Momentos económicos… e não só

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Sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde (5)

A terceira secção do primeiro capítulo do documento da OCDE faz uma revisão do conhecimento sobre as tendências de crescimento da despesa em cuidados de saúde, tendo como principais pontos a) o crescimento das despesas em saúde foi mais rápido que o crescimento económico em geral; b) os anos de crise económica estiveram associados, em geral, com um crescimento das despesas em saúde mais lento; c) apesar do menor crescimento recente, continua-se a prever um crescimento da despesa pública em saúde para os próximos 20 anos, que poderá atingir um aumento de 2% do PIB. Portugal é incluído nos países que estão em risco de insustentabilidade orçamental das contas públicas por conta desta pressão, mas há também uma referência aos efeitos sobre essa mesma sustentabilidade orçamental do aumento das pensões.

De seguida, o relatório procura estabelecer os factores que têm gerado o aumento das despesas em saúde nos países da OCDE. Fazem uma diferença entre países com rendimento médio ou baixo, em que a principal força para crescimento das despesas em saúde é o aumento de cobertura (seja de pessoas seja de serviços abrangidos), enquanto nos países de rendimento mais elevado referem os quatro elementos essenciais: tecnologias, demografia, rendimento e características institucionais dos sistemas de saúde. Destes quatro, as tecnologias de saúde (o factor mais importante, com várias estimativas a colocar como responsável por cerca de 50% do crescimento observado) e o rendimento (incluindo maiores expectativas em populações com maior rendimento) são os elementos mais importantes, com a demografia e as características institucionais sendo muito menos importantes.

Este é uma conclusão comum a muitos estudos, incluindo para Portugal, e ainda assim em muitas intervenções públicas se coloca, erradamente, a demografia (envelhecimento da população) como um factor, senão “o” factor, de crescimento das despesas em saúde. E para não repetir argumentos já apresentados noutros posts, fica a sugestão de usar a caixa de procura neste blog com o termo “envelhecimento”.

(continua)


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Novo Doutor em Administração da Saúde

Defendeu ontem a sua dissertação de doutoramento Adalberto Campos Fernandes, que tem sido uma das pessoas mais visíveis na discussão dos problemas e da organização do sector da saúde em Portugal. Acresce que tem sido referido como Ministro da Saúde de um futuro Governo liderado pelo PS.

A tese versou sobre um tema sempre quente em Portugal, a relação público – privado na saúde, aqui tratada na nuance combinação público – privado (e o novo Doutor explicou o porquê da diferença na defesa pública). O título do trabalho é “A combinação público – privado em saúde: impacto no desempenho no sistema e nos resultados em Saúde no contexto português”.

A dissertação, pelo que foi possível aperceber pela discussão pública, reflete a experiência profissional do autor, além de ter tido uma recolha de informação própria (questionários e entrevistas)

A pergunta crucial que é natural surgir é “deve o sector privado crescer mais?”, interessante em si mesma e também pelo que possa ter de implicações para políticas futuras no campo da saúde. A resposta não foi evasiva (como poderia ter sido), tendo o autor defendido que o sector privado deve ter as características, incluindo aqui a dimensão, que melhor sirva o serviço público. Devem-se procurar sinergias e cooperação e não competição entre sector público e sector privado.

Mas esta parte surgiu na fase de discussão, e há que olhar para as hipóteses colocadas e as respostas que foram dadas às perguntas inerentes às hipóteses. Identifiquei, da apresentação inicial, três questões base: o sector privado contribui para melhorar a eficiência do sistema de saúde? Como afecta o sector privado a equidade? Encontramos melhores resultados de saúde da maior participação privada?

O horizonte temporal da análise foram as três décadas entre 1983 e 2013, tendo sido recolhida informação estatística para vários indicadores, feitos mais de 400 questionários e realizadas mais de 100 entrevistas. As diferentes formas de informação deram uma resposta globalmente coerente entre elas às perguntas colocadas. E em todas as respostas a conclusão é globalmente positiva para o papel do sector privado: contribui para a eficiência, contribui para uma maior equidade (nomeadamente na cobertura geográfica). Daqui se percebe a pergunta anteriormente colocada sobre se o sector privado deve crescer ainda mais.

Estas impressões decorrentes da discussão pública do trabalho poderão certamente vir a ser aprofundadas com a leitura da dissertação quando estiver publicamente disponível. Até lá ficam as felicitações ao novo Doutor em Administração da Saúde e aos orientadores, Helena Monteiro e Ricardo Ramos Pinto, do ISCSP.

acf


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Produtividade: evolução dentro de cada empresa ou por mudanças de emprego entre empresas

A discussão sobre os efeitos do salário mínimo levantou alguma poeira. É necessário ir além dos impactos que podemos considerar normais. Do ponto de vista de teoria económica, é relativamente simples dizer que um salário mínimo que esteja acima do que é o salário de equilíbrio gera desequilíbrio, com desemprego. Grosso modo, o salário é de equilíbrio quando o valor da produtividade apropriado pela empresa que é gerado pelo trabalhador adicional iguala a disponibilidade do trabalhador para trabalhar para um salário igual a essa produtividade. Se for imposto um salário superior ao valor da sua produtividade, a empresa preferirá não contratar o trabalhador.

A questão que coloquei num post anterior foi se não haveria também efeitos associados com a procura de maior produtividade por parte de empresas que tenham a informação de que no futuro próximo, para um salário mínimo superior, ou são mais produtivas ou não sobrevivem. E que se algumas empresas não sobreviverem tal não é necessariamente mau para a economia portuguesa, numa lógica de abrir espaço para outras empresas. Num mercado com facilidade de entrada e de saída de empresas, este efeito seria pouco relevante, mas em Portugal há uma dificuldade (cultural?) em conseguir admitir que empresas falham e há uma dificuldade (legal, certamente, e também provavelmente cultural) em tornar novamente produtivos os activos (equipamento, organização até) de empresas que falham.

A insistência em tentativas de recuperação e de sobrevivência de empresas com pouca produtividade é um dos aspectos que dificulta o crescimento global da economia portuguesa. Um trabalho de 2013, de Mitsukuni Nishida, Amil Petrin, Sašo Polanec, Exploring reallocation’s apparent weak contribution to growth, NBER Working Paper 19012, http://www.nber.org/papers/w19012, retomou a questão de como a produtividade nas economias cresce, distinguindo entre aumentos de produtividade dentro de cada empresa e aumentos de produtividade por passagem de trabalhadores de empresas menos produtivas para empresas mais produtivas. Com base numa avaliação das experiências de Chile, Colômbia e Eslovénia, chegam à conclusão que o segundo efeito é mais relevante que o primeiro. Para Portugal, não conheço estudos que façam estes cálculos, mas seria interessante perceber qual é a nossa realidade e saber qual o efeito que um aumento do salário mínimo poderá ter nestes efeitos de produtividade dentro da empresas e na transição de trabalhadores de empresas menos produtivas para empresas mais produtivas.

 


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Sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde (4)

Retomando o documento da OCDE sobre sustentabilidade de sistemas de saúde, a secção 2 do primeiro capítulo discute o aspecto crucial de qual a definição de sustentabilidade orçamental dos sistemas de saúde.

O ponto de partida é a definição geral de sustentabilidade orçamental, que a OCDE toma como sendo a capacidade de um governo manter as financias públicas numa posição credível e com capacidade de pagamento no longo prazo. Ou seja, é uma definição baseada na lógica de criação de dívida excessiva para as gerações futuras. Não há assim um número mágico de défice público a ser alcançado ou um limite absoluto de dívida pública a não ser ultrapassado, o que gera natural ambiguidade na interpretação (e em particular, dado que se baseia numa lógica de futuro de longo prazo, abre espaço para diferentes previsões sobre crescimentos futuros de receitas e despesas levarem a diferentes posições sobre a sustentabilidade das contas públicas, aspecto que tem sido claro na discussão política geral).

Além da definição da OCDE, o documento refere também as definições de sustentabilidade da Comissão Europeia (de 2014) e a definição do Fundo Monetário Internacional (de 2007).

A definição de sustentabilidade orçamental pela Comissão Europeia é (numa tradução livre) “a capacidade de continuar, agora e no futuro, as politicas actuais (sem alterações nos serviços públicos e na tributação) sem levar a que a dívida pública cresça de forma continua em relação ao PIB”.

A definição do Fundo Monetário Internacional é “um conjunto de políticas é sustentável se a entidade (governo) é esperada continuar a pagar o seu serviço da dívida sem uma correcção futura irrealisticamente forte para equilibrar receitas e despesas”.

Note-se que nenhuma destas definições é especifica às despesas em saúde e à sustentabilidade orçamental dos sistemas de saúde que recebem dinheiro das contas públicas.

Relativamente ao sector da saúde, surge de seguida uma afirmação importante pelas implicações de perspectiva que tem (e que corresponde ao que tenho argumentado várias vezes): “relativamente ao sector da saúde, a sustentabilidade orçamental é provavelmente melhor vista como sendo uma restrição que precisa de ser respeitada do que um objectivo em si mesmo.” Ou seja, há objectivos do sistema de saúde que nos esforços para serem atingidos deverão ter em conta as restrições das contas públicas em lugar de tornar o corte de custos o objectivo em si mesmo.

Voltando às definições de sustentabilidade orçamental, e olhando para o modelo de organização utilizado em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde, a sustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde não pode ser desligada da sustentabilidade orçamental como um todo das contas públicas, e é nesse espaço global das contas públicas que deve ser colocada.

Esta visão que decorre das definições de sustentabilidade orçamental estava já presente na definição que em 2006 se adoptou em Portugal pela Comissão para a Sustentabilidade Financeira do Serviço Nacional de Saúde: “Existe sustentabilidade do financiamento do Serviço Nacional de Saúde se o crescimento das transferências do Orçamento do Estado para o SNS não agravar o saldo das Administrações Públicas de uma forma permanente, face ao valor de referência, mantendo-se a evolução previsível das restantes componentes do saldo.”

Esta é uma definição complicada na escrita mas que corresponde em grande medida à preocupação de considerar a despesa em saúde num contexto global de despesas públicas, permitindo que estas despesas públicas em saúde cresçam desde que o crescimento das restantes despesas públicas tenha uma evolução que compense (crescendo menos ou até diminuindo em termos relativos). Focar do défice gerado (“saldo das Administrações Públicas”) e no longo prazo (“de uma forma permanente”) traduzem de outra forma o efeito sobre a dívida pública.

Estas definições de sustentabilidade orçamental implicam um problema: o que sucede quando são as restantes componentes da despesa pública que geram uma situação de insustentabilidade das contas públicas.

O documento da OCDE reconhece estas implicações da interdependência entre diferentes tipos de despesa pública quando refere que a “sustentabilidade orçamental não exclui automaticamente aumentos da despesa pública em saúde (…) numa perspectiva de crescimento pode ser preferível que a saúde substitua formas menos eficientes de despesa pública”. Claro que é preciso demonstrar que a despesa pública em saúde é mais eficiente que outro tipo de despesa, e não se pode acriticamente aceitar que toda a despesa pública em saúde tem efeitos positivos em termos de crescimento ou de melhoria da saúde da população, mas o aspecto principal é reforçar a ideia de que a sustentabilidade orçamental não implica um objectivo de despesa pública em saúde definido como rácio do PIB ou como estabilidade desse rácio actual.

E na medida em que a despesa pública em saúde é avaliada no contexto de toda a despesa pública terá inevitavelmente uma componente de escolha política envolvida.

Resumindo, a noção de sustentabilidade orçamental tem que ser vista no total das contas públicas, e a necessidade de assegurar a sustentabilidade orçamental implica restrições sobre a despesa pública em saúde. A maior ou menor pressão dessas restrições decorrem do que são as outras despesas públicas e do que são as opções políticas (entre diferentes tipos de despesa pública).

 

(continua)


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Programas de governo: contando palavras

Têm sido escritas muitas análises dos programas de governo, comparando as opções políticas e as propostas dos partidos proponentes. Cada análise inclui, mesmo que não seja de forma propositada, o ponto de vista de quem escreve, quase inevitavelmente.

Uma curiosidade que tenho é perceber se o programa do XX Governo (o segundo Governo liderado por Passos Coelho) está mais próximo do programa do XIX Governo (o primeiro liderado por Passos Coelho) ou da proposta de programa do PS (o que a acontecer será o XXI Governo).

Para me isolar do meu próprio enviesamento, decidi usar um programa de contagem de palavras, e agrupar por temas (o que será sempre discutível, embora juntar desemprego, desempregado, desempregadas, etc., seja razoável).

Os diferentes programas têm dimensões diferentes, e convém olhar para o número absoluto de palavras e para o número relativo.

Contar palavras não desvenda o conteúdo das propostas, dá quando muito a importância de cada tema (podendo ter igual importância mas de sentido oposto quando se comparam programas, basta ter um “não” à frente por exemplo). Ainda assim, como exercício de tratamento sumário dos programas, pensei que me poderia dar uma primeira visão do que cada programa (ou proposta de programa) considera mais relevante em termos de temática.

Uma primeira curiosidade é o termo “memorando”, que surgia 16 vezes no programa do XIX Governo, e que desaparece completamente no programa do XX Governo e na proposta do PS para programa de Governo.

A proposta do PS é a que tem mais palavras, quase 50% mais do que o programa do XX Governo, que por sua vez era também ele cerca de 50% maior, em palavras, do que o programa do XIX Governo. Dividi (de forma ad-hoc) os termos que mais interessam por 3 grandes temas: economia, sector público e sociedade. Para cada um destes temas, os quadros seguintes apresentam o número de palavras associados com os termos, sendo que variantes do mesmo termo foram somadas (os exemplo mais óbvios, utilização de masculino/feminino e/ou singular/plural).

Sem grandes surpresas, o programa do PS tem mais referências a quase todos os temas, por ser um texto mais longo. Ainda assim, só com os números absolutos é possível perceber que as Misericórdias, que surgiam com várias referências no programa do XIX, praticamente desaparecem no programa do XX Governo e na proposta no PS. Os aspectos de desemprego, equidade/pobreza, emigração e sector público, por seu lado, aparecem com mais força no programa do PS. Tal como a energia e o mar. Já os temas de “reformas” e “digital” têm pouca atenção no programa do PS face ao programa do XX Governo (sendo que o digital não surgia no programa do XIX Governo).

Em termos relativos, olhando para o peso relativo de cada tema dentro do total dos temas a que dei atenção, os gráficos mostram os elementos relativos ao funcionamento do mercado privado recebiam mais atenção no programa do XIX Governo do que no programa do XX Governo, que lhes deu mais atenção que na proposta do PS. Inovação e Investimento recebem mais importância na proposta do PS, embora exportações e infraestruturas tenham menos importância relativa do programa do PS. Enquanto o XIX Governo se referia frequentemente a solidariedade, a proposta do PS incide mais em desigualdade/equidade/pobreza. Reflete provavelmente a linguagem própria de cada área política.

A vantagem dos quadros e dos gráficos é permitirem a cada um identificar o que sejam as diferenças nas áreas que mais lhe importam.

Construindo um indice de diferença entre os três documentos com base na diferença entre a frequência relativa de palavras (dentro dos temas seleccionados) entre cada dois programas (elevando ao quadrado cada diferença e somando todas as parcelas), ao valor 0 a igualdade entre propostas. A diferença entre a proposta do PS e o programa do XX Governo tem um score de 0,06, a diferença entre os programas do XIX e do XX Governos tem um score de 0,13 e o score da diferença entre o programa do PS e o programa do XIX Governo é 0,18. Ou seja, também por aqui se encontra uma aproximação do programa do XX Governo ao PS, mais do que ao Governo anterior.

Economia Proposta PS XX Governo XIX Governo
Agricultura e pescas 71 53 44
Banca 27 11 7
Crescimento 36 45 31
Digital 30 54 6
Empresas/Empreendedorismo/industria 278 204 161
Exportações 34 28 24
Infraestruturas 35 28 21
Inovação 84 46 27
Investimento 187 120 60
Mercado/sector privado/concorrência/competitividade 283 268 206
Salários/remunerações/rendimentos 80 49 30
Mar 67 33 18
Economia 228 194 131
Energia 101 51 21
Regulação 33 27 20
Sector Público Proposta PS XX Governo XIX Governo
Ambiente 123 88 35
Autarquias 33 38 15
Desemprego/emprego 244 154 99
Memorando 0 0 16
Contas Públicas/Orçamento 36 39 32
Pensões 28 22 16
Sector Público 354 233 147
Reformas 39 77 37
Social 292 227 154
Impostos 34 25 11
Privatizações 6 4 11
Saúde 87 62 66
Sociedade Proposta PS XX Governo XIX Governo
Emigração 38 5 4
Envelhecimento/Demografia 46 34 14
Equidade/desigualdades/Pobreza 77 28 19
IPSS/Misericórdias 1 2 32
Natalidade 28 16 14
Solidariedade 24 23 31
Sociedade

Sociedade

Sector Público

Sector Público

Economia

Economia

(nota: os valores das figuras são as percentagens de termos em cada tema no total dado pela soma de todas as palavras de todos os temas para o mesmo programa).


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Memórias de Paris, Setembro de 2015

A regressar algures nos próximos dois meses, em visita rápida de trabalho. Que as memórias de Paris não sejam as que os terroristas procuram instalar na nossa mente, e sim as que escolhemos.

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Sustentabilidade orçamental na saúde,

retirado do Expresso de 7 de Novembro de 2015.

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Sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde (3)

O primeiro capitulo do relatório da OECD tem como titulo “sustentabilidade orçamental dos sistemas de saúde – porque é uma questão, o que pode ser feito?”, e será por isso o capítulo central de todo o documento. Aliás, é assinado como OCDE e não por indivíduos, dando conta de ser uma posição oficial da organização e não dos seus autores individuais.

Na introdução coloca as principais conclusões, que serão posteriormente sustentadas. E esta introdução é clara no que diz, mesmo quando mostra que os prefácios não se encontram completamente alinhados com as conclusões retiradas do trabalho técnico. Traduzindo de forma livre, é dito que o rápido crescimento das despesas em saúde têm sido amplamente entendido como resultando de aspectos tecnológicos e de riqueza/rendimento crescentes, como a demografia (leia-se envelhecimento) e as características institucionais como sendo factores relevantes mas muito menos relevantes.

A primeira grande conclusão apontada está ligada ao contexto e não às despesas em saúde por si só. Refere que a sustentabilidade orçamental exige que os governos façam uma gestão credível das finanças públicas (toda a intervenção pública). Os sistemas de saúde colocam desafios devido aos custos crescentes que exercem pressão sobre as finanças públicas, sendo decorrentes sobretudo dos novos tratamentos e da pressão permanente para melhoria nos cuidados de saúde prestados. E a referência ao envelhecimento surge não pelo lado da despesa mas pelo lado da receita, devido à redução de contribuições que possa gerar (sobretudo nos países em que as contribuições são uma proporção dos ordenados das pessoas activas).

A conclusão seguinte mais do que conclusão é uma constatação – os agentes políticos têm três formas de assegurar a sustentabilidade orçamental dos sistemas de saúde – obter mais contribuições para financiar as despesas de saúde (suponho que estarão aqui a falar de contribuições específicas, o que é difícil de realizar com impostos gerais), de melhorar a eficiência da despesa pública em saúde (isto é, com a mesma despesa assegurar a expansão de tratamentos e melhoria dos cuidados de saúde prestados) e reavaliar as fronteiras da despesa pública e da despesa privada (e teremos que ver adiante em que se traduz exactamente esta ideia). Importante é a afirmação que encerra este parágrafo: cortes de despesa cego (tipo 10% em todas as despesas) é uma forma de responder às pressões orçamentais mas que provavelmente terá efeitos negativos.

Termina a introdução deste capítulo, certamente não por acaso, com a referência a que os cuidados de saúde são muito valorizados pela população, pelo que um aumento da despesa em saúde não é automaticamente um problema, em particular se os cidadãos estão disponíveis para pagar esse aumento via aumentos de impostos (sic) ou cortes nas outras áreas da despesa pública. O desafio que identificam é assegurar que qualquer aumento na despesa pública respeita as restrições de sustentabilidade orçamental e tem benefícios que compensam esse aumento de despesa. A importância desta conclusão não deve ser subestimada – o objectivo dos sistemas de saúde não é a sustentabilidade orçamental, esta é uma restrição ao que se pretende fazer, pelo que dentro dela se tem que encontrar a melhor forma de utilizar os fundos disponíveis, e isso significa fazer escolhas e estabelecer prioridades. O processo pelo qual se fazem essas escolhas não deverá ser o que é mais visível politicamente ou mediaticamente (hoje estas duas coisas são quase a mesma, mas mantenhamos a distinção). E não se exclui que possa haver um aumento de contribuições, se for essa a preferência social. No caso de Portugal, o facto das despesas em saúde do Serviço Nacional de Saúde serem financiadas por impostos gerais (a verba sai do Orçamento do Estado e não de uma contribuição específica) tem a vantagem de não ficar dependente do número de pessoas activas na população (o efeito negativo de envelhecimento apontado a propósito de outros países), mas tem a desvantagem de qualquer contribuição específica poder ser “apropriada” pelas outras áreas de despesa pública através da redução da componente financiada por impostos gerais.

(continua)


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Sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde (2)

O sumário executivo do documento da OCDE faz, como seria de esperar, um resumo do que a OCDE considera serem as principais conclusões dos vários capítulos (que são assinados por diferentes autores).

Neste sumário volta-se a ter a referência ao rácio despesa em saúde sobre PIB, ainda que novamente sem justificação de porque é essa a medida de sustentabilidade orçamental adequada. Já na identificação das pressões sobre a despesa em saúde surgem os “suspeitos do costume”, alinhados pela ordem de importância que tem sido encontrada na literatura: novas tecnologias que permitem alargar os tratamentos disponíveis e a qualidade dos mesmos, aumento (fortemente associado ao crescimento do rendimento) das expectativas da população quanto à intervenção do sistema de saúde e o envelhecimento da população.

Outra conclusão apresentada neste sumário executivo é a grande diversidade de formulações institucionais para os sistemas de saúde no que respeita à origem de fundos, à gestão e à prestação de cuidados. O desafio comum é conseguir satisfazer as necessidades e expectativas da população dentro das restrições de sustentabilidade orçamental.

Dentro deste grande desafio, uma primeira necessidade é a de diagnosticar correctamente quais são as ameaças à sustentabilidade orçamental. E aqui fazem a identificação de um efeito do envelhecimento sobre a sustentabilidade orçamental que não é o aumento das despesas, é sim o impacto que o envelhecimento tem em termos de contribuições para os mecanismos de segurança social. Quanto uma pessoa se reforma a percentagem do salário que vai para a segurança social, soma da contribuição do trabalhador e da empresa, reduz-se drasticamente, o que diminui os fundos disponíveis. Ou seja, o problema do envelhecimento para a sustentabilidade orçamental não vem do aumento da despesa, vem da redução da receita global. Este efeito será tanto maior quanto mais as despesas em saúde forem financiadas por contribuições sociais alicerçadas nos salários dos trabalhadores activos.

O desafio seguinte é o de ter informação suficiente em tempo útil para poder constituir um mecanismo de alerta que permita intervenção das políticas públicas. O terceiro ponto é a existência de análises regulares do funcionamento do sistema de saúde para procurar formas de encontrar poupanças na despesa, incluindo-se aqui a existência de previsões plurianuais para as despesas em saúde.

Um quarto ponto relevante é o papel da descentralização da despesa para níveis regionais, dentro de alguns países, da qual decorrem questões de excesso de despesa por haver um governo central que acorre em caso de necessidade às regiões, e de se tornarem patentes desigualdades geográficas.

São, de seguida, referidos os instrumentos disponíveis para procurar assegurar a sustentabilidade orçamental, incluindo-se aqui políticas do lado da oferta (formas de pagamento a prestadores, concorrência, etc.) e políticas do lado da procura (sistemas de referenciação, política do medicamento, co-pagamentos e taxas moderadoras, avaliação de tecnologias em saúde, etc.).

Não há propriamente uma defesa de um instrumento como sendo melhor do que os outros, nem a identificação de um cocktail óptimo de medidas. Há a referência a que medidas que aumentem a concorrência, que estabeleçam incentivos para mais eficiência, etc., têm resultado nalguns países, e que medidas que procuram promover concorrência entre entidades seguradoras ou modifiquem as condições de exercício profissional têm tido resultados menos claros.

Do lado da procura, os efeitos associados com copagamentos incluem problemas de acesso a cuidados de saúde, mas a principal conclusão que ressalto é que a promoção do crescimento dos seguros de saúde privados não tem sido eficaz como forma de reduzir as pressões sobre a sustentabilidade orçamental (aspecto que também me parece ser verdade para Portugal, e que está associado à natureza particular das despesas em saúde, em termos de características de risco e de assimetrias de informação).

Sobre a utilização da avaliação de tecnologias em saúde como fonte de redução da pressão sobre a despesa, remetem para a pouca evidência disponível sobre o seu impacto.

Na componente de aumento das receitas para resolver a sustentabilidade orçamental, a preocupação expressa é com os efeitos sobre o funcionamento da economia que pode ter um aumento das taxas marginais de imposto, defendendo-se uma maior base de contribuições. Em particular, referem que os “sin taxes” podem ter efeitos relevantes em termos de saúde pública mas são de papel reduzido no volume de financiamento. Aliás, não seria de esperar outra coisa – se se espera que o imposto sobre tabaco reduza o consumo de tabaco não se pode esperar que seja uma fonte de receita importante.

No final, há um aspecto que será crucial no desenvolvimento da sustentabilidade orçamental das despesas em saúde e que não se encontra focado neste relatório: não se fala em reorganização do sistema de saúde, a prazo a sustentabilidade orçamental, e com ela a sustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde, não se joga nos aspectos e nos instrumentos macro e sim no funcionamento e nas funções das organizações do sistema de saúde, será preciso ter uma visão diferente (e aqui socorro-me do Relatório Gulbenkian, que tem mais de um ano e que bem poderia ter um maior papel no delinear de estratégias de sustentabilidade orçamental no campo da saúde).

(continua)


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A subida do salário mínimo

faz aparentemente parte do processo de “convergência das esquerdas” para um (possível) acordo PS com apoio do Bloco de Esquerda e do PCP (como ainda não há nada divulgado oficialmente sobre esse acordo, até lá trabalhamos com hipóteses). Sobre este aspecto, volto a um post do ano passado (aqui), quando me parecia que um benefício possível do aumento do salário mínimo consistia na pressão sobre as empresas para aumentar a sua produtividade por forma a sobreviverem, sendo a baixa produtividade em Portugal um problema ainda à procura de solução. Além disso, ter que pagar um salário mínimo mais elevado pode levar as empresas a terem uma maior preocupação em garantir boas contratações, o que poderá gerar maior estabilidade de emprego (um efeito que tem sido observado noutros países). A importância deste aspecto foi reforçada no último ano pela preocupação com a qualidade da gestão em Portugal, expressa por Albert Jaeger, representante do FMI em Portugal durante o programa de ajustamento (aspecto presente nas suas apresentações finais, antes de terminar a sua presença no nosso país, consultáveis aqui).

A preocupação com aumentos de salário mínimo é obviamente os efeitos negativos sobre o emprego que pode provocar. Essa visão está hoje expressa num artigo de Luis Aguiar-Conraria (aqui). Ora, a este respeito, o consenso internacional que se tem gerado é o de não ser de todo claro que esse efeito é suficientemente importante para se sobrepor a outros efeitos. Os efeitos de um aumento do salário mínimo foram abordados, em 2014, numa carta subscrita por muitos economistas americanos de grande reputação (ver aqui)  e retomado com referência à situação europeia na coluna Vox.eu (aqui): “The fact that the overall employment rate for older workers changes little when the minimum wage changes has led many observers to conclude that minimum wages are simply irrelevant for these workers. Instead, we find that when the minimum wage is higher, all low educated workers face jobs that are more stable (in the sense that they are less likely to end in a lay-off) but harder to get. This shifts the debate over the usefulness of minimum wages to the question of whether workers are better off with improved job stability or improved chances of finding a job when unemployed. It also means that minimum wages affect a much larger part of the labour market than is usually recognised and potentially raises the stakes in the policy debates.” Para Portugal, Luis Aguiar-Conraria argumenta que os efeitos serão negativos, com base em trabalhos de Mário Centeno (o economista-bandeira do PS na actualidade).

Claro que a dimensão do aumento do salário mínimo também tem importância e um salto imediato de 20% (como seria passar de 500 para 600 euros), é provavelmente demasiado elevado (uma vez que as contribuições sociais associadas também aumentam) para várias (muitas?) empresas se ocorrer instantaneamente.

Assim, a decisão de aumentar substancialmente o salário mínimo de uma só vez é provavelmente negativa, mas aumentar um pouco e estabelecer uma sequência de aumentos nos próximos anos, que seja cumprida, poderá ter mesmo vantagens em termos de funcionamento da economia, não por aumentar o consumo mas por obrigar as empresas a melhorarem a sua gestão e produtividade se quiserem sobreviver.

Em qualquer caso, olhando para a evolução das taxas de desemprego médias (entre países) de acordo com o tipo de salário mínimo praticado (ausência de salário mínimo: Dinamarca, Itália, Chipre, Áustria, Finlândia e Suécia; salário mínimo baixo: Bulgária, Roménia, Lituânia, Hungria, República Checa, Letónia, Eslováquia, Estónia, Croácia e Polónia; salário mínimo médio: Portugal, Grécia, Malta, Espanha e Eslovénia; salário mínimo elevado: França, Irlanda, Alemanha, Bélgica, Holanda, Reino Unido e Luxemburgo) não se encontra na última década e meia vantagem óbvia de um modelo face a outro.

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Taxa de desemprego médio, segundo o tipo de salário médio. Fonte: cálculos com base nos dados AMECO.