As discussões sobre as poupanças na despesa pública têm dominado todas as atenções, e o mesmo se tem passado na saúde. De certo modo, nas condições actuais é quase inevitável que toda e qualquer medida adoptada seja julgada pelas consequências que tem sobre a despesa pública em saúde. A pergunta mais vezes feita é sobre onde cortar, logo seguida de como cortar. Quando se olha para os valores agregados da despesa em saúde em Portugal, a discussão fica quase sempre paralisada na aparente divergência entre se dizer que se gasta muito (despesa em saúde como percentagem do PIB elevada) e que se gasta pouco (valor per capita baixo, na comparação internacional). Mais interessante é saber se poderemos obter os mesmos resultados de saúde com menos recursos. E é interessante por duas razões – por um lado, significa que temos de conhecer como é que os recursos disponibilizados são transformados em cuidados de saúde e estes em resultados de saúde (são dois passos), por outro lado, é preciso conhecer que contribuição dá cada actividade em termos de benefícios – por exemplo, nem sempre mais uma consulta, mais um cirurgia ou mais um medicamento prescrito ou mais uma TAC têm valor adicional em termos de saúde das pessoas (embora consumam recursos).
Centrando, antes desse segundo passo, a atenção no primeiro passo, os vários estudos que têm sido produzidos nos últimos dois anos (para não recuar mais no tempo) mostram que existe variabilidade de situações suficiente para se pensar que existe ainda potencial para obter resultados similares com menos recursos.
O problema é identificar onde. Para dar essa resposta, é necessário descer um pouco mais na análise das organizações.
Um exemplo concreto é dado pela gestão das unidades de saúde, em particular dos hospitais. Muito se tem falado ao longo da última década sobre essa avaliação da gestão e consequências que poderia e deveria ter, mas não se desenvolveram os instrumentos necessários para medir de forma adequada essa gestão.
Medir de forma adequada não significa compilar centenas de indicadores que possam ter uma associação com a qualidade de gestão, mas não perfeita, e como tal possam ser justificáveis por outros factores. Se um mesmo resultado dos indicadores puder ser justificado por melhor ou pior gestão ou por evolução de outros aspectos (digamos, um surto de gripe de estirpe nova), então penalizar ou premiar a gestão poderá ser injusto e inadequado no sentido de punir ou premiar aspectos que não estavam de facto no controle da gestão.
A solução é encontrar uma medição quantitativa mais directa da qualidade de gestão, e identificar os indicadores construídos por rotina ou que podem ser obtidos a partir de informação rotineiramente recolhida, que com ela têm forte associação.
A forma de medir quantitativamente a qualidade da gestão tem sido desenvolvida de várias formas. Uma que me parece especialmente feliz é devida a Nicholas Bloom (e os co-autores com quem trabalha), da Universidade de Stanford, que envolve entrevistas realizadas e classificadas segundo um sistema que procura assegurar uma passagem consistente de elementos qualitativos para quantitativos.
Numa aplicação a hospitais ingleses, onde foram realizadas essas entrevistas de forma sistemática e construída uma base de dados para análise, encontraram uma relação sistemática entre qualidade de gestão, utilizando este instrumento, e indicadores de qualidade de cuidados prestados.
Além do resultado genérico, de quantificação do impacto de melhorias de gestão em resultados de saúde medidos por redução de taxas de mortalidade, identificaram que áreas da gestão eram mais responsáveis por essa melhoria – surgindo à cabeça a gestão dos recursos humanos, seguido do estabelecimento de objectivos. Sem efeito imediato e significativo, a gestão de operações e a monitorização e controle, como áreas de actividade da gestão. Ou seja, onde maiores ganhos, no sistema inglês, em termos de gestão é numa melhoria da política de recursos humanos (tem depois vários elementos dentro dela a serem considerados).
Este resultado permite pensar que áreas da gestão a ser melhoradas têm maior impacto em termos de resultados de saúde. Também se pode ver a relação com indicadores financeiros (e aqui os resultados encontrados são de maior diversidade, não se estabelecendo uma relação estatística sistemática).
É de todo o interesse que o mesmo tipo de evidência seja obtido para Portugal, para que não se continue a discutir com base apenas em percepções, mais ou menos informadas pelas experiências de cada um. E constituirá também informação útil para quem está à frente das instituições.
Neste tipo de abordagem, até existe quem tenha iniciado parte do caminho (Vitor Raposo, na Universidade de Coimbra), mas falta uma maior abrangência e generalização das unidades de saúde abrangidas (e podemos começar pelos hospitais).
Referência para consulta: Carol Propper, Nicholas Bloom, Stephan Seiler and John Van Reenan, The impact of competition on management quality: evidence from public hospitals.