O capítulo 2 do relatório é dedicado aos cuidados de saúde primários. Onde logo na introdução é reconhecida a liderança em termos internacionais – bons resultados, baseados num sistema abrangente de indicadores. O desafio é agora alargar o campo de intervenção dos cuidados de saúde primários. Há uma excelente descrição do que foi a evolução dos cuidados de saúde primários em Portugal desde a criação das USF – unidades de saúde familiar – terminando com a recomendação da sua expansão a todo o país, de forma administrativa se necessário, por contraponto à natureza voluntária, por proposta dos profissionais de saúde, que foi adoptada. Aqui, há um aspecto relevante que o relatório não aborda: em que medida a natureza voluntária da transição para o modelo USF foi determinante para o seu sucesso. Se foi, e a minha conjectura é essa, então a obrigação administrativa de mudança poderá produzir menores resultados do que se antecipa.
É igualmente feita referência ao modelo C das USF, modelo híbrido de gestão pública e gestão privada. Para este modelo, será necessário estabelecer de forma muito clara quais os mecanismos de regressar ao modelo anterior sem interromper serviços. É um aspecto a merecer muita e detalhada atenção. O risco de estabelecer modelos em que os benefícios são privados e os custos são públicos é sempre grande, sobretudo quando depois se invoca o interesse das populações para partilhar os custos de más decisões privadas. Não é um problema insolúvel, mas claramente tem que ser tratado antes e não quando surgir.
Ainda neste capítulo dedicado aos cuidados de saúde primários é focado o problema da distribuição dos recursos humanos. Como seria de esperar, o ponto central é o desafio dos “desertos médicos”, em zonas pouco populosas, geograficamente de acesso difícil, com uma população envelhecida. São mencionadas iniciativas de chegar a essa população, embora não haja uma discussão detalhada de qual a melhor forma de contacto (ou que formas podem ser ensaiadas e de que dependem). Por exemplo, há provavelmente um papel para a linha Saúde24, que está frequentemente ausente destas discussões.
A parte final do capítulo trata dos desafios aos cuidados de saúde primários, em particular a pressão que decorre do envelhecimento da população, que necessitará de um acompanhamento diferente, para controlar os riscos para a saúde. Apesar dos ganhos em termos de longevidade, há ainda muito a fazer em termos da qualidade de vida. Na discussão feita pela OCDE, falhou apenas a referência ao cidadão como parceiro decisor dentro do sistema de saúde. A pouca participação do cidadão foi referida no relatório a propósito de queixas, mas não ainda numa visão mais alargada. A prevenção que é advogada depende quer dos serviços de saúde quer das pessoas, e se estas forem parte do processo de decisão, não só se terá melhores resultados como se identificará melhor o que realmente é necessário fazer. Aliás, no campo da prevenção conhecem-se informações sobre o processo, mas muito pouco sobre os resultados (ter sucesso em prevenção é evitar, que depois não se observa, logo não se sabe se foi por prevenção ou devido a qualquer outro elemento).
Igualmente com espaço neste capítulo está a utilização das urgências, onde a proposta de resposta fornecida pela OCDE é a aumentar a resposta dos cuidados de saúde primários nos locais onde as pessoas estão habituadas a ir. Dão como exemplo a colocação, no Reino Unido, de médicos de clinica geral em serviços de urgência, e da importância de ter serviços com a capacidade de resolver os problemas imediatos e inesperados num único local. Infelizmente não dão mais sugestões, e é possível pensar em instrumentos de outro tipo. Por exemplo, pensar no mecanismo de pagamento que dê vantagem aos cuidados de saúde primários de evitar um recurso sistemático dos cidadãos à urgência hospitalar para situações que podem ser tratadas nos cuidados de saúde primários.
Em termos de recomendações que são feitas neste capítulo, a transformação em USF dos centros de saúde tradicionais, por imposição administrativa, é, aparentemente, a recomendação mais forte. A forma de o fazer deverá passar por anúncio de uma data futura dessa transformação e até lá fazer um acompanhamento com utilização do mesmo conjunto de indicadores para todas as entidades prestadoras de cuidados de saúde primários dentro do Serviço Nacional de Saúde. Aliás, essa utilização de um conjunto comum de indicadores deverá ser um passo a adoptar desde já, qualquer que seja o caminho seguinte de desenvolvimento.
No final, constato que não há uma referência a cuidadores informais ou a práticas de auto-gestão de condições crónicas do cidadão. Será a falha mais importante neste capítulo, sendo que tudo o resto está bastante interessante e útil.