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“Virar a página” em 2022 (?)

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mensagem de Ano Novo do Presidente da República tem ficado marcado na discussão pública pelo termo “virar a página”, sendo que a mensagem foi feita num tom suficientemente geral para que todos possam encontrar com que concordar. 

Ouvindo (ou relendo) a mensagem, tem mais significado o termo “muito mais a fazer”. E há várias áreas onde se pode aplicar essa ideia. 

Na minha leitura do que nos espera em 2022, tenho menos optimismo que Marcelo Rebelo de Sousa, sobretudo porque “menos pandemia” não é algo consigamos escolher. E o “virar a página” na tensão pandemia – economia em que andamos desde março de 2020 não pode ser anunciado, embora possa e deva ser preparado. Só que a preparação não pode partir do princípio de que se vai “virar a página” no sentido de apagar tudo o que nos condicionou nos últimos (quase) dois anos. 

A principal característica da nossa vida económica e social durante o ano de 2022 será, provavelmente, a incerteza. Com múltiplas faces. Pelo menos oito:

  1. Incerteza quanto à evolução da pandemia – não conseguimos controlar o surgimento de novas variantes, que podem ser mais transmissíveis e mais letais no futuro. É certo que temos mais capacidade de lidar com a pandemia: temos vacinas, que podem ser ajustadas com rapidez, temos melhor conhecimento sobre que tratamentos usar, e teremos brevemente disponíveis medicamentos, com eficácia crescente. Mas não deixará de haver incerteza quanto ao surgimento de novas variantes, sobretudo quando há ainda, a nível global, uma baixa taxa de vacinação.
  2. Incerteza quanto aos efeitos que o plano de recuperação e resiliência irá ter na economia portuguesa e sobre a dinâmica empresarial. Em particular, interessa que os fundos usados consigam resultar em maior produtividade global das atividades económicas, públicas e privadas. A maior produtividade é essencial para que se consigam melhorar os níveis de vida, em geral, da população que vive em Portugal. Implica que não só aumente a produtividade nas empresas e no sector público, como se tenha possibilidade de expandir sectores que tenham maior capacidade de crescimento da produtividade, com passagem de trabalhadores de umas áreas para outras. Os apoios públicos para suporte das empresas (e dos rendimentos das famílias) durante o tempo da pandemia abrandou, ou parou mesmo, a renovação habitual de empresas na economia (todos os anos nascem e desaparecem empresas, cria-se e destrói-se emprego). Esse abrandar de renovação em 2020 e 2021 pode traduzir-se em 2022 num resolver de situações acumuladas, sendo fácil que surja a tentação política de travar essa renovação habitual. 
  3. Incerteza quanto ao ambiente económico internacional – sendo a sua melhoria essencial para a recuperação duradoura das exportações. A recuperação económica dos nossos principais parceiros económicos será um dos “motores” para a recuperação económica nacional.
  4. Incerteza quanto à estabilidade governativa em Portugal – com eleições logo no início do ano de 2022, só ao fim de alguns meses se tornará claro qual o caminho macroeconómico que será adotado (sobretudo se não houver maioria absoluta de um partido, e o orçamento do estado continuar no formato de “venda de feira” de medidas de política económica).
  5. Incerteza quanto à mobilidade internacional de pessoas – sendo Portugal um país que teve uma parte importante da sua criação de riqueza nas últimas décadas ligada ao turismo, o retomar da circulação internacional de pessoas será um elemento facilitador da recuperação económica nacional. Mas também podemos incluir aqui a importância dessa circulação internacional para a “exportação de serviços de educação” no ensino superior, que vinha a crescer antes da pandemia.
  6. Incerteza quanto aos modelos de trabalho presencial e à distância (e todas as suas combinações que foram experimentadas durante os tempos de pandemia). Há incerteza sobre que combinação de trabalho presencial e teletrabalho vão surgir e estabilizar-se em resultado da aprendizagem realizada durante a pandemia.
  7. Incerteza quanto ao funcionamento do ano escolar, sendo que estamos no terceiro ano escolar desestabilizado pela pandemia. É necessário saber o que fazer para não interromper a escola presencial.
  8. Incerteza quanto à evolução da inflação, e por arrasto a evolução das taxas de juro nominais, mais cedo ou mais tarde. Num país como Portugal, em que há uma elevada dívida pública mas também uma elevada dívida privada (empresarial e das famílias, estas últimas na aquisição de habitação própria), a incerteza sobre as taxas de juro é relevante. 

Lidar com estas incertezas será o grande desafio do próximo ano, que terá de ser respondido de forma individual e de forma coletiva (pelos decisores públicos). Lidar com estas incertezas significa ter capacidade de decidir bem, individualmente e coletivamente, de forma a conseguir apoiar a saúde, apoiar quem esteja economicamente mais vulnerável na população, e fomentar as condições para o aumento da produtividade (nas empresas e na administração pública). Se em condições normais o equilíbrio entre estes dois últimos aspetos não é simples, incluir o elemento da saúde (pandemia) só adiciona complexidade. Daí que “virar a página” não seja propriamente “esperar que o tempo trate do assunto”. 

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

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