Momentos económicos… e não só

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Observatório mensal da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 69 – Setembro 2020)

Neste acompanhamento das dívidas dos hospitais EPE, os valores do mês de Agosto, disponibilizados há pouco dias, traduzem, muito provavelmente, ainda uma realidade pré-COVID-19 – um pagamento em atraso corresponde a um prazo de 6 meses desde a data da dívida, pelo que só em Outubro, com a publicação dos valores referentes a Setembro, se terá uma “entrada” no período COVID-19. E o último valor antes dessa (nova?) fase mostra que antes estava tudo como dantes. Ou seja, depois de alguma entrada de verbas (que estava planeada, e quase eliminou as dividas em atraso), estas voltaram ao seu “hábito de crescimento”, que nos últimos 4 meses teve um ritmo mensal de cerca de 44 milhões de euros por mês. O que não sendo o valor médio mais elevado alguma vez registado, não deixa de ser dos mais elevados, também numa tradição histórica de cada vez que há regularizações de dívidas mais fortes, o crescimento subsequente dos pagamentos em atraso é também mais forte. Ou seja, as verbas adicionais nunca tiveram a capacidade de resolver de forma permanente o problema, nem parece ter sucedido também desta vez, mesmo no que se pressupunha ser um orçamento mais realista e como tal mais propício a que ocorresse mudanças na gestão dos hospitais EPE.

Apesar de não se alterar a dinâmica, é inegável que desde o início de 2018 tem sido feito um esforço financeiro tal que as regularizações extraordinárias têm sido superiores ao valor cumulativo dos períodos de crescimento – as linhas de tendência (a cores) vão estando sucessivamente mais baixas. O que permite politicamente dizer-se que os pagamentos em atraso, medidos em stock, têm baixado. Contudo, essas transferências extraordinárias não têm tido qualquer efeito na forma de funcionamento dos hospitais EPE e na sua capacidade de gerar novos pagamentos em atraso (sinal dessa mudança seria se as linhas de crescimento tivessem sucessivamente inclinações inferiores, o que manifestamente não sucede, como é visível do gráfico).

Poderá argumentar-se que a COVID-19 não deu tempo a que se dessem essas mudanças. Só uma análise mais detalhada, hospital a hospital, poderá dar informação sobre se haveria mudanças em curso que permitam validar esse argumento (ou se simplesmente, face a “dinheiro fresco”, as diferentes equipas de gestão trataram de fazer “despesa fresca”. Não é um bom ponto de partida para o que será o reflexo (eventual) nos pagamentos em atraso da entrada no período da pandemia.

Seguem-se os gráficos habituais deste observatório, que ilustram o crescimento e que quantificam os valores de crescimento absoluto dos pagamentos em atraso, tendo em conta a diferença entre regularização extraordinárias (efeitos num período sobre o stock de dívida) e a dinâmica de crescimento dos pagamentos em atraso (acréscimo mensal médio).


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gabinete de crise, rádio observador – as duas últimas semanas

Desta vez junto num só post a participação no Gabinete de Crise – Rádio Observador das duas últimas semanas. Podem ouvir aqui (18 de setembro) e aqui (25 de setembro) – as versões podcast são mais ricas que a minha participação, pois têm também a opinião da Sónia Dias e de um convidado em cada sessão.

A semana de 18 de Setembro

Número da semana: 21 – há 21 semanas que não se tinha uma situação tão complicada, em termos de novas infeções por COVID-19. Não é só o valor absoluto que preocupa mas a velocidade com que começou a subir. Apesar de se referir que estão sobretudo a ocorrer em idades mais novas, como a sociedade não é perfeitamente estanque nas suas relações entre diferentes idades, significa que mais tarde ou mais cedo irá chegar às idades mais problemáticas. É muito diferente andar várias semanas à volta dos 200-300 novos casos por dia, ou andar a 200 casos por dia numa semana, 400 na seguinte, 600 na seguinte. A dinâmica é o elemento de preocupação, sobretudo quando olhamos para países como a França, Espanha, Reino Unido, e outros, onde o crescimento começa a parecer descontrolado.

Análise da semana:

A principal característica desta semana é os números a crescerem em todas as frentes. Se há duas semanas ainda se podia dizer que não haveria grande preocupação porque os internamentos e os óbitos estavam estáveis e a valores baixos, agora, com o habitual desfasamento que já se observou nos primeiros meses, começou a subir.

A decisão pública vai ter agora que equilibrar fatores de forma diferente do que foi feito no início da pandemia – equilíbrio entre saúde covid e não-covid, entre saúde e educação (onde novas desigualdades sociais no acesso à educação podem facilmente surgir) , entre saúde e atividade económica (sendo de assumir que houve perdas de rendimento que terão de ser partilhadas, e evitar que se agravem). E nestes vários equilíbrios diferentes gerações são afetadas de forma diferente, e cada geração mais afetada num tipo de dilema do que nos outros.

Abertura das escolas está a decorrer com alguma calma, mas também com alguma confusão, ou pelo menos com necessidade mais comunicação entre pais e escolas. É relativamente claro que é necessário linhas globais mas decisões locais (escola a escola, talvez turma a turma), que não são compatíveis com centralização de todas as decisões na DGS – é impossível a DGS criar uma circular normativa ou orientação que cubra todas as situações que é possível imaginar surgir, e mesmo aquelas que surjam e não tenham sido antecipadas. Sobre a abertura das escolas, pode ser encontrada aqui informação disponibilizada hoje pela Organização Mundial de Saúde.

Reuniões do Infarmed (que desta vez foram no Porto) – desastre na forma de comunicação –  a sessão foi “dolorosa” de assistir (via youtube). Seria melhor limitar cada intervenção a 3 slides – título do estudo, nome dos autores num, principais resultados do estudo noutro, e implicações potenciais para a decisão pública e individual noutro, ou ter apenas uma única pessoa a falar dos vários estudos, conclusões e implicações para discussão. Em links poderiam ficar disponíveis os estudos para quem quisesse ler os detalhes. Foram apresentações mais orientadas para quem falava do que para quem recebia (sobretudo se transmitida em aberto para toda a população que queira ver). 

Remodelação governamental desta semana – provavelmente muda pouco no funcionamento da resposta à pandemia; só que a saída e entrada de pessoas, na DGS e agora no ministério, tem de ser acompanhada de sinais que permitam manter total confiança da população na condução das atividades necessárias. 

Discurso de Ursula von der Leyen, a vir colocar as políticas de saúde no centro das preocupações da União Europeia. Será difícil que venha a ter consequências no curto prazo, dadas as diferenças entre os países europeus nos sistemas de saúde, e que são legitimas face às suas preferências, cultura e tradições. 

Alerta: Evitar a indiferença às regras devido ao cansaço. Não houve alterações do vírus. Não houve alterações meteorológicas relevantes. Só houve um mudar gradual no comportamento de cuidado, com provável redução de atenção nas duas últimas semanas de agosto, que deram agora origem a um crescimento elevado. O cansaço que as regras de higiene, distanciamento físico e máscaras possam ter gerado tem que ser ultrapassado por toda a população. Nota de esperança: noticias vindas do frio da Islândia, num estudo publicado no New England Journal of Medicine na semana passada- 91,1% das pessoas que tiveram covid-19 e foram testadas para o desenvolvimento de resposta ao vírus, apresentaram anticorpos ao fim de 4 meses, aparentemente numa situação de estabilidade. 

A semana de 25 de Setembro

Número da semana: 58, o número de páginas do Plano da Saúde para o Outono-Inverno 2020-21. Documento muito centrado para dentro do Ministério da Saúde (interrogação forte) – seria muito importante ter um documento voltado para o cidadão – o que fazer em condições normais de vida (sem covid e sem suspeita), o que fazer com suspeita (quem contactar como contactar etc), o que fazer com covid-19, e depois garantir que há respostas. 

Análise da semana:

Continuam as subidas nos indicadores habituais, sendo menos pronunciado o crescimento de novos casos esta semana, mas continuando o crescimento do número de internados, de internados em UCI e de óbitos. No caso dos internamentos, ainda longe de se esgotar a capacidade de tratamento no Serviço Nacional de Saúde, mas será de esperar ainda algum crescimento nas situações de internamento dado o desfasamento temporal para o crescimento face ao indicador que é dado pelo número de novos casos.

Contexto internacional – não só de subida de casos como de contestação explicita ou por vezes implícita. Vemos isso em vários países. 

Sobre o tema da semana, a vacina, falemos do que se deveria estar a fazer, para assegurar a boa utilização de vacina  – conhecer melhor barreiras à vacinação, motivos para hesitações, envolvendo as pessoas e não apenas por “ordem” – a hesitação em Portugal medida há uns meses era maior do que a tradicional em Portugal, significa por isso que há trabalho a fazer, a preparar desde já.

Com dados de Abril 2020:

Fonte: Sebastian et al. 2020

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27 de agosto125115240
28 de agosto a 3 de setembro154185340
4 de setembro a 10 de setembro198241439
11 de setembro a 17 de setembro308302610
18 de setembro a 24 de setembro348332680

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841
28 de agosto a 3 de setembro333841
4 de setembro a 10 de setembro337347
11 de setembro a 17 de setembro545959
18 de setembro a 24 de setembro652868

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta: A importância de continuar a acompanhar a situação nos lares mas sem levar a um isolamento extremo dos residentes nessas estruturas. A perda de contato com familiares pode, por si só, levar a uma sensação de abandono que origina situações de morte prematura. E se há lares com surtos, também se deve reconhecer que há muitos outros que têm conseguido evitar esses surtos, e que todos têm feito um esforço enorme para responder aos problemas criados pela COVID-19. O alerta é não deixar que essa resposta leve a que se esqueça outras dimensões também elas relevantes para a vida dos residentes nestas estruturas. Dar liberdade de escolha do modelo a seguir dentro das regras gerais, com a utilização de equipas rápidas de intervenção se houver motivos para isso. O encontrarem-se casos sem sintomas poderá ser porque houve deteção suficientemente cedo? 

Nota de esperança: Esta semana a nota de esperança vem da Finlândia, e na lógica de encontrar formas rápidas de testar para a presença de pessoas com COVID-19. O método que está a ser experimentado é antigo – a utilização de cães, que conseguem identificar o cheiro de uma pessoa infetada com a COVID-19. De acordo com uma notícia do NYTimes, que apareceu também noutros órgãos de comunicação social, demorará 1 minuto para que um cão consiga identificar se um lenço com uma amostra de suor de uma pessoa tem sinais de COVID-19, que em caso afirmativo leva a um teste mais habitual. Encontrar formas diferentes de identificar pessoas com covid-19 contribui para a esperança de se retomar a capacidade de deslocação e de vivência comunitária.


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Gabinete de crise, rádio observador – e a COVID-19 a crescer de novo

Na passada semana voltamos a evolução negativa, que desde então só se reforçou.

Número da semana: 540 – média do número de novos casos nos últimos três dias (terça, quarta e quinta). Sinal de alerta, para que não entremos na mesma dinâmica que observamos noutros países europeus.

A close up of a map

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Análise da semana:

Globalmente estamos a ver um aumento global de casos, sem haver um motivo biológico para que tal aconteça (por exemplo, condições ambientais que facilitem mais a transmissão agora do que nos meses anteriores). A minha presunção é que resulta sobretudo do comportamento das pessoas, seja cansaço, necessidade de socialização, balanço diferente dos riscos, ou necessidade financeira de trabalhar. Ou um pouco de tudo isto em doses diferentes, o que é também verdade na gestão dos surtos nos lares.

A existência de brigadas rápidas para apoiar nos surtos, nos lares e noutros locais, aparenta estar a ser tratada, o que tem de fazer parte da resposta pública.

Segundo declarações oficiais, Portugal está preparado para um “recrudescimento da doença”, e logo nesta mesma semana começa-se a fazer a prova disso mesmo, com um aumento muito significativo de novos casos de infeção.

O isolamento do vírus está a criar o vírus do isolamento, que em muitas situações é também ele muito negativo para a saúde das pessoas idosas. Há aqui que fazer um equilíbrio de riscos, e favorecer quebrar o isolamento mantendo uma forte protecção com a existência de testes fáceis e rápidos bem como proteção adequada, de funcionários e de visitantes.

Na discussão sobre “responsabilidades”, esta tem sido colocada nos proprietários dos lares.

 Mas mais do que responsabilidades interessa que haja uma atuação rápida e eficaz. 

Não nos podemos esquecer que nos lares temos residentes, funcionários, familiares que querem visitar, e profissionais de saúde. A gestão coordenada das atividades de todos implica equilíbrios diferentes. Os residentes têm diferentes autonomias e diferentes necessidades, que pedem respostas diversificadas no seu acompanhamento. Em momento de grande pressão ou de falta de recursos, torna-se mais fácil uniformizar, o que pode levar como resultado a uma certa falta de humanidade nesse acompanhamento. E claro que os receios dos próprios funcionários afeta o seu trabalho (voluntariamente, reduzindo contactos por exemplo, ou involuntariamente). O papel dos profissionais de saúde, do SNS, tem que incluir também o apoio psicológico e funcional, no sentido de sugerir procedimentos ou dar sinais de alerta, dos funcionários dos lares (aspeto que é raramente referido).

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27 de agosto125115240
28 de agosto a 3 de setembro154185340
4 de setembro a 10 de setembro198241439

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841
28 de agosto a 3 de setembro333841
4 de setembro a 10 de setembro337347

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta: A passagem ao estado de contingência em todo o país, com a aplicação das mesmas medidas que estavam a ser aplicadas em Lisboa, poderá não ser suficiente para inverter esta tendência recente. Vai depender mais do comportamento e dos receios pós-férias e regresso ao trabalho e às aulas do que do formalismo das medidas anunciadas. É certo que durante algum tempo o crescimento fora da área de Lisboa foi menor do que na capital, mas nas últimas semanas não tem existido diferença sensível, daí que não haja grande motivo para esperar que a mera passagem a estado de contingência altere a evolução recente, e que possam ter que vir a ser adoptadas algumas medidas adicionais.

Nota de esperança: o número de novos casos com contágio via superfícies tem sido muito mais baixo do que o receado inicialmente.Sem retirar importância à limpeza dessas superfícies, pois não deixam de ser fonte potencial de contágio, é um bom sinal não serem o principal meio de passagem do vírus entre pessoas. Importante num momento em que se dá um regresso à utilização de transportes públicos por mais gente.


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Missão Cancro e a investigação europeia

Uma das novas iniciativas da Comissão Europeia, da lavra de Carlos Moedas como Comissão Europeu, foi a criação de “Missões”, com a definição de objectivos para investigação científica que tenham apelo e capacidade de mobilização da sociedade europeia. Das cinco missões definidas, uma é dedicada ao cancro – o grupo que está a preparar propostas para o que será a missão e para os planos de ação associados disponibilizou um documento com 13 recomendações gerais em Junho de 2020, disponível aqui.

O objectivo proposto para a Missão Cancro é “By 2030, more than 3 million lives saved, living longer and better. ” As recomendações procuram cobrir a necessidade de gerar conhecimento básico, mas também incide sobre prevenção, tratamento e o depois do tratamento (uma vez que cada vez mais se consegue assegurar vários, por vezes muitos, anos de vida após um episódio de tratamento).

Neste contexto, quem quiser dar a sua opinião sobre alguns aspectos que irão ajudar a definir melhor o que será a missão cancro, pode responder aqui a algumas perguntas, que depois serão enviadas como contributo.

Claro que houver preferência por enviar contributos directamente, estes podem ser remetidos por correio electrónico para RTD-SANTE-CANCER-MISSION@ec.europa.eu


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Observatório mensal da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 68 – Junho/Julho/Agosto 2020)

Entre férias e outras obrigações, foi sucessivamente passando o momento de cada nova divulgação da execução orçamental em Julho e Agosto. Mas voltemos agora ao que nos dizem os novos números referentes aos três meses (maio, junho e julho) desde a última edição deste Observatório.

Encontramos um padrão antigo – crescimento – regularização – crescimento – regularização crescimento. Desta vez, os ciclos têm sido mais curtos, dois a três meses, desde o inicio do ano, mas são basicamente idênticos ao padrão do passado – num mês há uma queda acentuada do stock de dívida (regularização provável, decorrente de verbas que tenham sido recebidas pelos hospitais EPE) mas depois volta a crescer a um ritmo relativamente constante. O ano de 2020 ainda assim tem tido um crescimento, descontadas as quebras de stock de dívida por regularização, menor do que foi em 2019. Esta evolução pode estar a ser ajudada por alguma quebra de atividade resultante da COVID-19, que em termos líquidos poderá não estar a ser uma sobrecarga nestas contas dos hospitais (por enquanto? ainda não passou tempo suficiente para que entrem na lista dos pagamentos em atraso, só 6 meses depois, o que remete para os valores de outubro / novembro esses efeitos).


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Gabinete de crise, rádio observador – sobre o início do novo ano escolar

Quando iniciamos esta colaboração entre a Universidade Nova de Lisboa e a Radio Observador não estava à espera que chegássemos ao programa 25, mas foi esta semana. Pode ser ouvido aqui e sobre o inicio do novo ano escolar.

Número da semana: 2 milhões; em números redondos o número de alunos em Portugal, em todos os graus de ensino. Vão começar o ano letivo em condições totalmente novas, com riscos novos e com necessidades de comportamento social novas. São cerca 200 mil docentes e não docentes. Mais de 8 mil estabelecimentos de ensino em todos os níveis de ensino. Os dados são do ano passado da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência. Vão ser duas semanas de arranque de aulas exigentes e de expectativa.

Análise da semana

A abertura do ano escolar tem levado a um debate (e a indecisões), resultado da grande incerteza que ainda permanece quanto à COVID-19 e como possa afetar e ser transmitida pelas crianças.

De acordo com vários estudos, que continuam a sair, o risco de doença nas crianças parece ser muito baixo. As situações fatais associadas à COVID- 19 em crianças envolvem outros problemas de saúde dessas crianças, pelo que é preciso ter em atenção o que possam ser casos de maior risco. Ainda assim, estes estudos indicam que o risco para as crianças de voltar à escola é praticamente inexistente. Resta por isso saber mais sobre o que possa ser o seu papel na transmissão da COVID-19 dentro da população. 

Além do risco de doença COVID-19, é importante conhecer que anseios, preocupações e expectativas as crianças e jovens têm no regresso às atividades escolares. É provavelmente necessário que lhes seja explicado que novas rotinas vão ser adoptadas e porquê. E reconhecer as incertezas que existem. A elaboração de planos de contingência claros e anunciados previamente, de saber o que se vai fazer se algumas situações mais prováveis de ocorrerem é também uma potential fonte de segurança. Com tantos alunos, docentes e não docentes, em milhares de estabelecimentos de ensino, o haver alguns casos de COVID-19 numa escola é mais uma questão de quando do que de saber se vai ou não acontecer.

um estudo recente feito em Rhode Island, nos Estados Unidos, em Junho/Julho de 2020 encontrou muito pouca transmissão secundária a partir de crianças até aos 12 anos, resultado também dos cuidados tidos para evitar essa transmissão. Mas não foram zero casos. Houve vários casos de crianças e/ou funcionários das escolas sem sintomas (só encontrados porque a regra era testar toda a gente).

As recomendações seguidas foram as conhecidas: utilização de máscaras pelos adultos, manter grupos escolares separados, ficar em casa se houver algum tipo_de sintoma e limpar frequentemente superfícies que sejam tocados por muita gente. Fizeram verificação diária de sintomas nas crianças e adultos. Tiveram 52 casos confirmados ou prováveis, 30 eram crianças e 22 adultos.  As suspeitas sobre possíveis casos levaram a parar 89 turmas, e ficaram 687 crianças e166 adultos em quarantina. O número de crianças envolvido nos centros analisados foi de 18945 crianças. Ou seja, há risco de perturbação, que acontecerá nalguns casos mas não é uma situação descontrolada.

Esta semana do Gabinete de Crise não foi boa. Manteve-se, infelizmente, a rampa ascendente em novos casos, e mesmo o número médio diário de internados aumentou ligeiramente. Foi uma evolução partilhada por vários pontos do pais, e à semelhança de semanas anteriores, muito assente em surtos localizados e surtos em lares de idosos. 

A semana foi dominada pelas decisões sobre a Festa do Avante. E aqui, é natural mas se calhar não justificada a perplexidade de muitas pessoas. Estava a ser estranho a não publicação das regras aplicadas pela DGS (devido a medo de “luta política”? mas acabou por suceder). Agora, se um dia se pretende retomar alguma normalidade de espetáculos e eventos, então a Festa do Avante deveria ser vista como um teste, vigilância muito apertada, regras claras e explicadas, e seguimento nos 14 dias depois da festa das pessoas presentes. Dá trabalho? Sim, certamente, mas é uma forma de se aprender.  Podemos acabar por ter apenas a convulsão política sem que daí nada se retire para a forma de lidar com a pandemia. Espero que também se esteja a procurar aprender com as feiras do livro que estão a decorrer. 

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27 de agosto125115240
28 de agosto a 3 de setembro154185340

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841
28 de agosto a 3 de setembro333841

Nota: valores arredondados à unidade

Mito: é possível abrir as escolas sem qualquer risco? Não! Haverá sempre algum risco para alunos e para docentes e funcionários. O essencial é tomar as medidas que controlam esses riscos, incluindo a paciência que será necessária para manter hábitos de limpeza frequente de espaços e de distanciamento físico. Mas ficar tudo em casa também levanta problemas para o futuro. A gestão do risco será o elemento crucial. Vimos que noutros países tem sido possível abrir as escolas sem que haja uma explosão de casos, embora por vezes seja preciso colocar em quarentena algumas turmas e se calhar mesmo escolas.

Esperança da semana: se há duas semanas, falei da esperança em se ter um teste de saliva rápido e fiável, esta semana trago mais um elemento de esperança construído em cima destes testes – um estudo publicado na revista New England Journal of Medicine veio trazer a possibilidade de a realização de auto-teste de saliva, em que esta é recolhida pela própria pessoa, que depois a coloca no aparelho de teste, ser, segundo experiências realizadas, tão fiável como o teste com base na zaragatoa manipulada por um profissional de saúde. Ora, isto significa que não só os testes em breve serão mais baratos, como serão auto-administrados, sem necessidade de locais especiais, e também sem risco para os profissionais de saúde. É mais um passo que se adivinha para novas formas de controle da pandemia.


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Gabinete de crise, rádio observador: covid-19 e local de trabalho

Na semana passada, o tema do programa Gabinete de Crise foi o regresso ao trabalho, depois de acabadas as férias de Agosto.

E aqui fica o habitual texto de base ao programa.

Número da semana: 2, de segunda vez. De voltarmos a ver pela segunda vez algumas decisões públicas: o estado de contingência em todo o país (ainda não é novamente o confinamento de março-abril, é bom que seja claro), os encontros entre políticos e técnicos no Infarmed, o primeiro caso de segunda infeção confirmada (em Hong-Kong). 

Estado de contingência a 15 de Setembro – não é o estado de confinamento, é sobretudo começar a preparar respostas para o caso de haver subida de casos com cadeias de transmissão que não sejam identificadas; vai trazer a necessidade de aprendizagem com o que se passou em maio, quando se saiu do desconfinamento – para o cidadão, mas também para as empresas e para os trabalhadores.

Encontros do Infarmed regressam a 7 de Setembro – sinal de que o processo de transferência de informação com os partidos políticos não funcionou bem, ou sinal de necessidade de novo consenso político para medidas que venham a ser necessárias, veremos se estas reuniões serão utilizadas para “combate político”. 

No caso da reinfecção registada em Hong-Kong, foi numa pessoa sem sintomas, que fez teste por ir viajar, e o notável é só agora, depois de vários milhões de casos em todo o mundo se ter encontrado uma reinfecção.

Análise da semana – Esta semana que passou foi de alguma calma nos números de internados com COVID-19 e óbitos, nada de muito diferente da semana passada, mas com uma subida no número médio de novos casos, quer em Lisboa quer no resto do país – foram mais 125 novos casos diários em Lisboa em média (tinham sido 115 na semana anterior), e foram 115 fora de Lisboa (tinham sido 81 na semana anterior). Mas sobretudo houve maiores oscilações de dia para dia. Não se consegue saber se foi resultado de oscilações nos registos ou se corresponde a oscilações associadas com surtos, nomeadamente em lares, que dão logo um salto de novos casos quando são detetados.

Neste momento, começa-se a ver a preocupação com o regresso de férias e com o início do ano escolar. Seria muito importante que houvesse conhecimento público, e generalizado, do que vai ser a intervenção das autoridades de saúde se e quando surgirem surtos em empresas e/ou em escolas. Se há grande incerteza sobre onde a COVID-19 vai surgir a seguir, deve-se pelo menos reduzir a incerteza sobre o que se irá fazer quando aparecer.

E se tem havido discussão sobre as escolas, fala-se pouco sobre as empresas e como deverão elas lidar com o Outono e o Inverno, onde se receia que venha a haver mais possibilidades do vírus se espalhar.

A acompanhar o regresso de turistas ingleses (embora com a incerteza associada a um aumento do número de novos casos poder levar o governo inglês a rever novamente a decisão), que é um sinal da evolução positiva das últimas semanas, e é um sinal também para outros países. Voltarei ao tema na esperança da semana.

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27de agosto125115240

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta: o teletrabalho reduz os riscos da COVID-19, mas cria riscos de cibersegurança, que têm de ser prevenidos pelas empresas e pelos trabalhadores. Com muitas empresas a adoptarem teletrabalho, com rotação de equipas cada duas semanas, por exemplo, o ajustamento aos riscos de contágio da COVID-19 pode trazer novos riscos, noutras áreas. O teletrabalho exige boas redes de comunicações electrónicas mas também cuidados adicionais por parte dos trabalhadores e das empresas. E estas têm que se preocupar também com esses aspectos. Em particular com esquemas que procuram obter informação indevida, como acesso a contactos de clientes, ou informações internas das empresas, passwords de sistemas, até sistemas de phishing que encriptam discos de computadores para pedidos de resgate. O teletrabalho ditado pela COVID-19 abre oportunidades de ataque informático às empresas, e não sendo um alerta clinico, é um alerta para trabalhadores e empresas no que vai ser o regresso à atividade depois das férias de verão.

Esperança da semana: a entrada de Portugal no “corredor turístico” inglês, ao mesmo tempo que outros países foram retirados por terem tido aumento considerável de casos COVID-19; traz alguma esperança económica ao sector do turismo, muito afectado pela COVID-19, acarreta também uma grande responsabilidade, a de garantir que não há subida de contágio nessas zonas (o que sucedeu no Sul de França e em zonas turísticas de Espanha são um aviso a ter em conta). O problema é que cada estabelecimento quer fazer o melhor possível para si e tem a pressão de não querer perder os turistas dos últimos dias de verão, e não tem em conta os efeitos cumulativos de todos pensarem dessa forma. Rapidamente se criam então hotspots de contágio. A responsabilidade de todos, agentes turísticos e autoridades, é garantir que os turistas podem vir em segurança e que ao mesmo tempo não comprometem a segurança de saúde nos locais onde ficam.


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“clickbait” vs recuperação económica – Comentários ao Plano Costa Silva (15)

Chegando ao final dos comentários ao Plano Costa Silva, a sensação, depois de uma segunda leitura, é que a primeira impressão, que expressei aqui, se mantém. Tem algumas ideias interessantes, mas não suficientemente desenvolvidas. Tem muitos “chavões” que não traduzem linhas de ação concretas. Tem muitas afirmações e potenciais medidas que devem ter sido sugeridas em conversas que foi tendo, mas sem haver depois o respetivo filtro para um Plano globalmente coerente. 

Embora esteja à discussão pública (terminados os contributos oficialmente no dia 21 de agosto), desenvolvo a sensação que é uma espécie de “clickbait” – no sentido em que pretende captar a nossa atenção e a discussão à sua volta, embora provavelmente o verdadeiro Plano, ou as medidas que em conjunto farão um Plano, estejam a ser desenvolvidas pelo governo, com maior descanso e menos pressão pública (e até privada) por haver este Plano Costa Silva para discussão. E se não foi intencional, poderá facilmente estar a ter esse efeito.Mas esperemos para ver os resultados da discussão pública oficial, e das discussões que têm surgido à volta de alguns tópicos (e que provavelmente surgirão também a propósito de outros temas introduzidos no Plano Costa Silva).


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Comentários ao Plano Costa Silva (14)

Tendo terminado há dias (sexta-feira dia 21 de agosto) o prazo oficial para consulta pública do Plano Costa Silva, e enviar os respetivos comentários para o endereço de correio electrónico oficial, decidi acelerar a escrita dos comentários (e também tornar mais breves, para fechar este tema).

O Plano tem uma subsecção intitulada “Alguns princípios orientadores para as políticas públicas no âmbito do Plano de Recuperação da Economia” (sendo alguns, significa que podem ser outros também, o que relembra um célebre humorista do século passado, e que aqui tem provavelmente o sentido de não serem todos os que podem ser relevantes, evitando que se considerem exaustivos).

O ponto de entrada desta secção começa logo com “vamos precisar de um Estado com uma nova natureza, mais interventiva no investimento no Serviço Nacional de Saúde e nas infraestruturas físicas e digitais, mas também para ocorrer à capitalização das empresas (…)”. Sobre o investimento no Serviço Nacional de Saúde, remeto para o meu post anterior. Mas noto que se quer ao mesmo tempo Estado mais e menos interventivo como filosofia, a menos que a capitalização das empresas deva resultar em “capitalismo de estado” ou “estado empresarial”. Como não parece ser esse o caso, na verdade ficamos com mais uma indefinição, ou pelo menos com texto que dá para cada um ler o que quiser ler (papel do estado em articulação com as empresas inspirado por uma visão estratégica é o exatamente o quê?). Faria sentido neste ponto perceber-se qual a posição do Plano quanto a “falhas de mercado” que justifiquem a intervenção pública (estamos no âmbito da recuperação económica, não da justiça socia, nesta secção) e também “falhas do sector público”, para se perceber que articulação será desejável. E esta indefinição passa pelos vários parágrafos conforme vão sendo referidos setores, entidades, atividades. Nunca se chega a perceber se a intenção é estabelecer um quadro geral, em que depois a participação dos diferentes intervenientes é feita de forma voluntária e descentralizada ou se é de acordo com um plano centralizado que diga o que cada um deve fazer quando e com quem. 

A título de curiosidade, o texto tem aqui uma “caixa azul” com referência a Karl Polanyi, sobre mercados autorregulados e procura do bem comum, sendo que sugiro adicionalmente a consulta do livro recente de Jean Tirole, que não por acaso está à frente da comissão estabelecida em França para ter o papel de estabelecer uma estratégia de recuperação económica.

É, diria inevitavelmente, mencionada a importância de ter uma “política para retenção de talentos”. É um objetivo que se entende, mas uma designação que tenho sempre visto como infeliz. Sugiro como alternativa pensar em “política de atração de talentos”. A ideia não deve ser evitar que trabalhadores portugueses qualificados saiam para o exterior, e sim fazer com que Portugal seja um país em que atrativo para trabalhadores qualificados, portugueses ou não, desenvolverem as suas vidas profissional e pessoal. O “espaço” de pensamento para os jovens deve ser global, por toda a riqueza de oportunidades que proporciona, e dentro desse espaço Portugal deve ser uma escolha pela positiva. E se Portugal conseguir atrair jovens qualificados internacionalmente então também será certamente mais fácil que os jovens portugueses optem por permanecer, ou por regressar a curto prazo, para terem a sua vida ativa aqui.

Na discussão do papel do Estado faz falta uma discussão também das limitações da intervenção do Estado, e dos problemas que por vezes o próprio Estado cria (as PPPs rodoviárias, a utilização ruinosa de instrumentos financeiros de risco são dois exemplos do estado criar problemas, ou das pessoas que decidem no Estado criarem problemas, conforme se preferir ver). Mesmo no campo das desigualdades, em termos de filosofia do se entende dever ser o funcionamento do estado, teria sido interessante saber a visão do Plano sobre as desigualdades criadas por “acesso desigual ao poder do estado” como fonte das desigualdades sociais e económicas.

Mas se muito se fala do estado e do seu papel, aparece depois uma subsecção sobre o “papel das empresas”, onde novamente se defende uma maior intervenção do estado para “impedir o colapso das empresas relevantes”. A questão, evidente, é saber quais são as empresas relevantes. Aquelas empresas que os decisores políticos decidem que são relevantes? Ainda nesta linha, a sugestão do “Estado reunir com as empresas dos vários setores” para coordenar e definir com estas empresas as políticas públicas é abrir a porta para jogos de influência e favorecendo quem tem melhor “agenda telefónica” para ser ouvido. Além disso, protege implicitamente as empresas que já estão no mercado em detrimento de novas empresas. Como parte dos aumentos de produtividade resultam de entrada de novas empresas com maior produtividade ou em setores onde é possível maior produtividade, há implicitamente nestas ideias um antagonismo ao objetivo, declarado noutro ponto do Plano, de ter um crescimento da produtividade na economia portuguesa. Acompanhando plenamente a preocupação de não ser “aconselhável um modelo em que o Estado pura e simplesmente despeja dinheiro em cima dos problemas”, adiciono a preocupação de encontrar mecanismos “amigos” do crescimento da produtividade.

Neste quadro, a sobrevivência das empresas terá que ser dependente de conseguirem fazer bem a sua inserção nos mercados internacionais, num processo de inovação permanente, em vez de se conseguirem sentar à mesa dos fundos públicos. O melhor “incentivo” para as empresas identificarem e explorarem “os nichos certos do mercado globalizado” é evitar o conforto do dinheiro público assegurado.

Para a “cooperação entre empresas, Universidades e centros tecnológicos”, a ambição é global, europeia pelo menos. Falta, no contexto do Plano, saber como se compatibiliza com várias das outras ideias, por um lado, e como se concretiza em termos de intervenções determinadas pelo Plano de Recuperação Económica. Uma possibilidade é desenvolver um “mercado de ideias global”, onde os centros de investigação nacionais (mais académicos ou mais de natureza empresarial) possam ganhar conhecimento das necessidades de inovação e apresentar as suas soluções inovadoras.

Em termos das políticas públicas, a afirmação de que “precisamos de um modelo novo e de um renascimento da teoria económica e da teoria política” é pouco útil. O pensamento sobre a intervenção pública pode ser um desafio lançado às universidades e centros de investigação em economia e gestão, mas não creio que se possa estar à espera desse “modelo novo” para tomar decisões, até porque o corpo de conhecimento atual pode ser mais usado do que tem sido habitual (e há uma diferença entre gestão macroeconómica – onde se entende a referência ao keynesianismo – e as medidas de cariz microeconómico, onde o entendimento das reações das entidades e agentes afetados tem que ser bastante mais detalhado para uma adequada definição das políticas).

Na subsecção dedicada às “modalidades para a atração do investimento externo e a criação de consórcios internacionais” surge uma das ideias aparentemente mais favorecidas pelo Plano, a exploração de recursos minerais. Contudo, não é claro que parte da cadeia de valor fica em Portugal – refere-se sobretudo a extração, não sendo claro se outras partes, até de maior valor acrescentado, da cadeia de valor ficam também em Portugal. A extração e transformação de minerais raros, incluindo extração do solo do mar, poderá ter potencial de ser fonte de crescimento económico, e de criar desafios para as entidades que fazem investigação científica em Portugal. Esses desafios não se devem esgotar na criação da “grande Universidade do Atlântico”, até porque a criação de raiz de uma instituição científica de topo a nível global exige recursos, incluindo o tempo para a sua construção (e exemplo na demora da criação da agência de investigação biomédica deve servir como aprendizagem mínima).

A parte “3 Plano para a recuperação económica em Portugal” é então suposta trazer as medidas mais concretas decorrentes dos principais e dos diagnósticos das partes anteriores.  Na parte de “Finalidade, visão, missão e objetivos” faltou, a meu ver, uma vocação de “cidadania europeia” e o papel de Portugal nesta construção europeia (no que é também um instrumento para atingir vários objetivos que foram sendo enunciados na parte 2). É também de assinalar um problema de perceção comum: embora pensar num país como se fosse uma empresa é simples e atrativo mas presta-se a equívocos – uma boa explicação sobre este aspeto está neste texto de Paul Krugman (do século passado mas o fundamental não mudou)..

Os objetivos apresentados devem ser revistos, uma vez que existem redundâncias, e devem ser organizados por áreas de intervenção – infraestruturas, funcionamento do estado (incluindo aqui o Serviço Nacional de Saúde), política industrial (e dentro desta, internacionalização, renovação empresarial, capacidade de gestão), políticas de soberania (política externa e softpower, coesão do território, etc.). Mais importante que a matriz entre objetivo e eixos será a matriz entre instrumentos concretos (medidas, intervenções, programas, etc) e os objetivos. 

Os programas de investimento associados aos eixos estratégicos trazem algum detalhe, por vezes aparentemente desligado do restante texto, e com ausência de referência a prioridades (talvez propositadamente, mas nesse caso pelo menos informação sobre volume de investimento necessário, retorno, efeito estimado na recuperação económica, tempo de produção desses efeitos). 

Áreas que merecem maior desenvolvimento, até pela sua natureza transversal às atividades económicas desenvolvidas, são a) requalificação, mobilidade intersectorial e funcionamento do mercado de trabalho; b) cibersegurança como aspecto central das atividades digitais; c) mecanismos que identifiquem e integrem as necessidades de inovação – mercado de ideias global, como referido anteriormente; d) o repensar das fontes de financiamento da segurança social (que é um tema com mais de uma década)

No campo do estado social, antes de qualquer medida concreta, era bom ter um relatório sobre quais os programas atuais que devem ser desenvolvidos e quais os que devem ser terminados. Duas áreas foram destacadas, habitação social e rede de cuidados para a população mais idosa. 

Para o estado social e população idosa, um elemento importante é conhecer que respostas podem ser de base tecnológica e que respostas vão ser “trabalho intensivas”, por inevitavelmente necessitarem de contacto humano. O apoio a postos de trabalho menos qualificados deverá ser de preferência para necessidades que sejam permanentes e devem incluir mecanismos que promovam inovação que seja escalável e até mesmo exportável (por exemplo, será que a partir de Portugal se conseguem desenvolver serviços de consultoria de apoio à população idosa, certificações de processos de cuidados, por exemplo, além de dispositivos ou produtos). 

Dentro das “infraestruturas”, em sentido muito lato, podemos incluir a componente de regulação económica.  É sugerido um “balanço da ação das agências reguladoras”, e talvez faça sentido recomeçar por revisitar o que foi feito no tempo da troika. E é referida uma vez mais a lentidão da justiça económica e fiscal, a que acrescento a importância de ter mecanismos legais de reafectação de ativos produtivos como elemento essencial das tentativas de inovação, bem como facilitar a vida dos “talentos nacionais”. Ou seja, perceber e criar o quadro legal, incluindo a rapidez de resolução de litígios, que contribui para que seja atrativo criar empresas e procurar fazer inovação em Portugal (por exemplo).

Numa observação comum a várias das medidas e ideias de investimento, seria útil saber porque é necessária intervenção pública (ou seja, porque é que as empresas não investem de forma natural nessas atividades?), quais as vantagens permanentes de Portugal face aos outros países (é de admitir que vários outros planos de recuperação nacional dentro da União Europeia também tenham ideias similares)?

Por exemplo, no caso do hidrogénio verde que tem tido grande discussão na praça pública (e ainda bem), não é claro se a intervenção pública é necessária para passar mais rápida a curva de aprendizagem, ou se é para vencer qualquer outra barreira que não é possível de ultrapassar de outro modo.Por fim, há uma discussão de instrumentos financeiros, nomeadamente bancos com propósitos específicos. A preocupação com o bom desenho dos programas que vão aplicar os fundos disponibilizados está presente no Plano Costa Silva. E é uma parte que merece desenvolvimento, nomeadamente relembrando as lições dos programas públicos com objetivos similares nos últimos 40 anos (e há algumas avaliações que têm sido feitas que constituem uma boa base de partida para esse pensamento). E aqui porque não colocar um alemão, um irlandês ou um holandês nas novas instituições financeiras ou nos organismos que vão gerir a aplicação dos fundos? Teria a dupla vantagem de trazer experiência relevante de outros países e de ter alguém longe das intrigas e “redes de conhecimentos” nacionais.


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Gabinete de Crise, Rádio Observador, a vacina que veio (?) do frio

A habitual discussão do Gabinete de Crise na Rádio Observador foi centrada, esta semana, na vacina anunciada pela Rússia e sobre se será sobretudo um instrumento de propaganda, ou não.

Número da semana: 300 milhões – o número de doses pré-compradas pela União Europeia, à AstraZeneca, com opção de mais 100 milhões (a União Europeia a 27 tem 447 milhões de habitantes). Estão também em negociação com outras companhias que estão a procurar encontrar uma vacina. É uma iniciativa europeia que dá a cada país uma segurança sobre aceder à vacina e sobre o preço a que o irá fazer. Além da segurança que possa transmitir, é um exemplo de como a coordenação a nível europeu pode ser útil para cada país. Além disso, é intenção fazer chegar parte das vacinas a países em desenvolvimento. Para Portugal, virão, desta aquisição 6,9 milhões e 20 milhões de euros (resolução de ontem do Conselho de Ministros, e sendo parte ou a totalidade recuperada pelo REACT-EU (Recovery Assistance for Cohesion and the Territories of Europe)). A União Europeia tem feito vários acordos destes, ajudando na tomada de riscos por parte das empresas que estão a desenvolver as vacinas. Claro que a aquisição só tem lugar se a vacina for eficaz e segura, o que só se saberá no final do ano.

Esta atuação da União Europeia é também importante num contexto em que a procura de vacina se tornou uma corrida de prestígio “geo-politico” entre Europa, Estados Unidos, China e Rússia. Esta última procurou colocar-se à frente, anunciando uma vacina ainda antes dos testes mais amplos na população. É uma jogada de risco – se a vacina for boa, a Rússia ficará com os louros de ter sido a primeira, se não for boa, terão que “disfarçar” de algum modo. Além do dinheiro que possa estar envolvido nas vendas de uma nova vacina, o prestígio científico dos países parece estar também a ser jogado.

Havendo várias vacinas concorrentes a serem testadas, usando caminhos alternativos para procurar criar imunidade, é natural que daqui a algum tempo haja várias vacinas, que poderão ter diferentes níveis de eficácia, e que poderão ter diferentes preços. Veremos depois como os elementos de eficácia, custo e geopolítica das vacinas irão interagir.

Análise da semana – esta semana, em média, foi melhor que a semana passada, sobretudo à conta de uma evolução positiva em Lisboa. Nos óbitos e internados em UCI tem existido nas últimas semanas alguma estabilidade, só o número de internados continua numa rampa descendente. 

Esta evolução, de uma pequena rampa descendente, é mais favorável do que temos assistido noutros países europeus, nomeadamente os do Sul da Europa, para quem o turismo é também uma atividade económica importante. Portugal tem estado a contra-ciclo de vários outros países europeus – enquanto houve uma quebra acentuada em vários deles, Portugal tinha uma “rampinha ascendente”, mas depois passamos a “rampinha a descer” enquanto esses outros países entraram num “elevador a subir”.

Há uma informação essencial que não temos publicamente – quantos dos casos surgidos dizem respeito a cadeias de transmissão conhecidas? É que surtos com 70 ou 80 casos num lar fazem subir os novos casos, mas permitem parar mais facilmente a transmissão do que esse mesmo número de casos que tivesse resultado de contágio em transportes públicos ou em restaurantes, por exemplo. E é neste contexto que vemos Portugal a passar a integrar o “corredor aéreo” inglês para turismo, e a saída de países como a França (que criou uma corrida ao regresso).

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Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 21 de agosto11581196

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 21 de agosto333238

Nota: valores arredondados à unidade

Mito: as verificações de temperatura, feitas nalguns locais como aeroportos ou restaurantes, não são um teste à COVID-19. Detetam apenas se a pessoa tem febre, temperatura elevada, o que pode ser devido a várias causas. E há pessoas que têm COVID-19 sem terem febre. Por isso, são quando muito um sinal imperfeito sobre a COVID-19, permitindo apenas encontrar os casos suficientemente graves para terem febre. A sua facilidade e baixo custo de aplicação justificam que se use em locais de circulação em massa, mas sabendo-se que vão existir erros (pessoas não detetadas, e algumas com febre não terão COVID-19). Mais cedo ou mais tarde, estas verificações de temperatura serão provavelmente substituídas por testes com mais precisão.

Esperança da semana: a aprovação pelas autoridades americanas (FDA) de um teste para a presença da COVID-19, baseado na saliva, que custa cerca de 10 USD, segundo as estimativas que têm sido dadas, e que não exige nenhum produto ou processo difícil de obter. Este teste foi desenvolvido pela Yale School of Public Health, e promete dar um resultado em pouco tempo (menos de três horas, segundo as notícias que saíram). Embora já existam outros testes baseados em saliva, este tem a vantagem de usar materiais que existem com abundância (e logo de muito mais baixo custo). Um teste rápido e barato permite testar muito mais e com isso fazer uma identificação mais rápida de quem está doente, para ser separado e tratado. Mesmo sem termos uma vacina, um teste destes pode fazer muito para se retomar uma maior normalidade na vida diária. Se conseguirem baixar o tempo de realização do teste para 15 ou 20 minutos, pode-se passar a fazer testes antes de sair para a escola ou para o trabalho, antes de ir a um filme ou teatro ou fazer uma viagem. Permite testar as pessoas antes de um concerto ou de uma reunião de trabalho. Será um passo importante para um novo normal mais próximo do antigo normal do que a vida que experimentamos nos últimos meses.