da economia informal. Ao aumento da pressão fiscal e da pressão inspectora do Ministério das Finanças irá provavelmente corresponder um aumento da economia paralela. Resta saber que dimensão terá e que efeitos provocará na economia formal.


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completamente …. o quê?

Hesitei muito sobre se deveria escrever a propósito das declarações de António Borges. Primeiro, porque as sensações imediatas são mais emoções que razão; segundo, porque entretanto toda (ou quase toda) a gente decidiu falar e emitir a sua opinião sobre o assunto. Passados alguns dias, talvez se consiga olhar para o que foi dito com mais calma.

Sobre a dimensão política das afirmações, não me pronuncio. Aliás, essa dimensão foi já suficientemente explorada, tal como a dimensão de estratégia de comunicação. Só achei estranho que nenhum comentador tivesse pedido para ver os exames do curso que António Borges dá, só para tirar as dúvidas do que é suposto os seus alunos saberem.

Interessa-me olhar para a dimensão económica subjacente, até porque como bem notou Marcelo Rebelo de Sousa vai de encontro ao que o próprio primeiro-ministro disse, embora de forma menos agressiva, e que revela (?) o pensamento económico que lhe possa estar subjacente.

Em termos de teoria económica, na representação mais simples de uma economia, em situações de concorrência, a produtividade dos trabalhadores (na última unidade produzida) é o elemento determinante do salário real. Ou, outra forma de o dizer, o valor da produtividade iguala o salário. Se a produtividade aumenta menos do que os salários nominais e os preços dos produtos vendidos não acompanham, cria-se um desfazamento que em termos económicos mais cedo ou mais tarde tem de ser corrigido – ou a empresa desaparece, ou baixa salários, ou aumenta produtividade, admitindo que em termos de preços a empresa tem que acompanhar a concorrência (especialmente verdade no caso das empresas exportadoras, que para a mesma qualidade de produto, em geral, não podem praticar preços muito mais elevados que a sua concorrência).

Do ponto de vista das empresas, o salário relevante neste contexto é o salário acrescido de todas contribuições envolvidas, que é por isso diferente do salário liquido recebido pelos trabalhadores (em que para além das contribuições pagas directamente pelo empregador, ainda têm que pagar a sua parte da contribuição para a segurança social e ver retido a componente de imposto sobre o rendimento).

Uma das implicações mais antigas da teoria económica é que esta diferença entre salário liquido e salário bruto é inibidora de contratações que seriam mutuamente vantajosas para trabalhador e empresa. Uma das distorções no mercado de trabalho, destruidora de emprego, é esta diferença. No caso da medida proposta pelo primeiro-ministro, e defendida por António Borges, esta distorção aumentava, pelo que não pode ser este o motivo de defesa da medida. Também não foi este o argumento invocado contra a proposta por quem se mostrou contra. Note-se que uma descida da TSU do empregador, financiada de outra forma, levaria a uma redução desta distorção. O aumento só surge porque a contribuição do trabalhador aumenta mais do que a redução da contribuição do empregador. O argumento contra esta distorção é o de que actualmente não é por ter salário maior ou menor que as pessoas aceitam um novo emprego ou manter o que já têm. Na actual conjuntura, até pode ser verdade, mas medidas desta natureza para promover o emprego não se espera que tenham resultados a três meses, por isso o prazo relevante de discussão é mesmo o médio prazo, onde a distorção se fará sentir.

Sendo assim, é necessário procurar outras explicações.

Do lado de António Borges, e juntando com declarações de outros defensores da proposta apresentada, as principais vantagens da medida eram a) baixar salários de forma generalizada; b) permitir um aliviar de tesouraria às empresas, substituindo-se esta medida à actuação do sector bancário no proporcionar de liquidez às empresas com maiores dificuldades nesse campo.

Sobre a importância de baixar salários dedicarei outro texto, mas é de notar que nada impedia que os salários fossem aumentados aos trabalhadores pelas empresas que estivessem em condições de o fazer, e que até o poderiam fazer aumentando apenas aqueles trabalhadores que considerassem merecedores, e nos restantes “aceitariam” a imposição de decréscimo salarial. Neste sentido, surge até como uma medida de flexibilidade salarial, e não apenas de decréscimo salarial. Os empregadores poderiam gerir da forma que considerassem adequada a folga gerada pela redução da TSU a seu cargo, mesmo que em termos totais viesse a ocorrer uma maior distorção.

O elemento aparentemente não previsto neste argumento é a reacção emocional e de justiça percepcionada face à medida que faz passar directamente dinheiro do bolso dos trabalhadores, em que já sofreram aumentos de impostos e nalguns casos reduções salariais impostas pelas empresas, em pequenas e médias empresas, para os empregadores, que poderão aplicar essa transferência a salvar a empresa ou simplesmente aumentar os seus rendimentos próprios.

Mas também falhou perceber melhor o lado das empresas.

Do lado dos empregadores, a principal motivação da reacção adversa esteve associada com a motivação dos trabalhadores face a esta medida e as consequências que a mesma pudesse ter. Este argumento não está presente na descrição teórica simples que apresentei inicialmente. O desenvolvimento desse tipo de argumentação está contudo presente na teoria económica, na chamada teoria dos salários de eficiência (o leitor interessado pode ver aqui um resumo e uma visão crítica aqui, mas também existem outros motivos para os empregadores não quererem baixar salários, que em geral estão associados com a ideia de relação de longo prazo com trabalhadores como forma de motivação e promoção da produtividade; um tratamento dos vários motivos pode ser visto aqui). A resistência dos empregadores a baixar salários não resulta apenas e unicamente de aspectos redistributivos, ou sequer de “visões marxistas” da economia. Este aspecto é crucial para perceber a divergência de opiniões entre uma proposta que se julgava “amiga” das empresas e a resposta destas.

A julgar pelas reacções observadas, o factor de perturbação dentro das empresas criado pela redução salarial associada com a proposta apresentada pelo primeiro-ministro teve mais peso que o alivio financeiro proporcionado pela medida. Esse diferente peso também revela que os empregadores dão maior peso ao longo prazo, em que essa perturbação laboral terá mais consequências para a empresa, do que dão ao curto prazo (ou ao futuro imediato), em que certamente o alivio financeiro seria bem vindo.

Não sendo eu especialista no mercado de trabalho, é desejável que outros refinem aspectos da análise acima (mas também não quis escrever um paper científico!), pois há outras características do mercado de trabalho que podem ter relevância, como os processos de negociação salarial, contratação colectiva, etc.

De qualquer modo, é bom saber que os alunos do primeiro ano de António Borges são capazes de articular modelos de determinação salarial complexos com situações de falta de liquidez das empresas em contexto de recessão.


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“Policy analysis – Concepts and Practice”

é o título de um livro já com alguns anos, indo na quinta edição em 2011, e recomendo a sua leitura nestes momentos de acesa discussão de medidas de política económica. Deixo abaixo o índice e a descrição dos objectivos do livro. Um aspecto importante deste livro é a atenção dada ao processo de construção das próprias medidas de política económica. Não é por acaso que na primeira parte da introdução há uma discussão dos aspectos éticos de fazer análise e proposta de políticas. A segunda parte é toda ela dedicada ao que pode fundamentar essas propostas – falhas de mercado e objectivos de eficiência, mas também objectivos de redistribuição. Só fizer que há falhas de mercado não é suficiente, é preciso mostrar que há capacidade de as corrigir com intervenção pública. Às falhas de mercado há que contrapor as falhas da intervenção pública.

A terceira parte é sobre análise de políticas e procura de soluções – que tem vários capítulos, e apenas um deles dedicado ao critério associado com as escolhas entre alternativas. Os outros tratam de como identificar correctamente problemas, soluções e como fazer a comunicação, num deles, e como adoptar a aplicar, por outro lado. Por fim, como fazer, onde é dada importância a obter informação e de a usar de forma adequada.

Olhando para o que tem sido a discussão sobre a TSU, o melhor será dar um passo atrás e recomeçar todo o processo, com discussão preparada, identificação do problema, das soluções alternativas, etc.

Há quer ser profissional na preparação de políticas que se sabe serem polémicas. E há quem já tenha estudado esses processos e definido os passos recomendados. É uma via mais interessante do que a versão portuguesa de qualquer proposta, “nós” contra “eles”.

Policy Analysis: Concepts and Practice, 5th Edition

By David Weimer, Aidan R. Vining

Description

Updated in a new 5th edition, this book lays a strong conceptual foundation to understanding the rationales of and limitations to public policy. It gives practical advice about how to do policy analysis while demonstrating the application of advanced analytical techniques through case study examples.
Policy Analysis: Concepts and Practices is a comprehensive, accessible, and rich introduction to policy analysis for readers in public policy, public administration, and business programs.

Table of Contents

PART I: Introduction to Public Policy Analysis

1. Preview: The Canadian Salmon Fishery

2. What is Policy Analysis?

3. Toward Professional Ethics

PART II: Conceptual Foundations for Problem Analysis

4. Efficiency and the Idealized Competitive Model

5. Rationales for Public Policy: Market Failures

6. Rationales for Public Policy: Other Limitations of the Competitive Framework

7. Rationales for Public Policy: Distributional and Other Goals

8. Limits to Public Intervention: Government Failures

9. Policy Problems as Market and Government Failure

PART III: Conceptual Foundations for Solution Analysis

10. Correcting Market and Government Failures: Generic Policy Instruments

11. Adoption

12. Implementation

13. Government Supply: Drawing Organizational Boundaries

PART IV: Doing Policy Analysis

14. Gathering Information for Policy Analysis

15. Landing on Your Feet: Organizing Your Policy Analysis

16: Goals/Alternatives Matrices: Some Examples from CBO Studies

17: Benefit-Cost Analysis

18: When Statistics Count: Revising the Lead Standard for Gasoline

PART V: Conclusion

19: Doing Well and Doing Good


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sobre a alteração da TSU e seu impacto,

enquanto o ministério das finanças não disponibiliza os seus estudos, duas visões sustentadas quantitativamente sobre o problema, com metodologias distintas:

– Francesco Franco, Fiscal devaluation: the case of Portugal Taxes and competitiveness with a fixed exchange rate (2012) (uma versão preliminar aqui)

– Luis Aguiar Conraria e outros, Emprego e TSU – O impacto no emprego das alterações nas contribuições dos trabalhadores e das empresas (2012)

São ambos textos técnicos. O de Luis Aguiar Conraria e outros disponibiliza os dados que usaram na análise para quem quiser, via download no final do texto.

Uma outra visão, internacional, de Michael Keen, Ruud de Mooij, 6 April 2012, “Fiscal devaluation as a cure for Eurozone ills – Could it work?“: “Troubled Eurozone countries face the difficult challenge of regaining competitiveness without devaluing their currency. Could a fiscal devaluation, shifting taxes from employers to consumers, help? This column presents evidence suggesting that it could, but the devil is in the detail.” (mais explicação, não técnica no texto, o artigo técnico está aqui)

Ainda sobre a desvalorização fiscal, o texto resumo da literatura de Isabel Horta Correia (Banco de Portugal), “Fiscal Devaluation” e o de E. Farhi, G. Gopinath, e O. Itskhoki, Fiscal Devaluations (Univ Harvard).

 

Boas leituras e bom debate !


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o habitual artigo no dinheirovivo.pt

das segundas feiras, aqui. Desta vez dedicado ao inicio do esmiuçar da proposta de alteração da TSU pelo Governo, que apesar do que se passou esta semana deve ser avaliada nas várias modalidades que pode ter. A versão apresentada pelo governo é apenas uma das possibilidades, em que o financiamento da redução para as empresas é financiada pelos trabalhadores. Há que perceber porque foi feita a proposta desta forma, e ver se há outras formas melhores de aplicar a ideia de um estímulo ao emprego por esta via.


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rtp, tabu e histeria

Com toda a agitação que houve depois da entrevista de António Borges sobre a solução para a RTP, pensei num primeiro momento reflectir sobre o tema, mas depois era tanto o barulho que achei melhor deixar para outra altura, quando fossem conhecidos mais detalhes técnicos sobre a proposta e as alternativas que foram consideradas. O que se fará com a RTP tem muito de económico mas também de político.

Acabei por decidir escrever alguma coisa desde já, uma vez que o primeiro-ministro falou sobre o  assunto, referindo não haverem tabus e ser desejável não ter histeria nas discussões. Curiosamente, foi exactamente essa a sensação com que estava – uma certa histeria, muito focada no processo mas também na rejeição imediata da ideia, sendo que não houve uma discussão generalizada séria sobre os méritos da solução sugerida face a alternativas, e também das desvantagens, claro.

Sobre o processo político, de quem deverá anunciar o quê e em que momento, não me pronuncio.

Olhemos apenas para a ideia de solução. A ideia de concessão é desafiadora. Parece uma solução boa à primeira vista, talvez porque ainda não tinha sido proposta. Ou parece uma solução má porque não é aquela em que cada um tinha pensado ou que ideologicamente prefere. As posições públicas não andaram muito longe de uma destas duas.

Mas exploremos com cuidado o que significa concessão da RTP a privados. Ainda antes de saber quem ganha e quem perde financeiramente com esta solução, a primeira pergunta deve ser “qual o objectivo da actividade concessionada” ou mesmo “qual é a actividade concessionada”. Do que foi possível perceber, o objectivo será “assegurar o serviço público de televisão”. Do qual nasce desde logo a inevitável questão “o que é o serviço público de televisão?”.

Ora, aqui há uma profunda incapacidade de definir de forma precisa e completa o que será o “serviço público de televisão”. Basta relembrar  a tentativa feita há um ano, com toda a contestação que levantou, para se perceber a dificuldade de saber o que é. Ora, na ausência de um objectivo concreto, a definição de um contrato de concessão será especialmente complicado. Pensemos em quem estaria disposto a assinar um contrato que diga apenas “terá que cumprir o serviço público de televisão a troco de 150 milhões de euros”. Quem paga irá exigir mais em termos do que acha ser serviço público, quem presta irá argumentar que já faz mais do que suficiente. O Estado terá o interesse em ir redefinindo o que é serviço público, alargando o conceito, sobretudo depois do contrato assinado. O privado que tome a concessão quererá limitar essa redefinição, alegando que tudo o que faz é serviço público. Claro que a entidade privada que tomar a concessão estará disposta a fazer tudo o que seja considerado serviço público desde que paga para isso, mas se há adições ao conceito terá que haver acréscimo ao pagamento, e lá se vai a certeza do valor da despesa com o serviço público.

Conclusão, o contrato de concessão terá de ser mais preciso. Mas há dúvidas de que se consiga escrever um contrato que consiga especificar todas as dimensões relevantes do que é serviço público de televisão e antecipar a sua evolução para a duração da concessão. É o que em teoria económica se chama contrato incompleto, e que neste caso tem dimensões de difícil definição para serem incluídas num contrato. É necessário que essas dimensões possam ser observadas de forma a que um juiz ou entidade possam dirimir conflitos de interpretação entre as partes. É pouco provável que essa indefinição possa ser resolvida, o que sugere pouca adequação do modelo de concessão dados os objectivos de assegurar o serviço público de televisão.

Mas suponhamos, por um momento, que era possível resumir o serviço público de televisão à condição de não ter mais do 6 minutos de publicidade por hora. (se o leitor quiser, adicione outras condições similares em termos de verificação quantitativa – número de minutos falados em português por semana, número de programas de debate ou de música, etc…)

Ora, se estes valores forem especificados, então porque não considerar a alternativa de um concurso em que qualquer televisão assegure essas condições a troco do pagamento especificado. Ou seja, se for possível especificar, então o concurso deveria ser para essas condições, eventualmente até separadas, e não para uma concessão mais geral.

Ou seja, se o objecto “serviço público de televisão” é vago e dificilmente concretizável para poder pertencer a um contrato sem ambiguidades sobre o seu significado e custos associados, então a solução de concessão parece inferior à operação directa (que é aqui a versão de integração vertical entre as duas partes – contratante e contratado). Mas se for facilmente concretizável em medidas quantificáveis, então a solução concessão parece inferior a uma solução em que não há televisão pública e sim contratação a uma das estações da prestação dos serviços que levam a essas medidas quantificáveis.

A discussão sem tabus significa correr o espectro completo de opções, vendo as vantagens e desvantagens de cada uma delas – existem passos metodológicos de escolha pública para ajudar na estruturação deste tipo de decisões.

No caso da concessão da RTP, como proposta, apenas olhando para o que significa “serviço público de televisão” e o que é a sua caracteristica em termos de objecto contratável, parece sugerir que será sempre dominada por outra opção, nuns casos televisão pública, noutros casos televisões privadas contratáveis.

Como a discussão é sem tabus e sem histerias, posso estar completamente enganado e ter-me esquecido de algum factor essencial. Cá estarei para o reconhecer se for caso disso, sem histeria.

 

ps. propositadamente não quis discutir o que deve ser incluído no serviço público de televisão, pois interessa focar nas características do que é mais do que o conteúdo especifico que cada um queira dar.


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TSU e emprego jovem

De acordo com várias notícias que têm surgido, está-se a contemplar a introdução de uma redução da Taxa Social Única para estimular o emprego jovem.

Esta ideia, aplicada de forma generalizada, foi já explorada o ano passado pelo governo, que chegou mesmo a disponibilizar um relatório, “Desvalorização Fiscal – Relatório“, por enquanto ainda disponível na internet. Esse relatório esteve na base da decisão de não usar essa redução da TSU como instrumento de política. Recuperando a introdução do documento (bold adicionado por mim):

“A desvalorização fiscal, isto é, a redução das contribuições sociais da entidade patronal combinada com um aumento de impostos indiretos ou redução de despesa pública que seja neutral em termos orçamentais, pode ser vista, em várias dimensões qualitativas, como semelhante a uma desvalorização cambial. Embora os canais de transmissão sejam diferentes, o efeito em termos de melhoria da correção do desequilíbrio externo, vai no mesmo sentido.

No caso da desvalorização fiscal, o aumento das exportações é justificado pelo efeito que a redução dos custos de produção tem no preço final e, por essa via, no aumento da competitividade externa. Adicionalmente, no caso da neutralidade ser assegurada pelo aumento dos impostos sobre o consumo, a melhoria na balança de bens e serviços é maior uma vez que o abrandamento do consumo privado implica uma maior contração das importações

Os modelos macroeconómicos utilizados para simular os efeitos desta medida mostram estes impactos. O efeito de longo prazo sobre o nível do PIB, embora modesto, é positivo. No curto prazo pode gerar efeitos contracionistas cuja magnitude e impacto na composição da procura dependerá da forma de financiamento da medida.

Uma redução generalizada das contribuições sociais pode envolver uma afetação ineficiente de dinheiros públicos que importa limitar. Desta forma, numa análise custo-beneficio consideram-se alternativas em que a redução das contribuições sociais é feita de acordo com diferentes critérios. São de destacar, neste contexto, as alternativas que se baseiam na criação líquida de emprego e em critérios de seleção setoriais. Note-se, no entanto, que estas últimas poderão violar os princípios de concorrência definidos a nível europeu.

A atual situação das finanças públicas portuguesas associada às exigências de consolidação orçamental programadas para os próximos anos, exige um esforço sem precedentes, quer em termos de contributo da receita, quer em termos de redução de despesa pública. Neste contexto, a margem de manobra para a implementação da medida dependerá da folga orçamental que se espera conseguir no próximo ano, quer em termos de aumento de receita, quer em termos de redução de despesa para além do que está já programado para o cumprimento do objetivo orçamental.

Em termos de impostos indiretos, o IVA aparece como aquele que maior margem tem para financiar esta medida, em particular pelo potencial de receita que pode gerar caso se pretenda alterar as taxas reduzida e intermédia, ou limitar algumas das isenções existentes. Acresce, porém, que tal alteração, quer pela natureza regressiva, quer pelo tipo de bens que abrange, acarreta um custo social elevado o qual merece ser ponderado.

Embora alguns resultados teóricos apontem para efeitos de natureza permanente, designadamente um aumento do nível do PIB, a desvalorização fiscal não tem, por si só, quaisquer impactos nas características estruturais da economia. Deste modo, esta medida não substitui, mas antes deve ser encarada como complementar das medidas contempladas no programa de assistência financeira que visam reduzir a rigidez nos mercados do trabalho e do produto. ”

Ora, dadas estas afirmações, duas questões têm que ser respondidas de forma clara:

a) já se confirmou então que a aplicação sectorial é compatível com os princípios de concorrência? é que se o argumento era válido o ano passado, e não tendo havido uma refundação dos princípios de concorrência, não é perceptível como deixou de ser válido este ano.

b) há então margem orçamental para aplicar a medida, se esta for parcelar e não violar os princípios de concorrência?

c) houve alguma actualização do trabalho realizado o ano passado detalhando o impacto que terá uma intervenção sectorial ou apenas para alguns trabalhadores que também vá ser tornado publicamente disponível? Ou continuam perfeitamente válidos os valores do relatório do ano passado?

A não se responder a estas perguntas, fica a sensação de que as políticas são tomadas sem a devida sustentação técnica, e apenas pela necessidade de “tentar alguma coisa” por motivos políticos.


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politicos e jornalistas

é sempre bom antes de comentar, perceber os factos envolvidos, na medida do possível, e o caso da semana, Público vs Miguel Relvas, ainda não tem toda a informação cá fora;

mas curiosamente há um lado “económico” muito interessante – o papel das assimetrias de informação que geram decisões curiosas – no caso em questão, o facto da decisão da direcção do Público não publicar a noticia ser informação privada faz toda a diferença. Se Miguel Relvas soubesse dessa decisão, teria como decisão óptima nada fazer (obviamente); mas ele não sabia, e teve por isso que avaliar os benefícios de fazer um telefonema de lóbi (é assim que se escreve agora?), e os custos de o fazer, que incluem naturalmente os custos de reputação se viesse a ser feito publicamente relato dessa pressão. Se a pressão fosse suficientemente forte, poderia não só parar a noticia indesejada como evitar a divulgação pública da pressão. O problema é saber quantas pessoas sabem da existência dessa pressão, e quantas mais souberem mais difícil se torna evitar essa divulgação pública.

Este problema de decisão é passível de ser analisado com um modelo de decisão – num primeiro momento, o jornal decide publicar ou não a notícia; o político, sem conhecer a decisão do jornal, tem que decidir se exerce pressão para a não publicação; o jornal, se tiver pressão do político tem que decidir, num segundo momento, se a) cede à pressão, ou não; e b) se revela que houve pressão, ou não revela. Os elementos a ter em conta são para o jornal: o valor da noticia original, o valor de revelar a pressão do politico, se esta existir, o custo de reputação de ceder à pressão, o custo de sofrer a pressão, e o custo de retaliação por não ceder à pressão; para o politico, tem o beneficio de não se publica a noticia, o custo de fazer pressão e o custo de ser exposto por ter feito pressão, caso o jornalista assim o revele.

Ora, neste processo de decisão, como o político não observa a decisão inicial do jornal, é como se as decisões de fazer pressão e de publicar a notícia fossem tomadas ao mesmo tempo. Neste contexto, quais as decisões óptimas de cada lado? se a noticia não tiver valor jornalístico, uma boa compreensão da situação levaria a que não houvesse pressão nem fosse publicada a notícia. Mas o que sucede se o político esperar que o jornal encontre valor jornalístico na noticia, então, mesmo assim, poderá ser melhor não fazer pressão – basta que o valor de revelar a pressão com o valor da perda de reputação caso cedesse à pressão seja elevado (o que é fácil de admitir). A confiança no valor da retaliação envolvida na pressão tem que ser muito grande para que essa possa ser uma decisão racional, mas para que a pressão pudesse ter a expectativa de produzir algum resultado teria que ter implícita uma penalização para a jornalista / para o jornal. Ou seja, as relações imprensa – política têm mais facilmente equilíbrios em que face a pressões, a melhor estratégia do jornal é revelar essas pressões. E a existência de pressão política decorre de um excesso de optimismo (talvez mesmo ilusão) sobre o poder de retaliação. Ou seja, a situação observada na relação entre o jornal público e o ministro miguel relvas pode advir de quer má análise da situação quer má avaliação das consequências. É difícil racionalizar o que sucedeu, admitindo que de facto houve pressões como as anunciadas. O não ser racional esse exercício de pressão coloca a necessidade de uma sua prova clara por parte do jornal / da jornalista.

Feita a “análise económica” / teoria de jogos da decisão, falta só a minha opinião como cidadão, e como cidadão partilho da visão dos que consideram inaceitável qualquer pressão do poder político sobre a imprensa, incluindo a ameaça de divulgação de aspectos de vida privada; a confirmar-se, não restará outra decisão que a saída de Miguel Relvas de ministro, seja por decisão própria ou do primeiro-ministro. E esta visão não decorre de qualquer alinhamento político, decorre apenas do princípio de não abuso do poder que deve estar presente na actuação de qualquer membro do governo. A ser verdade a ameaça, volto a realçar a ressalva, hoje foi uma jornalista amanhã pode ser qualquer outro cidadão.


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“Desemprego pode ser oportunidade para mudar de vida” e George Clooney

esta frase de Pedro Passos Coelho vai ecoar nos corredores, nos écrans e nos comentários políticos dos próximos dias, bem como a sua frase gémea, “Precisamos de compreender melhor o que está a acontecer no mercado de trabalho“. A segunda frase e o que lhe está subjacente é saudável. Claro que todos preferíamos que o Governo soubesse exactamente todos os detalhes de funcionamento do mercado de trabalho; infelizmente, ninguém os sabe, temos conhecimento em grande medida retrospectivo, e alguns princípios e regularidades. Mas é impossível que um Governo consiga conhecer e prever as decisões de milhares de empresas e milhões de trabalhadores. Reconhecer que é necessário actualizar o nosso conhecimento sobre o mercado de trabalho, sua evolução, determinantes dessa evolução, o que se está a mudar, etc…, é o primeiro passo para definir políticas apropriadas, baseadas “no que é” e não naquilo que alguns “acham que é” ou no que outros “querem que seja”.

A primeira frase, por outro lado, é mais susceptível a interpretações menos felizes. Pode ser lida de várias formas. Uma interpretação é: dado que se ficou desempregado, o melhor é usar essa situação para mudar, não baixar os braços, procurar emprego noutras áreas ou mesmo, e melhor ainda, procurar criar o seu próprio emprego.

A segunda interpretação é: dado que se quer que os portugueses mudem, arrisquem mais, sejam mais empreendedores, então vamos atirá-los para o desemprego, que é a única forma de mudarem!

As implicações destas duas interpretações são também muito diferentes. Na primeira, há o papel positivo de “business angels” e de fundos de capital de risco para ajudar ao nascimento de novas empresas e novos empregos. Como o Estado não é investidor desta natureza, deve procurar criar o contexto em que a iniciativa privada se possa desenvolver. Na segunda interpretação, basta criar desemprego, ou pelo menos não combater o desemprego.Dificilmente alguém dirá ser a favor da segunda opção, mesmo que que interiormente o seja. Mas as opções políticas permitirão distinguir se predomina a primeira ou a segunda interpretação.

A propósito destas frases, recordei-me de um filme com George Clooney, Up in the air, para relembrar aqui, e passarmos a ficar à espera do “packet”(?!).