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a venda do novobanco

10 comentários

metamorfose

neste processo, três pontos parecem estar a emergir:

a) desejo de rapidez na venda do novobanco

b) desejo que a regra seja a maximização de valor de venda

c) início de tomadas de decisão com implicações estratégicas pela nova gestão

O problema é que b) e c) podem ter conflito entre si. Por exemplo, se a gestão actual do novobanco decidir encerrar balcões, onde os encerra pode alterar o valor de compra para bancos que já estejam a operar em Portugal. Como esta poderão existir outras decisões que reforcem o valor do banco para uns potenciais compradores mas não para outras. Contudo assegurar completa neutralidade de todas as decisões face a todos os potenciais compradores leva à paralisia da gestão. Terá que haver um balanço, mas este é certamente um argumento para uma venda rápida.

Adicionalmente, a maximização do valor da venda é compreensível como critério mas convém que se acautele o grau de concorrência no mercado bancário português (e quem está disposto a oferecer mais é, tudo o resto constante, quem conseguir a maior redução de concorrência com a aquisição). O equilíbrio entre conseguir um bom preço de venda e manter um bom funcionamento do mercado tem que ser alcançado. 

Permitam-me que ilustre com um exemplo extremo. Suponhamos que o sistema bancário tinha apenas dois bancos, o novobanco e o bancoconcorrente. A venda do novobanco envolverá uma das duas situações possíveis: entra um outro banco, bancoquecompra, e mantêm-se dois bancos no mercado; ou o bancoconcorrente compra e estabelece um monopólio no mercado. Se as estruturas de custos do bancoconcorrente e do bancoquecompra forem similares, o bancoconcorrente tem maior vantagem na aquisição por reforçar o seu poder de mercado e oferecerá um maior valor. A maximização do valor da venda genera um monopólio neste exemplo. A situação real não será tão simples e estilizada, mas conterá também elementos similares de poder de mercado se bancos com forte presença no mercado português forem candidatos, e que darão maior valor ao seu reforço de posição. 

Significa este argumento que além do valor da venda tem que haver atenção à estrutura de mercado que é criada.

Argumento adicional para esse cuidado com a estrutura de mercado é não criar um banco ainda mais “too big to fail” que o BES, isto é, também do ponto de vista de regulação prudência interessa evitar que haja “captura da regulação pela dimensão do regulado”. 

Ou seja, a venda tem que ser rápida mas bem pensada !

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

10 thoughts on “a venda do novobanco

  1. Pedro,

    A venda do banco não tem de ser autorizada pela autoridade da concorrência ou algo equivalente? Ou as vendas do estado estão excluidas dessa regulação?

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  2. A venda tem que ser notificada à Autoridade da Concorrência, que pode partir para uma investigação aprofundada ou não. A substituição do grupo Espirito Santo pelo grupo Angeles no controle da Espirito Santo Saúde à partida não levanta preocupações de menor concorrência no mercado, pois o grupo mexicano não actua em Portugal. Por isso, a minha expectativa é que seja uma decisão rápida de conformidade. Situação diferente ocorre se for o grupo José de Mello Saúde ou o grupo Amil a adquirir. Nesse caso, será de esperar algum trabalho adicional da Autoridade da Concorrência – primeiro, identificar os mercados onde possa haver problemas de menor concorrência significativa pela aquisição; segundo, fazer uma análise preliminar a saber se se justifica uma análise detalhada dos efeitos da operação.

    Um dos critérios para haver notificação da operação é o volume de negócios, que no caso da Espirito Santo Saúde ultrapassa o limiar que obriga à notificação.

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  3. Eu parece-me que o modelo inglês é provavelmente a melhor saída: contratar um gestor (de preferência internacional, com poucas ou nenhumas ligações à banca nacional, mas com larga experiência no sector) e ajustar com ele um pacote remuneratório francamente atractivo mas dependente de objectivos, sendo que um deles é a venda do Banco num prazo de 3-5 anos. Dar liberdade total de gestão, salvo falha das metas. Ter como objectivo final a venda do banco a entidade terceira não operante no mercado nacional.

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  4. Mais uma vez um tema case study para a historia dos negócios financeiros de uma pequena economia aberta e onde a boa banca de proximidade deu problemas quando se armou em “melting pot”. E com um quadro institucional em grande mudança internacional.
    Vender bem e rápido de acordo com as experiências internacionais não vai ser tema pacifico.Como ja se esta a ver no caso da Tranquilidade que , por exemplo, podia ter sido objecto de venda aos trabalhadores e gestores interessados caso tal fosse possível. Assim partiu o Apollo 50 milhões e esta feito!
    No caso do Banco o facto de ser um banco de pmes e micro empresas torna tudo muito mais complexo.E a questão da Gestão passada e a que já esta semirecuperada pode e deve ser vista como um factor de pressa lenta. Perante um processo que, podendo passar ate por fusão interna(?) terá sempre de ter as etapas que referiste em particular as concorrenciais.
    Cá por mim vamos ter uma de Lusofonia porque de Espanha já chega o que eles por la têm com problemas.E de outros lados há outras prioridades.Inclusive Chinesas apesar das muitas lojas que já por ca existem e com produtos variados não alimentares.
    No final de Outubro será tempo de ver como esta o campeonato entre os 3 Grandes… 🙂

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    • A quetsão que se põe é. Vmaos rfecuperar o Banco para depois o vender bem, como foi feito em Inglaterra, ou vendê-lo rapidamente.
      A ata do BP mostra que o Novo Banco é para extinguir em todas as circunstâncias. Logo não faz sentido apostar na sua restruturação e recuperação.
      Por outro lado o principal activo são os clientes. Só que estes não são propriedade do Banco. Sabendo que este vai acabar e não se sabe quem o toma. a melhor opção para o cliente será começar a desde já o relacionamenteo com outro Banco, evitando asism riscos desnecessários no caso das coisas correrem mal e as contas ficarem “presas”. Finalmente percebe-se que a politica de créditos vai passar a ser muito conservadora o que ainda motivará mais as empresas, um dos principais trunfos do BES/Novo Banco, a mudarem-se para a concorrência que certamente já estará no terreno.

      Se isto acontecer e houver uma grande tranferência dos depositos para outros bancos, teremos um grande problema. Por isso a estratégia de venda rápida, que me parece jé irreversível, pode resultar em tragédia.

      António Alvim

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  5. Recebidos via facebook:

    [1]
    Aren’t a) and b) also clashing?
    Considering how information around BES was disclosed until now, how can any sophisticated individual believe that the good bank is all good? Even if it is indeed all good as we are told, it will take some time for investors to be convinced.

    [2]
    Este tema, imageticamente falando, terá alguma coisa que ver com o “Efeito borboleta” termo que se refere à dependência sensível às condições iniciais, da teoria do caos?

    [3]
    Os outros bancos, têm as áreas comerciais a captar em força, clientes do novo banco. Significa que em breve o potencial de negocio do novo banco será minimo, restando apenas a carteira de credito hipotecario e meia duzia de ativos para venda. Muito em breve o banco vai valer muito pouco e muito longe do dinheiro colocado pelo Estado/Fundo/BdP.

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  6. Agora fiquei confuso: o banco é para fechar ou é para vender? Uma coisa é fazer um “wind down” as operações com vista ao fecho, eventualmente vendendo activos peça-a-peça ou em bloco. Outra coisa é tentar vender a operação (o banco) em bloco.

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  7. Do site do Banco de Portugal, a minha interpretação é para venda:

    3. Que medida de resolução o Banco de Portugal decidiu aplicar ao Banco Espírito Santo, S.A.?
    O Banco de Portugal decidiu aplicar ao Banco Espírito Santo, S.A. uma medida de resolução que consiste na transferência da generalidade da sua atividade para um banco de transição, denominado Novo Banco, criado especialmente para o efeito. Esta medida visa:
    a) Minimizar a deterioração de valor da instituição;
    b) Assegurar a proteção dos depósitos de particulares e de empresas no Banco Espírito Santo, S.A.;
    c) Assegurar a proteção dos créditos concedidos pelo Banco Espírito Santo, S.A., além de outros ativos;
    d) Salvaguardar a continuidade dos serviços financeiros prestados pelo Banco Espírito Santo, S.A. aos seus clientes e ao público em geral;
    e) Manter a estabilidade e a confiança no sistema financeiro nacional;
    f) Salvaguardar os interesses dos contribuintes e do erário público.

    Regime jurídico.
    O regime aplicável aos bancos de transição resulta essencialmente do disposto nos artigos 145.º-G a 145.º-I do Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras (aprovado pelo Decreto-Lei n.º 298/92, de 31 de dezembro, na redação introduzida pelo Decreto-Lei n.º 31-A/2012, de 10 de fevereiro), bem como do Aviso do Banco de Portugal n.º 13/2012. O Código das Sociedades Comerciais é também aplicável aos bancos de transição, com as adaptações necessárias aos objetivos e à natureza destas instituições. Além deste regime legal, o banco de transição reger-se-á ainda pelos seus estatutos, que foram aprovados pela deliberação do Conselho de Administração do Banco de Portugal que determinou a aplicação da medida de resolução.

    4. Porque é que foi esta a medida de resolução escolhida pelo Banco de Portugal?

    A situação do Banco Espírito Santo, S.A. levou o Banco de Portugal a intervir com caráter de urgência (ver questão B1). De entre as medidas de resolução, a constituição de um banco de transição para o qual é transferido o essencial da atividade é a única solução que permite de forma célere assegurar (i) a proteção dos depósitos e dos clientes, (ii) a continuidade dos serviços financeiros prestados pelo Banco Espírito Santo, S.A. e (iii) a manutenção da estabilidade e da confiança no sistema financeiro nacional.

    5. O que significa o Novo Banco ser um banco de transição?

    Um banco de transição é uma instituição de crédito com a natureza de banco, que reveste a forma de sociedade anónima. É constituído especificamente para receber e gerir os ativos, os passivos, os ativos sob gestão e os elementos extrapatrimoniais transferidos de uma instituição de crédito que se encontre em situação de desequilíbrio financeiro.

    Sendo um banco, o Novo Banco poderá exercer todas as atividades permitidas aos bancos, no quadro do mandato de gestão determinado pelo Banco de Portugal. Deverá também cumprir todas as normas, incluindo os requisitos prudenciais, exigidas aos bancos que operam no mercado.

    A transferência da atividade para um banco de transição não depende do prévio consentimento das partes envolvidas nos contratos relacionados com os ativos, os passivos, os ativos sob gestão e os elementos extrapatrimoniais a transferir.

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  8. Não sendo jurista chamo atenção para o artigo 13º dos estatutos do Novo banco “Competências do Conselho de Administração” que me parece ser muito explícito em estabelecer como tarefa principal da administração tratar da venda: nr 3 alíneas b) c) e i) ; e o Artigo 23 – “Dissolução e Liquidação” que estipula a dissolução do Novo banco ,até mesmo no caso da alineação do total do capital social ,
    Ora um Banco cujo objetivo da sua Administração é vendê-lo, à peça ou pelo conjunto mas com fins de ser integrado noutro, não motiva nem Administração, nem colaboradores (que neste momento se perguntam o que lhes irá acontecer), nem clientes, pelo que terá que ter um vida tão efémera como a borboleta. Assim, quanto mais depressa melhor…

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