Momentos económicos… e não só

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o futuro da união bancária

conferência da série economia viva, com Pedro Santa Clara, Mariana Mortágua, João Duque e Nuno Silva, na Nova SBE. Relato do que me chamou a atenção, com algumas questões finais:

Pedro Santa Clara iniciou o debate chamando a atenção para a união bancária como processo de construção europeia em que queremos participar, e não como uma imposição a que somos alheios. Neste processo é preciso reconhecer que os bancos na Europa são em média maiores do que nos Estados Unidos. Há também um maior financiamento das empresas via bancos na Europa. O sistema bancário europeu como está não tem condições para financiar o investimento e o crescimento económico. Há uma falta de capitalização dos bancos. Segundo Pedro Santa Clara começou-se pelo telhado: regulação relativamente agressiva, deixando para o fim os seguros de depósitos, que são a base da confiança bancária. Há razões políticas para se ter feito desta forma, mas não dá os incentivos certos à banca para se capitalizar. Não se consegue cortar a relação entre risco soberano e risco bancário com o sistema como está desenhado. Os maiores bancos na Europa têm muito investimento em dívida desses países. E esses bancos são demasiados grandes para serem salvos por cada país. Deu o exemplo de Porto Rico como um exemplo em que a insolvência do estado não coloca em questão o sistema bancário do país. De “too big to fail” para “too big to save” poderá ser o próximo passo, como consequência da grande dimensão que os bancos europeus têm vindo a ganhar.

Mariana Mortágua questionou se união bancária está, ou não está, a funcionar. A crise de 2007/2008 deveria ter servido para “limpar o sistema”, e nada disso sucedeu. Quase dez anos depois, o sistema bancário continua bastante alavancado, com muitas das características que existiam em 2007. Continua a ser necessário fazer a alavancagem. Como há falta de coordenação e capacidade de integração económica, o aprofundar da união bancária não irá resultar. A solução não poderá ser criar bancos grandes demais para falir. Há uma contradição de base entre criar bancos demais para descolar da economia e do risco soberano. Não será, na sua opinião, fazer essa separação. Há uma distorção nas funções do banco central europeu, ao tirar-lhe instrumentos como a compra de dívida. O problema está do lado da procura e não do lado da oferta. Estamos dentro de uma armadilha de liquidez. Há também um problema de supervisão, nomeadamente não se discute o que deve ser a atividade bancária. Há um problema com o fundo de resolução europeu, porque não há um compromisso europeu com o seu financiamento.

Para João Duque, a união bancária surge já tarde. A construção europeia obrigava a que ela existisse, dada as características da atividade bancária. É relevante levar a que banca seja mais financiada por mecanismos de mercado de capitais. É possível fazer um caminho de reforma, é difícil, é necessário ser engenhoso. É necessário não perder de vista que mesmo quando há introdução de capitais públicos estes também têm custo de oportunidade, e necessitam de ser remunerados através dos resultados dos bancos.

Para Pedro Santa Clara, todos chegamos a acordo sobre o diagnóstico: bancos demasiado alavancados, e a solução tentada não funciona. A dificuldade está em encontrar o caminho para sair daqui. Diferentes caminhos têm diferentes impactos sobre a economia. Criar um BCE que financie os estados, então os comportamentos destes poderão não ser os mais desejáveis. Nacionalizar a banca, não resolve o problema. Uma possibilidade é estimular a que os bancos vendam ativos, nomeadamente a fundos de private equity. A banca não tem incentivos para isso porque teria que reconhecer perdas e com isso surge a necessidade de aumentar os capitais. A solução proposta é separar a desalavancagem da capitalização dos bancos. Há que deixar emagrecer os bancos da forma mais saudável possível. Há perdas potenciais que ainda não foram reconhecidas. Se não se resolver, teremos bancos semi-zombies.

Segundo Nuno Silva, o rendimento dos bancos é baixo porque os ativos não foram reavaliados, o que baixa a rentabilidade esperada. Há sobretudo um problema de incerteza, e não de rentabilidade do sector. É mais um problema do acionista do passado do que do acionista que investe hoje. Irá haver a maior concentração, mas não teria que haver. Se houvesse uma boa regulação de securitizações, poderia ser útil para ter uma maior diversificação dos balanços dos bancos, que têm um enviesamento muito grande para os mercados locais (dívida pública, mas também dívida privada de particulares e de empresas). A união bancária tem vários pilares: supervisor único (BCE) na área do euro, mesmo que os bancos mais pequenos sejam supervisionados pelos bancos centrais nacionais e o mecanismo de resolução europeu e fundo de resolução (vai ter um período de transição de oito anos, a partir do qual existirá uma mutualização total da garantia de depósitos). Vai haver no futuro menos intermediação bancária. A confiança no sistema aumentou, dada a independência que é dada e reconhecida ao Banco Central Europeu. Reduziu-se a incerteza quanto ao que se faz quando um banco entra em problemas, face ao que era há alguns atrás. Falta ainda resolver: incentivos para diversificação geográfica das aplicações dos bancos; continuamos com sistemas bancários dominados por bancos domésticos; é um sistema híbrido, com BCE responsável pela supervisão mas muito dos riscos permanecem nos países; capacidade do fundo de resolução (1% dos depósitos cobertos no espaço europeu); complementar a regulação atual com maior papel para os valores de mercados dos ativos (e perdas potenciais em caso de resolução).

Na discussão aberta ao público:

Três problemas: dificuldade das PME em conseguir empréstimos bancários; contratação pública, incluindo Portugal 2020, é excessivamente burocrática (as empresas têm que se socorrer das consultoras para conseguirem responder).

A união bancária é essencial para a construção europeia. Não podemos focar toda a dimensão financeira do mercado único nos bancos. Na Europa não há um mercado de “controle empresarial” (a bolsa como mecanismo de financiamento e mecanismo de disciplina empresarial).

Questionou-se da audiência se o rendimento nos bancos é baixo porque os ativos não dão rendimento (elevado peso do crédito imobiliário)? Não prejudica os bancos portugueses? Papel dos fracos acionistas dos principais bancos portugueses?

Na resposta, João Duque refere que a solução seria em grande medida a securitização (retirar dos balanços o crédito imobiliário, passando o risco para outro lado). A regulamentação bloqueou completamente esse mercado. Está em discussão conseguir-se fazer operações simples nesse campo.

Para Mariana Mortágua, usar os mesmos instrumentos da crise do passado não permite sair dos problemas. Há um problema nas carteiras dos bancos. Os bancos estão a vender carteiras de ativos com grande desconto. Já existe isso. Não parece que vender simplesmente carteiras obrigando a reconhecimento de perdas vá resolver o problema. Proteger os bancos de registarem as perdas não vai resolver o problema de fundo. Securitizar as carteiras de crédito não vai resolver. Só irá problema de confiança sistémica se algo rebentar. Esta não foi uma lição da crise de 2007 e deveria ter sido. Devíamos pensar como mudar as regras de funcionamento da banca. Ajustamento dos bancos está a ser feito progressivamente, mas não se pensou que os ajustamentos orçamentais iriam afectar esse ajustamento do sector bancário. Referiu ainda as vantagens que vê num sistema bancário totalmente público.

Para Pedro Santa Clara, falta financiamento às empresas; houve um excessivo recurso à dívida como fonte da crise, as empresas têm que usar mais fundos próprios para fomentarem o seu crescimento.

Da audiência foi feita uma proposta de se ter divida indexada ao crescimento da economia, como ideia para complementar a securitização.

Aproveitando a proposta/questão, Mariana Mortágua questiona porque não é desejável ter obrigações com taxa indexada ao crescimento da economia? O que impede que essa solução seja ensaiada? É apenas uma questão de vontade política de o fazer? e sugere que essa solução poderia ser enquadrada num contexto mais vasto de reestruturação da dívida pública.

Novamente da audiência é referido que é má ideia ligar novo instrumento à reestruturação da dívida; é preciso pensar numa complementaridade diferente.

Como questões que me ficam depois desta sessão: a) deve-se retirar como conclusão das intervenções que deveria haver uma intervenção das autoridades de defesa da concorrência para promover menor concentração (olhando para a conduta concorrencial, evitando mais concentrações)?

Outra questão, não ficou claro o que os oradores fariam se pudessem escolher a configuração do sistema bancário europeu, o que seria a sua escolha? (para perceber para onde se quer ir).

 

Questão não abordada: é mau os bancos falirem? E a resposta a essa questão não é indiferente para a discussão de bancos públicos vs bancos privados. A questão, parece-me, não estará na propriedade por si, e sim no enquadramento em cada caso. Um banco privado que tenha a certeza, ou quase certeza, que não pode falir é assim tão diferente de um banco público? A possibilidade de falência é também um mecanismo disciplinador de abusos de conduta, mas só funciona se houver realmente capacidade de accionistas controlarem gestores, o que levanta a questão dos modelos de governação das instituições bancárias (que não foi igualmente tocada) numa união bancária a nível europeu.

 

 


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Duas resoluções

da Assembleia da República:

“Resolução da Assembleia da República n.º 28/2016

Recomenda ao Governo a identificação das consequências dos cortes orçamentais no Serviço Nacional de Saúde

A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo que proceda à identificação, em todas as áreas, das consequências das políticas de desinvestimento público e de sucessivos cortes orçamentais, no financiamento e no investimento público, no funcionamento dos estabelecimentos públicos de saúde que integram o Serviço Nacional de Saúde, nos profissionais de saúde e na prestação de cuidados de saúde aos utentes.

Aprovada em 29 de janeiro de 2016.

O Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.”

 

“Resolução da Assembleia da República n.º 29/2016

Levantamento de necessidades no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e intervenção urgente em serviços com falhas graves ou em situação de potencial rutura

A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo que:

1 — Proceda ao levantamento de todas as necessidades existentes no SNS, em particular nos hospitais e serviços onde existam falhas na capacidade de resposta ou onde se esteja a operar no limite da capacidade.

2 — Atue de imediato sobre essas falhas — com prioridade para aquelas que impossibilitam respostas em casos urgentes, permitindo o reforço de equipas e criando condições para a fixação dos profissionais no SNS.

Aprovada em 29 de janeiro de 2016.

O Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.”

Estas duas recomendações são interessantes se expurgadas do jargão própria da luta política que está claramente envolvido. Sendo muito genéricas permitem respostas muito amplas também. Mas não deixará de ser útil saber as consequências, boas e más, da despesa pública realizada (claro que não terá sido dessa forma que os proponentes destas recomendações pensaram). Há vários exemplos de aspectos que deveriam ser focados em qualquer relatório que queira dar resposta a estas duas recomendações que devem ser vistas em conjunto. Por exemplo, foi todo o investimento realizado nos últimos 10 ou 15 anos em equipamentos de saúde útil? qual a taxa de retorno social do movimento assistencial à população que daí resultou? Este aspecto torna-se relevante quando se volta a falar na construção de novos hospitais. Outro exemplo é conhecer o que sucedeu à manutenção e operacionalidade de equipamentos que existam, o que resulta da sua falta de operacionalidade em termos de saúde de população. E há que evitar uma armadilha – se houvesse mais recursos ter-se-ia feito mais? claro, mas isso é sempre verdade. Logo, as perguntas interessantes não são as que questionam se com mais dinheiro, mais fundos, mais profissionais, mais equipamentos se teria podido fazer mais.

Alguns dos efeitos são triviais de adivinhar. Os cortes nos salários não deixaram os profissionais de saúde mais satisfeitos. Mas menos óbvio será saber se a necessidade de gastar menos em pessoal levou a reorganizações do trabalho dos profissionais de saúde que permitiram atingir os mesmos objetivos assistenciais com menores custos.

Por outro lado cortes nos preços dos medicamentos podem permitir maior consumo com menor despesa. O que significa que o SNS e os cidadãos gastam menos para mais resultados, e a fileira farmacêutica recebe menos.

Note-se que sempre que se gasta menos por redução de preços ou custos, para um mesmo movimento assistencial, se tem algum prestador que recebe menos, mesmo que os cidadãos recebam os mesmos cuidados de saúde. Estas recomendações não podem servir apenas para dar voz a quem recebeu menos por se ter gasto menos em despesas públicas com saúde.

Numa interpretação possível, estas recomendações deveriam levar à identificação das situações de “value for money” no sistema de saúde português, e no Serviço Nacional de Saúde. Ter esse conhecimento permitiria dizer que cortes orçamentais, e em que medida, tiveram efeitos negativos sobre a capacidade de assistência à população, e qual o espaço que agora existe para que com os mesmos recursos o Governo possa fazer diferente (creio que tem sido esta a ideia transmitida pelo Ministério da Saúde, ver aqui). Aguardemos então se o trabalho de resposta a estas recomendações vai ser de teor técnico ou de retórica de combate político.


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Os 12 trabalhos da reforma hospitalar (11 e 12)

Tempo de olhar para os dois últimos trabalhos da reforma hospitalar. Como penúltimo na lista dos “12 trabalhos da reforma hospitalar” surge “Promover uma utilização racional dos meios complementares de diagnóstico e terapêutica”. Este é um trabalho que surge com recorrência nas várias propostas de reforma hospitalar ao longo dos anos, e que na verdade está mais na mão do que cada hospital fizer do que na criação de quadros normativos. O primeiro passo poderá ser mesmo um “mapa” das variações de utilização de meios de complementar de diagnóstico e terapêutica, para se perceber em que áreas há maior variação, e que diferenças existem. E note-se que tanto pode haver sub como sobre utilização.

Por fim, o último na lista dos “12 trabalhos da reforma hospitalar” é “Analisar a estratégia de contratualização e financiamento hospitalar, propondo alterações que promovam uma orientação eficiente dos recursos às necessidades.” Neste campo abre-se a possibilidade de pensar de uma forma diferente o financiamento hospitalar, sendo três elementos especialmente importantes: a) as instituições terem um plano estratégico plurianual; b) o respectivo orçamento ter uma natureza plurianual coincidente com o seu plano estratégico; c) serem definidas de forma apropriada a que necessidades deve acorrer cada hospital. Estes elementos são o ponto de partida, e devem estar definidos antes do período correspondente se iniciar (isto é, em 2016 “fechar” as regras para 2017 – 2019).

No ponto de chegada, será necessário avaliar em que medida os resultados obtidos correspondem a uma utilização eficiente dos recursos, o que significa conseguir distinguir o que são resultados consequência da acção da gestão e o que são resultados decorrentes de factores aleatórios e fortuitos (que no campo da saúde é natural que existam). Por fim, para o exercício de contratualização fazer sentido, é necessário que haja recompensas e penalizações de acordo com o desempenho obtido por cada hospital.

Não serão aspectos fáceis de definir adequadamente, nem é certo que possam ser feitos de igual modo em todos os hospitais – basta pensar que há hospitais inseridos em Unidades Locais de Saúde pagas por capitação (ajustada), o que desde logo significa uma situação diferente de hospitais que não são parte de qualquer ULS. Até mesmo aspectos simples como pagar um preço igual por um mesmo serviço em todo o país pode não ser adequado, apesar do apelo intuitivo que tal possa ter – se houver economias de escala, e se for exigido que o serviço seja prestado sempre que solicitado, então hospitais em zonas com menos casos terão custos médios superiores, e uma regra que faça preço igual a custo médio do serviço (ou similar) implica preços diferentes (ou então que um hospital esteja sobrefinanciado se o preço for elevado para cobrir o custo médio do que tenha menor actividade, ou que esteja subfinanciado, se o preço for aferido pelo custo médio mais baixo, que o é apenas por motivos de escala). Aqui a discussão entra num campo mais técnico, e não é possível explorar completamente neste texto, mas fica a nota de nem sempre o que parece ser a solução fácil e intuitiva ser a mais apropriada tecnicamente.

Nota final: já depois de ter escrito este post, tomei conhecimento de que afinal não serão os 12 trabalhos de António Ferreira, que sai depois de 2 meses de trabalho (notícia aqui)


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Economia viva – uma série de conferências

(Aviso: este post contém matéria publicitária)

Os alunos do Nova Economics Club da Nova School of Business and Economics (aka Economia da Nova) lançaram-se à organização de uma ambiciosa semana de conferências, de 15 a 18 de Fevereiro, duas por dia, e inclui transmissão ao vivo do programa da RTP “os números do dinheiro”.

Toda a informação está aqui e as inscrições podem ser realizadas por este link.

Além de dar divulgação às iniciativas dos estudantes, que é sempre bom, assinalo que há um pouco de tudo, cobrindo muitas das principais áreas de governação económica e de discussão internacional (união bancária e o tratado transatlântico), e diversidade de visões. Também serve para desenjoar da overdose de discussão sobre o orçamento do estado 2016!

A agenda da semana (actualizada em 11/02/2016, 22:00):

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A distância entre os títulos das noticias e o que lá está

a propósito da recente entrevista de Mário Centeno ao DN (aqui) e do titulo “quem-tem-2000-euros-de-rendimento-tem-uma-posicao-privilegiada”. A leitura da entrevista demonstra duas coisas:

a) que Mário Centeno deu uma resposta técnica e essencialmente correcta – ter 2000 euros de rendimento bruto por mês coloca essa pessoa pelo menos nos 20% com rendimento médio mensal mais elevado em Portugal (ver quadro abaixo, “roubado” do recente post do Pedro Romano sobre os efeitos redistributivos da proposta de orçamento).

b) que Mário Centeno ao usar o termo “posição privilegiada” estava certamente a pensar nessa resposta técnica e descuidou a conotação política que pode ter. Aliás, reconhece nessa mesma entrevista que este valor é baixo num contexto europeu. É útil por isso reproduzir a pergunta e a resposta:

Pergunta-“Mas como classificaria alguém que tem um rendimento bruto de 2000 euros por mês?”

Resposta- “Lá está, uma pessoa que tem um rendimento bruto de 2000 euros por mês está numa posição da distribuição de quem paga impostos em Portugal, altamente privilegiada. Se isto faz dessa pessoa uma pessoa rica ou não… no contexto europeu garanto-lhe que não faz. No contexto português, ela de facto está numa posição cimeira da distribuição de rendimentos. Justifica-se por isso que essa pessoa seja penalizada, do ponto de vista fiscal, pelo menos do ponto de vista relativo? Com muitos limites, porque senão deslaçamos também aquilo que é a coesão social.”

O que permite retirar que os salários são globalmente baixos em Portugal, o que se for procurado porquê revela que decorre da baixa produtividade por hora (e não do baixo número de horas trabalhadas) em Portugal.

E se toda a discussão do orçamento tem estado à volta de dois temas, redistribuição (onde se inclui o papel da carga fiscal) e “estímulos” expansionistas, é altura de pelo menos adicionar as preocupações com a produtividade, procurando saber para cada medida proposta qual o efeito sobre a produtividade e qual o canal desse efeito.

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Orçamento do Estado para 2016

Relatório disponível aqui, para leitura e comentário (se houver tempo) nos próximos dias.


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Os 12 trabalhos da reforma hospitalar (10)

Em décimo lugar nos “12 trabalhos da reforma hospitalar” encontra-se “Desenhar políticas de medicamentos e dispositivos médicos eficazes, que consigam acomodar a inovação com o controlo da despesa;”.

Este “trabalho” tem um aspecto de curto prazo, acomodar a inovação no imediato, sendo que essa inovação quer ter um preço elevado. Tem também um aspecto de longo prazo, saber se os mecanismos utilizados para determinar os preços da inovação têm sido os adequados.

Neste campo, tenho actualmente uma apreciação que é negativa para os mecanismos que internacionalmente têm sido utilizados, ou melhor para uma utilização errada de mecanismos que foram criados para um fim e estão a ser utilizados para outro fim, por falta de visão das entidades reguladoras e pagadoras de medicamentos e dispositivos médicos.

Em particular, é necessário encontrar mecanismos de determinação de preços que sejam independentes da avaliação do valor social gerado, e que façam a divisão desse valor gerado, em lugar de se aceitar acriticamente que o preço de qualquer inovação é o preço mais elevado que a sociedade esteja disposta a pagar. Será nessa tensão entre contribuir para a remuneração da inovação e preços que se aproximem dos custos de oportunidade de produção (entendidos de forma lata, de modo a incluírem todos os custos relevantes) que se jogará o “acomodar a inovação com controlo da despesa”. Deve-se procurar seguir aqui os mesmos princípios que estão presentes quer no mercados em concorrência quer nos mercados regulados em diferentes áreas.

Não será um processo fácil, mas é desejável que seja pensado em todos os incentivos que cria (e no caso de Portugal será mais relevante o incentivo para a comercialização do medicamento no país do que o incentivo à inovação – não creio que haja qualquer inovação em medicamentos e/ou dispositivos médicos que seja desenvolvida tendo como referência o retorno obtido no mercado português), nos vários intervenientes (quem desenvolve e comercializa os novos produtos, quem paga, quem decide os consumos, quem beneficia da utilização destes produtos, quem aprecia e avalia as vantagens desses novos produtos).

Mas este trabalho extravasa em grande medida o campo da reforma hospitalar, por isso não é claro qual é mandato neste âmbito mais preciso. Retomando só o âmbito da reforma hospitalar e da despesa com medicamentos realizada nos hospitais, juntar inovação com controlo da despesa significa uma de três coisas forçosamente: reduzir o preço, reduzir a quantidade ou reduzir outra despesa para acomodar mais despesa vinda do campo de novos medicamentos e/ou novos dispositivos. Não é claro qual o caminho que virá a ser escolhido, nem qual é o melhor caminho.

 


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Os 12 trabalhos da reforma hospitalar (9)

O trabalho 9 dos “12 trabalhos da reforma hospitalar” é “Desenvolver um plano para o acompanhamento dos doentes crónicos em articulação com os restantes níveis de cuidados”. Este é um objectivo importante, e implica transformações mais profundas do que possa parecer à primeira vista. Como primeiro passo será relevante conhecer qual a visão que preside ao plano que seja apresentado. E utilizo o termo “visão” para ligar ao que está apresentado no relatório Gulbenkian, que tem precisamente o titulo de “Uma visão para o futuro”. Em lugar de ser mais um plano que se traduz em dizer que os diferentes níveis de cuidados se têm que articular, é necessário pensar mais longe, e antever como se pretende que seja a vida dos doentes crónicos no futuro, e partir dessa “visão” para o que sistema de saúde, e o Serviço Nacional de Saúde como sua parte central, deve ter como organização e prestação de serviços. Dessa “visão” apresentada no Relatório Gulbenkian, um aspecto central é o papel dos cidadãos com condições crónicas no acompanhamento e gestão da sua doença, sendo papel dos serviços de saúde ajudar a construir e a apoiar esse papel. Não é um papel de responsabilidade financeira e sim um papel de melhor ajustamento do sistema de saúde às necessidades e às preferências de cada pessoa.

Desenvolver um plano obriga a ter uma visão clara do que se pretende alcançar, e que instrumentos se podem usar. Em termos de acompanhamento e articulação, há instrumentos organizacionais, instrumentos normativos e instrumentos financeiros. Quais vão ser considerados, como vão ser usados e em que intensidade, são três questões essenciais a ser analisadas quando o plano for disponibilizado, em comparação com a visão que seja estabelecida para orientar o plano.


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hoje, na visão online,

uma entrevista rápida sobre os desafios no campo da saúde (original aqui), que reproduzo (obrigado à Ana Margarida Carvalho pelas perguntas :D):

Screen Shot 2016-02-02 at 23.15.16Para o professor Pedro Pita Barros, as medidas anunciadas pelo novo Ministério da Saúde que mais suscitam o agrado mediático são também «as mais voláteis». A manutenção da Maternidade Alfredo da Costa provoca o aplauso da comunidade, mas não é, segundo o professor, a melhor solução a longo prazo. E a permanência de equipas de urgência que evitem os aneurismas não impedirá, avisa, o «evento adverso».

O anúncio de que quatro grandes centros hospitalares da Área Metropolitana de Lisboa irão passar a assegurar, ao fim de semana, as urgências de aneurismas e AVC através de escalas rotativas repõe os níveis de confiança dos utentes nos hospitais públicos?

Há uma diferença entre erro e evento adverso. Nunca será possível em medicina ter 100% de certezas e segurança, e mesmo com equipas em vigilância podem surgir situações extremas. Por exemplo, se houver uma equipa disponível mas surgirem dois casos, como resolver? Por outro lado, em média, há tempos de espera clinicamente aceitáveis para muitas intervenções, mas sempre que se espera pode acontecer algo. Estatisticamente irá sempre acontecer o acidental, nalgum momento.

E como comenta a decisão de o ministro Adalberto Campos Fernandes de não avançar com o encerramento da Maternidade Alfredo da Costa?

No caso da MAC, estando inserida no centro hospitalar de Lisboa central, e como se planeia construir um novo hospital, associado à circunstância da redução do número de partos na zona de Lisboa, a prazo, o que provavelmente fará sentido é ter uma maternidade moderna no novo hospital. E as equipas atuais da MAC terão toda a vantagem em irem para lá. Logo, não acredito que, a 10 anos, a melhor solução seja manter a MAC como está hoje

Numa perspetiva de política de saúde, já é possível fazer-se uma primeira avaliação das medidas do novo ministério?

O início de novos ciclos políticos leva sempre a uma apreciação dos desafios que se colocam a quem entra. No caso do Ministério da Saúde do XXI Governo, o programa eleitoral foi praticamente todo transportado para o programa do Governo, com ligeiras modificações. E no essencial o programa eleitoral tinha já um perfil relativamente completo. Em termos programáticos, o programa do Governo no campo da saúde segue uma linha geral de desenvolvimento do Serviço Nacional de Saúde, que, com maior ou menor retórica sobre políticas passadas, surge numa continuidade de décadas.

Mas quais os grandes desafios que este novo ministro vai enfrentar?

Desde os anos 2002 a 2005 há três desafios permanentes para o Ministério da Saúde, cuja evolução tem sido mais lenta do que o desejável. E esses desafios são reconhecidos e assumidos pela atual equipa do Ministério da Saúde: finalizar a reforma dos cuidados de saúde primários, com o aumento das unidades de saúde familiar (e simbolizada no objetivo de ter todos os residentes seguidos por um médico de família), finalizar a criação de uma rede dos cuidados continuados, e terminar a reforma hospitalar, iniciada com os hospitais SA, hoje EPE (Entidade Pública Empresarial).

Isso significa abrir mais hospitais?

Não, isso deverá significar muito mais do que apenas abrir ou fechar hospitais: deverão ser criados mecanismos automáticos de melhoria permanente. Não há aqui novidade conceptual, mas terá que haver a arte de encontrar as soluções e os meios necessários para a sua concretização.

Qual o problema mais constante, e ao longo dos vários governos, no nosso Sistema Nacional de Saúde?

Um problema permanente, em muitos lados e também em Portugal, é a existência de áreas menos atrativas para os profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, etc). A aposta em mecanismos de mobilidade terá muito provavelmente de ir além de meros complementos salariais, e valerá a pena pensar em ideias diferentes.

Mas se os aumentos salariais não forem incentivos…

Neste ponto, um dos desafios para os novos responsáveis do Ministério da Saúde é conseguir precisamente encontrar modos inovadores de procurar levar profissionais de saúde para áreas geográficas mais desprotegidas. Criatividade na diversidade, dado que o local poderá exigir atuações diferentes, terá de ser parte da solução.

Por várias vezes o Partido Socialista disse que o Sistema Nacional de Saúde estava subfinanciado. Onde se vai buscar o dinheiro?

É um aspeto que a meu ver merece atenção especial, e sobre o qual ainda pouco foi dito. Como se assegurará o equilíbrio financeiro nas diferentes unidades que formam a prestação de cuidados de saúde do SNS? As reposições de cortes salariais vão exigir reforço de verbas, e é verdade que o PS frequentemente argumentou que o SNS estava subfinanciado. Com o novo Governo é de esperar que as organizações de profissionais de saúde venham reclamar novas condições remuneratórias. Quem teve reduções de preços nos bens e serviços de saúde que vende ao SNS durante os últimos anos também procurará algum alívio. Por outro lado, a criação de dívidas em atraso no SNS tem vindo a diminuir desde há praticamente um ano, o que é essencial para uma boa gestão. O equilíbrio na componente orçamental é, por isso, um elemento a seguir com atenção, e quais os mecanismos irão ser utilizados pelo Governo para assegurar esse equilíbrio.


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União Europeia, instrumentos e sector da saúde

Interessante discussão no dia de ontem, numa conferência organizada pelo European Social Observatory, sobre como os aspectos institucionais da União Europeia afectam as políticas na área da saúde. Interessante quer do ponto de vista interno – papel das country specific recommendations e do semestre europeu como instrumento de coordenação das políticas macroeconómicas e reacções dos países a esse papel, quer do ponto de vista externo – acordos internacionais como o actual tratado em negociação com os Estados Unidos. Uma intervenção de uma pessoa da Comissão a dizer que desde que as contas públicas estejam equilibradas, pouco têm a dizer sobre como os países gastam em despesas públicas em saúde, e que nos casos de intervenção nem sempre defenderam cortes nas despesas de saúde, tendo no caso de Chipre uma preocupação com a cobertura universal de todos os cidadãos, e no caso do aconselhamento à Roménia a preocupação de reforçar as despesas em saúde. Também a referência a um crescente aligeirar das country specific recommendations para não serem excessivamente intrusivas nos estados membros.

Antes disso, uma visão sobre a mobilidade de doentes depois da directiva de cuidados transfronteiriços – numa síntese, não existe com significado em lado nenhum; e sobre a mobilidade de profissionais de saúde, existe há mais de uma década e não se prevê que pare, havendo cada vez mais fluxos migratórios dentro da União Europeia (o que para Portugal significa que a crescente emigração irá provavelmente continuar mesmo com as reposições salariais e alguma melhoria nas condições de trabalho que venha a ocorrer nos próximos anos).

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fim de tarde em Bruxelas, com céu azul