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desafios à indústria farmacêutica

2 comentários

Tendo como pano de fundo a conferência de 26-01-2012 sobre a indústria farmacêutica, perguntaram-me quais os 5 desafios principais para a indústria farmacêutica nos próximos anos. A minha resposta:

Vou tomar os desafios à indústria farmacêutica em Portugal, que é diferente da indústria farmacêutica portuguesa:
Desafio 1: ajustarem-se a condições de mercado mais duras, isto é, preços mais baixos. A pressão para baixar a despesa pública vai continuar nos próximos anos, pelo menos até final de 2013, em que há uma meta concreta para a despesa pública em medicamentos como proporção do PIB estabelecida no Memorando de Entendimento.
Desafio 2: conseguir a introdução de novos produtos no mercado nacional, passando a barreira de aprovação para reembolso. Pelo mesmo motivo do ponto anterior, a introdução de novos produtos tem que passar um crivo de demonstrar que o valor em termos de melhor saúde que traz compensa o seu custo e ao mesmo tempo não pode ter um acréscimo de custos que torne inviável o objectivo traçado de contenção da despesa pública em medicamentos. Encontrar mecanismos de acesso ao mercado compatíveis com o interesse das empresas, com o interesse orçamental e com o interesse dos cidadãos será um dos desafios para os próximos anos.
Desafio 3: conseguir a introdução de novos produtos no mercado nacional, passando a barreira da falta de interesse na perspectiva da casa-mãe multinacional. Na medida em que muitos países adoptam hoje, tal como Portugal, sistemas de referenciação internacional, isto é, fixam preços no seu país em função de preços noutros países, preços muito baixos em Portugal podem ser usados para baixar preços noutros países, de maior dimensão e de maior interesse para as empresas. Logo, as casas-mãe poderão optar por não introduzir produtos em Portugal como forma de não prejudicar as operações noutros mercados. Portugal tem sido identificado já em vários estudos como um dos países onde a inovação é mais tardiamente introduzida pelas empresas por ter preços de entrada relativamente baixos quando comparado com outros países. Adicionando o problema de exportações a preço baixo a partir de Portugal para países de preços mais elevados, nomeadamente dentro da União Europeia, manter o interesse no mercado português por parte das casas-mãe será um desafio para a indústria farmacêutica em Portugal.
Desafio 4: Sobrevivência a prazo da indústria de base nacional implica a realização de inovação e desenvolvimento. Encontrar a forma de o fazer, num contexto de (ainda mais) baixo apoio do sistema público de apoio a I&D, será um desafio importante. Encontrar formas de financiamento da inovação, encontrar parcerias com universidades para desenvolvimento de novos produtos, encontrar parcerias com empresas que tenham a capacidade financeira e comercial de lançar os produtos, são caminhos possíveis.
Desafio 5: Contribuir para um quadro estável de funcionamento do sector. As dívidas à indústria farmacêutica por parte dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde, os acordos globais de contenção de despesa que não são cumpridos até ao fim (pelo Estado, normalmente), as constantes alterações legislativas no campo do medicamento, introduzem instabilidade no planeamento e organização do sector. As empresas têm que encontrar uma forma diferente da que usaram até agora para conseguir um quadro mais estável, embora não dependa integralmente delas.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

2 thoughts on “desafios à indústria farmacêutica

  1. Caro Pedro,

    Concordo consigo em termos macroeconómicos, mas na acção micro podemos acrescentar algumas reflexões:

    1. O custo de I&D na industria farmacêutica é muito elevado, mas empolado pela industria. É um sector que se afirma caracterizado pela inovação, mas por exemplo a despesa promocional junto da classe médica é 400% do valor de I&D se lida à escala internacional. Há pois por onde poupar através da optimização dos processos promocionais que estão entre os mais ineficientes de todos os serviços.

    2. Mesmo na conta de I&D os valores são sobrevalorizados para aproveitar beneficios fiscais muitas vezes associados a essa classe de despesa. Por exemplo a jurisprudencia europeia e norte-americana tem evidenciado que desde viagens de avião dos conselhos de administração, festas, etc. tudo tem sido metido sob a classificação de I&D.

    3. As margens dos produtos sob patente é por vezes alem do razoavel, assumindo um caso extremo mas expressivo, pode ler-se o caso do Estado Britânico contra o fabricante do Lorezepan (ainda sob patente nessa data) que retinha uma margem bruta de 92% sobre preço de venda antes de impostos.

    4. Os caminhos de verticalização da actividade do sector farmaceutico tiveram inicio em 1972 nos EUA mas na Europa há 20 anos que se fazem estudos sem nunca avançar. A sua adopção possibilita a industria de aumentar a sua facturação em cerca de 15% e os pagantes reduzirem em 10%.

    5. As tecnologias Cardinal HT possibilitam uma distribuição personalizada da embalagem, designadamente em ambiente hospitalar, conduzindo a uma redução de 8 a 10% da despesa em medicamentos sem comprometer o preço de venda isto é, fundamenta-se na lógica da poupança medicamentosa.

    6. Os prazos de validade dos medicamentos estão eivados de encurtamentos que garantam não só a boa entrega como a destruição antes de consumo logo que possivel. Neste momento as forças armadas dos EUA estão a desenvolver pesquisa sobre o assunto e concluiram que nos medicamentos com prazos mais curtos, habitualmente aqueles que são destruidos antes de consumidos, o prazo medio efectivo é cerca do dobro do anunciado. O seu ajuste para tempos racionais pode evitar muita destruição dispensavel.

    Henrique

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  2. Magnifica síntese e magnifico comentário.

    Já agora porque se falou de Industria.

    Sendo que na renascente Industria Nacional de Produtos Farmacêuticos a componente de I&D tem hoje uma importância vital para a alavancarem da sua projecção como fornecedores internacionais de Novas Bases e Lançamentos de Novos Medicamentos e mesmo de Conhecimento (graças a Deus e à teimosia dos Homens) por um lado e se as faculdades conseguem fornecer já hoje, embora timidamente excelentes novos investigadores, seria interessante digo eu, que os sempre sem norte e cronicamente inaptos governos, olhem finalmente para os custos associados às matérias-primas, que esta como outras industrias necessitam de importar, aliviando todas as taxas associadas a começar pelo IVA. Talvez se conseguisse projectar ainda mais a nossa indústria de bens transaccionáveis.

    Na diminuição dos custos associados à divulgação dos medicamentos junto da classe médica, existe alguns trabalhos piloto, de criação nacional, altamente inovadora na forma como o faz junto dos prescritores e utilizadores, potencialmente capaz de se tornar em autênticas “Vias Verdes” neste particular, tornando bem mais eficientes e menos dispendiosos os custos de 400 a 500% referidos.

    O nosso anacrónico sistema de Marcas e Patentes precisa de ser mais aligeirado e tornado mais barato também.

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