Momentos económicos… e não só

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mais perguntas e mais respostas, desta vez sobre o documento da reforma hospitalar

Colocaram-me há dias algumas questões levantadas pelo documento sobre a reforma hospitalar que está neste momento em discussão pública, ver aqui, http://www.min-saude.pt/portal/conteudos/a+saude+em+portugal/politica+da+saude/discussao/reforma+hospitalar.htm

Como vou tentando fazer costume, divulgo as perguntas e as respostas que tenho (mesmo que não sejam completas e necessitem de futura revisão)

Questão: De acordo com este trabalho [relatório sobre a reforma hospitalar], os índices de “produtividade” e de custo médio por doente-padrão revelam grandes disparidades de região para região. De acordo com os cálculos efectuados, a popupança potencial que resultaria da evolução de todos para o nível do verificado na região mais eficiente (Norte) oscilaria entre os 765 e os 787 milhões de euros. Se esta análise fosse feita tendo em conta o indicador “custo médio do doente-padrão”, a poupança potencial ainda seria mais elevada: 1 294 milhões de euros. Ou seja: não seria necessário cortar tanto quanto é preconizado pela troika para 2012 no memorando de entendimento assinado com o Governo, nem mesmo o montante que o Ministério da Saúde pretende cortar no próximo ano. Concorda com esta análise? É verdade que os hospitais da região Norte têm sido, do ponto de vista global, melhor geridos ao longo dos últimos anos (explicação fornecida ao PÚBLICO pelo Dr. Mendes Ribeiro?) Ou haverá aqui outros factores que justificam os piores resultados apresentados pelos hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo, cujos resultados operacionais registaram um agravamento substancial em 2010? (De acordo com o estudo, em 2010, os hospitais da região Norte, para uma população quase igual à servida pelos de Lisboa e Vale do Tejo, gastaram 1 858 milhões de euros, contra 2 321 milhões de euros em Lisboa e Vale do Tejo, portanto menos 463 milhões de euros. Há outras explicações possíveis, como por exemplo, a menor rectaguarda de cuidados continuados e o menor número de USF?

Resposta: As diversas informações, quantitativas como essas e qualitativas, apontam para que a ARS Norte tenha feito um bom trabalho nos últimos anos em termos de reorganização, acompanhamento e estímulo à eficiência das instituições da região (incluindo algumas concentrações e racionalizações de serviços). Daqui não se pode saltar directamente para todas as regiões terem os mesmos custos, já que é necessário acomodar as diferenças das populações servidas (por exemplo, população mais nova no Norte que no Alentejo; maior dispersão geográfica no Sul que no Norte, com consequentes diferenças de acesso, etc…). As diferenças para a região de Lisboa são, provavelmente e à luz dos dados conhecidos, excessivas e revelam que há margem para ter menores custos em Lisboa e Vale do Tejo.

Questão: Há explicações para as discrepâncias tão acentuadas como aquelas que se  encontram no estudo: por exemplo, o número de doentes operados por cirurgião oscila entre os 74 em Lisboa e Vale do Tejo e 111 no Algarve e o número de cirurgias por cirurgião varia entre os  76 em Lisboa e Vale do Tejo e 107 no Norte?

 Resposta: A resposta honesta é “não sei”. Enquanto não tivermos um “atlas de variações de prática clínica”, que documente as diferentes opções de tratamento efectivamente prestado, entre hospitais e zonas do país, para idênticas condições clínicas, e não se souber com detalhe diferenças de produtividade por médico por instituição, não sabemos se as diferenças se justificam pela complexidade dos casos tratados ou não.

Questão: Acredita que  seria possível evitar cortes no orçamento para o sector da saúde desta forma que parece tão simples para um leigo, melhorando o desempenho dos hospitais menos eficientes para níveis próximos dos mais eficientes? Se a resposta é sim, quantos anos seriam necessários para se chegar a esta convergência?

Resposta: Melhorar o desempenho nunca acontece de forma rápida ou simples. Os cortes no orçamento podem estimular essa melhoria de desempenho. Para que qualquer instituição se torne ineficiente, desperdiçadora de recursos e orientada apenas para o seu interior, basta que tenha sempre assegurado que o que gasta será pago por alguém. Foi o que sucedeu com os hospitais do SNS ao longo do tempo. Se as instituições fossem eficientes, os cortes no orçamento só seriam acomodáveis com reduções de actividade. Com instituições ineficientes, os cortes no orçamento estimulam a procura de soluções de melhor funcionamento, sobretudo se houver um controle efectivo de quem paga sobre a quantidade e qualidade dos serviços prestados. O ritmo de convergência depende dos mecanismos adoptados – se for credível que um hospital feche, ou que a sua gestão é demitida e todos os trabalhadores sofrem uma redução salarial de 10%, caso tenha maus resultados financeiros para transferências adequadas à sua actividade, então o ritmo de convergência poderá ser colocado em 3 a 5 anos. Se não houver qualquer sanção da má gestão, ou havendo mesmo prémio no sentido de reforço financeiro, então não haverá convergência.


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budget watch 2012

Paulo Trigo Pereira dinamiza, em conjunto com a Deloitte, uma análise do qualidade do orçamento do estado enquanto instrumento (budget watch), e não nas suas orientações políticas.

Nessa análise são consideradas 10 dimensões:

1- Transparência, rigor e análise de sensibilidade

2- Responsabilidade política

3- Saldos orçamentais consistentes com um nível sustentável da dívida pública

4- Controlo das despesas de consumo público, nomeadamente com a saúde.

5- Controlo das despesas com subsídios e transferências, nomeadamente com a Segurança Social.

6- Consideração dos trade-offs entre objectivos de política

7- Explicitação dos fluxos financeiros de e para as administrações públicas e o sector público empresarial

8- Equidade intergeracional e responsabilidades futuras (PPPs, investimento e garantias)

9- Solidariedade entre níveis de administração e entre subsectores da administração central

10- Incorporação de melhorias no processo orçamental.

De acordo com a metodologia usada, os orçamentos do Estado têm melhorado na sua qualidade (numa escala de 0 a 100):

2010: 37,3

2011: 38,1

2012: 41,8

embora seja clara a necessidade de serem ainda introduzidas muitas melhorias no orçamento do estado enquanto instrumento.

Numa análise mais detalhada da evolução do índice, fica claro que as melhorias registadas são ao nível da explicitação das opções políticas no documento e não na componente técnica pura, sobre a qual a informação disponibilizada continua a invalidar ou tornar muito difícil o escrutínio técnico. Três exemplos de áreas técnicas onde o orçamento do estado tem tido recorrentemente pouca qualidade:

– análise de sensibilidade face a cenários macroeconómicos  alternativos – foram certamente ensaiadas análises de sensibilidade, não caberiam todas no documento, mas poderiam ser disponibilizadas em documento de suporte disponível pela internet para quem quisesse avaliar essas alternativas;

– não é feita uma separação clara entre as despesas do estado que decorrem de compromissos e obrigações anteriormente assumidas, e as despesas para as quais há grande liberdade de decisão por parte do Governo;

– programação plurianual, a três anos, das despesas e receitas

Também claramente insatisfatória é a informação sobre os fluxos financeiros entre as administrações públicas e o sector público do estado.


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procurando entender as isenções das taxas moderadoras

As taxas moderadoras têm uma visibilidade na discussão pública que é desproporcionada ao seu peso no funcionamento do sector, mesmo atendendo a que o seu principal objectivo é evitar utilização desnecessária e não financiar o Serviço Nacional de Saúde.

A desproporção da visibilidade mediática das taxas moderadoras deve-se, em grande medida, ao facto de ser uma das poucas vezes em que o cidadão tem contacto com os custos dos serviços de saúde que lhe são colocados à disposição.

O Memorando de Entendimento com a CE/BCE/FMI estabeleceu que deveriam ser revistos os valores e as isenções das taxas moderadoras. Este objectivo não é novo, como já referi anteriormente. O relatório final da Comissão para a Sustentabilidade Financeira do Serviço Nacional de Saúde, em 2006, enunciava uma recomendação nesse sentido:

“Recomendação nº4: Revisão do regime vigente de isenções das taxas moderadoras, com uma redefinição das isenções baseada em dois critérios: capacidade de pagamento e necessidade continuada de cuidados de saúde”

O quadro 17 desse relatório indicava à data a distribuição de utentes isentos pelas diversas categorias.

Tendo o Ministro da Saúde referido publicamente (ou assim foi comunicado pelos orgãos de comunicação social) de que as novas isenções abarcariam mais de 7 milhões de portugueses,  será útil conhecer qual a actualização do referido quadro para 2011 e a sua previsão para 2012 de acordo com as novas isenções. Usando a informação disponível a que tenho acesso, resulta o seguinte quadro.


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os novos valores das taxas moderadoras

disponíveis aqui, após as discussões na comunicação social, mais ou menos informadas sobre os valores


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Portugal: Second Review Under the Extended Arrangement

foi publicado o texto da segunda revisão feita pelo Fundo Monetário Internacional: aqui

o da Comissão Europeia: aqui (obrigado Helena)

e também no site da esame, organizado por partes

para ler e comentar nos próximos dias


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a minha contribuição no dinheirovivo.pt de ontem, sobre emigração

Emigrem!?

19/12/2011 | 00:10 | Dinheiro Vivo

As declarações do primeiro-ministro sobre as oportunidades noutros países para os professores desempregados foram naturalmente polémicas. A primeira reacção, naturalmente emotiva, é a de desconforto – não é habitual ver-se um primeiro-ministro a sugerir a emigração como saída para o desemprego.

O desconforto surge por dar a sensação de inevitabilidade e de falta de soluções. Contudo, há a necessidade de olhar para além dessa primeira impressão e tentar perceber o que pode levar um governante a proferir esta afirmação.

Comecemos por recordar que, com a sua actual estrutura produtiva, Portugal não tem conseguido assegurar crescimento económico suficiente para sustentar as aspirações da sociedade. É bem conhecido que essa falta de crescimento económico está na base da necessidade de ajustamento da economia portuguesa. Necessidade que existiria mesmo na ausência de uma crise internacional, pois desde o início do milénio que a economia está a crescer a baixas taxas (quando cresce).

Ora, se é necessário ajustar a estrutura produtiva significa que a actual não responde aos desafios que se enfrentam. Ajustamento é sinónimo de que as actividades produtivas de futuro não são iguais às de hoje, na sua composição e intensidade. Haverá sectores económicos a crescer e outros que irão contrair a sua actividade.

Mas crescimento de uns sectores e definhamento (mesmo que parcial) de outros implica que haja recursos produtivos a transferirem-se dos sectores que irão contrair para os que estejam em crescimento. Se as competências exigidas nos sectores que venham a crescer forem similares às dos sectores em contracção a transferência de pessoas de umas posições de trabalho para outras será fácil. De outro modo, haverá que fazer uma reconversão de competências e conhecimento.

Quando a economia portuguesa voltar a crescer, em termos económicos, com base no desenvolvimento de novos sectores, haverá uma migração de factores produtivos, incluindo recursos humanos, entre sectores. Haverá emigração dos sectores onde exista excesso de recursos. Será um efeito inevitável da pretendida transformação da economia portuguesa.

Neste processo, o que sucede às pessoas que não tenham capacidade ou não queiram mudar de sector ou de tipo de actividade? Se não resulta a (e)migração entre sectores económicos, talvez mesmo entre regiões de Portugal, então a emigração poderá ser uma outra solução.

Com a integração europeia e a maior facilidade na mobilidade de pessoas dentro da União Europeia, com novas gerações que viajaram mais do que as anteriores, a emigração é hoje uma realidade relativamente comum. Quem faz carreira numa grande empresa portuguesa ou estrangeira também tem frequentemente um período de emigração. Outros emigrarão para encontrar empregos que os satisfaçam mais ou que não encontram em Portugal. Não é um fenómeno novo, nem deverá ser dramatizado.

Porquê então a reacção tão grande à declaração do primeiro-ministro? Porque a sugestão soma-se a um ano complicado, soma-se à perspectiva de outro ano complicado, soma-se ao conhecimento de que o processo de emigração já se iniciou há pelo menos dois anos e soma-se ao receio de que em lugar de emigração se venha a estar na presença de um êxodo.

O que há então a fazer, nesta linha?

Procurar alcançar dois objectivos: facilitar a transição profissional entre sectores, por um lado; e manter o ânimo da população, por outro lado. O primeiro depende de medidas concretas; o segundo depende da forma de comunicação do Governo, e do primeiro-ministro.

Nova School of Business & Economics
ppbarros@fe.unl.pt
Escreve à segunda-feira


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algumas perguntas e respostas sobre taxas moderadoras

Como de vez em quando recebo perguntas sobre as taxas moderadoras, decidi colocar disponíveis algumas delas, as mais recentes, com ligeiras adaptações, bem como as minhas respostas:

1) O que lhe parecem estes aumentos para 20 e 9,60 euros das taxas moderadoras das urgências e centros de saúde? São compreensíveis, ainda têm essa função “moderadora”, ou são “exagerados”, como ontem se ouviu, passando a constituir já “co-pagamentos” e uma forma de financiamento do SNS?

Não são ainda valores que possam ser considerados uma forma de financiamento do SNS (o que seria difícil dada a previsão de serem no máximo 2% das necessidades de financiamento do SNS). Do meu ponto de vista, são valores compreensíveis. Não creio que alguém deixe de ser tratado em caso de urgência por causa das taxas moderadoras.

Para ter uma ideia dos valores de taxas moderadoras noutros países, ver aqui.
Estes valores colocam-nos entre os valores mais elevados da Europa, mas a Irlanda, que está num processo de ajustamento macroeconómico similar ao nosso, tem taxas moderadoras superiores. A diferença entre os valores nas urgências hospitalares e nos centros de saúde deverá levar as pessoas a utilizarem mais a primeira porta de contacto habitual, o centro de saúde e o atendimento telefónico do SNS.

2) O Ministério da Saúde confirmou a manchete do “Diário Económico” que diz que, em caso algum, poderá ser cobrado mais de 50 euros a um doente por uma ida à urgência, independentemente dos exames efectuados. Parece-lhe uma boa solução? É uma medida razoável ou apenas um “mal menor” para os aumentos?

É uma medida razoável no seguinte sentido. Como o nome indica, a taxa moderadora destina-se a evitar abusos de utilização, ao fazer o utente participar de uma pequena parte do custo financeiro do serviço que vai receber. Ora, no caso de exames complementares a decisão não está na mão do utente, pelo que a taxa moderadora por esses exames faz menos sentido, e servirá quando muito para que o utente tenha a percepção do que está a ser gasto com ele. O limite de 50€ evita que essas outras taxas, que de um ponto de vista lógico de organização de funcionamento do sector até poderiam ser zero, assumam valores demasiado elevados.
3) Defendeu no “Público” que não deviam ser cobrados aos doentes as taxas para exames e meios complementares de diagnóstico e que esta era a oportunidade para fazer essa alteração. Porque não deviam ser cobrados?

Porque se as taxas se destinam a moderar o consumo, interessa influenciar quem decide. Sendo esses exames solicitados pelo médico e não tendo o doente a decisão, não há motivo para ser ele a pagar parte do custo no momento de consumo. É quem tem a decisão nas mãos que deve ser sujeito a taxa moderadora. No caso de decidir ir a uma consulta, o cidadão tem essa decisão, logo deve ser “guiado” de alguma forma pela taxa moderadora nas suas decisões. O argumento deixa de ser válido para os exames complementares, em que o cidadão acata a decisão clínica.
4) Parece-lhe aceitável esta forma de ir anunciando às pinguinhas, e sempre de forma evasiva e pouco clara, estas alterações na saúde?

Não me parece que esteja a ser anunciado da forma que descreve. O Memorando de Entendimento em Maio já falava destes aumentos. Em Setembro fizeram parte de uma resolução do Conselho de Ministros. Foram agora publicados. Sabia-se por isso que iria haver aumentos nas taxas moderadoras. A escolha do momento cabe ao Ministro da Saúde. Estou certo de que se tivesse optado por publicar a portaria, estaria a ser criticado por não transmitir de forma mais abrangente a todos os portugueses. O único aspecto que me parece dever ser melhorado é a existência de mais informação, através de um documento de suporte à decisão que estivesse disponível no portal da saúde, como forma de orientar a discussão. Por exemplo, saber que evidência se tem em Portugal da evolução do recurso às urgências e aos centros de saúde, em que medida depende do preço, quantas urgências são susceptíveis de serem afectadas por esta medida, etc…
5) São estas, no seu entender, as medidas para tornar sustentável o SNS?

Não há uma única medida que torne sustentável o SNS, dentro do quadro actual. Assim, esta é uma das medidas que ajuda a tornar financeiramente sustentável o SNS. Não pelo valor da taxa moderadora que é paga, mas pela melhor utilização de recursos do SNS que origina. Por exemplo, se uma pessoa optar por telefonar para o Saúde 24, e se até conseguir resolver a sua situação desse modo – há casos de sintomas em que se deve esperar antes de recorrer a um médico – evitando uma ida desnecessária à urgência hospitalar de um hospital central, poderá estar a poupar mais de 150€ ao SNS (em média). A taxa moderadora, mesmo que venha a ser de 20€ é menos importante do que a poupança gerada por se evitar utilização desnecessária.


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debate sobre taxas moderadoras e financiamento do sistema de saúde

na TVI24, com João Semedo, Manuel Antunes e Pedro Pita Barros (pois, os blogs são também espaço de publicidade individual): http://www.tvi24.iol.pt/videos/pesquisa/constança+cunha+e+sá/video/13540640/1


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e um pouco de história económica…

De vez em quando sabe bem “mudar de ares”, no caso, assistir ao “Portuguese Economic History Workshop“, realizado a 12 de Dezembro no ICS. Tive a oportunidade  de comentar o texto de Sofia Teives Henriques, “Without steam in the age of coal and dams in the age of electricity: a natural resource explanation for portuguese economic divergence“. Porque o trabalho me despertou a atenção, e pelas ideias que lança, decidi partilhar aqui a minha visão sobre o estudo e sobre as suas implicações e lições. (o restante programa e papers apresentados no encontro podem ser consultados no site indicado acima).

A tese principal é fácil de enunciar depois de ler o texto – na primeira revolução industrial, baseada no carvão, a tecnologia disponível estava adaptada para as características do carvão inglês, e não o carvão português era escasso (logo caro) como diferente do inglês. A estrutura produtiva portuguesa permaneceu trabalho intensiva. Na segunda revolução industrial, baseada na electricidade, Portugal parecia apresentar condições de partida distintas – tinha mais água que carvão, e poderia por isso ter tido um processo de industrialização mais seguro, as faltavam: a) procura de electricidade, dado que não tinha sido construída a base industrial durante o período de carvão que pudesse agora justificar a procura de electricidade como fonte de energia; b) não havia experiência com a tecnologia.

Sendo uma tese interessante, duas coisas chamaram a atenção. A primeira claramente referida no texto – frequentemente a “tecnologia” importada via equipamentos não era totalmente utilizada por falta de capacidade técnica. Ou seja, faltava um factor produtivo complementar, capital humano, sem o qual a própria rentabilidade dos equipamentos e da tecnologia eram menores, além de que não se procedia a uma adaptação generalizada dessas novas tecnologias da época às características dos recursos naturais portugueses. Não era só falta de carvão, havia algo mais em falta. Fica a pergunta de saber se esta interpretação é lícita e se tem algum poder explicativo.

O segundo aspecto é mais subtil, e está associado com o que vem primeiro – a disponibilização de uma tecnologia com uma energia mais barata, que leva ao desenvolvimento de uma base industrial (que parece ser o argumento principal para a falha portuguesa durante o período do carvão); ou é necessário ter uma base industrial adequada para que a nova forma de energia seja plenamente utilizada? (que parece ser o argumento principal para a falhar portuguesa durante o período da electricidade). Querer os dois argumentos ao mesmo tempo, para períodos diferentes, é que a ser a interpretação correcta, necessita de algo mais em termos de discussão e ligação. Um ponto de ligação possível é, a meu ver, o meu primeiro aspecto focado – a falta de capital humano para saber como usar as tecnologias. Enfim… para discussão e esclarecimento pelos historiadores económicos, que sabem muito mais disto e poderão certamente clarificar.

Por o encontro ter sido internacional, o comentário foi feito em lingua inglesa e é nessa versão que o disponibilizo (para poupar o trabalho de tradução, ainda não confio no google translator o suficiente para o fazer automaticamente). (também pode ser visto em formato slide aqui)

1.  Getting inside the paper

  • Clear research question – did differential conditions of access to coal determine the relative lack of success of the Portuguese Industrial Revolution?
  • The arguments are laid out in a nice way
  • (and readable to the non-expert )
  • My ignorance has an advantage – I can ask any question, even “silly” ones

2. Overview

Main argument:

  • First industrial revolution – technology intensive in coal, technology adapted to UK conditions
  • Portugal lacked the resources (coal), and did not have an obvious cheap alternative – remained labour intensive
  • Second industrial revolution – based on electricity
  • Portugal had more water than coal – but lacked:
  • Demand for industrial use of electricity – cost from being behind in the first industrial revolution
  • No experience with the technology
  • Development based on electricity was hindered by low industrial development since coal time

3. Broad issues and questions

•Why the inability to adapt? Looking at technology, in the sense of production function, it seems that there was a lack of human capital as well – p. 148 & ft 386 & p.363
•“never used due to lack of capital to hire an engineer”
•“lack of scientific knowledge of industrialists, who do not even know how many turns does a wheel make per second”
•“Portugal did not participate in scientific innovations of the 1870s-1880s”
•Why not the entry of new firms funded by international capital? (political decisions to close the market? International environment did not favor investment in Portugal?)
•What was the role of market power in keeping innovations away? (Arrow substitution effect in monopolies & innovation incentives)
4. Smaller points
•Prices of coal, table 1 – increasing in the UK, Germany, Canada, France, Spain, but decreasing in Portugal – level is higher in the beginning but not so much at the end – what was going on?
•International comparison of costs of internal transportation in other countries?
•How were imports of equipment organized? Monopolies? Competitive imports without barriers – licensing, duties, etc…
•What is the relevant theory of technological adoption? “economic incentives to adopt steam technology is to compare the relative coal to labour prices” – expected demand, prices of final products, current market structure: incentives vs conditions?
•Role of international trade? (p.155), it seems to me from reading the paper that even in a close economy adoption would be low – “quality” of labor input to make technology work was lacking
•Portugal was poor in coal, but also in ore and other metals – lack of complementary resources, it was not only cost and quality of coal?
•Expansion of railways drained resources from other (tradable) sectors? Both financial and physicial
•“steel needed a minimum operative scale” – natural monopoly in Portugal? What does it really mean?
•Technology was driven by UK; but no local adaptation existed, lack of local R&D as a “missing input”?
•“Portugal did not benefit from the presence of early international companies as Italy did”, why?
•Electricity as missed opportunity, what it that way? Technology was dictated by geography, but something different could have been done? Engineering skills for dams where not there?
•Classification of causes to endogenous vs exogenous conditions?
•The answer to the research question: “the labor intensive path chosen during the First Industrial Revolution implied low levels of energy demand and prevented capital accumulation”
•How many industries / companies were born at the time elsewhere? It was an issue of critical mass? Exports not a substitute for a strong internal market?


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inovações de organização no serviço nacional de saúde

Apesar de todas as discussões sobre o sistema português de saúde e sobre o Serviço Nacional de Saúde, é no dia a dia das instituições que se faz o futuro e se melhora a saúde da população. Por esse motivo, a divulgação de experiências organizacionais é de todo o interesse.

Um grupo de profissionais da Unidade Local de Saúde de Matosinhos lançou a ideia de um procedimento diferente de pré-admissão de doentes cirúrgicos, publicando não só a ideia, como levando-a à prática. É uma sugestão promissora, merecendo um comentário rápido.

A ideia de uma “walking clinic” (ou consulta preparatória, se quisermos dar-lhe um nome em português)  parece corresponder ao tipo de transformações organizacionais que é desejável ver ocorrer no sistema de saúde nacional (e não apenas no hospital público ou no Serviço Nacional de Saúde).

Primeiro, tal como apresentada, a proposta de “walking clinic” coloca o doente no centro da atenção, analisa e cria um melhor percurso para o doente dentro do sistema. Em vez de o doente “viajar” pelo sistema à procura das várias componentes dos serviços de saúde que necessita, são estas componentes que “viajam” ao encontro do doente num único ponto. É claro o potencial para uma maior satisfação do utente com este novo percurso dentro do sistema de saúde.

Segundo,  a identificação da oportunidade de melhoria na organização dos cuidados parte dos profissionais que conhecem a realidade que servem e assegura o seu compromisso para com o sucesso da iniciativa.

Terceiro, poderá contribuir para uma melhor articulação entre níveis de cuidados, um aspecto normalmente reconhecido como importante mas conhecido pela sua dificuldade na prática.

Quarto, tem potencial para uma redução de custos, quer para o hospital, quer para o próprio utente, neste último caso sobretudo custos de tempo e incómodo. Para o hospital, implicará sobretudo custos evitados de internamento desnecessário. Se não envolver custos acrescidos, para além dos associados com a reorganização necessária do espaço físico, a proposta da “walking clinic” será provavelmente bem vista aos olhos da administração do hospital.

Sendo claros os benefícios que esta iniciativa potencialmente tem, é adequado pensar igualmente nos desafios que se lhe colocam, e como poderão ser vencidos.

Primeiro desafio, como reagirão os doentes. É necessário assegurar que estes reconhecem o novo modelo de contacto como de igual qualidade à alternativa de três consultas. Não será certamente difícil garantir essa percepção do doente, mas convém não descurar este aspecto.

Segundo desafio, o modelo da “walking clinic” obriga a uma coordenação de tempos (dos médicos envolvidos) e do espaço que será importante respeitar de forma continuada. O risco é funcionar bem no início e mais tarde conforme forem surgindo necessidades de excepções, as três consultas passem a 2 + 1 e depois se caia novamente no modelo 1 +1 +1. A reorganização do espaço físico e sua manutenção são fundamentais para que o modelo da “walking clinic” seja interiorizado pelos profissionais envolvidos e pela organização, pelo hospital.

Terceiro desafio, articulação com os cuidados de saúde primários. A (sempre desejada) articulação entre os cuidados de saúde primários e os cuidados hospitalares é muitas vezes prometida e raramente cumprida. Esse risco existe aqui também. Correndo o risco de ser injusto com a proposta da “walking clinic”, essa articulação parece limitar-se a procedimentos administrativos de referenciação. Seria importante que semanalmente ou de duas em duas semanas houvesse uma reunião conjunta de apreciação e seguimento dos casos referenciados entre quem referencia e os profissionais envolvidos na “walking clinic”. A presença física e contacto directo agilizam a discussão e a compreensão mútua quanto à melhor forma de orientar o percurso do doente no sistema.

Quarto desafio, sendo louvável que na proposta se considere desde já um horizonte temporal para avaliação dos resultados da mesma, é de toda a importância que os critérios (e consequências) dessa avaliação sejam conhecidos desde o início. Essa definição permitirá uma maior facilidade de recolha de informação, e uma maior objectividade na avaliação da experiência inicial e definição de ajustamentos posteriores que se venham a revelar necessários.

Quinto desafio, sobreviver ao entusiasmo inicial. Como em todas as iniciativas que partem de baixo para cima, há um entusiasmo e um compromisso com a proposta que é patente na defesa da ideia. Inevitavelmente, este entusiasmo irá chocar contra uma “muralha” de dificuldades no dia a dia da sua aplicação. Essa muralha terá aspectos administrativos, institucionais e possivelmente até pessoais. Importa que essas dificuldades sejam ultrapassadas, e que a cada dificuldade superada o entusiasmo seja renovado. Será preciso acarinhar a “walking clinic” não apenas nos momentos iniciais, mas durante os seus primeiros anos, até que se torne “tradição”.

Comparando benefícios com custos, o saldo parece resultar positivo para todos os intervenientes, utentes, profissionais de saúde e administração do hospital. Não se dispondo de informação sobre os custos implicados e benefícios esperados, em termos previsionais, a apreciação resulta da presunção de que os custos adicionais estão sobretudo associados com a reorganização do espaço físico e os benefícios com a redução de tempos de internamento e a utilização mais racional dos meios de diagnóstico disponíveis.

Cabe agora provar que a promessa se concretiza. Tenho a esperança de que num prazo breve se escreverá um comentário à “walking clinic” não em termos condicionais e sim no presente de uma aposta ganha.

 

(post gémeo com estado vigil)