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privatização da caixa geral de depósitos

2 comentários

Sobre o tema da privatização da caixa geral de depósitos, a solicitação do Expresso dei uma breve opinião (publicada a 29 de Setembro de 2012): “A experiência recente da CGD mostra-a como um braço armado da fação política que estiver no poder. Como instrumento de intervenção do Estado na banca tanto é para o bem como para o mal. Neste momento, não estou convencido que o valor económico deste instrumento compense a destruição de valor produzida pela ingerência política”.

Este é um tema que irá despertar reacções muito diferentes. Interessantes são os exemplos dados por Nicolau Santos, e com ele concordo que a privatização a ser feita deve ser feita a 100%, cobrando o “prémio justo por ficar com um terço do mercado bancário nacional”.

Se é defensável que a CGD é um instrumento do Estado no sector bancário, a questão é saber como é que esse instrumento é usado. E não me consigo recordar de um único bom exemplo em que a CGD em mãos nacionais tenha a prazo sido decisiva para o bem-estar comum (e não de apenas alguns); saber claramente em que momentos a CGD estar em mãos públicas contribuiu para um rumo diferente de acontecimentos no sector financeiro e na economia é crucial para se saber o valor que tem como instrumento.

De outro modo, será melhor fazer a privatização a 100% e definir as regras de intervenção pública de outra forma. Há alguns anos dava mais importância a ter-se este instrumento, mas a forma como tem sido usado levou-me a reconsiderar e ver que há mais riscos de fazer mal que potencial de fazer bem.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

2 thoughts on “privatização da caixa geral de depósitos

  1. Bom dia,

    Pegando na sua frase “saber claramente em que momentos a CGD estar em mãos públicas contribuiu para um rumo diferente de acontecimentos no sector financeiro e na economia é crucial para se saber o valor que tem como instrumento.” dou dois exemplos em que a CGD norteou o mercado bancário:

    A) Contributo para o endividamento das famílias

    2004 – lançamento do produto o T30 – Crédito com Capital Diferido, possibilitando a amortização até 30% do capital contratado com a última
    prestação do empréstimo

    Consequência: redução do serviço da dívida; aumento do crédito à habitação numa altura em que a venda de imóveis e o setor da construção começava a estagnar. FOI UM PRODUTO PIONEIRO e deu um SINAL ao mercado, tornou o crédito mais acessível quando a dívida privada já atingia níveis elevados. Contribuiu para o aumento da dívida dos bancos ao exterior.
    Porque não aumentaram os juros dos depósitos para promover a poupança?

    2005 – lançamento do produto TRIPLEX – Para os clientes com idade
    inferior a 36 anos, com um período de carência até 10 anos, durante
    o qual só há lugar a pagamento de juros, podendo ainda recorrer à opção de diferir o pagamento de uma percentagem de capital para o final do empréstimo, até ao máximo de 30%.

    Consequência: redução do serviço da dívida;
    Mais uma vez, foi um produto pioneiro. Continuou a promover o sector da construção de habitações, convidando os jovens a endividar-se e a deixar 30%!! da dívida para os filhos. Haverá por aí contratos com 10 anos de carência de juros que ainda não começaram a amortizar qualquer capital em dívida. Não foi uma ideia fantástica?! A dívida é superior ao valor da casa (que entretanto caiu). Haverá possibilidade de criminalizar quem decidiu lançar esta oferta? A culpa será das famílias?! Em parte sim, mas essecialmente respondem a incentivos e quem os desenha/define são os responsáveis pela política económia. Quem ofereceu o produto? O banco do Estado.

    Outra consequência: uma rigidez adicional no mercado de trabalho (porque os custos da mobilidade ficaram muito maiores) com enormes consequências ao nível da eficiência na afetação dos recursos e por isso no crescimento económico.

    B) Braço financeiro do poder político

    A estratégia de financiamento de alguns investidores para adquirirem acções do BCP também é do domínio público. Estes conseguiram livrar-se da administração do BCP (que também não está isenta de críticas) e colocar no lugar deles dois administradores da CGD (com ligações ao partido do governo). Os créditos concedidos têm as acções como garantia e levaram a enormes imparidades. Foram estas impartidades que contribuiram para uma parte dos prejuízos recentes da CGD. Consequência: menos receita pública em dividendos e despesa em aumentos de capital por parte do accionista.

    A estratégia de injecção de dinheiro no BPN, entretanto nacionalizado, também se está a mostrar ruinosa. Ainda faltará apurar todas as consequências para a CGD.

    A CGD deverá servir para isto? Quem nos garante que daqui em diante será diferente?

    Abraço,
    José

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  2. Caro Pedro
    A CGD e apenas um simbolo de “refugio de confianca e seguranca” com uma dimensao intergeracional que nao sei quantificar.Tal como alguns mitos historicos noutros aspectos da vida nacional que teem vindo a desaparecer a medida que os tempos vao avancando ( companhia aerea de bandeira, televisao e radio publicas, …).Considerando eu que o Estado nao deve ter um Banco parece-me, no entanto, que estamos perante um contexto em que a privatizacao a 100% devera continuar a ser um cenario a preparar, mas sem logica. ser implementado a curto prazo porque e um vulcao de problemas financeiros adormecido.
    Francisco

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