Momentos económicos… e não só

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Barreiras de acesso ao SNS (1)

No trabalho feito para responder à questão de como evoluíram as barreiras no acesso a cuidados de saúde em Portugal entre 2013 e 2015, utilizaram-se dois inquéritos com perguntas similares, um realizado na Primavera de 2013, e o segundo em Junho de 2015. A utilização de perguntas similares permite comparação, ainda que não se trate de um painel.

Foram em cada ano inquiridos mais de 1200 pessoas, com estratificação para representatividade (ver no final deste post informação sumária, sendo que informação completa se encontra disponível no volume complementar mencionado aqui).

Para identificar barreiras de acesso a cuidados de saúde não basta perguntar às pessoas se sentiram alguma inibição, pois isso seria equivalente a admitir como ponto de partida que nunca existe utilização supérflua de cuidados de saúde. Na utilização de cuidados de saúde pela população temos efeitos tão diferentes como evitar utilização desnecessário (o que é positivo) e impedir utilização necessária (o que é negativo). Adicionalmente, perguntar em geral se houve limitação ou não é enganador porque não dá uma visão quantificada. O exemplo disso é quando uma pessoa que foi 9 vezes à urgência hospitalar num ano diz que houve uma situação em que não foi por causa da taxa moderadora. Neste caso, a pessoa foi inibida pela existência de uma barreira preço (a taxa moderadora) mas apenas numa vez em dez.

Para evitar este efeito, que tende a empolar a importância das barreiras de acesso, é perguntado às pessoas o que fizeram na última vez que se sentiram doentes. E das que não foram procurar auxilio no sistema de saúde, é perguntado o motivo pelo qual não recorreram ao sistema de saúde. Nas opções é incluída a possibilidade de não valer a pena pagar a taxa moderadora (interpretado como o benefício recolhido ser inferior ao custo dessa taxa moderadora para o cidadão) e a possibilidade não ter capacidade de pagar a taxa moderadora (caso em que se admite que o preço da taxa moderadora impede uma utilização necessária de cuidados de saúde).

As perguntas exactas usadas quer em 2013 quer em 2015 foram:

“Relativamente à última vez em que se sentiu ou esteve doente, procurou auxílio no sistema de saúde?”

Se a resposta foi negativa, as perguntas seguintes foram: “Disse-me que não procurou auxílio no sistema de saúde. O que fez quando se sentiu ou esteve doente? (Não sugerir nada e registar as respostas dadas)

  • Automedicou-se
  • Não fez nada, esperou que passasse
  • Outra: Qual?

e qualquer que tenha sido a resposta à questão anterior, seguiu-se:

E porque razão tomou esta opção?

  • Não era grave
  • Não quis esperar para ser atendido
  • Não valia a pena pagar a taxa moderadora
  • Não tinha capacidade para pagar a taxa moderadora
  • Não tinha capacidade para pagar o transporte
  • Outra: Qual?

A partir destas perguntas é possível ver quantas pessoas na amostra indicaram cada opção na última vez que se sentiram doentes, e usando os factores de representatividade ter uma estimativa do que poderá ser este efeito na população com mais de 15 anos. Os dois quadros seguintes apresentam os resultados, calibrados para representar a população. As diferenças entre os dois anos não são expressivas. É de realçar o elevado recurso à automedicação nestes casos. Olhando para as barreiras como traduzidas pelas decisões das pessoas que tendo estado doentes optaram por não procurar auxilio no sistema de saúde. É de realçar que em nenhum dos dois anos foi referido por qualquer inquirido a existência de custos de transporte inibidores do recurso a cuidados de saúde. Isto é, os custos de transporte não são suficientemente elevados para evitar utilização necessária de cuidados de saúde (este aspecto voltará a ser analisado com outras questões num post futuro). A falta de capacidade para pagar taxa moderadora afecta também um número reduzido de pessoas (acresce que os motivos para a opção não são mutuamente exclusivas). Corresponde a uma resposta em 2013 (que representa 5304 pessoas) e duas respostas em 2015 (representa 12 353 pessoas). Estamos assim a falar de números muito pequenos, mesmo atendendo a que o número de pessoas que disse não ter recorrido ao sistema de saúde passou de 74 pessoas em 2013  para 94 pessoas em 2015 (num total de 1254 inquiridos em 2013 e 1260 em 2015).

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Informação técnica:

Abordagem metodológica – Inquérito de 2013:  Universo: constituído pelos indivíduos com 15 e mais anos de idade, residentes em Portugal Continental. Amostra: constituída por 1.254 entrevistas. Selecção de lares e indivíduos: os inquiridos foram seleccionados através do método de quotas, com base numa matriz que cruza as seguintes variáveis: Região (7 grupos),Habitat (5 grupos), Género (2 grupos), Idade (6 grupos), Instrução (2 grupos) aplicada aos homens e Ocupação (2 grupos) aplicada às mulheres.  A partir de uma matriz inicial de Região vs Habitat, foram seleccionados aleatoriamente um número significativo de pontos de amostragem, onde foram realizadas as entrevistas, através da aplicação das quotas acima referidas. Em cada localidade, embora não existindo a aplicação do método de random route, existiram instruções que obrigaram o entrevistador a distribuir as entrevistas por toda a localidade. Recolha da Informação: A informação foi recolhida através de entrevista directa e pessoal na residência dos inquiridos, em total privacidade. Os trabalhos de campo decorreram entre os dias 12 e 23 de Abril de 2013 e foram realizados por 61 entrevistadores, recrutados e treinados pela GfK, que receberam uma formação adequada às especificidades deste estudo. A recolha incidiu nos fins-de-semana, entre as 10h e as 22h, e nos dias úteis, entre as 17h e as 22h. Foi realizado um controlo de qualidade.

Abordagem metodológica – Inquérito de 2015: Universo: constituído pelos indivíduos com 15 e mais anos de idade, residentes em Portugal Continental. Amostra: constituída por 1.260 entrevistas.  Selecção de lares e indivíduos: os inquiridos foram selecionados através do método de quotas, com base numa matriz que cruza as seguintes variáveis: Região (7 grupos),Habitat (5 grupos), Género (2 grupos), Idade (6 grupos), Instrução (2 grupos) aplicada aos homens e Ocupação (2 grupos) aplicada às mulheres. A partir de uma matriz inicial de Região vs Habitat, foram seleccionados aleatoriamente um número significativo de pontos de amostragem, onde foram realizadas as entrevistas, através da aplicação das quotas acima referidas. Em cada localidade, embora não existindo a aplicação do método de random route, existiram instruções que obrigaram o entrevistador a distribuir as entrevistas por toda a localidade. Recolha da Informação: A informação foi recolhida através de entrevista directa e pessoal na residência dos inquiridos, em total privacidade. Os trabalhos de campo decorreram entre os dias 12 e 23 de Junho de 2015 e foram realizados por 57 entrevistadores, recrutados e treinados pela GfK, que receberam uma formação adequada às especificidades deste estudo. A recolha incidiu nos fins-de-semana, entre as 10h e as 22h, e nos dias úteis, entre as 17h e as 22h. Foi realizado um controlo de qualidade.


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Políticas públicas em saúde: 2011-2014

A semana passada fiz a apresentação de um estudo sobre o efeito de algumas políticas públicas adoptadas pelo Ministério da Saúde no período 2011-2014 (ver aqui). “Algumas” é importante, porque aspectos relacionados com recursos humanos, por exemplo, não foram tratados (por definição do âmbito do trabalho), nem aspectos da qualidade (tratados numa análise da OCDE), nem aspectos de reforma hospitalar nem “governance” nas unidades de saúde do Serviço Nacional de Saúde, havendo outros documentos que o fazem.

Caindo no final da campanha eleitoral, era inevitável alguma crítica relacionada com esse momento. Agora, passado esse momento, é tempo de outro tipo de discussão. Nos próximos dias irei fazendo alguns destaques, que completam a apresentação feita e o trabalho jornalístico que foi feito. Por enquanto, a sugestão de leitura da versão final do texto, e para quem quiser conhecer melhor a base do que é afirmado, a consulta do que chamamos volume complementar.

Para encontrar ambos:

Versão final do texto, disponível aqui. (20,8 MB)

Volume complementar, contendo detalhes da discussão apresentada no texto da versão final, disponível aqui. (31,7 MB)


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dia da República, dia pós-eleições

Como é dia de comemoração da implantação da República, mesmo que não seja feriado, fica essa saudação (mesmo que sem grande sentido haja um Presidente da República desaparecido…). Passemos então a alguns comentários aos resultados das eleições.

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Sobre os resultados das eleições, no meio de tantos comentadores não há muito de novo que se possa dizer. Primeiro, os resultados propriamente ditos. A coligação perdeu cerca 730 mil votos. Não é tão pouco assim. Quem foi buscar esses votos? Sobretudo o Bloco de Esquerda (ganhou 261 mil votos, quantos deles se deverão às perguntas de Mariana Mortágua no inquérito parlamentar sobre o caso BES?). O PS ganho 182 mil votos, praticamente o mesmo que o aumento da abstenção. O PCP manteve-se estável (mais três mil votos). A desilusão é claramente o PS e não faltarão as análises sobre os erros de António Costa e da sua equipa (surgirão certamente os aspectos de falta de mensagem clara e mobilizadora, e de não ter conseguido aproveitar para colocar na discussão o documento estratégico sobre política económica que pediu a vários economistas, hoje deputados). Curioso é também registar que para basicamente o mesmo universo de eleitores a abstenção subiu apesar da sensação em muitos sítios de se ter maior afluência às urnas. Significa que a organização foi pior este ano, escolhendo (?) locais mais pequenos com maior dificuldade de circulação das pessoas (terá sido sequer pensada?).

Vão ter que ser tempos de negociação, inevitavelmente, e o centro dessa negociação será o PS. Seja para não derrubar um eventual governo PàF seja para liderar um governo que tenha o apoio do Bloco de Esquerda e da CDU (será difícil antever que se consiga ter um governo PS com não oposição PàF).

Em termos de grandes decisões estratégicas, significa que provavelmente se ficará bloqueado no actual status quo.

Tomando o campo da saúde, e retomando os programas dos partidos, até nem é difícil encontrar áreas onde se pode gerar consenso (desenvolvimento dos cuidados de saúde primários e dos cuidados continuados, genéricos e medicamentos) e áreas onde haverá divergência (devolução de hospitais às misericórdias, nalguma medida as PPP, integrar segurança social e saúde num único ministério). Noutras áreas as questões técnicas manterão a evolução, com mais ou menos soluços, como as questões de eHealth e mHealth (saúde digital é outro nome para essa evolução). A municipalização provavelmente ficará também mais pelas declarações do que pelas realizações.

Nos recursos humanos, não será complicado prosseguir com o desenvolvimento do papel do enfermeiro de familia, pois o ponto de desacordo está nas “revalorizações” salariais, em que quem estiver no governo quererá limitar à capacidade orçamental e quem estiver fora, incluindo organizações de profissionais – ordens e sindicatos, quererá sempre mais.

No modelo de financiamento global, a opção por financiar o SNS via impostos não é colocada em causa por nenhuma das forças políticas, e a verba destinada ao SNS dependerá da folga orçamental que o governo sentir. Não fará muita diferença quem esteja no governo, parece-me.

A principal ameaça virá da criação de despesa e de dívidas por as unidades de saúde, em particular os hospitais, se sentirem menos observados neste período e entrarem, como sucedeu recorrentemente no passado, em situações de gastar porque alguém irá pagar, e até lá não se paga à indústria farmacêutica (este problema é algo que reconheço me preocupa desde o final do século passado, sem ainda ter encontrado uma solução ou ter confiança que alguém encontrou a solução). O problema das dívidas, como escrevi várias vezes neste blog, é um problema de gestão e não apenas um problema de dar mais ou menos dinheiro. E em períodos de maior incerteza governativa será fácil voltar a realizar despesa sem saber se contribui realmente para melhorar a saúde da população, melhorar o acesso ou preparar a evolução do Serviço Nacional de Saúde.

O ponto de partida para criar actuações de consenso terá de ser um bom e permanente conhecimento do que se passa no SNS, e não apenas as ideias baseadas em observações casuísticas, ou de uma observação pessoal transformada em “verdade do sistema” (e é frequente isso suceder no campo da saúde).


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Se quiser usar os programas eleitorais sobre a saúde para decidir o seu voto…

(este é um post comum com o IPP – Instituto de Políticas Públicas Thomas Jefferson – Correia da Serra)

Há duas formas de olhar para os programas eleitorais dos partidos políticos (e várias coligações). Primeiro, olhar por temas, e ver para cada tema o que cada partido ou coligação apresenta como proposta. Segundo, ver onde estão as grandes semelhanças e grandes diferenças.

Decidi incluir nesta apreciação os programas eleitorais do PS, da PàF, da CDU, do Bloco de Esquerda e do Livre/Tempo de Avançar. O objectivo não é induzir qualquer orientação de voto, e sim dar informação sobre o que surgem como principais características das propostas de cada partido ou coligação, para que o leitor possa fazer a sua avaliação própria.

Começando pela segunda abordagem, é fácil identificar um conjunto de áreas de consenso, onde apesar das diferentes formas de escrever, as propostas coincidem em grande medida.

Todas defendem explicitamente o Serviço Nacional de Saúde (o que significa para cada um dos partidos poderá ser diferente, mas em termos de retórica sobre o grande modelo de organização do sistema de saúde português não há aqui divergência).

Também todos coincidem na importância de reforçar os cuidados de saúde primários, e uma maioria dos programas refere explicitamente o aumento do número de unidades de saúde familiar. Igualmente coincidem na importância e reforço dos cuidados continuados. Não é muito arriscado que terão coincidência de visão no papel dos genéricos.

As diferenças estão no papel do sector privado, rejeitado pelos partidos mais à esquerda do espectro político, mas não pelos dois maiores candidatos a ganhar as eleições.

O programa do PS tem uma preocupação maior com os aspectos de pagamentos directos das famílias, enquanto o programa PàF tem como elemento de maior diferenciação a saúde digital (o que é ainda mais expectativas do que realidades) e a utilização de mecanismos de mercado dentro do sector público. Mesmo que ambos os programas destes dois candidatos falem em liberdade de escolha, não é claro quais as consequências que retiram desse princípio.

Olhando agora por temas.

  • Cuidados de saúde primários – consensual o seu reforço e unanimidade.
  • Cuidados continuados – consensual o seu reforço e unanimidade.
  • Taxas moderadoras – propostas de eliminação por parte da CDU, Bloco de Esquerda e Livre. De alguma forma implícita no programa do PS quando refere os elevados pagamentos directos.
  • Hospitais – surgem aqui diferentes preocupações, que não são mutuamente exclusivas mas que revelam distintos pontos de interesse. O programa do PS destaca a gestão interna dos hospitais, enquanto o programa da PàF dá mais relevância a novos modelos de prática clínica e a ideia de crescente autonomia de acordo com os resultados alcançados. A preocupação com a gestão interna dos hospitais está também presente no programa do Livre. No caso da CDU não há uma ideia clara do que possa ser a intervenção. O Bloco de Esquerda tem como ponto central parar a devolução de hospitais às Misericórdias, o que deve ser incluído noutro ponto, relações entre sector público e sector privado.
  • No campo dos recursos humanos, os programas da CDU, Bloco de Esquerda e Livre enfatizam a revalorização salarial dos profissionais de saúde, sendo que o Bloco de Esquerda menciona ainda a exclusividade no exercício de funções no sector público. O programa do PS destaca-se pela menção à cooperação entre profissionais e o programa da PàF refere o enfermeiro de família. A diferença é menor do que parece nestes dois últimos casos, sendo a menção no programa do PS mais ampla ainda assim.
  • Medicamentos – defesa geral da utilização de genéricos, com indicação explícita nos programas do PS, da PàF e da CDU. Mas existem também diferenças. O programa do PS é o único a falar do acesso à inovação, com a preocupação de juntar a necessidade de rigor orçamental. O programa da CDU fala em acesso gratuito a medicamentos para doentes crónicos e o programa do Livre refere uso racional dos medicamentos e maior literacia (além da redução de copagamentos).
  • Nas questões de financiamento do Serviço Nacional de Saúde, há uma proposta concreta, do Bloco de Esquerda, de aumentar para 8,5% do PIB a verba disponibilizada ao SNS (resta saber o que diminui em contrapartida, ou se são aumentos de impostos que garantem este valor). O programa da CDU é mais prudente e refere apenas que deve ser o adequado, enquanto o Livre diz o mesmo, quando afirma que o financiamento deve ser o “suficiente”. Tem a proposta mais arrojada de retirar orçamento aos hospitais para dar aos cuidados de saúde primários (ficando por saber que serviços hospitalares são encerrados e onde, ou onde se diminui a actividade). O programa do PS refere o aumento do financiamento público reduzindo o privado, o que pode significar diferentes alternativas (que não são mutuamente exclusivas), como reduzir copagamentos nos medicamentos ou reintroduzir os benefícios fiscais para as despesas privadas em saúde. Globalmente, é mais interessante a primeira do que a segunda possibilidade. Não há uma explicitação do que pretende a coligação PàF neste campo, sendo provavelmente o mais simples assumir que é manter a situação actual de financiamento anual a partir do Orçamento do Estado.
  • Farmácias – são apenas mencionadas pelos Programas PàF e PS, ambos falando em valorizar o seu papel (expressão bastante vaga, e que não permite antecipar o que cada um fará caso seja eleito).
  • No papel dos cidadãos, o programa do PS e da PàF coincidem na ideia de introdução e desenvolvimento da liberdade de escolha, enquanto a proposta da CDU inclui a criação do estatuto do doente crónico (de forma consistente com a proposta no campo do medicamento). O Bloco de Esquerda fala em campanha de defesa dos direitos dos utentes do SNS, enquanto o Livre menciona apoio domiciliário, novos hábitos alimentares, e direitos dos utentes. Interessantemente, a referência aos novos hábitos alimentares remete também para o papel que os cidadãos devem ter na promoção da sua saúde (e prevenção da doença).
  • As relações público-privados apresentam diferenças importantes entre os vários programas. O PS fala em acompanhar as parcerias público – privadas (PPP), a CDU fala em terminar as PPP (suponho que seja resgatar? Ou não respeitar o contrato?) e rejeitar a gestão privada por princípio. O programa PàF tem dois aspectos centrais: papel das câmaras municipais e a devolução dos hospitais às Misericórdias. O Livre fala em parcerias locais, embora sem dar pormenores sobre como são estabelecidas essas parcerias e sobre quem recaem as obrigações financeiras. O Bloco de Esquerda apresenta uma proposta de imposto sobre vendas para apoiar a inovação.
  • Por fim, quanto às propostas que vão mais directamente à eficiência de funcionamento do SNS, há igualmente diferenças importantes entre as propostas. No caso do programa do PS há uma referência a modelos de governação baseados na melhoria contínua da qualidade. Para a PàF o elemento central é o pagamento por resultados e objectivos e a saúde digital. A CDU aposta na gestão pelos profissionais de saúde e suas organizações, e rejeita a municipalização (no que é um contraponto interessante à extensa experiência autárquica da CDU) e advoga a auto-gestão das unidades de saúde pelos profissionais de saúde. O Bloco de Esquerda alinha com este rejeitar da municipalização, e adiciona a realização de auditorias e aumento da autonomia dos agrupamentos de centros de saúde. O Livre tem uma opção diferente, falando em comunidades locais de saúde.

Aspectos positivos que destaco em cada programa eleitoral, no que têm de diferente: no caso do PS, a aposta na melhoria contínua da qualidade como forma de garantir eficiência no sentido de cuidados apropriados e permanentemente reavaliados; no caso da PàF, a atenção proposta aos cuidados paliativos, no que é acompanhada pelo Livre; no caso da CDU, o chamar de atenção para a saúde mental. No caso do Bloco de Esquerda, não identifiquei aspecto positivo distintivo face às restantes propostas.

Nos aspectos negativos, destaco, no caso do PS, a ideia de integrar a segurança social e a saúde (pois têm horizontes de intervenção muito diferentes, e problemas de natureza muito diferentes). Nas propostas da PàF, vejo como mais problemático o processo de devolução de hospitais às Misericórdias, caso ganhem um peso elevado no SNS. No programa da CDU, o que me preocupa é ignorar o papel dos “incentivos” (em sentido lato) que as respectivas propostas apresentam, como na gratuitidade absoluta na cedência de medicamentos e na auto-gestão pelos profissionais de saúde (na medida em que parece assumir que será sempre dado o dinheiro que for pedido, necessário ou não). No Bloco de Esquerda, a ideia de que basta gastar 8,5% do PIB, sem explicar como e porquê este valor, preocupa por ser fácil desaparecer o dinheiro (em aumentos salariais, por exemplo). Finalmente, relativamente ao Livre, preocupa a incerteza sobre o que significam as parcerias locais.

Em todos os casos, há um aspecto comum que é preocupante: todos falam no que querem alcançar, em objectivos, mas sem referir que restrições se defrontam e que escolhas ou prioridades estarão presentes se não for possível alcançar todos esses objectivos simultaneamente. Restrições neste contexto terão uma componente financeira, mas não exclusivamente. Existência de recursos humanos em termos de composição e dimensão poderão ser igualmente uma restrição activa a várias das medidas propostas. Todos os partidos são omissos quanto a este aspecto.

Uma visão complementar do André Peralta Santos está disponível aqui –  IPP – Instituto de Políticas Públicas Thomas Jefferson – Correia da Serra.


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Observatório mensal da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 17 – Setembro 2015)

Os valores da execução orçamental referentes a Agosto de 2015 têm um valor mais baixo da dívida dos hospitais EPE (gráfico 1). A evolução descendente do último mês mais do que compensou a tendência de subida anterior. O valor do mês de Julho estava acima do que seria previsível pela tendência de descida, e o de Agosto ficou abaixo. Em termos de valores tendenciais, não se rejeita que a evolução verificada no final do Verão de 2014 seja similar à que ocorre desde abril, com um ritmo de descida que tem uma estimativa pontual de -9 milhões de euros por mês, embora não a variação que tem tido não exclua que seja nula em média (por conta dos dois meses de acréscimo que estão incluídos neste período). Apesar de tudo, o ano de 2015 teve, neste campo das dívidas dos hospitais EPE, uma evolução global mais favorável que o ano de 2014. Resta saber o papel que os diferentes reforços financeiros foram tendo, uma vez que sendo realizados de forma mais suave e sob diferentes nomes tiveram também um efeito mais diluído. A hipótese alternativa é que se começam a ver mudanças reais neste campo. Com a informação que tenho disponível não é possível fazer uma escolha entre as duas interpretações.

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e passando à “concorrência” nos programas eleitorais

o comentário de hoje é dedicado ao programa “PàF”, por enquanto nos aspectos relacionados com o sistema de saúde e o Serviço Nacional de Saúde.

A referência às apostas no SNS são as habituais, falando-se em sustentabilidade, competitividade, excelência e condições de exercício de liberdade de escolha. Sobre sustentabilidade, seria interessante que apresentassem uma definição do que entendem por esse conceito e como irá guiar a política pública.

Competitividade é também um conceito interessante neste campo, porque havendo regulação de preços, imposição de atendimento e regulação de qualidade, não é claro o que significa competitividade do Serviço Nacional de Saúde (ou das unidades que prestam cuidados de saúde) e quais as implicações da falta de competitividade (saída, via falência ou venda, na actividade económica em geral, duas alternativas que não estão tradicionalmente disponíveis no SNS).

Quanto às condições de exercício de liberdade de escolha, é necessário saber onde quando e como se pode ter, e sobretudo ter em conta que concorrência permite esse exercício, mas que ele também pode existir sem concorrência (ou pelo menos concorrência nos aspectos mais habituais de preço e qualidade). Sobre o exercício de liberdade de escolha, a sugestão de leitura do recente documento do Expert Panel on Efficient Ways of investing in Health sobre este tema precisamente (aqui), para se perceber melhor o papel de liberdade de escolha e o que são as condições necessárias para que possa funcionar em conjunção com o aspecto de concorrência (e sempre que há liberdade de escolha, tem que haver escolha, se há escolha há alternativas que concorrem entre si, e o que se torna crucial é saber em que variáveis se faz essa concorrência e que instrumentos as unidades de saúde têm para concorrer, explícitos ou implícitos).


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Mobilidade transfronteiriça de doentes

Hoje surgiu no Público uma notícia sobre a (falta de) mobilidade de doentes portugueses no espaço europeu, num trabalho da Alexandra Campos (ver aqui). A pouca mobilidade de doentes entre países não é uma surpresa por si mesma, apesar de frequentemente se falar em turismo de saúde (mais na perspectiva de Portugal receber doentes, mas obviamente que se pode colocar também a questão de os portugueses irem receber tratamentos noutros países) e de ter sido publicada uma directiva na União Europeia que pretende facilitar esses fluxos.

Para uma discussão sobre turismo de saúde (turismo médico, mais exactamente), sugiro o recente Handbook on Medical Tourism and Patient Mobility, e para o papel da Directiva Comunitária sugiro a também recente Opinião do Expert Panel for Effective Ways of Investing in Health. Por fim, embora menos recente, é útil rever o documento da Entidade Reguladora da Saúde sobre o tema.

Essencialmente a mensagem é que mobilidade internacional de doentes é mais complicado do que parece, em termos de vantagens, desvantagens, condições necessárias para que seja efectiva e efeitos que pode produzir nos sistemas de saúde.


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para discussão, no diário económico

Solidariedade e pagamentos na saúde

Em período de aproximação às eleições legislativas, é útil recordar princípios e ideias que ajudem os eleitores a olhar para os programas partidários.

Tomemos a área da saúde e alguma atenção recente que houve para com os pagamentos diretos feitos pelos doentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS). A existência de mecanismos solidários de proteção, como o SNS em Portugal, procura garantir que há acesso aos cuidados de saúde necessários em tempo útil e na medida adequada. Outros países adoptaram soluções diferentes mas Portugal não está de forma alguma isolado nesta escolha.

O elemento central desta proteção é a recolha solidária de contribuições, feita sobretudo por impostos em Portugal (e nos outros países com o modelo de serviço nacional de saúde). Significa esta opção que cidadãos com maior rendimento contribuem proporcionalmente mais e que o pagamento de contribuições desta forma leva também a uma redistribuição de recursos de quem está saudável para quem esteja doente. A natureza do financiamento solidário, contra a incerteza quanto a despesas futuras e inesperadas de saúde, não dá espaço para princípios, populares noutras áreas, como o utilizador-pagador.

Porque existem então pagamentos feitos pelo cidadão/doente quando recorre a serviços públicos de saúde, se é suposto serem pagos pelos impostos de todos? O motivo está na necessidade de evitar desperdício na utilização de serviços que têm de ser pagos, em que desperdício significa não contribuir para a melhorar a saúde. A denominação de taxas moderadoras usada em vários casos procura precisamente transmitir essa noção, de evitar usar serviços quando o benefício resultante é baixo e o custo é suportado por todos.

Deste princípio retira-se então que pagamentos feitos pelos doentes quando utilizam o SNS devem ter apenas lugar quando ajudem a “orientar” a utilização dos serviços de saúde. Quando não há escolha do cidadão, o pagamento que este tenha de fazer quando está doente, para ter acesso a um meio de diagnóstico ou a uma terapêutica, é unicamente uma penalização financeira da sua condição de doente, a acrescer à natural fragilidade que a situação em si já implica.

A natural tendência da discussão pública é para se centrar em aspectos como saber quantos portugueses não têm médico de família e em quantos anos se resolve esse problema. Contudo, convém não deixar de fora do debate os aspectos de arquitetura financeira e de pagamentos.

As taxas moderadoras e os outros pagamentos feitos pelos doentes no momento em que utilizam cuidados de saúde são um instrumento, não um fim ou um princípio em si mesmo. E como instrumento temos que atender ao seu objectivo, influenciar decisões. Se as decisões não são dos doentes, então o seu papel como instrumento é nulo. Por exemplo, quando se paga uma taxa moderadora num serviço de diagnóstico cuja decisão que originou o seu uso foi do médico, não há esse papel de orientação de utilização. Já na ida a uma urgência hospitalar, por iniciativa própria, sem haver primeiro um contacto com o centro de saúde ou com a Linha Saúde24, é natural que seja cobrada uma taxa moderadora (e mais elevada do que se a decisão for ir a uma consulta não programada no centro de saúde). Normalmente, contemplam-se os casos de restrição financeira que impeçam a utilização de serviços quando há necessidade com isenções de pagamento, dando assim a primazia ao aspecto de proteção solidária.

Sendo os valores destes pagamentos em Portugal dos mais elevados no contexto da OCDE, sobretudo com medicamentos (e apesar da forte baixa de preços observada nos últimos anos), o tempo de um novo Governo, qualquer que seja o vencedor das próximas eleições, dará uma oportunidade para se reverem as áreas e os valores que são praticados. Os princípios para essa revisão são, de um lado, a proteção solidária contra despesas de saúde inesperadas, e, por outro lado, o papel instrumental que possam ter nas decisões de utilização. Não será este aspecto que resolverá os problemas e desafios que se colocam ao Serviço Nacional de Saúde. No entanto, um sistema bem pensado destes pagamentos poderá ajudar a cumprir melhor os objectivos do Serviço Nacional de Saúde.


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Observatório mensal da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 16 – Agosto 2015)

Devido ao período de férias, junto desta vez dois meses no habitual observatório mensal da dívida dos hospitais EPE. Principal novidade: enquanto o valor de Junho veio na continuação dos meses anteriores, o valor do mês de Julho (acréscimo de 26 milhões de euros) encontra-se mais próximo da tendência histórica de evolução da dívida dos hospitais EPE (uma vez descontados os efeitos das regularizações extraordinárias), tendo subido 26 milhões de euros de Junho para Julho. O ritmo histórico desde 2012 é estimado em cerca de 32 milhões de euros/mês. Ainda assim, não se pode falar já em inversão da tendência favorável dos últimos meses, numa visão optimista.

Os gráficos seguintes ilustram a evolução da dívida (no gráfico 1, os valores nominais; no gráfico 2 assinalam-se as tendências, depois de testada a igualdade entre diversos intervalos). As regressões reportadas mostram as estimativas de tendência até Junho de 2015, primeiro, e até Julho de 2015, depois. O efeito de adicionar Julho de 2015 é claro – o que parecia ser uma tendência de redução da dívida dos hospitais EPE de 8 milhões de euros/mês passou para uma redução de 2 milhões de euros.

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Pacto para a saúde, conselhos consultivos e o seu papel para uma melhoria do funcionamento dos hospitais

No dia 5 de Junho (de 2015) realizou-se uma sessão do Ministério da Saúde dedicada aos Conselhos Consultivos de Hospitais e Unidades Locais de Saúde.

Não tendo tido a possibilidade de assistir a todas as sessões, irei comentar alguns aspectos do que ouvi (o que pode ser injusto para quem teve intervenções nas outras sessões).

Houve a defesa da ideia de um pacto para a saúde, com base numa lógica de imperativos de sustentabilidade. Nesses foram focados a) inovação tecnológica – novas tecnologias dispendiosas (comentário que acrescento: no preço, e não necessariamente no custo de produção); b) consciência social – mas afecta mais uns que outros (sectores vulneráveis e carenciados, que não têm a alternativa de ir ao sector privado); c) cidadania – política de saúde promove e defende o cidadão e a sua intervenção na sociedade. A frase chave foi que um pacto para a saúde é mais do sustentabilidade, é condição de sucesso e de qualidade da democracia.

O desenvolvimento natural é perguntar onde deve incidir um pacto sobre a saúde, e aqui foram apresentadas quatro linhas: 1) modelo de financiamento do serviço nacional de saúde – questão angular de qualquer reforma nesta área [comentário; mas discutir as fontes de financiamento não motiva, e não resolve necessariamente]; novo modelo de pagamento assente em resultados, premiando ganhos em saúde, premiando práticas que geram eficiências. Também foi questionado se não será necessário diferenciar em função dos rendimento da população? [Comentário: a resposta é não, a redistribuição faz-se através do sistema tributário, pelo pagamento antecipado de acordo com o rendimento, não com o pagamento no momento de necessidade – a menos que se prove que a sensibilidade ao preço no momento de utilização é muito diferente para quem elevados rendimentos e para quem tem baixos rendimentos, e que há um excesso de utilização muito maior pelos cidadãos de elevados rendimentos que necessita de ser contido – o argumento para pagamentos no momento de necessidade é de eficiência e não de equidade.] 2) prevenção para a saúde – apostar na prevenção [Comentário: todos estamos de acordo, mas como se deve estruturar o sistema de pagamento para assegurar esse resultado? ]; 3) liberdade de escolha – é um princípio que a retórica acolhe, a prática desvaloriza. É uma orientação que avança em três linhas: liberdade do cidadão, acentua a responsabilidade do cidadão, e leva a uma cultura de concorrência dentro do SNS [comentário: com a lógica de concorrência dentro do SNS, a questão crucial é o que se faz aos prestadores – hospitais, por exemplo, que não conseguem responder a essa concorrência. Como se encerra? Numa visão mais geral, é necessário pensar que a concorrência é um instrumento, permite alguns objectivos mas não permite todos os objectivos que um sistema de saúde tem. Um só instrumento tem dificuldade em alcançar simultaneamente muitos objectivos diferentes. Introduzir com gradualismo e ponderação é uma posição sensata]; 4 Avaliação isenta, permanente e independente das políticas de saúde. Não chega metas e objectivos. É preciso prestar contas e avaliar resultados. Não é por serem públicas que estas políticas deixam de poder ser escrutinadas [Comentário: até porque no sector privado, a capacidade de escolha permite fazer isso automaticamente; até certo ponto este quarto aspecto vem trazer um certo cepticismo a que apenas a concorrência consiga resolver todos os problemas de sustentabilidade de um sistema de saúde.]

Um pacto para a saúde (ou mais alargado) não é uma tarefa fácil. Sobretudo se não for apenas uma cartilha de meras intenções. É importante o momento de estabelecer o pacto. Tem que ser feito no início da legislatura (o que de estrutural se faz é nos dois primeiros anos do mandato – legitimidade e energia criativa são mais fortes).

Uma outra intervenção salientou que é ilusório pensar que a solução consiste apenas em aumentar o financiamento da saúde. A sustentabilidade só pode ser garantida com 5 condições: população saudável; comunidade coesa que desenvolva redes informais de cuidados; politicas e práticas de saúde integradas nas restantes politicas sociais económicas e educativas do estado; ausência do desperdício e centrado no cidadão; profissionais em número adequado e com capacidade de funcionamento em equipas multidisciplinares. Não poderá ser uma situação em que o cidadão é apenas recipiente do que o Serviço Nacional de Saúde organiza para lhe dar. Retoma-se aqui o que está expresso no Relatório Gulbenkian.

Frase emblemática: “Como poderá o SNS enfrentar a modernidade, tão imprevisível na suas mudanças, tão cruel nas suas desigualdades, e ser mais ágil nas suas respostas, mais vigilante na sua responsabilidade ética. É o que se deve exigir ao SNS, para cuidar dos seus cidadãos desde nascimento até ao fim dos seus tempos.”

Por fim, foi acentuada a necessidade de melhoria da governance e o contributo que os conselhos consultivos podem ter para essa melhoria. No caso dos hospitais, estes são com frequência dos principais empregadores das regiões onde estão. Deve-se olhar para os hospitais como empresas da maior complexidade.

A este propósito, desenvolvi algumas ideias na coluna netfarmaNotas da Nova” em que os investigadores do Nova Healthcare Initiative – Research participam:

Conselhos consultivos e o Serviço Nacional de Saúde Numa sessão recente do Ministério da Saúde, foi acentuada a necessidade de melhoria do modelo de governação das instituições que prestam cuidados de saúde no Serviço Nacional de Saúde, bem como o contributo que os conselhos consultivos podem ter para essa melhoria.    No caso dos hospitais, estes são com frequência dos principais empregadores das regiões onde estão, senão mesmo o principal. A ideia de que se deve olhar para os hospitais como empresas da maior complexidade surge então naturalmente. Poucas empresas em Portugal lidam com centenas de milhões de euros por anos, milhares de pessoas como recursos humanos e como utilizadores nas suas instalações.   Apesar da naturalidade dessa comparação, na verdade, gosto de propor uma outra forma de pensar, outra analogia – o hospital como “mercado” onde um conjunto de agentes procura recursos (os médicos) e outro conjunto oferece recursos (a administração), não havendo preço mas negociação nessa relação. A analogia com um “mercado”, e não com uma empresa, resulta de haver duas cadeias de autoridade dentro do hospital, e não apenas uma como nas empresas. Por um lado,  a hierarquia médica, que define os tratamentos e solicita recursos para cumprir os objectivos assistenciais. Por outro lado, a administração, hierarquia administrativa, responsável por um orçamento global, e que disponibiliza os recursos necessários para os tratamentos.   Uma consequência desta analogia é que para perceber em que medida as instituições de saúde cumprem, de forma eficiente ou não, o seu papel é necessário que estas duas partes se relacionem da melhor forma possível.    Não é só necessário que a decisão de cada profissional de saúde seja a melhor possível. É também necessário que a gestão das instituições consiga garantir os recursos necessários no momento adequado, e de uma forma que faça um balanço entre as diferentes solicitações que recebe.    A atenção à qualidade da gestão intermédia nas unidades prestadoras de cuidados de saúde é um fator que pode contribuir para um melhor desempenho assistencial do Serviço Nacional de Saúde. Compreender melhor o contexto dessa gestão é, por isso, essencial. Curiosamente, na discussão pública sobre recursos humanos na saúde, a qualidade da gestão e a avaliação dessa qualidade de gestão é normalmente ignorada.    Provavelmente, faz mais diferença do que se pensa, pois os ganhos de eficiência que todos dizem querer ter no Serviço Nacional de Saúde para ajudar à sua sustentabilidade dependem de muitos pequenos passos que têm de ser definidos e aplicados pela gestão intermédia das instituições.   Se os conselhos consultivos criados ajudarem as organizações (os hospitais, desde logo) a olharem para a qualidade da sua gestão, então darão um importante contributo para uma maior eficiência do Serviço Nacional de Saúde.

(A coluna Notas da Nova é uma contribuição para a reflexão na área da saúde, pelos membros do centro de investigação Nova Healthcare Initiative – Research. São artigos de opinião da inteira responsabilidade dos autores) – See more at: http://www.netfarma.pt/artigo/notas-da-nova-conselhos-consultivos-sns-pedro-pita-barros#sthash.2uBb3wdE.dpuf