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gabinete de crise, rádio observador – as duas últimas semanas

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Desta vez junto num só post a participação no Gabinete de Crise – Rádio Observador das duas últimas semanas. Podem ouvir aqui (18 de setembro) e aqui (25 de setembro) – as versões podcast são mais ricas que a minha participação, pois têm também a opinião da Sónia Dias e de um convidado em cada sessão.

A semana de 18 de Setembro

Número da semana: 21 – há 21 semanas que não se tinha uma situação tão complicada, em termos de novas infeções por COVID-19. Não é só o valor absoluto que preocupa mas a velocidade com que começou a subir. Apesar de se referir que estão sobretudo a ocorrer em idades mais novas, como a sociedade não é perfeitamente estanque nas suas relações entre diferentes idades, significa que mais tarde ou mais cedo irá chegar às idades mais problemáticas. É muito diferente andar várias semanas à volta dos 200-300 novos casos por dia, ou andar a 200 casos por dia numa semana, 400 na seguinte, 600 na seguinte. A dinâmica é o elemento de preocupação, sobretudo quando olhamos para países como a França, Espanha, Reino Unido, e outros, onde o crescimento começa a parecer descontrolado.

Análise da semana:

A principal característica desta semana é os números a crescerem em todas as frentes. Se há duas semanas ainda se podia dizer que não haveria grande preocupação porque os internamentos e os óbitos estavam estáveis e a valores baixos, agora, com o habitual desfasamento que já se observou nos primeiros meses, começou a subir.

A decisão pública vai ter agora que equilibrar fatores de forma diferente do que foi feito no início da pandemia – equilíbrio entre saúde covid e não-covid, entre saúde e educação (onde novas desigualdades sociais no acesso à educação podem facilmente surgir) , entre saúde e atividade económica (sendo de assumir que houve perdas de rendimento que terão de ser partilhadas, e evitar que se agravem). E nestes vários equilíbrios diferentes gerações são afetadas de forma diferente, e cada geração mais afetada num tipo de dilema do que nos outros.

Abertura das escolas está a decorrer com alguma calma, mas também com alguma confusão, ou pelo menos com necessidade mais comunicação entre pais e escolas. É relativamente claro que é necessário linhas globais mas decisões locais (escola a escola, talvez turma a turma), que não são compatíveis com centralização de todas as decisões na DGS – é impossível a DGS criar uma circular normativa ou orientação que cubra todas as situações que é possível imaginar surgir, e mesmo aquelas que surjam e não tenham sido antecipadas. Sobre a abertura das escolas, pode ser encontrada aqui informação disponibilizada hoje pela Organização Mundial de Saúde.

Reuniões do Infarmed (que desta vez foram no Porto) – desastre na forma de comunicação –  a sessão foi “dolorosa” de assistir (via youtube). Seria melhor limitar cada intervenção a 3 slides – título do estudo, nome dos autores num, principais resultados do estudo noutro, e implicações potenciais para a decisão pública e individual noutro, ou ter apenas uma única pessoa a falar dos vários estudos, conclusões e implicações para discussão. Em links poderiam ficar disponíveis os estudos para quem quisesse ler os detalhes. Foram apresentações mais orientadas para quem falava do que para quem recebia (sobretudo se transmitida em aberto para toda a população que queira ver). 

Remodelação governamental desta semana – provavelmente muda pouco no funcionamento da resposta à pandemia; só que a saída e entrada de pessoas, na DGS e agora no ministério, tem de ser acompanhada de sinais que permitam manter total confiança da população na condução das atividades necessárias. 

Discurso de Ursula von der Leyen, a vir colocar as políticas de saúde no centro das preocupações da União Europeia. Será difícil que venha a ter consequências no curto prazo, dadas as diferenças entre os países europeus nos sistemas de saúde, e que são legitimas face às suas preferências, cultura e tradições. 

Alerta: Evitar a indiferença às regras devido ao cansaço. Não houve alterações do vírus. Não houve alterações meteorológicas relevantes. Só houve um mudar gradual no comportamento de cuidado, com provável redução de atenção nas duas últimas semanas de agosto, que deram agora origem a um crescimento elevado. O cansaço que as regras de higiene, distanciamento físico e máscaras possam ter gerado tem que ser ultrapassado por toda a população. Nota de esperança: noticias vindas do frio da Islândia, num estudo publicado no New England Journal of Medicine na semana passada- 91,1% das pessoas que tiveram covid-19 e foram testadas para o desenvolvimento de resposta ao vírus, apresentaram anticorpos ao fim de 4 meses, aparentemente numa situação de estabilidade. 

A semana de 25 de Setembro

Número da semana: 58, o número de páginas do Plano da Saúde para o Outono-Inverno 2020-21. Documento muito centrado para dentro do Ministério da Saúde (interrogação forte) – seria muito importante ter um documento voltado para o cidadão – o que fazer em condições normais de vida (sem covid e sem suspeita), o que fazer com suspeita (quem contactar como contactar etc), o que fazer com covid-19, e depois garantir que há respostas. 

Análise da semana:

Continuam as subidas nos indicadores habituais, sendo menos pronunciado o crescimento de novos casos esta semana, mas continuando o crescimento do número de internados, de internados em UCI e de óbitos. No caso dos internamentos, ainda longe de se esgotar a capacidade de tratamento no Serviço Nacional de Saúde, mas será de esperar ainda algum crescimento nas situações de internamento dado o desfasamento temporal para o crescimento face ao indicador que é dado pelo número de novos casos.

Contexto internacional – não só de subida de casos como de contestação explicita ou por vezes implícita. Vemos isso em vários países. 

Sobre o tema da semana, a vacina, falemos do que se deveria estar a fazer, para assegurar a boa utilização de vacina  – conhecer melhor barreiras à vacinação, motivos para hesitações, envolvendo as pessoas e não apenas por “ordem” – a hesitação em Portugal medida há uns meses era maior do que a tradicional em Portugal, significa por isso que há trabalho a fazer, a preparar desde já.

Com dados de Abril 2020:

Fonte: Sebastian et al. 2020

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27 de agosto125115240
28 de agosto a 3 de setembro154185340
4 de setembro a 10 de setembro198241439
11 de setembro a 17 de setembro308302610
18 de setembro a 24 de setembro348332680

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841
28 de agosto a 3 de setembro333841
4 de setembro a 10 de setembro337347
11 de setembro a 17 de setembro545959
18 de setembro a 24 de setembro652868

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta: A importância de continuar a acompanhar a situação nos lares mas sem levar a um isolamento extremo dos residentes nessas estruturas. A perda de contato com familiares pode, por si só, levar a uma sensação de abandono que origina situações de morte prematura. E se há lares com surtos, também se deve reconhecer que há muitos outros que têm conseguido evitar esses surtos, e que todos têm feito um esforço enorme para responder aos problemas criados pela COVID-19. O alerta é não deixar que essa resposta leve a que se esqueça outras dimensões também elas relevantes para a vida dos residentes nestas estruturas. Dar liberdade de escolha do modelo a seguir dentro das regras gerais, com a utilização de equipas rápidas de intervenção se houver motivos para isso. O encontrarem-se casos sem sintomas poderá ser porque houve deteção suficientemente cedo? 

Nota de esperança: Esta semana a nota de esperança vem da Finlândia, e na lógica de encontrar formas rápidas de testar para a presença de pessoas com COVID-19. O método que está a ser experimentado é antigo – a utilização de cães, que conseguem identificar o cheiro de uma pessoa infetada com a COVID-19. De acordo com uma notícia do NYTimes, que apareceu também noutros órgãos de comunicação social, demorará 1 minuto para que um cão consiga identificar se um lenço com uma amostra de suor de uma pessoa tem sinais de COVID-19, que em caso afirmativo leva a um teste mais habitual. Encontrar formas diferentes de identificar pessoas com covid-19 contribui para a esperança de se retomar a capacidade de deslocação e de vivência comunitária.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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