Momentos económicos… e não só

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Novo regime jurídico da concorrência / conferência da Autoridade da Concorrência (2)

Ainda sobre a conferência da Autoridade da Concorrência e o novo regime jurídico da concorrência, Miguel Moura  e Silva passou em revista as alterações no campo das práticas restritivas e Mariana Tavares no que toca ao regime de clemência. Em ambos os casos houve a preocupação de falar em ajustamentos e não em revoluções, e sobretudo em aproximação à legislação comunitária. Em qualquer dos dois casos parece haver um entendimento de um alargar das situações de mercado que caiem sob a alçada da Autoridade da Concorrência. Não é tanto haver muitas situações novas que anteriormente não eram tratadas pela Autoridade da Concorrência e agora o são. A questão é que se tornou mais claro que a Autoridade da Concorrência pode de facto analisar, com menores preocupações de discussão sobre a adequação da sua intervenção, um conjunto mais amplo de situações.

António Ferreira Gomes, na área das operações de concentração, tocou num dos aspectos mais interessantes da nova lei – a aproximação à legislação comunitária do tipo de abordagem que se utilizará na apreciação de operações de concentração, em lugar de um teste de dominância passar a um teste de entraves significativos à concorrência efectiva. Embora qualquer um dos dois conceitos permita uma latitude grande de actuação, e de em termos económicos dominância não significar apenas ser a maior empresa do mercado, a verdade é que falando em entraves à concorrência se tira do caminho da análise dos efeitos de uma operação de concentração a questão de definição de dominância e sua evolução. A maior flexibilidade do conceito é natural que leve também a maior discussão.

Numa outra sessão, João Gata e Helder Vasconcelos falaram sobre a relevância dos estudos conduzidos pela Autoridade da Concorrência (por autoridades económicas em geral). Resultou claro que a capacidade técnica da Autoridade da Concorrência para entender o funcionamento dos diversos mercados onde poderá querer ou ter que actuar depende de ter recursos treinados em fazer análises aprofundadas. A construção de grupos técnicos com as competências necessárias demora tempo, e é difícil ver em cada momento a sua verdadeira utilidade. No entanto, essa capacidade técnica é crucial para que haja uma reputação de qualidade de análise da Autoridade da Concorrência. Contratar fora estudos, seja a consultoras ou a universidades não é uma boa solução nem um substituto para essa necessidade de capacidade técnica própria. Helder Vasconcelos apontou que os estudos pedidos fora são sobretudo interessantes quando se pretende ter uma visão mais distante, o que sugere situações pontuais e não um outsourcing permanente de estudos.

Pergunta crucial: faz esta alteração alguma diferença? na verdade não há uma previsão clara dos efeitos destas alterações. E o seu efeito depende mais do esforço e empenho da Autoridade da Concorrência do que da letra exacta da lei. Estando esta revisão concluída é de esperar que a Autoridade da Concorrência consiga deslocar os recursos usados no esforço de revisão da lei para uma maior aplicação das normas de defesa da concorrência em Portugal.


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Novo regime jurídico da concorrência / conferência da Autoridade da Concorrência (1)

O novo regime jurídico da concorrência entrou recentemente em vigor, e sexta-feira 13 de Julho a Autoridade da Concorrência promoveu um encontro para a sua divulgação, conhecimento e discussão.

Mesmo estando agora no início da sua aplicação, este novo regime jurídico relativo às regras de defesa da concorrência e papel da autoridade da concorrência mereceu algumas críticas. Apesar de tudo essas críticas não colocam em causa a sua aplicação e utilidade no contexto actual. Aliás, não houve qualquer reparo aos elementos fundamentais dos princípios da legislação da defesa da concorrência.

Falaram-se, obviamente, nos pontos essenciais de grande enquadramento, como a necessidade de instalar uma cultura de concorrência na realidade económica, tal como como se falou de aspectos muito particulares como os prazos de recurso (aspecto processual importante, mas que não coloca em causa, qualquer que seja o prazo, os princípios fundamentais do que deve ser uma legislação de defesa da concorrência).

Um tema igualmente discutido foi o do princípio da oportunidade – a Autoridade da Concorrência pode agora estabelecer prioridades de intervenção, tendo sido argumentado que a margem de apreciação que a Autoridade da Concorrência agora tem para definir prioridades exige reforço substancial da transparência na definição das prioridades, mas que não se pode tornar “num ritual vazio de sentido”, nas palavras de um dos participantes.

O que é curioso nesta discussão, para um economista, é que na medida em que os recursos da Autoridade da Concorrência são limitados, essas prioridades seriam sempre estabelecidas nem que fosse de forma implícita, através dos recursos disponibilizados e da celeridade de resolução exigida com cada caso.  É inevitável que tal já sucedesse.

Mais importante que a discussão sobre o que muda ou não muda com este princípio de oportunidade explicitamente permitido à Autoridade da Concorrência, é agora, que a nova lei está aprovada, o momento de  renovado vigor e a atenção à sua aplicação.


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Michael Porter em Lisboa, para falar de saúde (3)

Depois da apresentação da sua proposta para conceito base (vamos chamar assim), valor para o doente, Porter elabora sobre os princípios da prestação de cuidados de saúde que decorrem desse conceito:

–       a melhor forma de controlar custos é a melhoria da qualidade, pois uma melhor saúde é inerentemente menos custosa que má saúde da população

–       a saúde é o objectivo e não o tratamento

–       para se criar um sistema de prestação de cuidados de saúde baseados no valor para o doente, é fundamental re-estruturar a forma de prestação dos cuidados

–       há que reorganizar (será melhor usar o termo refundar?) tendo em consideração as novas mobilidades dos doentes, e as novas formas de combinar as diferentes profissões de saúde – não é uma questão de remendar o sistema, mas de pensar de forma diferente

–       implica ter a ousadia de mudar

–       é necessário criar a forma adequada de concorrência, pois a escolha por parte dos doentes e a concorrência são uma força importante para levar a que seja produzido valor. Argumenta Porter que a concorrência que se observa em geral nos actuais sistemas de saúde não está alinhada com a ideia de valor para o doente. O sucesso financeiro para os participantes no sistema não é o mesmo que o sucesso para os doentes.

 

É nesta altura que Porter tem uma das suas afirmações que receberam mais eco na comunicação social: copagamentos mais elevados não aumentam o valor, fazem simplesmente uma mudança do ponto do sistema onde há custos.

É natural que esta frase tenha captado a atenção, como crítica às taxas moderadoras.

É natural que Porter a tenha usado conscientemente para chamar a atenção.

Mas não esclareceu a aparente contradição entre essa afirmação, a defesa do princípio do valor para o doente e o exemplo que deu de com a mesma qualidade e menos custos se poderem tratar problemas nos cuidados de saúde primários que hoje chegam às urgências hospitalares.

Há o mérito de Porter ter-se informado sobre o sistema de saúde português, e o papel do recurso às urgências nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde. Só que usando o princípio de valor para o doente, se o tratamento leva ao mesmo resultado de saúde, então terá maior valor para o doente aquele tratamento que tiver menor custo. Se é nos cuidados de saúde primários que tem menor custo, então direcionar os doentes para aí é procurar o maior valor para o doente. Não é apenas uma mudança do ponto do sistema onde há custos (pressupõe-se que os mesmos custos na afirmação).

Há, obviamente, um sentido em que a afirmação é perfeitamente válida – as taxas moderadoras não são a solução dos custos crescentes com cuidados de saúde, o que tem sido aliás amplamente reconhecido e creio que interiorizado (não vale a pena estar aqui a repetir todos os argumentos).

Mas não deixam de criar valor no sentido que Michael Porter propõe se fizerem um redireccionamento da “procura” para a obtenção do mesmo resultado de saúde com menores recursos usados.


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A insustentável leveza “da economia da farmácia”

Hoje foi apresentado o estudo que estivemos a realizar na sequência de um desafio lançado pela ANF para conhecer a actual situação do sector das farmácias.

Como proposta para uma primeira fase, pretendeu-se repetir a análise da Autoridade da Concorrência realizada em 2005 (dados de 2002), que deu origem à percepção de haver espaço para reduzir preços no sector. A actualização da informação é importante por vários motivos. A lógica é sempre a de manter a análise o mais próximo possível do modelo usado no estudo apresentado pela Autoridade da Concorrência em 2005, para que se perceba o motivo das diferenças se as houver.

Há diversas formas de avançar. Uma primeira e mais directa é manter tudo constante menos os preços médios de referência – apenas a evolução dos preços médios por receita aviada de 2002 para 2012 (Abril), uma redução de 20%, excede largamente o espaço de redução de preços avançado em 2005 pela Autoridade da Concorrência, que era de 5%.

Mas se tivesse havido uma transformação na relação entre custos e volume de actividade, e se os custos tivessem diminuído, então a conclusão acima poderia ser apressada. Daí que tenha sido necessário re-estimar a relação entre custos e volume de actividade, usando informação de 2010 para 1091 farmácias (em 2005, tinham sido usados dados de 2002 e 70 farmácias). A metodologia de estimação foi a mesma, para que as diferenças sejam reflexo da actualização de informação.

Destas novas contas resultou uma ligeira redução de custo marginal (o custo que evolui de acordo com a variação da actividade) e uma duplicação de custos fixos (os custos independentes do volume de actividade). Mesmo com a nova estimativa de custo marginal, a redução de preço observada leva a uma margem negativa.

Assim, não resta outra conclusão que não seja a farmácia média estar já a operar com margem negativa, não havendo qualquer capacidade de cobrir custos fixos.

Nestas condições, será uma questão de pouco tempo até se assistir a um encerramento de farmácias. Do lado dos custos, é natural que se venha a assistir numa primeira fase à tentativa dos proprietários absorverem as perdas (trabalhando mais em substituição de funcionários, por exemplo).

Note-se que esta situação de margem negativa é um problema independente de más decisões de financiamento ou investimento que tenham sido feitas pelos proprietários de farmácias. Más decisões de investimento e financiamento resultam em encargos financeiros que podem não ser suportáveis, mas se a “economia da actividade” for positiva, essas situações levariam à saída desses proprietários e sua substituição por outros ou por outras farmácias. Mas sendo a “economia da actividade” negativa, os encerramentos tenderão a ser permanentes.

Daqui se retira que terão de ser procuradas soluções, com uma combinação de várias actuações em termos de remuneração das farmácias (por exemplo, tornando-a menos sensível ao preço dos medicamentos) e de procura de maior eficiência por parte das farmácias (por exemplo, em termos de quadro de pessoal ou espaços fisicos, eventualmente associados a um revisitar das actuais exigências legais – estes aspectos não se encontravam no âmbito do trabalho, mas decorrem dele para discussão).

A apresentação realizada pode ser encontrada aqui. O texto definitivo será disponibilizado em breve.

Gostaria de receber relatos breves de situações reais de como a actual situação está a ser resolvida pelos proprietários de farmácias (dois ou três parágrafos), para se adicionar à imagem quantitativa obtida uma visão qualitativa.


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Michael Porter em Lisboa, para falar sobre saúde (2)

Depois da introdução, Michael Porter avançou para uma discussão de enquadramento, em que a mensagem mais relevante foi a de que existe uma massa enorme de procura de cuidados de saúde que é mais fácil de fazer passar por diferentes prestadores do que normalmente se considera. E que a força presente na capacidade do Serviço Nacional de Saúde de atribuir mais ou menos procura a diferentes prestadores de cuidados de saúde deveria ser explorada.

Antes de entrar no comentário a esse aspecto, refira-se que Porter fez uma breve revisão dos factores que geram essa procura.

O envelhecimento da população surgiu logo à cabeça com a referência de ser causador de um aumento da carga de doença.

Não posso deixar de fazer o comentário de Michael Porter estar aqui a ignorar uma já extensa literatura económica sobre os factores determinantes do crescimento das despesas com cuidados de saúde, sejam públicos ou privados. A principal conclusão dessa literatura é a de que o envelhecimento não é um factor primordial de pressão sobre os níveis de despesa com cuidados de saúde. O envelhecimento coloca desafios sobretudo organizacionais aos serviços de saúde e não de despesa. Não pretendo menosprezar esses desafios, creio é que Michael Porter tocou neste caso na porta errada se estava a pensar em pressão de financiamento. Mas se estava a pensar em termos de necessidade de novas formas de organização, então está no caminho certo.

Outro argumento para a existência de maior procura de cuidados de saúde apresentado por Michael Porter foi o aumento das doenças que são tratáveis, no que constitui uma (boa) força de aumento de procura que provavelmente se irá manter.

As outras características dos sistemas de saúde em geral apontadas foram:

– custos crescentes

– qualidade inconsistente e baixa eficiência

– tradição de medir custos e/ou resultados limitada ou mesmo inexistente

– falta de concorrência para garantir de forma contínua os melhores resultados ou menores custos – acentuou a necessidade de as instituições que prestam cuidados de saúde concorrerem para obter os melhores resultados para os doentes ou / e para alcançar menores custos. A outra forma de apresentar o argumento de concorrência é a liberdade de escolha para o doente. Sem escolha é dificil melhorar. Defende a introdução de escolha no sistema.

Insistiu num ponto: é necessário ter a forma correcta de pensar sobre a prestação de cuidados de saúde, só assim se chegará às soluções, e o modo como se tem pensado no assunto não é o mais adequado.

Em termos de comentário, se os primeiros pontos não levantam qualquer reparo, já a questão da concorrência é mais delicada e merece uma discussão bem mais profunda do que apenas dizer-se que se quer concorrência.

Assentemos um aspecto desde já, em geral considero que a concorrência / liberdade de escolha é um bom mecanismo de funcionamento da actividade económica. No entanto, para a liberdade de escolha / concorrência seja um bom mecanismo é preciso verificar a existência de algumas condições. Em geral, noutros sectores, a minha principal preocupação quando olho para a possibilidade da introdução de concorrência é saber se não se salta de um monopólio público para um monopólio privado, em vez de se passar para uma situação de concorrência. No caso da prestação de cuidados de saúde, existem dois elementos a pensar:

a) as implicações da liberdade de escolha – se uma entidade pública que presta cuidados de saúde não for escolhida, o que lhe sucede? como fecha? se não fechar, temos duplicação de estruturas e de despesa. Não é claro que sem saber como se encerra capacidade no sector público que não é escolhida seja razoável admitir que liberdade de escolha é a melhor forma de organizar o sistema. Aqui, a resposta estará em definir bem o que sucede quando se concede liberdade de escolha.

b) nalguns casos, faz sentido ter restrições à liberdade de escolha, e mesmo o exemplo de instituição eficiente apresentada por Michael Porter, ainda que muito tangencialmente, a Kaiser Permanente, impõe restrições à liberdade de escolha – um doente não pode ir ao especialista que bem entende, primeiro tem que ser acompanhado pelos cuidados de saúde primários, por exemplo. A liberdade de escolha está em o cidadão escolher a Kaiser Permanente ou outra instituição que forneça planos de seguro de saúde. Também em geral não se defende que acabe a prescrição médica, passando o doente a ter a liberdade de escolha do medicamento que quer tomar. Ou seja, a liberdade de escolha não é a melhor forma de organizar a prestação de cuidados de saúde em várias circunstâncias (e aqui as mais relevantes restrições ao papel habitual da liberdade de escolha são problemas de informação e utilização de especialistas com maior conhecimento, por um lado, e haver protecção financeira de modo a que quem escolhe não pague, e seja um terceiro a fazer esse pagamento).

Enfim, mesmo conceptualmente é necessário assentar poeira no que significa liberdade de escolha.


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Michael Porter em Lisboa, para falar sobre saúde (1)

Conforme foi amplamente noticiado na imprensa, o conhecido guru da gestão, Michael Porter, deu uma conferência em Lisboa sobre o sector da saúde. Na mesma sessão, participaram também Miguel Gouveia e Farhad Riahl, mas destas apresentações trataremos depois.

O título da sessão era desde logo motivador: Redefining Portuguese Health Care.

E em grande medida, a apresentação não fugiu à questão central. Baseando-se nos seus trabalhos anteriores, Michael Porter faz realmente sugestões sobre como que princípios devem nortear a organização de um sistema de saúde, e o que deverá ser feito em Portugal para haver uma aproximação a esses princípios. Sem apresentar qualquer número ou valor, a discussão bateu-se no campo das ideias. Natural, atendendo a que a vantagem óbvia de Michael Porter não está no conhecimento dos números nacionais e sim na aplicação de novas ideias.

A intervenção de Porter esteve marcada por várias afirmações fortes do autor, nem que fosse para prender a atenção da audiência.

Desde logo na entrada, a incitação a que se mude de forma de pensar, deixando de lado os aspectos políticos da saúde, para se concentrar a atenção no criação de bons resultados para os doentes; e que desta preocupação resultará naturalmente um sistema financeiramente sustentável. Deixou claro desde início que a discussão seria sobre saúde e prestação de cuidados de saúde. E que a pretendia basear na realidade dos dia de hoje, sobretudo com o que se sabe da componente clínica.

Como primeiro comentário, deixo desde já a nota de que não houve uma definição do que é um sistema financeiramente sustentável. Aliás, as dificuldades de fazer essa definição são grandes, e na verdade não é central para os argumentos de Michael Porter. Ainda assim pareceu estar subjacente a noção de que se terá  um sistema público financeiramnete sustentável se a taxa de crescimento da despesas com cuidados de saúde por parte do sector público tender a diminuir.

Em qualquer caso, foi desde logo um bom delimitar do campo de discussão pretendido – nada sobre financiamento, tudo sobre prestação de cuidados e sua organização, e que daí advirá a solução para as necessidades de financiamento via contenção com a despesa, que não precisa de ser contenção nos resultados de saúde para os doentes.

(… continua …)


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no dinheirovivo.pt de hoje,

sobre como tentar menos impostos e ainda assim conter a despesa pública depois de não ser possível cortar dois subsídios apenas à função pública e pensionistas, casando uma das palavras da moda, empreendedorismo, com sector público, e esperando que o governo saia da sua zona de conforto na procura de soluções, a minha proposta de inicio de discussão aqui


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Relatório de Primavera 2012 (19)

E chego ao capitulo final, 5 Considerações Finais. À partida, tinha alguma expectativa sobre o tom e como seria integrada toda a informação, de diferente natureza, utilizada no relatório.

Infelizmente, não é feita uma organização das conclusões que tenha em conta o grau de confiança da informação utilizada e as incertezas que daí decorrem. Algumas das considerações parecem claramente destinadas a ressoar na comunicação social mais do que reflectir de forma tecnicamente correcta a informação reportada.

Quando se escreve “O país está em sofrimento. A crise financeira, económica e social é patente. Os reflexos sobre o sistema de saúde igualmente evidentes.” o destinário é a comunicação social. Note-se que se o país não estivesse em sofrimento, e houve prosperidade económica também existiriam reflexos evidentes sobre o sistema de saúde. Esta frase deixa a que cada leitor leia o que entender para poder concordar com uma visão negativa do que se está a passar.

Também quando se diz “O MdE inclui um conjunto de medidas específicas para a saúde. A maior parte destas medidas são úteis e necessárias. Muitas foram já identificadas há muito, mas nunca foram implementadas. No entanto, o calendário extremamente exíguo do MdE tem muitas consequências indesejáveis “, que recupera nas conclusões a afirmação já antes feita no texto, não se fica a saber quais medidas caiem dentro da “maior parte”, nem quais as que têm “muitas consequências indesejáveis”, nem qual o mapa das medidas para as consequências, e o seu prazo. Não há ao longo do relatório uma análise sistemática que permita retirar esta conclusão, mesmo que ela corresponda a uma percepção geralmente partilhada (eu próprio já usei essa expressão da “maior parte das medidas já tinham concordância” ou similar, mas não fiz a divisão entre o que cai aí dentro e o que cai fora, mea culpa, mas também não escrevi um relatório de primavera).

As considerações finais centram-se de forma acentuada nos aspectos de troika, aliás de uma forma desproporcionada face ao que foi a discussão no corpo do relatório.

Apesar disso, consegue retomar o que julgo ser a principal falha apontada – a necessidade de pensamento estratégico, e não confundir objectivos com restrições, guiar o sistema de saúde pelos resultados assistenciais dados os condicionalismos financeiros e não guiar o sistema de saúde em função dos resultados financeiros.

A insistência nas taxas moderadoras mantém o tema numa saliência de agenda que não corresponde ao seu peso efectivo nos cuidados de saúde prestados, embora aqui só com uma definição de informação de monitorização adequada e sua publicação regular se poderá aferir dos argumentos apresentados, e deixar de fazer deste aspecto um ponto de discussão desproporcionado face ao seu impacto na saúde da população.

E chegando ao final, sente-se a falta de alguns temas: cuidados de saúde continuados é provavelmente a maior falha, mas também as PPP, a mobilidade internacional de doentes e o que possa implicar, seguros de saúde, sector privado e as alterações fiscais ocorridas em sede de IRS (num sentido de exaustividade). Pelo seu lado, o relatório de primavera de 2011 prometia uma perspectiva prospectiva que aparentemente não foi possível continuar neste relatório.

Em termos de estilo, não fiquei fascinado com a ideia da TVI e da imprensa serem fontes de informação e âncoras para a análise, seria de esperar o contrário, que fosse a capacidade de ir procurar de forma mais profunda informação que permitisse fazer a notícia.

Também considero cansativo a repetição dos mesmos quadros e números em vários pontos do texto, a maior parte das pessoas não vai ler apenas este ou aquele capítulo. A revisão de texto final falhou na detecção de inúmeras gralhas ao longo do texto, aconselhando mais cuidado em edições futuras.

Ainda assim, o texto é de fácil leitura, e constitui a manutenção de um esforço importante de contribuição cívica na área da saúde.


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Relatório da Primavera 2012 (18)

O capitulo 4 entitula-se aprofundamento de aspectos especificos, e tem como primeiro grande bloco o plano nacional de saúde e as estratégias locais de saúde.  É uma descrição e análise fáceis de seguir e de concordar. Dois aspectos que retenho são a importância de ter um plano nacional de saúde (mas já tinha essa opinião antes de ler esta secção) e o receio com que fico da multiplicação de entidades e níveis de decisão e observatórios de saúde – será realmente necessário ter uma estrutura tão complicada, e que justifique os recursos humanos nela empregues?

A segunda parte “ataca” o financiamento e a contratualização, culminando num conjunto de propostas para tornar o sistema sustentável:

“A sustentabilidade do sistema passa por uma abordagem frontal dos seguintes aspectos:

-Liquidar o stock de dívida vencida dos hospitais.

-Avaliar a adequação dos capitais estatutários e realização dos valores em falta.

-Fazer com que os adiantamentos mensais da ACSS aos hospitais traduzam a totalidade do valor do contrato-programa (aproximação aos 100%), de modo a dar-se aos hospitais outro nível de liquidez, que permita o pagamento atempado das responsabilidades associadas.

-Alterar o modelo de financiamento dos hospitais, no sentido de existir apenas um preço único por ato, independentemente do tipo de hospital. Por outro lado, deve haver uma especificação das atividades a financiar, pois linhas de produção muito abrangentes tornam o financiamento pouco transparente e pode levar à faturação de atos desnecessários.

-Desenvolver modelos de financiamento mistos (pagamento por ato, pagamento por capitação e pagamento por desempenho).

-Implementar modelos de custeio que permitam que o preço aferido para cada atividade tenha uma maior correspondência com a realidade.

-Atualizar anualmente as variáveis que integram o modelo de financiamento.

– Tornar o modelo de financiamento mais transparente.

-Reforçar os mecanismos de planeamento estratégico que permitam uma reestruturação fundamentada do perfil de cada hospital EPE, aprofundando a rede SNS. Entende-se que o modelo de financiamento pode ser um veículo essencial para atingir este fim.

-Por fim, considera-se fundamental que a monitorização, o controlo e a avaliação do desempenho hospitalar se tornem mais efetivos e transparentes, e que a avaliação dos dirigentes do SNS seja pública e consequente.”

Reproduzi o texto todo por ser completamente focado nos hospitais, o que provavelmente reflecte a percepção de que são os hospitais o principal ponto de problemas financeiros, mas ainda assim creio que seria útil ter uma perspectiva mais integrada.

A terceira secção dedica-se ao acesso, e olha para as listas de espera cirúrgicas, são apresentados os dados mais recentes, e apenas a partir de 2009 (seria útil ter uma perspectiva histórica mais longa, para saber também qual o verdadeiro significado da aparente inversão de tendência). Metodologicamente, seria interessante ter sido apresentada também a mediana de tempos de espera, um indicador mais robusto a valores extremos, e em particular a valores extremos de tempos de espera por motivos clínicos. O restante da discussão retoma pontos anteriormente focados no relatório.

A quarta secção é dedicada ao medicamento, e mais uma vez não acrescenta novidades ao que já foi tratado no próprio relatório em páginas anteriores.


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Relatório da Primavera 2012 (17)

Sobre a qualidade da Governação no sector público da saúde, o OPSS retoma as criticas de anos anteriores, registando-se nesta área uma ausência de evolução. Aplicam-se as observações já anteriormente produzidas sobre a necessidade de pensamento estratégico e de disponibilização de informação regular à sociedade.

Depois dessa secção, dedica o relatório de primavera atenção detalhada às taxas moderadoras e co-pagamentos. Começa com a enumeração de princípios base do sistema de financiamento, que são genericamente consensuais, sendo que deveria ser ainda referido que se contribui quando se é são para receber quando se está doente (mesmo que se seja jovem). A redistribuição do sistema não é apenas ao longo do tempo, como parece sugerir o texto, é também no mesmo momento do tempo entre quem precisa e quem não precisa. Este aspecto é importante porque considerar apenas redistribuição ao longo do tempo sugere desde logo a criação de contas individuais de saúde, onde o que se poupa enquanto jovem pode ser usado mais tarde em cuidados de saúde. Contendo o relatório não faz abertamente a defesa destas contas individuais de saúde que são a resposta adequada ao perfil intertemporal. Não havendo essa defesa das contas individuais de saúde é porque há outras fontes de redistribuição que têm de estar presentes, ou que se quer que estejam presentes.

Sobre a utilização das taxas moderadoras em Portugal, o relatório apresenta uma alternativa de intervenção – actuar directamente sobre o excesso de utilização injustificada, utilizando para o efeito os sistemas de informação como apoio à identificação desses sobre utilizadores.

É certamente uma ideia a explorar, tendo que ser respondidas algumas questões antes da sua adopção como instrumento substituto das taxas moderadoras:

a) é aceitável que a utilização prévia de cuidados de saúde possa ser classificada em “abusiva” e “não abusiva”, e

b) no caso de ser considerada “abusiva” poder constituir motivo para discriminação, seja recusa de tratamento / racionamento ou pagamento de preço?

c) ou a intervenção em causa é o pagamento retrospectivo (taxa moderadora ou verdadeiro copagamento) das intervenções que sejam classificadas como “abusivas”?

d) a mesma prestação pública de um serviço (de saúde) pode discriminar, qualquer que seja o critério, entre cidadãos com base numa classificação feita pela própria entidade pública?

O relatório apresenta alguns casos (isolados?) de situações de confusão lançadas pelas novas regras de isenção de taxas moderadoras, e atribui ao ministério da saúde a “promoção” do estudo detalhado delas. Creio no entanto que em vez de explorar casos particulares se deveria procurar saber as principais regularidades produzidas – será que as taxas moderadoras com os novos valores estão a cumprir o seu papel de “guiar” o cidadão para os cuidados de saúde primários quando não se estiver na presença de uma verdadeira urgência? ou será que apenas afastam os cidadãos dos serviços de saúde, adiando e agravando as suas condições e posteriores custos do sistema de saúde? Qual a sensibilidade da procura de serviços de urgência e de consultas à taxa moderadora? São estas as informações que se deveriam produzir para avaliar do papel que existe ou não.