Sobre as questões de acesso, o relatório de primavera há um conjunto de observações relevantes, produzidas segundo se percebe de acordo com informação reunida de várias fontes. Faltou contudo uma discussão da sua representatividade, essencial para generalizar, bem como de explicações alternativas para as observações.
Não basta em geral dizer que determinada observação é consistente com a interpretação que o autor ache mais adequada, sempre que possível é necessário despistar outras interpretações que sejam igualmente possíveis e razoáveis.
Por exemplo, intui-se da forma como o texto do relatório de primavera está escrito que a redução no número de consultas é uma perda de acesso. Mas noutro ponto do relatório foi dito que a literacia em saúde é relevante para a boa utilização do sistema de saúde, e que essa literacia é baixa (segundo a opinião do OPSS), pelo que não haverá uma boa utilização do sistema de saúde. Se parte das falhas de utilização do serviço nacional de saúde por falta de literacia em saúde for o recurso excessivo a consultas, então a redução de consultas não seria necessariamente um mau sinal para o serviço nacional de saúde. Não estou a afirmar que esta explicação alternativa é a verdadeira, apenas que deverá haver o cuidado suficiente para discriminar entre as alternativas de interpretação, o que não foi feito.
De modo similar, a mera referência a pessoas que não aviam completamente as receitas nas farmácias pode reflectir um problema mas não necessariamente um agravar desse problema – e aqui bastaria ir comparar os resultados obtidos no inquérito realizado com os resultados passados que se encontram publicados em trabalhos de Manuel Villaverde Cabral e Pedro Alcantara da Silva.
Estes cuidados metodológicos reforçariam a argumentação apresentada.
De evitar apenas o recurso a informação jornalística que pode ser imprecisa, mais facilmente manipulável pelas fontes e frequentemente baseada em poucas observações (por exemplo, uma corporação de bombeiros pode dizer que não transporta doentes por falta de verba e que está à beira da ruptura financeira, e que isso prejudica fortemente os idosos da sua localidade, que dificilmente o jornalista terá capacidade de verificar as contas da associação de bombeiros, ou fazer uma avaliação da actividade de transportes realizada). Uma vez mais não significa que as conclusões retiradas sejam erradas, não são é fiáveis dada a base de informação usada.
Sendo plausível que as actuais circunstâncias levem a maiores dificuldades de acesso a cuidados de saúde, não é lícito recolher informação dispersa e desorganizada apenas porque é consistente com essa visão.