Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time

Informação, Emoções e Ratings

3 comentários

As decisões sobre o rating da dívida do estado português geraram uma quase união nacional em torno da indignação quanto a baixa na classificação atribuída. Essa indignação é natural e eu próprio a senti também quando ouvi o anúncio. A maioria das reacções que ocorreram por essa Europa fora acompanharam esse sentimento. Dessa emoção à (renovada) crítica da actuação das agências de rating foi um pequeno passo, seja pelo lado mais emocional, na versão de “abutres especuladores”, seja pelo lado mais racional, na versão de abuso de poder de mercado por serem apenas três grandes empresas, seja ainda pelo lado da “conspiração”, o dólar contra o euro.

Contra-corrente tivemos algumas vozes, das quais destaco Vitor Bento e Helena Garrido, que rapidamente e em dois blogs, tentaram dar uma análise mais fria da decisão. Sem negar as consequências negativas das decisões de redução da classificação atribuída, procuraram entender os elementos objectivos dessa decisão.

Olhar de forma isenta para esta situação é provavelmente a melhor forma de encontrar uma solução.

O primeiro passo é entender qual é o negócio das agendas de rating. A vida (e sobrevivência) das agências de rating faz-se pela prestação de informação. As classificações atribuídas servem para que os investidores de todo o mundo não tenham que analisar em detalhe todas as emissões de dívida que ocorrem. Se cada investidor tivesse que olhar com minúcia todas as emissões de dívida, haveria uma duplicação de esforços e desperdício de recursos em comparação com uma análise única e depois facultada a todos os outros. O propósito último da agências de rating é fornecer informação aos investidores. E apenas enquanto fornecerem informação útil e credível aos investidores terão possibilidade de sobrevivência. Há investidores especulativos que aproveitam essa informação? Certamente. Mas também os investidores que não tenham objectivos de especular o fazem.

A reacção portuguesa europeia foi no entanto emocional. O que predominou foram os sentimentos de indignação e injustiça. Houve do Ministério das Finanças a procura de uma explicação mais racional, a de que haveria informação relevante ainda não incorporada da nova classificação, o que foi mais tarde clarificado pela própria agência como não sendo o caso. Voltamos a cair no terreno da emoção, a falar do que gostaríamos que a agência de rating escrevesse e não do que fez e porque fez.

O motivo principal parece estar na actuação das autoridades europeias, e com as dúvidas sobre um incumprimento “escondido” no caso grego, que poderia vir a ser uma solução para Portugal também.

O segundo passo é perceber como agir. A proposta de Vitor Bento (http://www.sedes.pt/blog/?p=3669) procura agir pela modo de actuação das autoridades europeias.

Complementarmente, deve-se também actuar pela informação. Isto é, encontrar uma forma de tornar a informação prestada pelas agências de rating tão redundante quanto possível, fornecendo directamente não uma classificação e sim os elementos essenciais para que os investidores possam realizar directamente a sua avaliação sem grandes custos. A atenção mediática dada ao país facilita essa transmissão de informação.

As avaliações das agências de rating baseiam-se em informação recolhida sobre os países e em premissas por elas assumidas. Validar, ou não, a informação de base das agências de rating é algo que tem de ser feito. Se estiverem a usar informação errada, então esta tem de ser corrigida. Mas não basta os governos anunciarem, pois serão sempre suspeitos de só estar a dar a informação que lhes convém. Tem que ser dada publicamente de uma forma ainda mais credível do que se for uma agência de rating a anunciar (o que não me parece especialmente difícil, aliás).

O segundo aspecto, as premissas assumidas pelas agência de rating, pode e deve ser também contestado, reconstruindo as análises das agências, mas tornando claros os “saltos” que estas próprias dão quando produzem as classificações. Por exemplo, e espero que me corrijam se estiver errado, a principal razão para a nova classificação atribuída a Portugal teve como base duas “hipóteses” (e não factos) da agência de rating: 1- que a solução para a crise grega envolve um incumprimento escondido, com custos para os investidores; 2- que a solução para a crise grega será aplicada com elevada probabilidade a Portugal.

E a classificação é dada como se estas hipóteses fossem factos. Ora, a pergunta que se coloca tecnicamente é, se a segunda hipótese não for verdadeira, a classificação atribuída a Portugal faz sentido? Provavelmente não. Então há que contestar esta segunda hipótese transformada em facto pela agência. Expor internacionalmente de forma técnica, para os investidores que seguem as agências de rating, que estão na realidade a basear-se não em informação, mas em “emoções” agora das agências de rating.

A crítica às agências de rating não deve ser emocional, mas racional, e metodologicamente apontada às bases das suas análises: é a informação de base correcta? Quais são as hipóteses usadas que estão assentes na “emoção” do analista?

(post também colocado em http://blog.sedes.pt)

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

3 thoughts on “Informação, Emoções e Ratings

  1. Pedro: Sobre as Agencias e as reacções mais ou menos emotivas e mais ou menos racionais “tugamente falando” só me fica uma resposta mais global e “tremendista” que hoje li:
    http://www.cnbc.com/id/43659234
    No resto para os que acreditam só há uma via “rezar”.

    Gostar

  2. Quando, para responder à queixa num processo que decorre perante a Audiência Nacional de Madrid, as agências de ‘rating’ contrataram dois dos escritórios de advogados mais poderosos de Espanha, argumentando, na sua defesa, que apenas emitem “opiniões”, amparadas pelo direito à “liberdade de expressão”, ainda fará sentido procurar um resquício de credibilidade das ditas agências?

    Gostar

  3. Penso que esta reacçao portuguesa é compreensivel, mas houve tpc’s dos governantes portugueses que ficaram por fazer, por exemplo:
    – grandes obras e equacionar alguns apendixes das ditas, nao essenciais
    – corte no subsidio de Natal (pelo menos isto ja se falava à 1ano)
    – despesismo nas eleiçoes de 2009 e erro no calculo do defice (de 5,5% passou para 9%)

    OBS: Isto é como dizer que um bebado (com 5.5 gramas de alcool no sangue) que foi contra um camiao parado na estrada teve azar.

    Para aqueles que agora estão ofendidos com agencias de rating, porque nao se lembraram de se precaver em 2006 e 2007 quando a economia estava a crescer e tudo parecia o arco-iris???? Porque lhes derão asas quando tudo corria bem e se pedia emprestado a 1%/2%? A ilusao monetaria……

    É facil falar agora! Mas quem nao tem dinheiro nao tem vicios, porque nao pensaram na sustentabilidade do Estado na economia em 2008 e 2009, quando rebentou a crise (nao dava jeito aos bancos portugueses….)

    Gostar

Deixe uma Resposta para Meneses Correia Cancelar resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s