Momentos económicos… e não só

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Hospitais e efeitos de fim de semana

O recente caso ocorrido no Hospital de S. José, com a morte por falta de pronto atendimento à situação crítica de um doente, criou comoção geral, e muitas reacções. É evidente que o Serviço Nacional de Saúde falhou, e aparentemente poderá não ter sido apenas desta vez. Daqui à acusação geral de ser por causa dos cortes na saúde foi um rápido passo.

Uma das reacções mais sensatas, a meu ver, foi do novo Ministro da Saúde, falando em problemas de organização, e não apenas na herança de cortes no passado. No ano passado houve também por esta altura do ano problemas nas urgências. E igualmente nesses casos, problemas de organização estiveram presentes.

Simplesmente “gritar” que a culpa é da austeridade é contribuir para que a raiz destes problemas não seja tocada. É fácil dizer que se coloca mais dinheiro no sistema de equipas em prevenção na neurocirurgia, ou noutra especialidade, mas isso não impede que daqui a um ano (ou dois, ou seis meses) surja outro problema, devido novamente a falhas de organização, noutro ponto do Serviço Nacional de Saúde.

Daí que a preocupação do Ministro da Saúde em promover diferentes formas de organização dos cuidados de emergência na zona da cidade de Lisboa seja uma resposta mais inteligente que simplesmente anunciar mais uns milhões para resolver esta situação num hospital.

Mas podemos e devemos ir um pouco mais longe. Há vários aspectos de funcionamento dos sistemas de saúde, e de Serviços Nacionais de Saúde, que requerem atenção. Não é sequer uma especificidade nacional. O caso concreto que esteve na base da actual discussão é um exemplo dramático do que tem sido chamado “efeito de fim de semana”. Tomando a situação em Inglaterra, o “weekend effect” está presente na imprensa e na discussão política sobre o SNS inglês. Mas não é problema apenas dos países com Serviço Nacional de Saúde. Uma rápida busca revelou um recente trabalho sobre os Estados Unidos, normalmente criticados pela falta de cobertura mas não pela falta de qualidade dos cuidados prestados ou pela falta de meios tecnológicos, onde se concluiu “The weekend effect is seen across many medical and surgical conditions. We have illustrated this effect for ruptured aortic aneurysms in a nationally representative population in the United States.” (ver aqui o trabalho original) E há mesmo evidência para outros países da presença deste efeito (ver aqui). Nem sequer é um efeito recente (um artigo de 2001 no New England Journal of Medicine já referenciava confirmações deste efeito). Mesmo para Portugal, um trabalho de 2014 realizado na Escola Nacional de Saúde Pública indicava a presença deste efeito de maior mortalidade ao fim de semana (ver aqui). (e uma revisão de literatura mais profunda certamente irá encontrar mais documentação do efeito de fim de semana)

Obviamente, saber que os outros países e sistemas de saúde diversos apresentam o mesmo tipo de resultados em termos de mortalidade que não deveria ter ocorrido em condições de adequado funcionamento dos sistema de saúde não resolve o problema. Mas obriga a procurar outras causas e outras soluções.

E se a resposta estará em olhar para a organização do Serviço Nacional de Saúde e como funciona versus como deveria funcionar, então aproveite-se para colocar na agenda outros aspectos similares, como a variação de prática clínica – não só existe um efeito de fim de semana adverso como existe um efeito de local onde se é atendido. E resolver estes problemas, olhando para a qualidade dos cuidados de saúde prestados, não é uma questão de deitar mais dinheiro no Serviço Nacional de Saúde.

 

 


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2015 in review

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Sustentabilidade dos sistemas de saúde (10)

Alternando o tipo de posts, agora mais um sobre a sustentabilidade dos sistemas de saúde, com o finalizar do capítulo 2 e início do capitulo 3 do documento da OCDE.

J White aborda no final do seu capítulo a decisão sobre cobertura que deve ser dada pelo sector público, para se estabelecer de forma clara o que são “necessidades” a serem garantidas por sistemas públicos de solidariedade. Aqui toma a posição de não se poder estabelecer uma resposta única, uma vez que dependerá dos valores de cada sociedade. O que reclama é a importância de expansões de cobertura dos serviços abrangidos não poderem continuar sem escrutínio. Não aborda sequer a questão da cobertura em termos de quem deve estar protegido pelos sistemas públicos. Neste campo das coberturas, de serviços e de pessoas, não há realmente nada de novo proposto, sendo também que é consensualmente aceite em Portugal a cobertura universal (todos os residentes são abrangidos pelo Serviço Nacional de Saúde) e é crescentemente aceite a utilização de mecanismos de avaliação do que é incluído.

O capítulo 3 do documento da OCDE é dedicado a revisitar as práticas de estabelecimento de orçamentos para a saúde nos países da OCDE, e tem a autoria de C Vammalle, A Kumar, C Hulbert e G van der Vlugt.

Na sua discussão consideram quatro tipos de instrumentos orçamentais: politicas do lado da oferta (mecanismos de pagamento a prestadores, por exemplo, ou compras centralizadas), políticas do lado da procura (gatekeeping – passar por um médico de família primeiro, por exemplo), gestão pública e coordenação de políticas (como fixação directa de preços de medicamentos) e políticas de financiamento (alteração das fontes de receita). Não há aqui arrojo de propor novas abordagens ou instrumentos.

Para a discussão que realizam os autores realizaram um inquérito a técnicos que participam nos processos orçamentais de 27 países da OCDE.

As principais conclusões que destacam são:

  1. as entidades encarregues do processo orçamental não indicam pouca colaboração com os ministérios da saúde [comentário: este é naturalmente o lado deles, resta saber se o mesmo sentimento existe do outro lado da relação, se os ministérios da saúde consideram boa a sua relação com os ministérios das finanças]
  2. quem está encarregue do processo orçamental vê o seu papel como de estabelecer objectivos orçamentais globais, e não a determinação da despesa exacta em cada tipo de cuidados de saúde, deixando essa decisão aos ministérios da saúde [comentário: é uma prática fácil, mas que no caso de Portugal no passado levou a orçamentos para o Serviço Nacional de Saúde que se sabia serem insuficientes, resultando depois em orçamentos rectificativos sucessivos – este mecanismo foi muito claro no início do milénio; desaparece quando há novos governos que dão reforço significativo ao ministério da saúde, normalmente no primeiro (e por vezes segundo) ano de vigência, e volta depois a aparecer. Nos tempos da troika, quase ia surgindo quando se previa um défice para o SNS que teria depois de ser coberto – houve então uma revisão sugerida pela troika para que despesas e receitas batessem certo nas previsões do orçamento). É nesta fixação de um limite orçamental pelos ministérios das finanças, sem pensarem nas despesas razoáveis que terão de ocorrer para satisfazer os compromissos de cobertura assumidos pelos Governos e desejados pela sociedade, que está o início dos processos de suborçamentação, que depois descabam em desorçamentação (fazer a despesa mas não a incluir, pelo menos nesse momento, no orçamento do estado). Terá que ser encontrado um modelo diferente para a relação entre os ministérios da saúde (procura de fundos) e os ministérios das finanças (oferta de fundos na espaço orçamental público), aspecto que parece longe das preocupações dos inquiridos.]
  3. apesar dos ministérios da saúde darem cada vez mais atenção aos aspectos de impacto económico (despesa e impacto noutros mercados, como o mercado laboral sobretudo quando as contribuições estão ligadas aos salários) as entidades encarregues dos processos orçamentais não incorporam essa informação e análise [comentário: ou seja, reforçam-se os dois comentários anteriores de apesar de formalmente as entidades do processo orçamental considerarem que se dão bem com os ministérios da saúde, essa relação é na verdade muito incompleta para ser verdadeiramente adequada às exigências colocadas ao processo orçamental pelas despesas públicas em cuidados de saúde]
  4. relevância limitada das previsões de despesa em cuidados de saúde a longo prazo para o processo orçamental, devido à incerteza que está normalmente associada com essas estimativas, por um lado, e devido ao horizonte de curto prazo (o ano imediato, ou quando muito mais um ou dois anos se o processo orçamental os incluir) que as entidades encarregues do processo orçamental possuem [comentário: a incerteza quanto às estimativas futuras de despesa em cuidados de saúde será sempre um problema a ter em conta, e haverá que lidar com ele da melhor forma possível, mas isso não deve impedir que se procure ter uma visão de mais longo prazo, sobretudo quando a evolução das despesas públicas em saúde poderá requerer um aumento imediato da despesa pública para suportar alterações que depois resultem em menor despesa futura ou menor crescimento da despesa futura. Encontrar os mecanismos que permitem fazer os “investimentos em reforma” em vez de fazer “consumos em reforma” tem que envolver quer os ministérios da saúde quer os ministérios das finanças.]


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Reforma do SNS e coordenadores nacionais

São hoje anunciados os coordenadores nacionais para a reforma do SNS:

“No dia 16 de dezembro de 2015, quarta-feira, o Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, apresenta em conferência de imprensa os Coordenadores Nacionais para a reforma do Serviço Nacional de Saúde (SNS).


Programa

11h00
Apresentação dos Coordenadores Nacionais para a reforma do Serviço Nacional de Saúde: Prof. António Ferreira, Prof. Manuel Lopes e Dr. Henrique Botelho.

Intervenções previstas:

  • Secretário de Estado Adjunto e da Saúde
  • Prof. António Ferreira
  • Prof. Manuel Lopes
  • Dr. Henrique Botelho

Local: Ministério da Saúde, Av. João Crisóstomo, n.º 9, 3.º piso, Lisboa

Lisboa, 15 de dezembro de 2015″.

Cada ciclo político na saúde tem-se caracterizado de forma regular pela produção de documentos de reflexão sobre a reforma do SNS – em 1995 com Paulo Mendo, em 1999 com Maria de Belém Roseira, em 2006 com António Correia de Campos, em 2011 com Paulo Macedo. Todos estes ministros solicitaram reflexões sobre o Serviço Nacional de Saúde ou sobre  o Sistema de Saúde. O documento de maior fôlego mais recente é de 2014 e resultou de um esforço da Fundação Calouste Gulbenkian, que tentou também um entendimento político (fracassado).

A propósito desta iniciativa, o Público tem já um texto, disponível aqui, sobre a divisão de trabalho entre os três coordenadores.

A referência no artigo do Público às ideias de António Ferreira expressas no livro que escreveu há tempos leva-me a recuperar os comentários que então fiz, há praticamente um ano, depois da leitura do livro: ver aqui-parte I, aqui-parte II, e aqui-parte III.

Manuel Lopes no último ano foi o responsável pelo Relatório de Primavera 2015 do Observatório Português de Sistemas de Saúde, também comentado aqui no blog nos seguintes posts, em Junho de 2015:  parte (1), parte (2), parte (3), parte (4), parte (5), parte (6), parte (7), e parte (8).

Se houver produção de documentos que venham a estar publicamente disponíveis, faremos a leitura comentada.

 


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sobre o ensino profissional e o seu papel

sessão do Instituto de Políticas Públicas Thomas Jefferson- Correia da Serra.

Depois da atenção dada pelo novo parlamento a revogar decisões no campo da educação de anteriores governos, a proposta de uma discussão sobre o ensino profissional para que as decisões futuras sejam baseadas na melhor informação disponível. Copiando do anúncio:

“O papel do ensino profissional regressou ao centro do debate sobre políticas de educação. Será que este melhora ou condiciona as perspetivas de futuro dos jovens? Que impactos na economia e no emprego? Uma análise económica do impacto do ensino profissional pode ser encontrada no IPP Policy Paper 4: “O rendimento do ensino vocacional”.

Neste evento, Alexandre Homem-Cristo, Paulo Guinote, Pedro Martins, e Sofia Oliveira debatem o tema do ensino profissional e, a partir daí, as relações entre educação, economia e emprego, bem como o papel das políticas públicas de educação. A moderação estará a cargo de Pedro Pita Barros.

Alexandre Homem-Cristo é conselheiro nacional de educação, doutorando no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e autor do estudo Escolas para o século XXI.
Paulo Guinote é professor do ensino básico, doutorado em História da Educação, e autor do ensaio Educação e Liberdade de Escolha.
Pedro Martins é investigador na Queen Mary University of London, e ex-secretário de Estado do Emprego.
Sofia Oliveira é economista e autora do IPP Policy Paper 4: Returns to vocational education.”

Declaração de interesses: serei o moderador desta sessão.


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Banif Boom! vs. Banif Ooops

Depois de várias noticias sobre o fim do Banif, o pedido de desculpas da TVI (ver aqui ou aqui). E como se pode lançar uma quase corrida aos bancos por um menor cuidado na edição dos rodapés pode resultar em danos reais… normalmente as gralhas abundam nestes rodapés em todos os canais, mas neste caso é mesmo um menor cuidado editorial nas palavras usadas.

É certo que o Banif tem problemas a resolver, mas não tão dramáticos como a noticia inicial fazia correr.

Esta situação mostra também como nos habituamos a ler as noticias de rodapé (estilo noticias twitter na TV), sem esperar pelo desenvolvimento da noticia ou mais informação.

Passou-se do Boom!  “lá foi mais um banco” ao Oops “enganei-me, desculpem lá qualquer coisinha!”.


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Sustentabilidade financeira nos sistemas de saúde (9)

A secção seguinte do capítulo de J White no documento da OCDE sobre sustentabilidade de sistemas de saúde foca na escolha entre financiamento por receitas gerais de impostos ou por receitas consignadas à saúde.

A utilização de receitas consignadas em finanças públicas não é isenta de discussão e de problemas. Desde logo porque não garante eficiência do sistema tributário (isto é, recolher um determinado volume de fundos necessários com a menor distorção causada na economia). E sobretudo porque aumentos das receitas consignadas resultam usualmente em aumentos da despesa, que depois se torna difícil de reverter quando essas receitas consignadas se reduzem.

Por outro lado, no campo da saúde, usar receitas consignadas pode tornar mais fácil, junto da opinião pública (leia-se eleitores), aumentar impostos. Receitas consignadas tornam mais claras as consequências das decisões orçamentais, o que numa fase de pressão para o seu crescimento resultará em contribuições acrescidas (o exemplo da evolução para a auto-suficiência da ADSE ilustra este potencial mecanismo das receitas consignadas, ainda que no caso da ADSE se tenha tornado o volume de receitas superior às despesas).

Em qualquer caso, é improvável que receitas consignadas consigam ultrapassar o problema conhecido como “soft budget constraints”, isto é, gasta-se que depois de alguma forma as verbas irão aparecer porque se está a falar de saúde.

É no final desta discussão que J White apresenta a sua proposta de combinar um sistema de orçamentos por entidade financiados por receitas consignadas à saúde.

Para Portugal, a Comissão para a Sustentabilidade Financeira do SNS em 2006 sugeria que receitas consignadas, ou um imposto específico, deveria ser uma solução apenas de último recurso. De outro modo, a despesa tenderá a acompanhar a evolução das receitas quando estas crescerem, e tenderá a exigir aumento de contribuições/taxas de imposto específico quando as despesas crescerem mais rapidamente. Por outro lado, com uma parte financiada por receitas consignadas ou impostos específicos para a saúde, haverá naturalmente uma tentação de reduzir o financiamento por via das receitas gerais, como forma de globalmente aumentar as receitas de tributação. Ou seja, o ajustamento do agente “Estado” é tão ou mais importante que a sensibilidade da opinião pública a aumentos de impostos com receitas consignadas.


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o livro de Mário Centeno que chegou à Assembleia da República

Numa recente intervenção no Parlamento, um deputado do PSD, Miguel Morgado, questionou o ministro  das finanças, Mário Centeno, sobre o que este escreveu num ensaio sobre o mercado de trabalho (ensaio disponível aqui).

Na altura da publicação do ensaio (em 2013), fiz uma leitura comentada dos principais pontos de interesse que encontrei, e cujos links abaixo permitem recuperar essa leitura. Por sintetizar, reproduzo o último comentário (ligeiramente editado).

“Soluções para melhorar o funcionamento do mercado de trabalho, por Mário Centeno

A reforma do mercado laboral tem que possuir três características:

–       reduzir os custos de despedimento

–       uniformizar as diferentes formas contratuais

–       tornar universal o seguro de desemprego

Os pontos centrais são:

–       internalização pelas empresas dos custos de despedimento – quem despedir mais deverá pagar uma taxa de contribuição superior para a segurança social

–       reformar o subsídio de desemprego criando contas individuais – assim, uma maior duração do período de desemprego terá maior custo para o trabalhador, a disponibilidade para aceitar um novo emprego será maior. Deverá haver sensibilidade do mecanismo aos condicionalismos do ciclo económico. Um dos pontos chave será a credibilidade de um sistema deste tipo – será que as regras conseguiriam ser cumpridas?

–       Associar o financiamento de programas públicos com a relação económica que lhe dá origem – está aqui a pensar em licenças de maternidade e doença, pensões, etc…, que deveriam ser financiados sem aumentar  os custos de trabalho para as empresas.

–       Negociação directa de salários da empresa com os seus trabalhadores, com a criação de um novo instrumento de negociação colectiva, sem intermediação do sindicato sectorial (creio que o termo chave aqui para Mário Centeno é o “sectorial” e não o “sindicato”)

–       Contrato único – com pagamento de compensação por perda involuntária do emprego, crescente com a antiguidade na empresa e com um limite máximo, bem como um aumento do período de pré-avso de despedimento.

Apesar de interessantes estas propostas deveriam detalhar mais a forma como afectam os incentivos das partes a investir na relação laboral, como estimulam a manutenção de  “pares” empresa-trabalhador muito produtivos e como levam à separação de “pares” pouco produtivos.

O elemento central das propostas era procurar mecanismos e definições de regras do mercado de trabalho que procurem encontrar os pares empresa-trabalhador mais produtivos, que me parece ser um bom critério para avaliar o interesse destas e de outras propostas para o mercado de trabalho.”

A leitura comentada completa:

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/03/21/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-1/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/03/22/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-2/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/03/26/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-3/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/04/03/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-4/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/04/15/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-5/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/04/16/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-6/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/04/19/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-7/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/04/22/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-8/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/04/23/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-9/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/04/24/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-10/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/04/26/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-11/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/04/30/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-12/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/04/30/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-13/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/05/02/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-14/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/05/07/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-15/

https://momentoseconomicos.wordpress.com/2013/05/08/o-trabalho-uma-visao-de-mercado-16/


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taxas moderadoras, uma vez mais

De cada vez que há novo titular da pasta da saúde (nem é necessário haver mudança de Governo), a questão das taxas moderadoras regressa à actualidade pública. Neste momento por conta do que estava escrito no programa de Governo do PS, que aponta para a manutenção das taxas moderadoras embora com valor mais baixo do que o actualmente existente. O efeito na receita total das instituições não será muito importante, pelo que é relevante sobretudo conhecer como será a alteração de comportamento dos utentes face a novos valores. Dado que um número considerável de pessoas estava já isenta de taxas moderadoras, não se espera que essas pessoas alterem o seu comportamento (aqui uma lista do tipo de isenções). Como parte substancial dessas isenções é devida a insuficiência económica, a redução do valor das taxas moderadoras afectará sobretudo rendimentos que são superiores ao limiar de isenção €628,83 para o rendimento médio mensal (ver aqui as regras e como usufruir da isenção).

A última actualização dos dados sobre isenções é de Agosto de 2014 (sim, bem mais de um ano! e entretanto houve o alargamento da isenção para as idades entre os 13 e menos de 18 anos), por isso se alguma coisa sucedeu de lá para cá foi o aumento de casos isentos.

Face aos resultados conhecidos sobre taxas moderadoras como barreira de acesso e alterações de comportamentos face a variações anteriores dos valores das taxas moderadoras, não é esperar grande efeito no sistema de saúde.

Mais interessante é a referência pública que foi feita ao papel do serviço Saúde24, que tem estado claramente menos presente nas respostas procuradas pela população do que seria desejável, embora quem a ele recorra apresente um elevado nível de satisfação com a resolução dos seus problemas (ver aqui uma análise de dados recentes sobre satisfação). Mas quando inquiridos sobre que serviço procuram usar em primeiro lugar, cerca de 1200 pessoas inquiridas em 2013 e outras tantas depois em 2015, menos de 1% referem a utilização deste serviço. Ou seja, haverá provavelmente aqui uma subdivulgação do papel deste serviço, que poderá ser uma “porta de acesso” ao Serviço Nacional de Saúde que está a ser menos usada do que devia. Pensando no tema de como contactar o Serviço Nacional de Saúde quando sentem necessidade, há aparentemente aqui espaço para uma intervenção pública de divulgação e relembrar as pessoas da utilidade que possa ter este contacto.

 

 


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Sustentabilidade financeira nos sistemas de saúde (8)

Continuando com a análise do documento da OCDE sobre sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde, capitulo 2 de J White, sobre os desafios de orçamentação de programas de cuidados de saúde.

É referido que se a qualidade dos sistemas de saúde melhorou substancialmente, tal não ajuda em termos de orçamento, pois o problema passa a ser redefinido como resistir ou pagar por essa “qualidade”, em lugar de combater a ineficiência. Ora aqui há que saber se “qualidade” significa apenas tecnologia, que tem levado a maior despesa, ou se “qualidade” pode significar “fazer bem à primeira”, no que seria uma redução do desperdício e ineficiência, reduzindo a despesa (que é o sentido de “qualidade” que é explorado no Relatório Gulbenkian de 2014 sobre o sistema de saúde português).

De uma forma mais geral, este capitulo defende a necessidade de prestar mais atenção do que é definido como “necessidade” de cuidados de saúde, sendo cada vez mais medicalizados pequenos desvios: falta de atenção das crianças na escola é hiperactividade e medicada; tristeza é depressão e medicada; etc.

A questão central, embora não colocada dessa forma, acaba por ser definir-se como “necessidade de saúde” e logo sujeito a protecção financeira que retira a sensibilidade ao preço, criando procura a preços potencialmente elevados, a tudo o que possa ser fornecido aos cidadãos. Ou seja, temos uma versão das questões de indução de procura por parte dos prestadores de cuidados de saúde. Sendo aliás mais fácil “induzir” a necessidade no campo da saúde do que no campo da educação ou da defesa nacional (exemplos de J White).

Resulta daqui que as necessidades orçamentais acrescidas resultam não de factores totalmente inelutáveis mas de decisões que explicitamente ou por omissão são tomadas quanto à cobertura (o que são as necessidades apercebidas em cada momento) e quanto aos preços/custos de novas “tecnologias” (entendidas de forma ampla).

White tem também a visão de que os esforços para ligar o orçamento do desempenho (budget for performance) apresenta diversas limitações:

  • dificuldade de medir o que é desempenho (necessário medir antes, depois e eliminar a influência de outros factores)
  • indicadores simples tipicamente vão apanhar muitas influências
  • comparações entre o valor de diferentes intervenções não são fáceis, dado que umas podem ser mais importantes para uns e outras para outros
  • o nível de desempenho não dá informação sobre a adequação do financiamento – se o mau desempenho for devido a falta de fundos, então é necessário mais fundos; mas adoptar esse princípio como regra significaria que se estava a estimular mau desempenho como forma de obter mais fundos;

Em termos de formas de determinação da despesa pública em cuidados de saúde, White distingue duas formas fundamentais: por departamentos ou áreas – em que é atribuído um orçamento à entidade; e por programas em que a despesa depende das regras de pagamento e da procura desses serviços (e como tal não há uma determinação exacta do montante a ser gasto à partida). Ambas as opções têm vantagens e desvantagens a ser consideradas, em termos das intervenções que podem ser usadas.

A atribuição de orçamentos exerce maior controle sobre a despesa, mas resulta mais facilmente em subfinanciamento e subprovisão dos serviços relevantes. A utilização de pagamento por serviços prestados torna mais fácil utilizar prestadores privados como forma de tentar conseguir mais eficiência. Mas também gera o problema de como lidar com a incerteza quanto ao que possa surgir ou possa ser necessário. A escolha entre prestadores públicos e privados tem também associada uma escolha entre instrumentos para lidar com factores incertos.

Interessante é a forma como avalia a transposição de um conjunto de ideias que têm sido defendidas conceptualmente mas cujos efeitos ainda não se encontram demonstrados: “In the theory of managed competition, informed patients would recognise skimpy performance, risk adjustment would eliminate incentives to avoid sicker patients and market forces would prevent organisational shirking; but this has yet to be demonstrated in practice.” Não há por isso regras absolutas no desenho institucional que se tenha a certeza que produza os resultados desejados de menor despesa em cuidados de saúde para melhores cuidados de saúde, obrigando em cada caso a uma avaliação cuidada de todas as situações.