Momentos económicos… e não só

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Dívidas, despachos e centralização

Há cerca de duas semanas o Governo tomou a decisão de publicar um despacho, despacho 143/2016, em que o Secretário de Estado da Saúde determina que investimentos passam a estar “submetidos à autorização da tutela”e que as compras normais passam a ter “visto da tutela” se excederem a média mensal dos meses de janeiro a agosto. Como é dito, pretende-se com esta medida o “cumprimento dos objectivos que foram comprometidos  no Orçamento do Estado de 2016”.

Este despacho foi já criticado dentro do corrente “arco da governação” e no “arco da oposição”, como seria de esperar. Corresponde a um centralizar e “asfixiar” de despesa para controlar desvios à execução orçamental.

Embora não se diga que não será dada autorização, o mero processo de pedir autorização ou visto da tutela será suficiente para atrasar qualquer decisão de despesa (mesmo que seja autorizada, será só, parece-me, no inicio de 2017, quando já não contar para o défice orçamental de 2016). Mas se é despesa de 2016 que surgirá depois em 2017, fica para daqui a uns dias ver o que surge em termos de proposta de orçamento do estado para 2017 – se aumenta o suficiente para acomodar alguns investimentos que passarão de 2016 para 2017.

Já na parte referente a consumíveis e stocks que é preciso repor, o mais provável, visto de fora, é que os fornecedores antecipem que vão receber atrasado e como tal ajustem os preços para cima, e as dívidas não registadas irão crescer, e surgir também neste caso depois em 2017. É com estes mecanismos que se abre a porta para a “dívida debaixo do tapete”, uma vez que não se assumirá o risco de não dar assistência por falta de material (embora aqui e ali sejam já apresentados exemplos disso).

Esta é claramente uma medida de final de ano, a tentar controlar a despesa. A questão é saber se poderia ser feito de outra forma. A opção de simplesmente gastar como se não interessasse o défice orçamental não é grande ideia, pois não é certo por quanto tempo mais Portugal conseguiria fazer derrapar o défice orçamental do estado sem ter problemas sérios de colocação da dívida pública.

Mas dentro da ideia de controlo da despesa, creio que se deveria anunciar que as entidades que se encontrem dentro do seu orçamento anual beneficiam de uma “via verde” de aprovação (na verdade, defendo que poderiam ser até mesmo excluídas da regra deste despacho, como reconhecimento da sua capacidade de gestão), incidindo os esforços de verificação e controle nas restantes. Esta regra de gestão discricionária não é mais do que a tradução prática de uma sugestão de Orlando Caliço apresentada na sua contribuição para o ciclo de reflexões “Sextas da Reforma” (p. 207 e seguintes), de uma forma geral para toda a administração pública e que se aplica aqui de igual modo.

Ou seja, este despacho faz uso de um instrumento, centralização da autorização da despesa, mas a meu ver esse uso deveria ser feito de outra forma, dando um claro sinal de confiança em quem tenha até agora gerido bem e focando esforços de forma visível para todos nos restantes casos. É certo que a centralização tem custos que só se revelarão mais à frente, como assinalei, mas também será mais fácil perceber quais são, quanto são e como intervir sobre eles se a atenção estiver focada nas situações mais complicadas.


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Que democracia? (conferência da FFMS)

Continuando o post de ontem sobre a conferência da Fundação Francisco Manuel dos Santos Que Democracia?, algumas notas adicionais.

Sessão Democracia sem «demos»?, com Chantal Mouffe (e aqui) e Jean Cohen (e aqui), onde provavelmente o titulo mais adequado depois de ver a sessão será “Democracia sem demónios?”, em que os “demónios” em causa são os populismos, de direita e de esquerda. Este foi o elemento de clivagem entre as duas participantes, pois Chantal Mouffe defendeu abertamente a necessidade de um “populismo de esquerda” para contrabalançar o(s) “populismo(s) de direita” enquanto Jean Cohen tem a visão contrária, baseada na ideia de o populismo ser baseado na exclusão e na legitimidade dos “outros”. Segundo J Cohen, a democracia é cidadania e inclusão, enquanto C Mouffe defendia o populismo como uma forma de demarcação de posições.

Sessão: Democracia Europeia vs. democracias nacionais, com Vivien A. Schmidt e Wolfgang Streeck

A posição de Vivien Schmidt é a de existência de uma tensão entre o nível da União Europeia e o nível nacional que pode ser colocada como a primeira tendo “policies and no politics” e a segunda tendo “politics but no policies”. O problema da democracia coloca-se mais ao nível nacional, com a participação dos cidadãos, enquanto ao nível europeu o questionamento é sobre a legitimidade (que não é colocada em causa, mas sim como se articula com os níveis nacionais). Vivien vê os actuais problemas da União Europeia como resultando de se ter tentado ter políticas (policies) através de regras deixando de lado a acção política (politics). As regras não funcionaram como pretendido, o que criou o sentimento de falta de legitimidade ao nível europeu. Comentou também que a atitude dos políticos nacionais, em que culpam “Bruxelas” pelo que corre mal e recolhem os louros das “conquistas que fizeram” quando as políticas correm bem, não ajuda a criar uma percepção correcta da contribuição de cada nível político. Referiu também que tem havido um reinterpretar pela sombra (“by stealth”) das regras da União Europeia como forma de introduzir flexibilidade sem uma revisão firma dessas regras. Propõe ver a União Europeia como um conjunto de diferentes círculos (ou grupos) em torno de políticas comuns, com cada país a ter uma voz nos círculos em que participa.

Wolfgang Streeck adoptou uma postura mais drástica, dizendo que o euro foi um desastre e questionando o que é a União Europeia em termos formais. Na verdade, acabou por não ter grande contributo adicional em termos de pensamento.

A discussão andou depois muito à volta do que leva a um maior crescimento económico, e com o apelo de trazer as políticas (policies) de novo para o nível nacional.

 


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Democracia e partidos politicos

Na semana passada, a Fundação Francisco Manuel dos Santos realizou um encontro dedicado à democracia. Uma das conferências esteve a cargo de Ian Shapiro. O primeiro ponto da discussão de Shapiro foi genérico, baseado em alguns números, para dizer que nunca se viveu tanto em democracia como nos dias de hoje.

E depois dessa introdução entrou numa análise da evolução do sistema partidária, com recurso ao exemplo do que sucedeu nos Estados Unidos com a seleção dos candidatos presidenciais. Aqui, apresentou dois grandes motivos para o aparecimento de candidatos como Trump. De um lado, a evolução da envolvente económica: as transformações e mudança de sectores relevantes com a globalização, os problemas trazidos pela evolução tecnológica para o tipo e remuneração de postos de trabalho e a concentração crescente de riqueza. Os afectados e descontentes acabam por convergir em candidatos anti-sistema.

O segundo factor, e ao qual dedicou mais tempo, foi o de “más práticas democráticas”, ou de como a adopção de regras que parecem aumentar a transparência da actividade política podem levar a polarização que se assiste, e em que na verdade as plataformas de ação política acabam por ser determinadas por grupos minoritários relativamente activos. O argumento central que Shapiro trouxe é simples – quando dois partidos estão em concorrência para governar, essa concorrência eleitoral entre eles fá-los convergir para posições intermédias como forma de ganharem eleitores ao outro partido – é a velha ideia de as eleições conquistam-se ao centro.

Quando os partidos procuram aumentar a sua transparência com processos internos de eleição, onde candidatos internos explicitam as suas plataformas, então o crucial para cada candidato é ganhar o “centro” do seu partido, que é forçosamente distante do “centro do eleitorado”, criando assim polarização em vez de convergência. Esta polarização, por seu lado, irá tornar mais difícil qualquer acordo de governação. A concorrência intra-partido acaba por se substituir à concorrência inter-partidos. E a concorrência intra-partido procura satisfazer os eleitores internos dos partidos, produzindo clientelismo e a dita polarização. O efeito de se procurar a transparência como forma de aproximar os cidadãos dos partidos tem como resultado uma polarização e um funcionamento interno na procura de ser eleito no seio do partido que afasta os cidadãos que não se envolvem nessas eleições internas. E as políticas que são propostas pelos partidos nestes processos acabam por ser menos representativas do que antes.

A proposta de Shapiro é que em vez de se estar sempre a mudar o sistema de funcionamento dos partidos para responder ao último problema detectado, se deveria procurar perceber de uma forma mais genérica que tipo de funcionamento dos partidos leva a uma melhor democracia, levar os partidos a pensar mais no longo prazo e nas ideias que podem ser usadas para governar mais do que nos aspectos que garantem a eleição interna.

 

 

Declaração de interesses: sou coordenador da área de políticas sociais da Fundação Francisco Manuel dos Santos.


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Nobel da Economia 2016

para Oliver Hart e Bengt Holmstrom (press release aqui). Um bem merecido prémio pelo desenvolvimento da chamada “teoria de contratos”, em condições de informação imperfeita e de assimetria de informação. Se Holmstrom alargou a nossa visão de como se estabelecem contratos em condições de informação imperfeita e de como criar incentivos com esses contratos, Hart introduziu a ideia de contratos incompletos (no sentido em que não conseguem especificar todas as contingências relevantes de um contrato) e a relevância de ter especificados os direitos residuais de controle.

Um prémio bem merecido e com imensas aplicações no sector da saúde: a relação de delegação entre doentes e médicos para decisão de tratamento é o tipo de relação analisada por Holmstrom; o estabelecimento de contratos de parceria público-privadas é o tipo de contratos que usa ou devia usar os ensinamentos de Hart.

É uma boa atribuição do prémio Nobel, e completa de alguma forma o Nobel de Jean Tirole há dois anos, no sentido de premiar os avanços em teoria microeconómica.


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Objectivos de dívida no Ministério da Saúde

Segundo o jornal Tempo Medicina, o Ministro da Saúde assumiu que “o Governo mantém o objectivo de fechar as contas da execução orçamental de acordo com as metas traçadas para este ano: um saldo de menos 179 milhões e acabar 2016 com “um stock de dívida e um prazo médio de pagamentos igual, senão melhor, ao registado em Dezembro de 2015″.

Ora, olhando apenas para os hospitais EPE, a dívida em atraso no final de 2015 era de 451 milhões de euros, em final de setembro de 2016 era de cerca 713 milhões de euros. Se a tendência histórica de crescimento se mantiver sem mais, no final do ano as dívidas em atraso serão de 830 milhões de euros. Isto significa que o objetivo do Governo não é alcançável apenas com evitar nova dívida em atraso, é necessário recuperar. O que nos quatro meses que faltam até ao final do ano só é possível com uma ou várias das situações seguintes:

a) forte contenção da despesa de forma a que hospitais libertem fundos para pagar dívidas em atraso de forma expressiva (e como o problema está concentrado nalguns hospitais, terá de ser contenção de despesa nesses ou forçar a que os de boa gestão paguem os de má gestão, normalmente desastroso em termos de incentivo ao bom desempenho);

b) remeter nova despesa para divida escondida, que só apareça depois do final de 2016, e que não sendo registada agora nominalmente permita atingir o objectivo pretendido. Duvido que seja esta a opção tomada, dado o risco de descredibilização que traria a todo o sistema orçamental dos hospitais EPE;

c) orçamento retificativo ou outra forma de injetar quase 380 milhões nos hospitais EPE até final do ano para que o stock de dívida em atraso ficasse (ligeiramente) abaixo do que estava no final de 2015. A utilização, ou não, desta alternativa depende de vários factores, incluindo o andamento do défice orçamental global, e mesmo que fosse desta forma atingido o objectivo, não o seria por alteração da dinâmica estrutural.

d) outra alternativa que não me esteja a lembrar…

Teremos que esperar até ao final do ano para ver o que sucede aqui, mas não deixa de ser uma meta exigente que o Ministério da Saúde colocou a si próprio.


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Taxis, Uber e os consumidores

Estamos novamente num momento de luta entre taxistas e governo, em que os primeiros procuram defender as suas posições. Os argumentos foram já bastante clarificados, e as associações de taxistas querem defender as posições de mercado que detêm. No meio desta discussão, tem havido pouco lugar para o que ganha, ou não, o consumidor, com a existência destas plataformas. Para os Estados Unidos saiu recentemente um trabalho que procura fazer essa quantificação (ver imagem abaixo para os detalhes) que estima uma ganho de valor de 1,60 dólares para os consumidores por cada dólar de despesa no serviço (ou seja, é valor gerado além da margem que fica com os condutores e com a Uber enquanto operadora). Para as decisões que venham a ser tomadas em Portugal sobre a Uber (e outras plataformas similares), é bom que também o interesse do consumidor seja considerado.

 

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um comentário adicional sobre as dividas dos hospitais

Tendo regressado ao inicio da noite da capital da Europa, vulgo Bruxelas, constato que as dividas dos hospitais fizeram parte da agenda de discussão do Ministro da Saúde com a Comissão Parlamentar da Saúde. Não tendo assistido à sessão (calculo que possa ter passado no canal da Assembleia da República), e apenas tendo visto  um sumário numa televisão generalista (graças às gravações automáticas), há um aspecto que merece um comentário rápido.

O problema das dívidas dos hospitais não está em valor ser mais alto ou mais baixo num ano face ao outro, como aparentemente foi ponto de discussão. O problema está em existir um processo permanente, dinâmico, do crescimento dessa dívida. E nem os Governos anteriores foram capazes de travar essa dinâmica de forma duradoura, nem este Governo aparentemente o está a conseguir fazer. Haverá sempre “explicações” pontuais para esse crescimento, mas é esconder o problema sem realmente o atacar.

No primeiro Governo liderado por Passos Coelho, durante a primeira metade de 2015, ainda se teve um conjunto de meses em que a tendência foi de descida, mas aproximando-se as eleições a pressão para uma gestão que evitasse essas dívidas parece ter-se desvanecido.

Atualmente, com o argumento do aumento de despesa devido às 35 horas semanais,  volta-se a cair na tentação de encontrar explicações em vez de resolver o problema. Se há um aumento de despesa determinado por decisão central do Governo, então as instituições deveriam receber o reforço de orçamento correspondente a essa decisão. De outro modo, está-se a introduzir um elemento perverso de gestão, ao descredibiliza o orçamento atribuído. O que só poderá resultar no futuro, como sucedeu no passado, num acelerar do crescimento da dívida (uma vez que até se passa a ter uma “razão” para ter dívida).

No caso das dívidas dos hospitais EPE, nenhum dos dois lados politicos tocou nos aspectos essenciais, limitando-se ao “combate” para a televisão e não para a solução do problema (claro que posso estar a ser injusto, e terem sido discutidas e até encontradas propostas de solução que não foram reportadas na peça televisiva que vi; se for esse o caso, amanhã aqui deixarei a rectificação).


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Observatório mensal da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 29 – Setembro 2016)

Ontem foi divulgado mais um relatório da execução orçamental, que tem uma vez mais um crescimento da dívida dos hospitais EPE. Este crescimento não sai significativamente fora da tendência histórica do último ano. A actualização do ritmo de crescimento continua perto dos 30 milhões de euros por mês.

Esta tendência de crescimento é agora a de duração mais longa desde o início deste observatório, sem ocorrer uma inversão ainda que por poucos meses.

Revela a permanência do problema e a falta de capacidade para o resolver, pois regularização de dívidas e injecções de fundos não são solução. Os períodos de redução de dívidas foram sempre invertidos. Ainda assim seria bom conhecer o que foi feito de diferente durante esses períodos para perceber como se poderá de forma duradoura evitar pagamentos em atraso dos hospitais EPE.

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(nota: a observação do gráfico sugere que a tendência de redução de 2015 se poderia estender para lá de Agosto de 2015, até Outubro, e a tendência de subida ser apenas a partir de Novembro de 2015. Estatisticamente, essa possibilidade tem um desempenho inferior à adoptada por este Observatório de a inversão de ciclo ter ocorrido em Agosto de 2015).


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A classe média, o que é?

Interessante trabalho do Observador, aqui, sobre o que os partidos definem como classe média quando a invocam. Tenho para mim que há também uma outra definição implícita para os partidos (classe média = grupo importante de votantes para o meu partido, o que varia obviamente de partido para partido).

Mas para ter uma ideia do que é a distribuição dos rendimentos (do trabalho, sobretudo, acrescidos de prestações sociais) em Portugal e como evoluiu nos últimos anos, sugiro a conferência de Carlos Farinha Rodrigues, sexta-feira dia 23, no ISEG, para apresentação de um trabalho sobre o tema das desigualdades económicas (no âmbito dos trabalhos da Fundação Francisco Manuel dos Santos). Para comparação, uma análise com alguns anos do mesmo autor está disponível aqui.

Uma primeira visão dos resultados do trabalho mais recente foi apresentada no Expresso da semana passada. E está disponível no microsite Portugal Desigual.


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Poupança, riqueza e a política do Bloco de Esquerda

Agora que o Bloco de Esquerda é parte da solução governativa, é importante dar atenção ao que são os seus instintos profundo, os que constituem na realidade o seu programa político, pois será assim que serão insistentes para com a governação socialista. E as recentes declarações de Mariana Mortágua (aqui), “do ponto de vista prático, a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro” traduzem esse instinto profundo, e uma visão de sociedade.

Se à primeira vista a preocupação com as desigualdades suscita compreensão e até empatia, o “modelo” de sociedade que está subjacente às afirmações não foi explicitado, e deverá ser difícil explicitar pois dificilmente conseguirá ser coerente com valores base de liberdade e democracia. Tomado literalmente significa que o Bloco de Esquerda é avesso à poupança, a qualquer poupança, e que redistribuirá essa poupança. Parece ter também a ideia de que “acumular” é mau, inerentemente mau. Ora, um sistema económico dificilmente consegue sobreviver em liberdade sem haver poupança e liberdade de cada um utilizar o fruto do seu trabalho da forma que entender, dentro das regras gerais da sociedade. E até a solução para combater as desigualdades tem uma conotação negativa: em vez de melhorar os que estão pior, há que trazer para baixo os que conseguirem melhorar. Antecipo que nos próximos dias Mariana Mortágua venha esclarecer que não é contra a poupança dos trabalhadores, que estava a falar dos 0,01% em acumulação da riqueza, ou seja reposicionar a sua afirmação na corrente politicamente correcta. Porém, será apenas reposicionar, pois a convicção das palavras é a da visão profunda de acumular ser mau, e apenas a redistribuição ser o único objectivo social, e que pretende apenas colocar em causa o “capitalismo que temos” (ou alguma variante deste termo).

Mais importante seria explicitar qual o seu modelo alternativo de funcionamento económico – sem poupança, não há fundos privados para serem canalizados para investimento, e terão que vir de poupança pública (impostos superiores às despesas do Estado, mas espera se vai tudo para redistribuição também não há poupança pública…) ou de poupança externa (mas quem vai querer investir cá, e ter investimento estrangeiro não é vender o país aos capitalistas dos outros países?). Bom, então passemos sem investimento, nem público nem privado. Sem investimento, e sem capacidade de acumular resultados positivos na actividade económica, as empresas desaparecem. Não tem problema, neste modelo alternativo o sector público assume o que for preciso. Mas quem decide no sector público esse funcionamento económico? e como o equilibra com a redistribuição (admitindo que ainda haja alguma coisa para redistribuir)? bom, se alguém o faz, fica com grande poder e grande poder chama a corrupção. Bom, o melhor é mesmo manter algumas empresas privadas mas fixar todos os preços que praticam (espera, isso já está a ser tentado na Venezuela, com os resultados de escassez e escalada de crime). Ou seja, não é nada claro que haja um “modelo” alternativo na mente de Mariana Mortágua que possa funcionar.

Mas o que está subjacente à afirmação é errado até no sentido mais próximo de não ser a melhor forma de alcançar o que pretende. A melhor forma de reduzir as desigualdades é fazer subir quem está em baixo, e nesse processo a “acumulação”, a poupança, é um elemento essencial, e não apenas a redistribuição. (ver aqui uma análise séria sobre o papel das poupanças na mobilidade social e económica, e na redução das desigualdades de rendimento).

Adicionalmente, estas afirmações facilmente sugerem que depois do “acumular de casas” outras medidas possam aparecer (por exemplo, porque não tributar outros instrumentos de poupança, perdão acumulação, como os certificados de aforro e outros instrumentos de colocação da dívida pública?). O receio de qualquer manifestação de acumulação, digo poupança, ser tributado para redistribuir poderá fazer desaparecer essas poupanças, ou por consumo ou por serem colocadas em instrumentos dificilmente observáveis – para os “ricos”, certamente aplicações no exterior, para os outros talvez ouro ou simplesmente o tradicional colchão. Não tenho a certeza de qual será a forma de ajustamento, mas se o princípio anunciado pelo Bloco de Esquerda e tacitamente aceite pelo PS é tributar a “acumulação”, quem “acumula” irá alterar o seu comportamento e todas as formas que consigo pensar de ajustamento de decisões não são a favor de fomentar o crescimento económico ou da produtividade, essencial para a melhoria das condições de vida das pessoas.

Há ainda os que recebem a redistribuição, afinal isto deve ser neutro, certo? estamos só a tirar de uns para dar a outros. A “pequena” questão é como os comportamentos económicos de uns e de outros se alteram. Um exemplo extremo ajuda a clarificar a minha preocupação. Suponhamos que se pretende que todos tenham o mesmo rendimento, independentemente de estar ou não a trabalhar. Se isso for assegurado, a opção de trabalhar, ou não trabalhar, deixa de ter qualquer implicação para o rendimento, por definição. Logo, quantas pessoas optarão por trabalhar? Se houver um número suficientemente grande de pessoas que deixa de trabalhar como assegurar os bens e serviços essenciais? será necessário obrigar a que as pessoas trabalhem, numa lógica de “escravatura de Estado”? o modelo económico vigente leva a que à existência de trabalho pela expectativa de “acumulação” (poupança) e pela necessidade de rendimento. Desaparecendo ambas com a política de “ir buscar a quem acumula” para redistribuir, então o caminho para a pobreza material ou para “escravatura de Estado” encontra-se aberto.

E por fim, pelo menos neste post, a interferência com a liberdade económica de poupar/acumular, sacrificando consumo hoje para poder ter algo mais no futuro. Se duas pessoas com o mesmo rendimento do trabalho tiverem opções diferentes, em que uma decide poupar para dar mais educação aos seus filhos ou para ter um tempo de reforma melhor (podendo incluir nessa forma de poupança adquirir imóveis para usufruto próprio ou como fonte de rendimento para o futuro) e outra decide fazer todos os anos viagens de turismo fabulosas, porque deve ser a primeira penalizada com tributação adicional? Não se quebrará de forma injusta a igualdade na liberdade de usar os rendimentos que alcançar?

Não sei se receio mais que a afirmação seja resultado de um “modelo” económico alternativo que está presente na atuação do Bloco de Esquerda (embora o seu manifesto eleitoral de 2015 não permita perceber que modelo de funcionamento económico da sociedade pretendem, pois tem apenas ideias avulsas e não um visão global da sociedade), ou que seja resultado do entusiasmo do momento, sem ter pensado em todas as consequências do que a afirmação significa.