Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time


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feriados, quanto valem…

hoje é um dos feriados a ser suprimido no próximo ano a bem da economia.

Feriado também pode ser sinónimo de dia de trabalho sem interrupções, pelo menos para alguns.

Hoje, parte do dia foi dedicada a um trabalho em curso, de curiosidade, sobre o que é o impacto económico de acordo com os dados de se ter mais ou menos feriados. Como temos tido ao longo dos anos diferentes trimestres com diferente número de feriados em dias úteis, pode-se ver se a actividade económica, depois de controlados outros factores, é menor e em quanto é menor por se ter mais feriados.

A questão é relevante porque a primeira ideia é aproximar o efeito dos feriados pelo PIB médio por dia, mas se houver o que tecnicamente chamamos rendimentos marginais decrescentes, essa aproximação pode ser desadequada, e a contribuição de mais um dia de trabalho ser inferior ao valor médio. A verificar-se essa situação significa também que os indicadores futuros de produtividade, como PIB por hora trabalhada vai baixar mesmo que o PIB por trabalhador aumente – o acréscimo por hora trabalhada adicional é inferior ao valor médio, pelo que a nova média baixa. E depois venham queixar-se que os portugueses reagiram mal à crise trabalhando menos! Será um resultado inevitável desta característica das economias – a partir de certa altura, os ganhos de produtividade adicionais são progressivamente menores.

As contas ainda vão a meio, mas os resultados preliminares apontam para este tipo de situação – valor marginal da produção dos dias feriados ser inferior ao valor médio.


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as previsões do crescimento para 2013

têm sido objecto de debate aceso por vários comentadores e actores políticos.

A primeira linha de comentários tem sido sobre se as previsões apresentadas nos documentos do Orçamento do Estado de 2013 são credíveis.

A segunda linha de observações foca no novo “menino querido” da discussão, o “multiplicador” – isto é, quanto é que da contracção da despesa pública se traduz em contracção da economia.

A terceira linha foca nos sinais positivos vindos das contas com o exterior, com a redução do défice comercial, sobretudo com redução das importações, ainda que haja um aumento das exportações.

A minha dúvida, ao juntar estas três frentes de observações e comentários, é como tudo se torna coerente. Em particular, e em termos técnicos, a minha dúvida é saber se o tal dito “multiplicador” é algo estável e fiável nestes momentos. Porquê esta dúvida? o que observamos de contracção da economia portuguesa parece-me estar associado com uma reacção de ajustamento do consumo mais forte do que antecipado, e que tem incidido sobretudo sobre os bens de duradouros, mas não sobre os consumos alimentares (não significa que esteja tudo bem, há certamente faixas da população com dificuldades também nessas despesas), conforme se consegue ir vendo dos números publicados no site conheceracrise.com. Esse ajustamento mais forte gerou também a redução das importações (sobretudo de bens duradouros), e a queda da receita fiscal por redução de consumo. É o ajustamento que tinha sido pedido à população portuguesa, deixar de consumir acima das possibilidades. Como foi mais rápido do que antecipado, parece que o tal de multiplicador falhou fortemente. A questão que coloco é saber se o ajustamento da economia nestes consumos pode continuar a ser a este ritmo – suponhamos que a população ajustou num ano o que se previa que ajustaria em dois anos, então no segundo ano o que vamos observar é um menor ajustamento do que no primeiro – já se cortaram os consumos que se podiam cortar.

O crescimento / contracção da economia não depende apenas do volume de despesa pública e numa relação mecânica. E a discussão à volta do valor do “multiplicador” parece estar a esquecer isso. Há, por isso, mais a conhecer do que apenas o valor de um “multiplicador”, até porque o seu valor exacto não será independente das políticas usadas, das expectativas da população e das decisões que se tomem quanto a consumo e poupança.

Daqui para as previsões de crescimento, o que será implicação? que a aplicação directa do dito multiplicador medido pelo FMI pode ser excessiva se a maior parte do ajustamento do consumo da população portuguesa já tiver ocorrido; que a estimativa do Governo continua a parecer muito optimista. Enfim, vejamos se a discussão técnica sobre o cenário macroeconómico apresentado com o orçamento permite perceber como tudo isto se compatibiliza.


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leitura recomendada

de um documento do FMI  sobre os problemas de crescimento económico na Europa, com informação relevante para Portugal.

A propósito da TSU, neste documento:

“Fiscal devaluation. Deficit-neutral tax reforms that shift revenue from labor or social security taxation to VAT in the periphery would be helpful, mostly in the short run. Moreover, this policy would need to be well-coordinated across countries as a simultaneous implementation of such a policy would not yield the intended gains.”

O que gera duas observações – desde logo, a necessidade de perceber claramente os efeitos da medida como proposto em Portugal, uma vez que a forma de manter a neutralidade no défice é diferente da experiência anterior e as recomendações do FMI são baseadas nessa experiência anterior, e a necessidade de coordenação internacional destas medidas, aspecto levantado por Pedro Lains. Saber o que se pensa fazer em Itália e Espanha, Grécia e Irlanda, etc., faz parte do processo político e económico.

Ah, neste trabalho do FMI encontram-se também outros aspectos relevantes da discussão em curso. Leitura Recomendada.

 


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continuando a falar sobre a TSU

As posições sobre a TSU continuam a surgir de todos os lados, com alguma confusão.

Primeiro, baixar a TSU para as empresas não é uma medida que produza resultados imediatos e num mês. É uma medida de médio e longo prazo.

Segundo, baixar a TSU para as empresas não obriga a aumentar a TSU para os trabalhadores, mas terá de ser encontrada uma forma de compensar as receitas perdidas.

Terceiro, a prazo, em termos de distorção no funcionamento no mercado de trabalho, o que importa é a soma das TSU e essa aumentou, o que poderá ser um factor contra a eficácia da medida.

Mas discutir a forma de financiamento da descida da TSU para as empresas é distinto de discutir a própria ideia da medida.

Quarto, os custos das empresas não são apenas os custos laborais, é necessário encontrar forma de baixar todos os preços de todos os factores intermédios usados. No meio desta discussão, convém não esquecer todos esses outros factores. E num contexto de economia de mercado não é fácil encontrar mecanismos que o façam.

 

Uma nota final para o ministro das finanças Vitor Gaspar, que no exterior de Portugal fez uma excelente declaração sobre a manifestação de 15 de Setembro – sem procurar justificações ou interpretações que sejam abusivas ou de manipulação.


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Eppur si muove (rectificado)

Depois dos anúncios de hoje pelo ministro das finanças, há matéria para muitos comentários, que se irão fazendo nos próximos. Houve na apresentação uma afirmação que me pareceu estranha – esperar um crescimento do emprego de 1% no mesmo ano em que o PIB (real) se reduz em 1% não é o mais natural dos resultados.

ADENDA: Segundo a sugestão do Luís A-C, não terá sido bem isto o que foi dito, e o que encontrei foi uma previsão de aumento do desemprego de 0,5% em 2013, o que já faz bastante mais sentido.

E por isso tive a curiosidade de ir ver se houve algum ano no passado recente (depois de 1984) em que tal tivesse sucedido. Basta descarregar os números do site da PORDATA (também poderia ser da AMECO, a base de dados da Comissão Europeia), e fazer um gráfico.

ADENDA: Decidi fazer um gráfico corrigido nas linhas de referência face à previsão que encontrei -1% PIB, -0,5% PIB. O ponto de cruzamento das previsões faz sentido. Pode não ser animador, mas não levanta as dúvidas que a anterior interpretação tinha (a interpretação inicial pode ser encontrada no final deste post). Ainda bem, que gosto mais quando os números fazem sentido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(TEXTO ANTERIOR: Eu sei que as estimativas apresentadas pelo ministro das finanças se baseiam em modelos da economia de estrutura complexa, ainda assim, e sem querer falar de causalidade ou associação, pareceu-me interessante procurar ver havia algum caso em que com crescimento do PIB real abaixo de -1% se tinha ao mesmo tempo um crescimento do emprego de 1%. Se não houver, o modelo de previsão usado está a dar resultados que nunca se verificaram na economia. Pode até suceder que o modelo esteja certo, e seja o que virá a acontecer, mas não conhecer o modelo, não o poder replicar e ver os resultados, não é muito animador para aceitar a previsão – afinal é a única área do gráfico em que não houve observações nos últimos 30 anos.)


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O puzzle, saído no Diário Económico de ontem

O puzzle (no Diário Económico de 06.Fev.2012)

Há mais de meio século que a Europa Ocidental procura construir um espaço comum, político e económico. Nos dias que correm, o económico tem peso considerável, A falta de crescimento económico e o desemprego estão na frente das preocupações.

A criação de uma identidade europeia levará, sem ignorar as raízes de cada um, à capacidade e disponibilidade para circular no espaço europeu, como turista e como trabalhador.

O Primeiro-Ministro italiano falou sobre mobilidade entre postos de trabalho (e na quebra de monotonia), gerando reações que se assemelham às vistas em Portugal a  propósito de se sair da “zona de conforto” (eventualmente mesmo emigrar).

As reações observadas nos dois países, Portugal e Itália, traduzem o muito que ainda falta fazer em termos de construção europeia, em particular na facilidade em encarar a mobilidade dentro do espaço da União Europeia, em termos de emprego e dinâmica económica. Daqui é fácil saltar para a conclusão de que parte da solução dos problemas do emprego a nível europeu tem que passar pela mobilidade dos trabalhadores. Mas essa é a parte mais evidente, e, até certo ponto, mais contestada. Há contudo outra parte, mais ignorada no debate público.

Para que um país (uma região) possa integrar o espaço económico europeu é necessário que pense em como atrair trabalhadores de todo esse espaço. As políticas de emprego em Portugal não podem ser apenas pensadas para os desempregados portugueses. É muito mais interessante pensar em que políticas de emprego permitem atrair trabalhadores, empresários e empresas, de toda a União Europeia. E se formos capazes de definir ambientes de trabalho e regras de funcionamento do mercado de trabalho português que sejam apelativas globalmente, então também serão atrativas para os portugueses.

Os desafios da mobilidade internacional e da mobilidade entre postos de trabalho, que tanta discussão têm gerado em Portugal e Itália, têm de ser vistos como um elemento de um desafio mais geral: como tornar Portugal um local de trabalho interessante para qualquer europeu. Pensar desta forma implica encaixar muitas peças de um puzzle complicado: mercado de trabalho, mas também mercado da habitação, segurança social em diferentes países, assistência da doença, educação para filhos, relação com a administração pública, etc… É este puzzle que temos de montar, se quisermos futuro para além dos tempos da troika. Teste simples para saber se cada peça encaixa: é amiga de trabalhadores “europeus”, portugueses ou não?


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andar em frente…(?)

(post gémeo com o blog No Reino da Dinamarca)

O tema do dia é naturalmente o acordo de concertação social. Não li o texto do acordo (provavelmente só será público depois de assinado), e como tal as impressões são baseadas no que foi relatado pelos meios de comunicação social e no que foi a entrevista de Álvaro Santos Pereira ontem à TVI.

Há no acordo certamente pontos que constituem um aumento da contribuição dos trabalhadores para a mesma retribuição. Alguns pontos poderão reduzir aspectos actuais susceptíveis de abuso. Outros contribuirão para baixar o custo por unidade produzida, e logo susceptíveis de gerar preços mais baixos e maior capacidade de colocar produtos nos mercados internacionais (mas também nacionais).

Primeiro ponto, e comum a quase todos os comentadores, é bom que haja um acordo. Sobretudo para permitir focar no que é preciso fazer para recuperar a actividade económica.

Segundo ponto, sendo um acordo vai ser necessário passar a legislação o que foi acordado. E pelos detalhes dessa legislação, pela demora que possa ter e não ter, poderá ocorrer ou não um desvirtuar do acordo. Segundo João Proença, citado num orgão de comunicação social, “a proposta de lei do Governo não introduzirá qualquer matéria nova sem primeiro ir a concertação social”. Veremos se serão invocadas condições excepcionais para não respeitar este compromisso, ou se será de facto cumprido.

Terceiro, o acordo deve tornar a sociedade portuguesa mais exigente para com as empresas e a gestão destas, o que significa uma maior agilidade do sistema judiciário. E não é por um motivo de equilíbrio de forças entre trabalho e capital, como se poderia eventualmente pensar. É que se estão reunidas as condições para facilitar a criação de empresas e a criação de emprego por se reduzir o custo de terminar relações laborais, é natural que aumentem quer os fluxos de entrada quer os fluxos de saída de empresas. O sistema judicial tem que estar preparado para dar resposta às necessidades de resolver conflitos que daí resultem.

Quarto, o acordo deve tornar a sociedade portuguesa mais exigente para com o Governo em termos de cumprimento das matérias acordadas, nomeadamente celeridade na resolução do que dele Governo depende.

Quinto, toda a legislação que seja derivada deste acordo deverá ser sujeita a um acompanhamento cuidado nos seus efeitos. As sucessivas alterações das leis laborais têm-se revelado incapazes de cumprir os objectivos de ajudar a relançar a actividade económica. Confiar que desta vez é que é parece perigoso, e há que publicamente seguir a elaboração, aplicação e efeitos da lei.

Sexto, dado que o acordo se aplicará a todas as entidades empregadoras, reduzindo os custos de produção por unidade produzida dos sectores de bens não transaccionáveis, que ajustamento de preços será exigido a esses sectores por forma a que as novas regras laborais sejam neutrais em termos de “rendas económicas” garantidas desses sectores? (ou se as novas regras não têm valor económico para essas empresas, será de supor que aceitem manter por acordo específico com os seus trabalhadores as condições actuais?)

Ou dito de outro modo, como é que o acordo actual altera a posição relativa do sector de bens não transaccionáveis vs o sector de bens transaccionáveis?

 


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no dinheirovivo.pt, como é habitual à segunda-feira

Decidi esta semana fugir aos temas quentes, Jerónimo Martins, Maçonaria, EDP, e voltar ao tema do crescimento económico; por duas razões, porque é o verdadeiro problema da economia portuguesa, e porque se tem que procurar formas diferentes de actuação, pública e privada,

o texto original do dinheirovivo aqui, e a sua reprodução já de seguida:

Para ajudar a encontrar o caminho para o crescimento da economia

Uma primeira pergunta

09/01/2012 | 01:09 | Dinheiro Vivo

Todas as previsões indicam que 2012 será um ano de recessão em Portugal – menor actividade económica. O desemprego atingiu valores elevados, nunca antes vistos na economia portuguesa.

A grande questão que se coloca é como pode Portugal retomar um caminho de crescimento económico. Se há aspecto consensual na sociedade portuguesa neste momento é a necessidade desse crescimento económico. Só que o crescimento económica não resulta automaticamente de se afirmar a sua importância. Nem é possível a um Governo determinar ou decretar esse crescimento.

A definição do papel do Estado, como entendido pela sociedade, é, agora, um dos factores cruciais. Não basta ao Governo redefinir o que acha ser o papel do Estado, é necessário que a sociedade o assuma também.

Tornou-se claro, nos últimos dois anos, que a evolução da economia portuguesa da última década não poderá ser invertida com projetos de investimento público de elevada envergadura. Há várias razões para isso: os que se tentaram não funcionaram, não há dinheiro para os fazer, e o Estado tem-se mostrado exímio em investir sem retorno. No caminho a seguir, a importância das exportações é também assumida de forma geral. Só que o Estado pouco ou nada produz que possa exportar, ou pelo menos assim parece.

Dito isto, é necessário então que a sociedade, todos nós, procuremos um caminho diferente. Esse caminho não pode passar por apoios do Estado, ou pelo beneplácito do Estado, ou pela autorização do Estado que concede uma situação de favor, ou uma renda económica, ou a utilização de um recurso com valor económico em exclusivo.

Para encontrar um novo caminho, proponho que se comece por reconhecer que o padrão de produção dos últimos dez anos da economia portuguesa não poderá ser mantido. Significa que um dos principais papéis do Estado é facilitar a mudança dos trabalhadores entre empresas, entre sectores e talvez mesmo entre regiões do país.

Aceitando esta premissa, uma simples pergunta deve ser feita para qualquer medida que seja anunciada como favorecendo o crescimento da economia: facilita estas diferentes mobilidades de trabalhadores?

Se sim, tenderá a ser uma boa medida. Se não, deverá ser procurada uma alternativa. Esta pergunta pode ser aplicada a várias reformas, medidas, ideias, que têm começado a surgir nos últimos tempos. Dois exemplos: a lei das rendas, e linhas de apoio às pequenas e médias empresas. A lei das rendas vem facilitar a mobilidade dos trabalhadores e das suas famílias? Não a conheço em detalhe para dar a resposta, mas em termos de contribuição para o crescimento económico é bom que seja conhecida. Não é apenas uma questão de redistribuição de valor (da renda paga) entre inquilino e senhorio que está em causa. A mesma pergunta deve ser aplicada à nova linha de crédito anunciada: facilita a mobilidade de empresas e de trabalhadores entre sectores, ou serve apenas para prolongar a “agonia” de empresas que não serão viáveis? Mais uma vez, não conheço os detalhes para dar resposta, mas espero que alguém a conheça.

Para encontrar o caminho do crescimento económico, há que saber fazer as perguntas certas. A que proponho, “facilita a mobilidade de trabalhadores, seja entre empresas, entre sectores e/ou entre regiões?”, julgo fazer todo o sentido para uma rápida lista de verificação da adequação das propostas a uma estratégia que leve a economia portuguesa de novo ao crescimento económico.

Nova School of Business and Economics
ppbarros@novasbe.pt
Escreve à segunda-feira
Escreve de acordo com a antiga ortografia


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The Economic Adjustment Program for Portugal – Second Review (parte 2)

Ainda apenas da leitura do sumário executivo da avaliação feita pela Comissão Europeia, há uma pergunta que seria interessante, a meu ver, ser respondida com uma análise cuidada nos próximos meses:

– tendo havido um corte “temporário, mas duradouro” nos salários da função pública (e equiparados), qual tem de ser o crescimento económico do país, que por via de receitas fiscais adicionais, permita repor os níveis salariais sem colocar em causa os objectivos estabelecidos para o défice público?

Esta pergunta surge por provavelmente não ser possível reduzir ou limitar o crescimento das outras componentes da despesa pública para abrir espaço orçamental para que o corte salarial seja invertido. Assim, terá que ser por aumento das receitas fiscais decorrentes de maior crescimento económico que se poderá vir a ter essa possibilidade. Saber quanto é relevante, até porque quando houver maior crescimento económico, qualquer folga orçamental que surja terá que escolher entre três grandes vias:

– redução da dívida pública, acumulando excedentes orçamentais

– redução da carga fiscal sobre toda a população

– reposição dos níveis salariais da função pública.

Que opções serão tomadas? para cada nível de crescimento económico que venha a ser alcançado que escolhas serão realizadas entre estas três alternativas (pelo menos)?


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e um pouco de história económica…

De vez em quando sabe bem “mudar de ares”, no caso, assistir ao “Portuguese Economic History Workshop“, realizado a 12 de Dezembro no ICS. Tive a oportunidade  de comentar o texto de Sofia Teives Henriques, “Without steam in the age of coal and dams in the age of electricity: a natural resource explanation for portuguese economic divergence“. Porque o trabalho me despertou a atenção, e pelas ideias que lança, decidi partilhar aqui a minha visão sobre o estudo e sobre as suas implicações e lições. (o restante programa e papers apresentados no encontro podem ser consultados no site indicado acima).

A tese principal é fácil de enunciar depois de ler o texto – na primeira revolução industrial, baseada no carvão, a tecnologia disponível estava adaptada para as características do carvão inglês, e não o carvão português era escasso (logo caro) como diferente do inglês. A estrutura produtiva portuguesa permaneceu trabalho intensiva. Na segunda revolução industrial, baseada na electricidade, Portugal parecia apresentar condições de partida distintas – tinha mais água que carvão, e poderia por isso ter tido um processo de industrialização mais seguro, as faltavam: a) procura de electricidade, dado que não tinha sido construída a base industrial durante o período de carvão que pudesse agora justificar a procura de electricidade como fonte de energia; b) não havia experiência com a tecnologia.

Sendo uma tese interessante, duas coisas chamaram a atenção. A primeira claramente referida no texto – frequentemente a “tecnologia” importada via equipamentos não era totalmente utilizada por falta de capacidade técnica. Ou seja, faltava um factor produtivo complementar, capital humano, sem o qual a própria rentabilidade dos equipamentos e da tecnologia eram menores, além de que não se procedia a uma adaptação generalizada dessas novas tecnologias da época às características dos recursos naturais portugueses. Não era só falta de carvão, havia algo mais em falta. Fica a pergunta de saber se esta interpretação é lícita e se tem algum poder explicativo.

O segundo aspecto é mais subtil, e está associado com o que vem primeiro – a disponibilização de uma tecnologia com uma energia mais barata, que leva ao desenvolvimento de uma base industrial (que parece ser o argumento principal para a falha portuguesa durante o período do carvão); ou é necessário ter uma base industrial adequada para que a nova forma de energia seja plenamente utilizada? (que parece ser o argumento principal para a falhar portuguesa durante o período da electricidade). Querer os dois argumentos ao mesmo tempo, para períodos diferentes, é que a ser a interpretação correcta, necessita de algo mais em termos de discussão e ligação. Um ponto de ligação possível é, a meu ver, o meu primeiro aspecto focado – a falta de capital humano para saber como usar as tecnologias. Enfim… para discussão e esclarecimento pelos historiadores económicos, que sabem muito mais disto e poderão certamente clarificar.

Por o encontro ter sido internacional, o comentário foi feito em lingua inglesa e é nessa versão que o disponibilizo (para poupar o trabalho de tradução, ainda não confio no google translator o suficiente para o fazer automaticamente). (também pode ser visto em formato slide aqui)

1.  Getting inside the paper

  • Clear research question – did differential conditions of access to coal determine the relative lack of success of the Portuguese Industrial Revolution?
  • The arguments are laid out in a nice way
  • (and readable to the non-expert )
  • My ignorance has an advantage – I can ask any question, even “silly” ones

2. Overview

Main argument:

  • First industrial revolution – technology intensive in coal, technology adapted to UK conditions
  • Portugal lacked the resources (coal), and did not have an obvious cheap alternative – remained labour intensive
  • Second industrial revolution – based on electricity
  • Portugal had more water than coal – but lacked:
  • Demand for industrial use of electricity – cost from being behind in the first industrial revolution
  • No experience with the technology
  • Development based on electricity was hindered by low industrial development since coal time

3. Broad issues and questions

•Why the inability to adapt? Looking at technology, in the sense of production function, it seems that there was a lack of human capital as well – p. 148 & ft 386 & p.363
•“never used due to lack of capital to hire an engineer”
•“lack of scientific knowledge of industrialists, who do not even know how many turns does a wheel make per second”
•“Portugal did not participate in scientific innovations of the 1870s-1880s”
•Why not the entry of new firms funded by international capital? (political decisions to close the market? International environment did not favor investment in Portugal?)
•What was the role of market power in keeping innovations away? (Arrow substitution effect in monopolies & innovation incentives)
4. Smaller points
•Prices of coal, table 1 – increasing in the UK, Germany, Canada, France, Spain, but decreasing in Portugal – level is higher in the beginning but not so much at the end – what was going on?
•International comparison of costs of internal transportation in other countries?
•How were imports of equipment organized? Monopolies? Competitive imports without barriers – licensing, duties, etc…
•What is the relevant theory of technological adoption? “economic incentives to adopt steam technology is to compare the relative coal to labour prices” – expected demand, prices of final products, current market structure: incentives vs conditions?
•Role of international trade? (p.155), it seems to me from reading the paper that even in a close economy adoption would be low – “quality” of labor input to make technology work was lacking
•Portugal was poor in coal, but also in ore and other metals – lack of complementary resources, it was not only cost and quality of coal?
•Expansion of railways drained resources from other (tradable) sectors? Both financial and physicial
•“steel needed a minimum operative scale” – natural monopoly in Portugal? What does it really mean?
•Technology was driven by UK; but no local adaptation existed, lack of local R&D as a “missing input”?
•“Portugal did not benefit from the presence of early international companies as Italy did”, why?
•Electricity as missed opportunity, what it that way? Technology was dictated by geography, but something different could have been done? Engineering skills for dams where not there?
•Classification of causes to endogenous vs exogenous conditions?
•The answer to the research question: “the labor intensive path chosen during the First Industrial Revolution implied low levels of energy demand and prevented capital accumulation”
•How many industries / companies were born at the time elsewhere? It was an issue of critical mass? Exports not a substitute for a strong internal market?