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Dispensa de medicamentos hospitalares em proximidade (nas farmácias de oficina), onde está o bloqueio?

A dispensa de medicamentos hospitalares em proximidade é uma boa ideia, e tem ficado aquém do esperado provavelmente por uma abordagem demasiado próxima da lógica de planeamento central.

Não está em causa que seja um processo tecnicamente seguro. Se não tem tido o desenvolvimento, em termos de uso prático, que se esperava (e desejava), então os motivos devem estar em barreiras não antecipadas pelos vários decisores envolvidos. E como não foram antecipadas, não foram procurados os processos e os mecanismos que desmontem essas barreiras.

Parte das barreiras são de organização e de gestão. Os “suspeitos habituais” incluem a capacidade dos sistemas de informação dos vários agentes e entidades envolvidos conseguirem trabalhar em ligação e a componente logística. Não há motivo para que não sejam resolvidos esses problemas, se realmente existirem, e é uma falha de gestão não terem sido resolvidos antecipadamente, dada o (aparente) apoio generalizado a esta ideia.

Mas pode haver mais do que apenas esses “suspeitos habituais”. A resolução destes problemas implica custos para os vários agentes e entidades, e não é certo que os mecanismos montados permitam a recuperação dos custos de ajustamento que são necessários. Ou que haja custos permanentes com garantir o funcionamento deste sistema de dispensa de medicamentos hospitalares em farmácias de oficina (é preciso prescrever, encomendar, definir para onde devem ser enviados, fazer a dispensa ao doente, etc.) Se assim for, passa-se de um problema de gestão (“porque não foi feito?”) para um problema económico (“é rentável fazer esta dispensa?”).

O argumento mais usado para defesa da dispensa de medicamentos de uso hospitalar nas farmácias de oficina tem sido as vantagens para o utente. Contudo, será muito mais simples e rápida a generalização deste sistema de dispensa se tiver também evidentes vantagens para a farmácia (tem de receber um pagamento por fazer esta dispensa) e para a Unidade Local de Saúde (hospital) (tem de realizar alguma poupança, ou também receber alguma compensação financeira).

Na discussão pública assume-se (na minha leitura de várias declarações) que para o hospital há vantagem nesta dispensa pois poupa trabalho na farmácia hospitalar, tempo que pode ser usado noutras tarefas necessárias. A pergunta que me ocorre é: se não for esse o caso? E se essa hipótese não estiver verificada de forma generalizada? A dispensa de medicamentos hospitalares em farmácia de oficina precisa de ser organizada e tem custos diretos para o hospital de se fazer esse processo. 

O trabalho de Mariana Soares, 2021, “The dispense of hospital medication in community pharmacies: the search for a Pareto efficient state” (Master in Economics, Nova School of Business and Economics) indicava a existência desses custos num hospital concreto. Se essa caracterização for comum a muitos outros hospitais, não deve ser assumido automaticamente que há poupanças para o hospital, e certamente que a relativa falta de entusiasmo em resolver as barreiras existentes seria difícil de compreender num contexto em que houvesse óbvias e grandes poupanças para o hospital.

Adicionalmente, o estabelecimento de acordos de âmbito nacional de preços regulados, iguais em todos os pontos do território, torna mais complicado um processo em que tanto o hospital como a farmácia de oficina têm de estar disponíveis. Tal será mais fácil se for economicamente interessante para ambos (e nalguns casos poderá suceder que para o preço estabelecido, não seja compensador para a farmácia de oficina, enquanto noutras circunstâncias poderão não ser interessante para o hospital).

Claro que a visibilidade política para o Governo e para as associações envolvidas de um acordo nacional é sempre maior do que mecanismos descentralizados. Contudo, uma vez que já se tem esse acordo nacional, e não se tem os resultados esperados, será, a meu ver, de avançar para uma solução mais descentralizada.

Deverá ser considerada a flexibilidade de preços em que seja dada às ULS e às farmácias de oficina a liberdade para acordarem como dividem o pagamento realizado pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS). Será uma forma fácil de estimular o desenvolvimento da dispensa de medicamentos hospitalares em farmácia de oficina. Essa flexibilidade permite também que poupanças eventualmente obtidas no ambiente hospitalar possam ser repartidas com as farmácias de oficina, e que menores custos de dispensa em algumas farmácias de oficina posam ser passadas aos hospitais para compensar custos adicionais que tenham (em lugar de poupanças).

A existência de um ponto de referência dado pelo preço regulado, que deixaria de ser obrigatório, é útil como forma de inibir abusos de posição negocial. Uma utilização de maior flexibilidade à volta desse preço poderá contribuir para descentralizadamente se ultrapassarem pelos menos algumas das barreiras existentes.

As peças normativas relevantes são o Decreto-Lei 138/2023, a Portaria 104/2024/1 e a Portaria 106/2024/1. O Decreto-Lei 138/2023 estabelece que esta dispensa não pode ter custos para o utente; estabelece também que “os custos inerentes ao armazenamento central, ao transporte e à dispensa, nos casos em que a mesma é realizada em farmácia de oficina são suportados por um mecanismo de custos centralizado, a definir por portaria dos membros do governo responsáveis pelas áreas das finanças e da saúde”. A Portaria 104/2024/1 fixa uma remuneração por episódio de dispensa de €11,95, sem ser cobrado IVA, pago à farmácia onde é feita a dispensa, de escolha livre do utente, e define a repartição deste valor entre a farmácia de oficina (57,07%), distribuidor por grosso (25,37%) e entidade responsável pelo armazém central (17,56%). Os custos estimados em Soares (2021), para as farmácias de oficina, tinham como valor médio, removendo casos extremos, €12,42, com valor mediano €9,32 e no percentil 25%, €6,72, próximo dos €6,81 que ficam para a farmácia de oficina (57,07% x 11,95). Ou seja, de acordo com essas estimativas, de há 5 anos, apenas as farmácias nos 25% mais baixos da distribuição de custos terão vantagem financeira. Para o hospital, as poupanças no cenário mais favorável estão no intervalo entre €-5,77 e €15,80. Ou seja, não há certeza de ter poupanças do lado hospitalar.

Curiosamente, esta portaria também define que deve ser feito um estudo económico a “ser apresentado ao membro do Governo responsável pela área da saúde até ao final do primeiro trimestre de cada ano”. Se houve a realização deste estudo económico (que deverá ter sido apresentado até final de março de 2025), é provável que as conclusões ajudem a perceber as barreiras.

(nota: imagem criada por inteligência artificial)


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Observatório da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 87, fevereiro de 2026)

Após uma interrupção na escrita, por falta de tempo e não por falta de tema – no último meio ano não faltaram assuntos para comentar e debater na área da saúde (e da economia, de forma mais geral), é tempo de retomar o hábito.

E nada melhor do que recomeçar com um tema habitual, em que muito permanece constante, embora haja dois aspectos a realçar, um positivo e em negativo. O resumo é simples: o habitual padrão das dívidas dos hospitais EPE (desde 2024, em rigor ULS) não se alterou em 2025 – o final do ano foi caracterizado pela disponibilidade de verbas para redução dos pagamentos em atraso, levando quase a zero. Politicamente, tem a vantagem de se dizer que no final do ano não havia praticamente dívidas em atraso (o que é verdade), “escondendo” a dinâmica durante o ano de necessidade de reforço de verbas. Como já assinalei várias vezes nos últimos dez anos, é diferente dizer “não há pagamentos em atraso, porque os orçamentos iniciais atribuídos permitiram às entidades funcionar com previsibilidade face ao que delas é esperado” e dizer “não há pagamentos em atraso, porque apesar dos orçamentos iniciais atribuídos serem insuficientes para uma assegurar uma boa gestão, no final do ano meteu-se mais dinheiro”.

O segundo elemento importante deste período é a regularização dos pagamentos em atraso ter tido lugar ao longo de três meses, de outubro a dezembro de 2025, e não apenas com verbas em final de dezembro. O efeito em termos de saldo de final do ano é o mesmo dos anos anteriores, talvez este faseamento tenha permitido um melhor conhecimento das situações de cada entidade (se este processo foi acompanhado pelo gestão de topo do SNS). Ou então resultou da pressão de cada entidade com dívidas em cada momento. Não tenho forma de distinguir neste momento o que esteve por detrás desta dinâmica diferente no final do ano.

O terceiro elemento de destaque é a “ficção” do Orçamento do Estado para 2026 para a saúde, que não é independente da evolução dos pagamentos em atraso. Quando a proposta do Orçamento do Estado para 2026 foi apresentada previa para 2025 uma contribuição positiva do saldo orçamental da área da Saúde para o saldo global. Ou seja, as receitas seriam superiores às despesas, na previsão de outubro de 2025 para o final do ano de 2025, sendo que as receitas públicas são sobretudo transferências do Orçamento. No final do ano, de acordo com a execução orçamental, a diferença entre receitas e despesas do SNS foi de -1035 milhões de euros (o saldo previsto no Orçamento do Estado para o programa orçamental da Saúde era de +788 milhões de euros). E aqui confesso a necessidade de alguém explicar o que se passa (talvez o Conselho das Finanças Públicas? a Unidade Técnica de Apoio Orçamental? alguém da Entidade Orçamental?) – como se reconcilia a execução orçamental do SNS com o previsto para o programa orçamental da saúde do Governo? existe alguma atividade no programa orçamental da saúde que tenha um saldo positivo de cerca de 1800 milhões de euros e que seja pouco conhecido? ou quem “faz as contas” e os quadros para o Orçamento do Estado não tem atenção à realidade da execução orçamental do SNS? ou a estimativa para o ano 2025 feita em outubro de 2025 é “aspiracional”? O problema desta discrepância é a confusão que gera para 2026, onde volta a ser previsto no Orçamento do Estado um saldo orçamental da saúde positivo (907 milhões de euros), em que provavelmente ninguém que trabalha no SNS acredita, e vai-se estar à espera, mais uma vez, de ter um saldo de execução negativo regularizado com verbas extra.

Dizer-se que é preciso melhorar a gestão do SNS, e desde o início não se compreender como é que os instrumentos macro de acompanhamento do SNS têm estas (aparentes) incoerências, é uma contradição que não ajuda a dar credibilidade à intenção de melhorar a gestão a todos os níveis.

Passando aos números. A figura seguinte apresenta os valores dos pagamentos em atraso no SNS (formalmente, hospitais EPE até 2023, ULS desde 2024), segundo os dados oficiais da Entidade Orçamental (antes DGO). O ritmo de crescimento mensal dos pagamentos em atraso fora dos períodos de regularização foi elevado desde o final da pandemia, embora seja visível (linha verde) que desde outubro de 2025, têm vindo a reduzir-se. Embora sejam apenas três meses, desde 2015 que não tinham ocorrido três meses consecutivos com uma descida regular dos valores dos pagamentos em atraso, provavelmente resultado de uma abordagem distinta da forma de tratar essas situações e da forma como foram dadas mais verbas para a sua regularização (também pode ter sido mero acaso, claro). Esperando que seja uma nova forma de tratar esta questão, veremos o que sucede nos primeiros meses de 2026. A probabilidade de que algo ter mudado é baixa, face ao que sucedeu no passado, mas não é nula.

As linhas roxa, laranja, vermelha e verde traduzem os ritmos de evolução média mensal, tendo sido de cerca de +80 milhões de euros mês nos períodos da linha laranja, cerca de +54 milhões de euros na linha vermelha e +98 milhões de euros na linha roxa. Ou seja, o ano de 2022 e o seu final de ano tiveram um crescimento mensal mais acentuado do que sucedeu em 2023, em 2024 abrandou-se em média esse crescimento mensal, mas voltou durante grande parte de 2025 a ser similar a 2023. A linha verde representa a redução regular a partir de outubro, diferente da quebra de um mês para outro que se encontra nas séries histórias. Os reforços orçamentais fortes que tiveram lugar nos últimos anos deverão estar na base da desaceleração da dinâmica de crescimento mensal fora dos períodos de regularização. Não se conseguir eliminar este crescimento dos pagamentos em atraso é revelador das dificuldades de gestão no SNS. O quadro seguinte apresenta os valors estimados dos ritmos de crescimento médio mensal dos pagamentos em atraso (resultados mais completos podem ser enviados a quem pretender, é apresentada apenas a parte da tabela relativa aos períodos mais recentes).

Legenda das tendências:
tend 1: de dezembro 2011 a maio 2012
tend 2: de junho 2012 a novembro 2012
tend 3: de dezembro 2012 a outubro 2013
tend 4: de dezembro 2023 a agosto 2014
tend 5: de setembro 2014 a novembro 2014
tend 6: de dezembro 2014 a fevereiro 2015
tend 7: de março 2015 a agosto 2015
tend 8: de setembro 2015 a novembro 2016
tend 9: de dezembro 2016 a novembro 2017
tend 10: de dezembro 2017 a fevereiro 2018
tend 11: de abril 2018 a novembro 2018
tend 12: de dezembro 2018 a maio 2019
tend 13: de junho 2019 a novembro 2019
tend 14: de dezembro 2019 a fevereiro 2020
tend 15: de março 2020 a abril 2020
tend 16: de maio 2020 a novembro 2020
tend 17: de dezembro 2020 a julho 2021
tend 18: de agosto 2021 a novembro 2021
tend 19: de dezembro 2021 a julho 2022
tend 20: de agosto 2022 a novembro 2022
tend 21: de dezembro 2022 a novembro 2023
tend 22: de dezembro 2023 a fevereiro 2024
tend 23: de março 2024 a novembro 2024
tend 24: de dezembro 2024 a setembro 2025
tend 25: de outubro 2025 a dezembro 2025

Os dois quadros seguinte ilustram as diferenças entre o que está no relatório do orçamento do estado para 2026 e o que é a execução orçamental (ambos retirados de publicações disponíveis online da Entidade Orçamental):


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Observatório da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 80, Janeiro de 2024)

De acordo com notícias publicadas recentemente, houve antes do final do ano de 2023, a tradicional transferência financeira para regularizar as dívidas e pagamentos em atraso do SNS. Essa injeção financeira levou, segundo as informações públicas, o valor da dívida vencida para 443 milhões de euros. Curiosamente, não é referido o valor previsto dos pagamentos em atraso (talvez ainda não esteja apurado), que são a dívida vencida com mais de 90 dias de atraso no pagamento.

Sendo tradicional esta injeção financeira, significa que nada se alterou durante o ano de 2023 quanto às disfuncionalidades de gestão financeira dos hospitais EPE e as implicações que tal tem para a sua gestão. Com a passagem a Unidades Locais de Saúde (ULS) em 2024, teria sido de toda a vantagem ter resolvido o problema de acumulação de pagamentos em atraso ao longo do ano, em lugar de se pretender dizer que está tudo bem apenas porque se baixa o stock de dívida no final do ano.

Os dados públicos mais recentes são referentes a Novembro (publicados pela Direção Geral do Orçamento, na sua publicação sobre execução orçamental), e mostram que o ano de 2023 foi em tudo idêntico ao de 2022. Resta saber apenas se a transferência do final de 2023 irá recolocar os pagamentos em atraso acima ou abaixo do valor de final de ano de 2022. Até o valor de novembro de 2022 é similar ao valor de novembro de 2023 (os valores de novembro correspondem aos valores antes das transferências extraordinárias habituais de final de ano). O ritmo de crescimento mensal dos pagamentos em atraso foi de 78 milhões de euros nos dois anos, sendo essencialmente igual do ponto de vista estatístico. Historicamente é o período de segundo maior ritmo de crescimento mensal, embora se deva ter em conta que são valores que não estão descontados da inflação (que ganhou expressão relevante nos últimos dois anos) e que ter em conta a inflação nos produtos e serviços adquiridos pelos hospitais poderá colocar o ritmo de crescimento em termos reais próximos de outros valores passados, entre os 60 e 70 milhões de euros (em valores equivalentes aos de há 5 anos atrás). (nota: usar a inflação medida pelo IPC – Indice de preços no Consumidor não faz aqui muito sentido, porque o conjunto de produtos e serviços adquiridos pelos hospitais não é o mesmo que o consumidor padrão compra).

Também em 2023 houve como em 2022 um acelerar dos pagamentos em atraso registados nos dois meses anteriores à (provavelmente) antecipada transferência extraordinária.
Esta foi uma área onde nada aconteceu de relevante para alterar os problemas existentes, sendo que era legitima a expectativa de que houvesse mudanças depois dos esforços feitos de trazer o stock de pagamentos em atraso para valores historicamente mínimos no início do ano. E até houve algumas iniciativas da equipa do Ministério da Saúde para que os instrumentos de gestão pudessem ter utilidade (planos de atividades e orçamento das instituições aprovados antes do ano começar, aspeto onde segundo se consegue perceber o Ministério das Finanças também não ajudou a dar credibilidade). E é natural que a partir do momento em que se lança a transformação das ULS, os elementos financeiros e de gestão tenham perdido “tempo de atenção” das equipas de gestão. Esperemos que esta não seja uma bomba-relógio que venha a perturbar desnecessariamente o funcionamento das novas ULS.


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ainda sobre a “crise das urgências” do início do ano

Mais do que está a recuperar os problemas que então surgiram, é necessário pensar que lições se retiram e que acções daí decorrem. O primeiro ponto é saber se as áreas onde surgiram mais problemas são também as áreas onde há menor capacidade de  resposta dos cuidados de saúde primários – por exemplo, maior número de pessoas sem acesso a médico de família. A partir dai pode-se classificar em cada hospital se o problema surgiu de redução de oferta, de aumento da procura ou de ambos, de forma inesperada.

O aspecto crucial para conseguir prevenir situações futuras está em perceber o equilíbrio entre oferta e procura e criar os mecanismos de resposta adequados. Simplesmente adicionar mais recursos não é necessariamente a melhor solução. Significa também que se os problemas surgiram de fontes diferentes, as respostas a serem dadas terão que ser diferentes.

Por exemplo, se houve tempos excessivos para atendimento em urgência hospitalar porque aumentou a procura, e depois internamente se registaram problema de “falta de macas”, então as respostas terão que ter um elemento de ligação à procura – como pode o hospital contribuir para uma maior capacidade de resolução de casos nos cuidados de saúde primários e, especialmente relevante, como transmitir essa informação à população – mas também uma gestão interna das actividades programadas do hospital para responder a maiores necessidades de internamento que possam vir da urgência. Em qualquer dos casos, significa definir protocolos de actuação claros quando há pressão inesperada, sendo que a actuação deverá ser não só interna ao hospital mas também externa, dirigida à construção de respostas para a população num momento de pico de procura. A definição dessas respostas poderá implicar reorganizações internas temporárias e poderá ser diferente de local para local.

O elemento fundamental é prever como se reage a um ambiente que tem variações, em vez de ter apenas reacção por pressão externa. Ou seja, ter planos de contingência em lugar de se reclamar por mais contratações depois de registado o pico de procura face à oferta. Medidas permanentes só fazem sentido quando os problemas são permanentes. Algumas das situações ocorridas poderão ter sido resultado de condições que exigem essas contratações, mas duvido que tal tenho sido generalizado, e que de qualquer modo flutuações de procura irão continuar a ocorrer, pelo que pensar em como responder de forma antecipada a essas situações deve ser feito. As “soluções” devem ser preparadas em momentos de “calma” para serem usadas de forma quase automática quando a pressão surgir.

Seria por isso bom sinal que se soubesse que planos de contingência foram estabelecidos por cada hospital, dos mais afectados pela “crise das urgências”, para saberem como vão reagir da próxima vez que houver um pico de procura (e esse pico mais cedo ou mais tarde vai existir).

Fica a curiosidade…


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encerramento da maternidade alfredo da costa (2)

Agora sim, alguns números sobre a actividade de partos na zona de Lisboa
(embora a Maternidade Alfredo da Costa tenha alguma outra actividade para além dos partos, esta é a principal).
Os valors são baseados nos episódios classificados nos GDHs 370 – 375, 650 – 652
O primeiro passo foi perceber onde nascem as pessoas do concelho de Loures, para ter uma ideia dos principais hospitais afectados pela abertura do novo hospital de Loures, admitindo que haverá uma preferência por esse hospital (mais perto da zona de residência).
Assim, 70% dos partos correspondentes a pessoas que indicaram viver no concelho de Loures ocorreram na Maternidade Alfredo da Costa, 19% no Hospital de Santa Maria, 5,4% no Hospital de São José, 2,1% no Hospital S. Francisco Xavier e 2,4% em outros 9 hospitais diversos.
Olhando apenas para os 4 hospitais mais relevantes, o quadro tem a informação sobre o número absoluto de partos nesse hospital (qualquer que seja a origem geográfica), o número de partos no hospital que tem como origem  geográfica o hospital de Loures e a diferença, que será uma previsão (tosca) do número de partos caso todos os partos com origem no concelho de Loures se desloquem para o novo hospital. O número para o total de partos na Maternidade Alfredo da Costa não é exactamente o mesmo referido em notícias na imprensa, tendo como fonte uma médica da Maternidade, mas é suficientemente próximo para se estar dentro das magnitudes relevantes.
Total de partos vindos do concelho de Loures Total de partos no hospital Total de partos s/ Loures
Hospital de São José 168 2008 1840
Maternidade Dr. Alfredo da Costa 2172 5304 3132
Hospital de São Francisco Xavier 65 2861 2796
Hospita de Santa Maria 592 2622 2030
(nota: números referentes a 2010)
Sobre estes números,  o Hospital de Santa Maria parece sofrer pouco, já a MAC é quem perde mais, e podia absorver todos os partos que restam no Hospital de  Santa maria, ou os do Hospital S. José.
A questão é saber se é melhor deslocar os cerca  de 3132 partos que se podem prever para a Maternidade Alfredo da Costa nos outros hospitais, nomeadamente H. Santa Maria e H. São José ou fechar a maternidade numa destas unidades e passar todos os partos referentes a ela para a Maternidade Alfredo da Costa.
O principal contra desta solução é como ambos o H de S. José e o H. de Santa Maria têm ensino universitário de Medicina, não faz muito sentido encerrar as maternidades dessas unidades.
Assim, a alternativa mais lógica fica a ser fechar a maternidade do H. S. Francisco Xavier, direccionando a respectiva actividade de partos para o H. de S. José e para a Maternidade Alfredo da Costa, mas isso fará pouco sentido também dada a população servida pelo H. S. Francisco Xavier.
Estas observações beneficiariam de ter informação sobre as capacidades das diversas unidades hospitalares em causa, o que não consegui recolher (ainda, pelo menos), mas de qualquer modo creio que permitem uma visão mais clara – a abertura do novo hospital em Loures retira um número substancial de partos da Maternidade Alfredo da Costa. Esta fica então com capacidade por utilizar. O efeito sobre outros hospitais é menor, e o que mais é afectado depois da Maternidade Alfredo da Costa é o Hospital de Santa Maria.
A capacidade disponível na MAC é capaz de absorver toda a actividade de partos de um dos dois hospitais associados com Faculdades de Medicina (Hospital de Santa Maria – Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Hospital de S. José – Faculdade de Ciências Médicas). Mas precisamente por estes últimos hospitais serem universitários, fará mais sentido concentrar a actividade neles do que retirar de lá actividade, um argumento diferente da questão de unidades monovalentes (como a MAC) vs integradas em hospitais gerais. Assim, para manter a actividade da MAC sem haver capacidade instalada não utilizada, a solução teria que passar por deslocar actividade de outro hospital da zona de Lisboa. Só que os únicos com actividade suficiente seriam o Hospital de S. Francisco Xavier ou parte da actividade do Hospital de Amadora Sintra. Servindo esses hospitais sobretudo populações ao redor de Lisboa, a centralização dentro de Lisboa aparenta ser uma solução menos razoável do que deslocar as equipas da Maternidade Alfredo da Costa para outras unidades hospitalares.
(Nota final: estas informações e opinião poderão ser corrigidas se entretanto se obtiver informação mais actualizada ou mais completa. Agradeço aos leitores do blog que me enviaram sugestões, mesmo que a minha opinião não vá de encontro à sua).