Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time


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Sol, por fim,… para a série “janela do posto de trabalho” (3)

Não, não é publicidade ao jornal com o mesmo nome. É mesmo almoço no local de trabalho, pela primeira vez ao ar livre este ano. Sem teorias ou interpretações económicas. Só mesmo aproveitar o Sol. Não é da janela do posto de trabalho propriamente, mas lá muito perto.
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à descoberta

de uma base de dados sobre desigualdades de rendimento  (mais exactamente índice de Gini) no mundo, a propósito de um post facebookiano de Pedro Magalhães (a quem agradeço a chamada de atenção para esta base de dados); resulta daqui um texto “nerd” (mais do que o usual).

Assim, de repente, e acreditando que os valores para Portugal são correctos (não fui verificar, comparando com outros cálculos do índice para Portugal), quando se compara desigualdade (valor maior do índice)  com rendimento (PIB ou rendimento disponível), não se encontra relação; quando se compara a redistribuição realizada por impostos e transferências com taxa de crescimento do PIB per capita, quando se cresceu mais foi quando se redistribuiu menos e aumentaram as desigualdades, mas olhando para o perfil temporal, vê que é por conta do que sucedeu nas décadas de oitenta e noventa do século XX; desde o inicio do século XXI que a redistribuição se manteve a níveis elevados; não infiro daqui qualquer causalidade, fica para reflexão a explicação destes valores. (os dados sobre PIB, rendimento disponível e taxa de crescimento do PIB per capita foram retiradas do site PORDATA).

Screen Shot 2014-02-28 at 10.10.06 Screen Shot 2014-02-28 at 10.09.11 Screen Shot 2014-02-28 at 10.07.28

Screen Shot 2014-02-28 at 10.47.21Screen Shot 2014-02-28 at 10.26.59Definições (copiadas do texto original do autor)

gini_net: Estimate of Gini index of inequality in equivalized (square root scale) household disposable (post-tax, post-transfer) income, using Luxembourg Income Study data as the standard.

gini_market: Estimate of Gini index of inequality in equivalized (square root scale) household market (pre-tax, pre-transfer) income, using Luxembourg Income Study data as the standard.

redist: Estimated percentage reduction in market income inequality due to taxes and transfers: the difference between the gini_market and gini_net, divided by gini_market, multiplied by 100.


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mira o miró

felizmente há sempre coisas surpreendentes neste país; a discussão sobre os quadros de Miró é um deles. Demonstra também duas características nacionais: a incapacidade de pensar racionalmente sobre as decisões; e a confiança no improviso, que se é boa num pequeno número de casos, é-nos prejudicial em muitos outros. Fui lendo várias das coisas que foram ditas e escritas, e até tinha pensado que não valia a pena comentar, só que o arrastar do “caso” afinal merece um comentário. Vou “roubar” ideias e informação de vários sítios, sem estar com a preocupação de voltar a encontrar a fonte original-

Incapacidade de ser racional nas decisões – o apelo a manter os quadros em Portugal surge mais emotivo do que outra coisa; o que seria a reacção das mesmas pessoas que mais defendem a manutenção dos quadros se o Governo anunciasse que iria comprar esta colecção, como prioridade para a economia nacional? o meu palpite é que diriam que o Governo tem mais com que se preocupar, que esta “compra” não resolve os problemas do desemprego jovem, e que há ainda os custos de manutenção da colecção. Ou seja, consoante o ponto de partida, querem uma coisa ou o seu oposto. Mas a decisão racional é olhar para friamente ter de um lad custos de manutenção e receitas da eventual exposição dos quadros, e do outro lado a receita da venda actual dos quadros. Qual é maior? não sei, mas seria interessante ter as contas. Claro que há ainda a opção de manter os quadros para vender mais tarde, e nesse caso, quer-se especular (investir) em arte. Três alternativas, calcule-se o valor de cada uma (e se quiserem incluir a “felicidade” de ter os quadros em Portugal, valorizem, perguntem a cada português quanto está disposto a pagar por ano para ter cá a colecção – pode ser feito por amostragem). Claro que há também uma outra solução – alguém coordenar uma recolha de fundos em Portugal para serem os Portugueses que a valorizam a comprar a colecção e a fazer a sua manutenção. Isto é, não seria o momento de tanta indignação “privada” se transformar em acção “privada”? como nem isso parece estar a ocorrer, é fácil pedir decisões públicas com o custo repartido por todos e cobrado pelo Estado.

Desenrascanço e burocracia – a história que se vai sabendo das autorizações pedidas e não pedidas, da intervenção dos tribunais e por fim da decisão da leiloeira de evitar problemas legais futuros com o cancelamento da venda só demonstra a incapacidade nacional de cumprir decisões (aparentemente a decisão de venda estava tomada há muito). Que o processo tenha estes contornos é reflexo da nossa forma de trabalhar. Que a leiloeira tenha decidido da forma que o fez é sinal de que se queremos fazer parte de um mundo global, temos que estar preparados para que os outros queiram trabalhar de forma diferente.

E no fim deste lamento, a minha escolha, se a tivesse nas mãos, seria mesmo vender os quadros (desde que não fosse a alguém financiado pela CGD, como sugerido num texto que li algures, em tom de ironia). Se se quiser mesmo usar uma verba daquele montante em valorização do património cultural de Portugal, haverá outras formas de o usar provavelmente até de mais fácil rentabilização (restaurar e manter monumentos nacionais que sejam visitados nos dias de hoje por turistas, por exemplo).


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desigualdades legítimas e ilegítimas – o imposto de 75% em França

Num interessante artigo de João Cardoso Rosas no Diário Económico, entitulado “imposto a 75%”, da análise da proposta francesa de tributar os rendimentos anuais acima de 1 milhão de euros (taxa marginal, apenas aplicável ao que exceder esse valor), a desigualdade é apresentada como “legítima” por João Cardoso Rosas  “na medida em que permita a existência de um sistema de incentivos sociais” e afirma ainda que “se as desigualdades são justificadas desta forma – e não há nenhuma outra plausível para as justificar” então o imposto de 75% faz sentido.

Ora, é sobre este último aspecto que tenho dúvidas em geral. Primeiro, porque estamos a olhar apenas para um indicador – rendimento gerado num ano que passa pelo sistema de impostos. Rendimento não é equivalente a riqueza, e nem tudo o que é “retorno económico” passa pelo sistema de impostos, ou pelo menos não passa da mesma forma. Uma propriedade agrícola que tenha produtos que são consumidos pelos seus proprietários não passa pelo mercado, não gera rendimento tributável embora gere retorno económico. Não é que esta seja uma situação frequente ou qualitativamente importante; ilustra apenas que rendimentos sujeitos a imposto não são uma medida completa para analisar desigualdades. Pode ser a melhor que temos, mas daí não a podemos tomar como moralmente absoluta e fonte de legitimidade.

O segundo aspecto sobre as desigualdades de rendimento é que podem ser o resultado de escolhas livres e lícitas de cada pessoa. Para um exemplo simples, suponhamos duas pessoas, com formação que lhes permite ter exactamente as mesmas duas oportunidades de rendimento: a) trabalhar 16 horas por dia, com rendimento bruto de 8,000 euros, e b) trabalhar 7 horas por dia com rendimento de 3,000 euros por mês. (os valores são apenas para ilustração)

Será que é lícito criticar a opção de umas pessoas por a) e de outras por b)? Se uns escolherem a) e outros escolherem b), temos desigualdades de rendimento, mas também desigualdades de tempo de trabalho – porque devem ser as primeiras removidas por tributação, mas não as segundas? É aqui que não sigo o princípio de legitimidade de João Cardoso Rosas em dizer que apenas os incentivos sociais justificam desigualdades de rendimento. Se essas desigualdades resultarem de escolhas diferentes por haver preferências diferentes para um mesmo conjunto de oportunidades, porque não são legítimas?


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Sanfil e reportagem da SIC

Na semana passada tive a oportunidade de comentar uma reportagem da SIC sobre uma empresa na área da saúde de Coimbra, a Sanfil, que surgiu nos holofotes mediáticos por esta via. O comentário na SIC está aqui.

Alguns comentários complementares:

a) não há mal em si em empresas privadas crescerem na área da saúde; neste caso, houve primeiro crescimento orgânico (expansão das actividades) e depois por aquisição;

b) os processos produtivos de cuidados de saúde devem ser escrutinados, sejam no sector privado ou no sector público – embora haja que fazer distinção entre má prática e fraude

c) problemas com trabalhadores em processos de aquisição não são uma novidade, em qualquer área económica, nomeadamente nas empresas adquiridas e cujos dirigentes são frequentemente substituídos; é preciso distinguir nestes processos o que são relações laborais difíceis de má gestão e de prática clínica desadequada;

d) a facturação excessiva na prestação de cuidados de saúde é uma prática demasiado fácil, cá e em qualquer outro país; no caso desta notícia, importa conhecer se foi uma prática pontual ou generalizada. Quando há facturação explícita, é necessário acompanhar com verificação e auditorias  regulares (qualquer que seja a natureza dos prestadores);

e) importa saber se os problemas relatados se traduziram em problemas nos cuidados prestados aos cidadãos, sendo um primeiro ponto de informação conhecer se houve queixas dos cidadãos tratados na Entidade Reguladora da Saúde;

f) a informação de que existe um parecer sobre “reserva de monopólio” sobre relações com o sector público (SNS) revela um aspecto relevante – este problema é relatado no contexto de uma luta empresarial entre entidades privadas; de qualquer modo, essa “reserva” em si mesmo não tem qualquer razoabilidade do ponto de vista económico (e legal, se atendermos à legislação de defesa da concorrência), pois a promoção de alternativas de escolha é também contrária a esta ideia de “reserva” (empresas privadas fazerem investimentos não garante a obrigatoriedade do sector público garantir a procura).

No final, resulta que as menções a prática de prestação de cuidados ou serviços desadaptada devem ser analisadas e que provavelmente se está a assistir a uma concorrência entre entidades privadas que se tornou feroz e utilizando “instrumentos” não-económicos.

Veremos depois em que dará isto tudo.

 


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Sorteios e facturas

A ideia de sortear carros com base nas facturas pedidas pelos consumidores que aparentemente vai ser usada em Portugal (de acordo com o que está no site do ministério das finanças – ver aqui) é, à primeira vista, estranha por misturar dois mundos que raramente associamos – a sisudez fiscal com os jogos de sorte e de azar.

Esta ideia de associar sorteios ao cumprimento de obrigações fiscais surgiu recentemente da literatura sobre comportamento humano em ambientes económicos (a chamada economia comportamental). Diversos estudos têm mostrado a capacidade de pequenas alterações no enquadramento das decisões individuais produzirem resultados que a mera imposição de regras ou obrigações não é capaz, e a utilização de lotarias ou sorteios é uma dessas “pequenas” alterações. A ideia em si mesma não é originalidade portuguesa (leia-se aqui).

Apesar do atractivo que a ideia em si mesma tem e de se terem verificado efeitos de mudança de comportamento, a minha preocupação com esta aplicação em Portugal é que forma os portugueses vão encontrar para “jogar” com o sistema, ou melhor aproveitar o sistema montado de forma a maximizar as suas possibilidades de ganhar. Por exemplo, se cada factura dá direito a uma entrada para o sorteio, então o incentivo a desmultiplicar facturas é imenso – cada item comprado num supermercado deveria dar lugar a uma factura diferente porque corresponde a mais uma entrada para o sorteio.

Estou já a pensar pedir factura por cada item adquirido – por exemplo, os 30 cêntimos de cada pão adquirido poderão ter a sua facturinha. Estou já a ver os efeitos no emprego nas caixas dos supermercados se cada cliente quiser uma factura por item das compras do mês, na indústria do papel, na indústria dos servidores de computador, na indústria de… (adicionar o que se lembrarem).

Provavelmente vai haver alguma afinação das regras, mas se for limitado o número de entradas por pessoa para evitar este comportamento “abusivo”, também o incentivo a pedir a factura diminui. Por exemplo, se for limitado a um número fixo de entradas, depois de alcançado esse número não há interesse em pedir mais facturas. Estou curioso por saber como este incentivo (perverso?) de desmultiplicação de facturas será tratado.

(e claro também curioso de saber se será sorteado um Tata, um carro chinês, um carro alemão …)


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chegou ao fim

o blog de Pedro Lains, que durante cinco ano nos fez reflectir sobre a crise económica e as opções adoptadas. Concordando-se, ou não, com as suas posições, o Pedro sempre teve uma escrita clara e com posição definida sobre os diversos assuntos do dia. É com pena que o vejo fechar o blog. Deixou uma colectânea dos posts disponíveis em pdf para quem quiser rever e ter uma ideia da cronologia dos acontecimentos.

Tenho a esperança de que o o titulo mais adequado para este post seja “chegou ao fim (por agora)” e que o Pedro retome um dia a regularidade da escrita.

É certo que todos os projectos devem ter um começo e um fim, embora a lógica de “divulgação científica e discussão perante um público mais alargado” (como escreve o Pedro Lains no seu último post) rapidamente evolua de projecto para quase diário pessoal. A regularidade da escrita de um blog individual rapidamente choca com a necessidade de tempo para pensar de forma original, e de mini-ensaios passa-se facilmente ao comentário. Mas um comentário informado que nos faça pensar é também útil, mesmo que não respeite todo o rigor que se tem na escrita de textos académicos.

A experiência do Pedro e a sua presença na blogosfera foi um dos aspectos que me levaram a abrir este blog, pelo que não podia deixar de referir aqui a sua retirada (temporária?).

Curiosamente, não consegui encontrar de forma rápida estatísticas sobre nascimento e morte de blogs portugueses de análise económica, nem a sua vida média, para ver se estes cinco anos foram longos ou curtos em comparação com outros blogs de economia. Se alguém conhecer ou tiver disponível essa informação, ou link, adicione via comentários.


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2013 in review, estatísticas sobre o blog, cortesia do wordpress

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2013 annual report for this blog.

Here’s an excerpt:

The Louvre Museum has 8.5 million visitors per year. This blog was viewed about 80,000 times in 2013. If it were an exhibit at the Louvre Museum, it would take about 3 days for that many people to see it.

Click here to see the complete report.


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termina 2013, inicia-se 2014, Bom Ano Novo a todos

O fim do ano é sempre fértil em balanços do ano que acaba e previsões para o que se inicia. Sobre 2013 e para 2014, é complicado ser original na avaliação do que passou e na antevisão do que será a economia portuguesa. E há também os desejos que possamos ter.

O ano de 2013, no final, acabou por ser menos penalizador do que poderia ter sido. Não foi um ano fácil para a população portuguesa. Apesar disso, o emprego cresceu ligeiramente nos últimos seis meses, o que é um sinal positivo, e o consumo decresceu menos do que tinha sucedido um ano antes. Mas ainda se esteve longe de ultrapassar os problemas. Foi ainda um ano marcado pela acção do Tribunal Constitucional, que ainda assim não motivou uma discussão mais séria das opções disponíveis. Apesar de várias reflexões e propostas, de diferentes origens, a capacidade da sociedade e dos partidos políticos reflectirem e realmente argumentarem de forma sustentada sobre essas ideias esteve muito aquém do que é necessário e desejável.

Para 2014, as atenções estão todas focadas no final do programa de ajustamento, e na evolução das contas públicas e necessidade, ou não, de programa adicional, ou de rede de segurança (o dito programa cautelar). Como país, será quase inevitável que haja uma obsessão com o final formal do programa de ajustamento. O “quase” resulta de haver um campeonato do mundo de futebol no início do Verão que irá captar o interesse geral durante umas semanas.

A respeito dos desejos para 2014, um primeiro desejo referente ao ambiente político – que não se repita a crise do final da Primavera de 2013, que deitou fora, em imagem para o exterior, a reputação de estabilidade governativa. O segundo desejo, no campo da economia, é que a procura de produtividade seja um objectivo genérico na sociedade portuguesa, nas empresas e na administração pública, nas instituições públicas e nas instituições privadas com e sem fins lucrativos. O bom comportamento das exportações, forçado pela necessidade de sobrevivência de empresas que antes se centravam no mercado doméstico, terá limites se não houver aumentos de produtividade. A consolidação das contas públicas terá ficado aquém do que é preciso, no final do programa de ajustamento, se não motivar também um melhor funcionamento do Estado (e a reforma do Estado parece ter ficado “morta” num guião imediatamente votado ao esquecimento). Vai-se falar em competitividade e até no novo banco de fomento, mas se não houver aumentos de produtividade, seja por se desenvolverem com maior vigor  actividades mais produtivas seja por se realmente aumentar a produtividade no que é feito, pouco adiantará.

A noção de que todos os problemas de produção em Portugal se resume à falta de acesso a financiamento por parte das PME é até certo ponto perigosa. Poderá haver essas dificuldades, não contesto, mas resolver essa restrição não deve ser feito à custa da qualidade e da rentabilidade que os projectos financiados devem ter. O desafio da produtividade será pelo menos tão crucial para o futuro como o desafio político de estabilidade. A forma de responder ao primeiro destes dois desafios é porém muito menos clara, e sobretudo não será compatível com “planeamento central”, mesmo que que “gerido” com um banco de fomento.

2014 terá que ser um ano onde além da macroeconomia (temas como défice público, dívida pública, desemprego) se volte a dar atenção à microeconomia (produtividade, incentivos a investir em projectos com rentabilidade privada e social, distorções de funcionamento da economia que acarretem menor crescimento).

Objectivo de produtividade deste blog, atingir os mil posts no final de 2014 (actualmente: 749 contando com este)!

Ah, e já me esquecia da previsão favorita dos últimos anos, sobre o destino do euro: não será em 2014 que o euro se desintegra ou que Portugal sai do euro.

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países e blog

O programa de gestão do blog tem uma funcionalidade que indica, quando consegue identificar, o total de visitantes do blog oriundos de cada país.

Sendo este blog escrito em Português, a maioria das visitas vem cá de dentro, e as de fora suponho que sejam sobretudo de portugueses por aí espalhados, com talvez excepção do Brasil. Curioso o top ten (desde Fevereiro de 2012) e na distribuição mundial ainda faltam alguns países.

Já sigo com a continuação da análise do guião da reforma do Estado (nunca mais acaba… mas agora é uma questão de teimosia levar até ao final o comentário).


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