Momentos económicos… e não só

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“Para uma conversação construtiva” (3)

A parte 1 tem como tema Identidade e Unidade. Começa com a discussão da saúde como um bem muito especial: “por ser a saúde um bem especial não pode ser entendido, tratado ou transacionado como qualquer outro bem”, passando depois a dizer-se que “a completa banalização e mercadização do bem-saúde não convém à maior parte das pessoas”.

Há aqui um conjunto de conceitos que é necessário arrumar melhor. Primeiro, a diferença entre saúde e cuidados de saúde (ou intervenções destinadas a alterar a saúde). Esta distinção é feita há muito tempo: a “produção” de saúde é feita conjugando a pessoa com os cuidados de saúde que lhe são proporcionados. Não há forma de transacionar saúde, esta tem que ser construída por cada um, com maior ou menor ajuda. O que tem eventual mercado são os cuidados de saúde. E aqui o aspecto central é que esta característica não depende de qualquer consideração ética à partida. Qualquer que seja o julgamento que se queira fazer sobre o valor da saúde, nunca será possível transacionar saúde de uma pessoa para outra. Podem-se fazer intervenções que alteram a saúde, mas não há a transação da saúde propriamente dita. Não há por isso “mercadização” do bem saúde. O que intuo que se pretende dizer é que os diferentes mercados de prestação de cuidados de saúde, produtos e serviços, têm que ser olhados de forma diferente por contribuírem para a produção de saúde. Não é claro o que se entende por “mercadização” – se é pretender-se a total ausência de mercado para alguns desses bens ou serviços, ou se pretender-se um funcionamento diferente do mercado para esses bens e serviços. As considerações genéricas não ajudam a retirar qualquer implicação prática, e na verdade até podem levar a posições contraditórias com a ideia do cidadão no centro do sistema, sobretudo se se quiser que o cidadão tome decisões e faça escolhas (sendo o mercado um dos instrumentos possíveis, não o único, para expressar essas escolhas).

O restante deste capítulo é relativamente neutro nas ideias, apesar de nalguns aspectos dever ser mais claro, como na apresentação do duplo papel do SNS como sistema de protecção (“seguro público de saúde”) e como sistema de prestação de cuidados de saúde – o primeiro aspecto pode existir sem o segundo. Vários países optaram por não ter prestação pública de cuidados de saúde como factor predominante dos seus sistemas de saúde, embora tenham financiamento público do sistema de protecção, e há países que optaram por fazer com que a intervenção pública em termos de protecção financeira das necessidades futuras com cuidados de saúde ser feita por via de regulação de mercados de seguro de saúde privados.

Interessante a explicitação do “SNS como projecto multigeracional”, que pode ter muitas faces. Aparentemente o pensamento limitou-se a pensar no SNS como entidade prestadora de cuidados de saúde, que deverá passar conhecimento e treino de geração para geração. Centra o elemento “multigeracional” apenas numa das características do SNS, a prestação directa de cuidados de saúde, sobretudo nos testemunhos recolhidos. Há uma frase inicial sobre solidariedade entre gerações, embora não seja totalmente claro o sentido da frase. Provavelmente pretende-se ver o SNS como um contrato geracional, e não apenas como um seguro público de saúde, cuja validade é o da duração do “prémio de seguro” (os impostos pagos num ano). Esta visão de contrato geracional deverá ser mais explorada nos seus detalhes. A forma de distribuir protecção financeira contra necessidades de despesa com cuidados de saúde ou recurso a serviços de saúde tem várias possibilidades. Uma é ao compromisso de pagamento de impostos de forma regular corresponder, do outro lado do contrato social, o compromisso de durante o tempo de vida de uma pessoa, receber essa protecção. Mas também se pode pensar em contas individuais conjugadas com elementos de solidariedade para organizar esse aspecto intertemporal. E sendo um contrato social desse tipo, como lidar com os que emigram novos e regressam idosos? Ou os que imigram novos, e numa idade mais avançada poderão regressar aos seus países de origem? Ou idosos que imigrem com necessidades em média mais elevadas de recorrer a serviços de saúde? Ao não explicitar nada, estamos a admitir que haverá uns que contribuirão mais do que outros para os mesmos benefícios retirados? Claro que num contrato anual este problema não se coloca. Ou seja, a passagem para um enquadramento de contrato social de ciclo de vida implica explicitação de mais aspectos do que dizer que no futuro os mais jovens contribuirão para os mais idosos, tal como esses idosos sendo jovens hoje contribuem para as necessidades dos idosos do momento actual.

Surge também nesta parte a frase mais cansativa nestas discussões “desempenho custo-efectivo” do que quer que seja. É cansativa por na verdade implicar um conjunto de conceitos subjacentes que não sei se estão realmente assimilados de forma geral, e por se ter tornado quase numa esperança de regra mágica automática que abre todas as portas – se for custo-efectivo é bom. Esses automatismos não são sempre possíveis nem são sempre bons. Basta começar a questionar para quem é custo-efectivo, para a sociedade? E tem-se a certeza que as decisões individuais estão sempre alinhados e reflectem sempre os interesses sociais? Sabemos que custos e que efectividade se está a falar? Como lidar com efectividade como conceito multidimensional? A tentação de passar à fase de dizer “eu quero fazer A, logo só tenho que demonstrar que é custo-efectivo” tem surgido com demasiada frequências.

Uma nota final sobre o “discurso do SNS”, que traduz uma exigência do SNS ser exigente e mobilizador, e um exemplo também em termos internacionais. Completamente de acordo, e numa perspectiva de desenvolvimento do próprio SNS. Os resultados alcançados com o SIGIC colocam-nos como uma boa prática para países com serviços nacionais de saúde e listas de espera para cirurgia, como reconhecido pela OCDE recentemente numa avaliação que fez das estratégias dos vários países sobre como solucionar problemas de listas de espera. Na visão apresentada há poucas semanas pela Fundação Calouste Gulbenkian coloca-se também o desafio de tornar Portugal líder na saúde das crianças (que será determinante para a saúde futura dos adultos que essas crianças de hoje serão). Há aqui claramente uma ideia que pode ser partilhada de forma mais ampla, e sobretudo ser levada à concretização.

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“Para uma conversação construtiva” (2)

Começando no livro propriamente dito, a introdução, sujeita ao título “SNS Património de todos”, é constituída por declarações de apoio ao SNS de várias pessoas, digamos de vários notáveis (António Arnaut, António Capucho, Manuel Teixeira, António Sampaio da Nóvoa, José Aranda da Silva, Maria Guilhermina Pereira – esta última presidente da associação de estudantes de medicina da universidade de Lisboa). Nada de especial a assinalar, são visões sentidas sobre o valor do SNS, outra coisa não seria de esperar. Poderia ter-se adicionado a este leque de pessoas a visão ou as aspirações de um ou dois cidadãos, anónimos mas que tivessem estado na conferência da Fundação do SNS. Até para dar mais corpo ao pressuposto do cidadão no centro do sistema. Em qualquer caso, é claro o sentimento de pertença que o Serviço Nacional de Saúde gera. O objectivo de mostrar um amplo apoio ao SNS de diversas profissões e diversas gerações encontra-se aqui cumprido.

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“Para uma conversação construtiva” (1)

 

A semana passada a Fundação para a Saúde publicou um livro intitulado “Serviço Nacional de Saúde – para uma conversação construtiva”, tendo como mentor, e um dos muitos autores, Constantino Sakellarides.

Numa primeira impressão geral, o livro apresenta-se como desigual nas suas partes, alternando entre ideias que vale a pena discutir, por um lado, e boas intenções, ou considerações mais ou menos vagas ou depoimentos de apoio ao SNS, por outro lado.

Um aspecto presente ao longo de todo o livro é a ausência de qualquer preocupação com restrições, como se não houvesse limitação de recursos, não só financeiros como materiais, para alcançar todos os objectivos definidos. Curiosamente, os objectivos também se tendem a centrar no processo e não nos resultados, no que se pretende alcançar. Faz também alguma falta a existência de contraditório no livro.

Tem a característica de em demasiadas páginas surgir como uma cartilha aos convertidos e não um texto que nos desafie a pensar. Esses momentos de desafio também existem, mas são menos do que gostaria de ver.

O sumário executivo fornece, como seria de esperar, uma visão geral dos temas, mas com pouca concretização. O sumário executivo arranca com uma primeira secção, sobre identidade e unidade do SNS, onde teria sido apropriado que fossem elencados os “princípios que o informam”, as “limitações que o afligem” e a “questões que o desafiam”.

Sobre contrato social, também não se concretizam no sumário quais “os dispositivos próprios” para a governação estratégica. Apenas se lança a ideia de ter um “painel de indicadores publicamente escrutináveis”. Esperemos que no desenvolvimento do livro estes sejam mais detalhados, no seu modo de cálculo e no seu significado e interpretação.

Nova secção, dedicada à arquitectura organizacional, conhecimento e inovação em saúde, onde implicitamente há um apelo à redução de níveis hierárquicos, quando se referem “níveis intermédios desnecessários”, sendo que se terá que esperar pelo resto da leitura para perceber que níveis são esses. Neste ponto surge também a noção de “processos de auto-organização”, aspecto que vale a pena discutir, pois encerram vantagens e desvantagens. A necessidade de transformação progressiva, com “equipas multiprofissionais”, é uma consideração que partilho, com as dificuldades que lhe estão inerentes a partir de uma cultura de trabalho que não tem tradicionalmente essa característica.

Inevitavelmente, há também uma parte dedicada a literacia, participação e cidadania, embora aqui pouco se vá além da habitual retórica de dizer que o cidadão é o centro do sistema, embora depois todo o pensamento pareça estar assente na premissa que são os actores do sistema de saúde que sabem o que cidadão tem que querer (o que até certo ponto é contraditório com dizer-se que o cidadão é o centro do sistema, é o centro das atenções, mas fará parte do centro de decisão?)

Por fim, há uma nota sobre desafio europeu e global, o que é chamado “projecto SNS Europa” e “projecto SNS Global”, que são à partida boas ideias, exigindo o desenvolvimento de uma capacidade de documentar experiências, processos e resultados, que permitam levar à aceitação das opções com sucesso em Portugal noutros países, provavelmente com adaptações.

Passarei (passaremos?) ao comentário de cada parte por si, nos próximos dias.

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voltando ao tema do envelhecimento e ao livro da maria joão valente rosa

Retomando a meada do post anterior,  é interessante dar conta de algumas das respostas e reacções à apresentação do livro por parte da audiência presente.

Das respostas, o importante a reter, como já se esperava, é o envelhecimento colectivo da população ser um facto. Mesmo que o “cogumelo” etário dos próximos tempos deixe de o ser, e volta a ser mais perto de pirâmide, será sempre uma pirâmide com mais gente no topo, o número e proporção de idosos será sempre maior no futuro. Assim, não estaremos perante um problema transitório e as novas formas de estado social que se encontrem para lidar com o envelhecimento da população deverão ter carácter permanente.

Outros temas que foram levantados na discussão, e que merecem comentários (que não tinham espaço na apresentação do livro):

– fecundidade – “o problema é a falta de rendimento para ter mais filhos” – na verdade, não é esse o problema. Até porque se houver profissões mais bem remuneradas, o custo de oportunidade de ter mais filhos é  maior no sentido de se perder mais rendimento. Há nestas discussões uma confusão entre condições (ter mais rendimento dá mais condições) e interesse (ter mais rendimento e uma carreira profissional retira importância relativa a ter filhos). Há também um efeito, face ao passado de há 100 ou 200 anos, de os filhos deixarem de ser um investimento económico (para trabalhar primeiro, como fonte de apoio informal no seio da familia na velhice, depois – as “tias” que ficaram solteiras para cuidar dos pais, por exemplo), para ser acima de tudo um investimento emocional.

– desemprego jovem – “as reformas antecipadas e idade de reforma cedo são importantes para dar emprego aos jovens” (não foi exactamente com estas palavras) – neste campo, há bastante evidência de que não existe uma substituibilidade grande entre jovens e seniores no mercado de trabalho.

– “formação continua” – foi referida a formação ao longo da vida como sendo algo próximo da proposta da maria joão valente rosa, contudo a meu ver tal não é verdade. A formação continua avançada tende a ser continuação de formações anteriores, e melhorias de formação num contexto de carreira profissional existente. A proposta da maria joão é diferente na medida em que pode corresponder a uma mudança radical da própria carreira profissional. Não é um complemento, uma continuação, é um voltar ao início mas de outra área.

-“muitas qualidade a valorizar”- houve aqui uma referência a actual formação académica que tende a ser muito especializada. Em termos de profissão, o valor que se pode trazer a uma organização está na especialização que se consiga ter de forma a fazer melhor, mais e diferente. É certo que por vezes a tecnologia se torna tão especializada que se perde “humanismo”. Vem este comentário a propósito de uma referência a que as profissões de saúde actuais são muito boas tecnicamente, muito evoluídas, mas perderam a capacidade de saber como lidar com idosos. Assim sendo, diria que parece haver espaço para surgirem novas ocupações de seniores para cuidar de seniores, e que uma formação mais tarde na vida poderia aliar o “humanismo” da idade a uma formação técnica adquirida que aproveitasse esse humanismo. Completamente dentro do espirito proposto pelo livro.

-“contribuição civica e dinheiro” – foi referido que a contribuição civica que os seniores podem dar não é apenas motivada por motivos financeiros. Não posso estar mais de acordo. A sociedade tem é que encontrar uma forma de receber essa contribuição, e de não a limitar por estar fora dos mecanismos habituais.

-“despedimento completamente livre” – houve um participante que argumentou que parte dos problemas é as pessoas a partir de certa idade terem grande dificuldade em encontrar emprego, apresentando como solução uma total liberdade de despedimento, conjugada com um forte sistema de protecção social. Esta é uma discussão antiga e sempre presente na definição do estado social.

-“referência aos países nórdicos e a importância de estudar e observar a “ocupação dos velhos”” – certamente que é importante conhecer o que se passa noutros países, mas seria cauteloso na importação de soluções sem as passar por um “crivo de cultura nacional”. Um exemplo rápido, no norte da europa há uma maior cultura de vida individual, é por isso perfeitamente razoável que a arquitectura de apoio à vida dos idosos venha a reflectir essa característica – é fácil ter edifícios em que as pessoas vivem sozinhas e com níveis de dependência diferentes consoante o piso em que são colocadas. Em Portugal, o hábito e necessidade de falar com vizinhos, de se cruzar numa vida comunitária, sugere que a arquitectura de espaços para idosos deverá ser menos na vertical e mais na lógica de pátio para que as pessoas de vejam, se cruzem (e se dediquem a falar, “intrigas” de bairro, mas também apoio).

Imagem do evento:


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o envelhecimento da sociedade portuguesa, por maria joão valente rosa

tendo sido convidado a participar na discussão do livro da Maria João Valente Rosa sobre envelhecimento, decidi preparar o improviso, que fica aqui para discussão de quem quiser.

Uma importante distinção é traçada no livro entre envelhecimento individual e envelhecimento colectivo. Além de cada um de nós viver mais, em média, do que os nossos avós, também se nasce menos. Não só vivemos mais, como haverá mais pessoas de idade avançada. Embora gostasse de ver se numa perspectiva a 100 anos a actual tendência voltará a mudar a forma das pirâmides etárias: actualmente de pirâmide a cogumelo e depois novamente a pirâmide mas com menos população.

Uma pergunta natural é saber se o envelhecimento é bom? Individualmente, claro que sim.

Socialmente, lança desafios diferentes dos que existiram no passado recente para a organização social.

Um dos aspectos centrais, focado no livro por outras palavras próximas, é evitar o desperdício da inactividade. Mas fazê-lo significa que a relação entre o idoso e a sociedade que o rodeia se modifique – não pode ser uma questão de aumentar administrativamente a idade da reforma. Tem que haver abertura de espirito para procurar outros mecanismos de organização da sociedade neste campo.

Mais uma pergunta usual: vai haver reformas garantidas?

A resposta é que tudo depende do que o país produzir em cada ano – as reformas pagas são uma repartição da riqueza que é gerada (qualquer que seja o mecanismo financeiro que lhe esteja subjacente); as reformas são promessas que talvez seja possível manter, ou não.

Os bloqueios identificados para uma nova forma de encarar o envelhecimento na sociedade resultado do significado social atribuído à idade, mas há também barreiras legais (como a idade de reforma obrigatória). Uma discussão a ter é precisamente que significado social a idade tem, como se pode mudar, ou se irá mudar por si, consoante o número de idosos aumenta.

A pressão “económica” do envelhecimento sobre a sociedade actual vem das reformas, em grande medida, como já referi acima, e da saúde. No caso da saúde, há algum cuidado a ter. Conforme refere a Maria João no livro, há “mais necessidades” mas a meu ver há sobretudo “diferentes necessidades”. Por exemplo, as doenças crónicas não transmissíveis, não têm uma necessidade tão frequente de cuidados de alta tecnologia hospitalar, e requerem sim mais cuidados de acompanhamento e auto-gestão da doença. Doenças como a demência serão de maior complexidade de gestão que operações cirúrgicas, mesmo que não sejam tão utilizadoras de recursos.

E que restrições de outra natureza podemos identificar? como conciliar jovens e seniores no mercado de trabalho? faz sentido “reformar cedo” para deixar emprego aos jovens? (há uma cadeia de substituição profissional que seja melhor do que um aumento da população activa a médio e longo prazo?)

A Maria João Valente Rosa defende um “modelo de interligação” – um modelo mais fluído de relações laborais – com interrupções da actividade se for caso disso, para entrar noutras carreiras e noutras áreas de interesse e actividade.

E neste campo avança com duas ideias chave:

– conhecimento como factor de competitividade

– meritocracia

 

O desafio fundamental lançado pelo livro: – “a população continuará a envelhecer e perceber que o problema da sociedade portuguesa não é o do envelhecimento da sua população mas antes o da incapacidade de pensarmos de forma diferente perante uma estrutura populacional que envelhece”

Este é um desafio que tem também de ser respondido pela população dita idosa, que não deve ficar à espera da solução que lhe seja apresentada pelo resto da sociedade (poderemos falar de empreendedorismo senior).

Significa que os mecanismos de protecção do Estado Social terão que vir a reflectir estas mudanças.

Por exemplo, se, como sugere a Maria João, for interrompida a actividade laboral para estudar e mudar de rumo profissional, como se processa o cálculo do período e do valor da reforma por idade? É possível antecipar algum desse valor/direito sobre o futuro para pagar esses estudos? em que moldes e limites?

Abandona-se completamente a lógica de repartição, em que os trabalhadores de hoje pagam as reformas dos trabalhadores de ontem (reformados de hoje), já que a distinção entre reformado e trabalhador poderá fazer muito menos sentido?

Teremos a capacidade de fazer evoluir as instituições das actuais sociedades de forma suave, ou são necessárias rupturas claras? tem que ser por intervenção normativa do Estado ou pode emergir naturalmente da sociedade?

Deve-se obrigar todos a mudar de regime, ou dar opções para que os cidadãos escolham?

É bom no final da leitura de um livro ter mais perguntas por responder do que ter as mesmas velhas respostas de sempre para as perguntas de sempre!


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“Policy analysis – Concepts and Practice”

é o título de um livro já com alguns anos, indo na quinta edição em 2011, e recomendo a sua leitura nestes momentos de acesa discussão de medidas de política económica. Deixo abaixo o índice e a descrição dos objectivos do livro. Um aspecto importante deste livro é a atenção dada ao processo de construção das próprias medidas de política económica. Não é por acaso que na primeira parte da introdução há uma discussão dos aspectos éticos de fazer análise e proposta de políticas. A segunda parte é toda ela dedicada ao que pode fundamentar essas propostas – falhas de mercado e objectivos de eficiência, mas também objectivos de redistribuição. Só fizer que há falhas de mercado não é suficiente, é preciso mostrar que há capacidade de as corrigir com intervenção pública. Às falhas de mercado há que contrapor as falhas da intervenção pública.

A terceira parte é sobre análise de políticas e procura de soluções – que tem vários capítulos, e apenas um deles dedicado ao critério associado com as escolhas entre alternativas. Os outros tratam de como identificar correctamente problemas, soluções e como fazer a comunicação, num deles, e como adoptar a aplicar, por outro lado. Por fim, como fazer, onde é dada importância a obter informação e de a usar de forma adequada.

Olhando para o que tem sido a discussão sobre a TSU, o melhor será dar um passo atrás e recomeçar todo o processo, com discussão preparada, identificação do problema, das soluções alternativas, etc.

Há quer ser profissional na preparação de políticas que se sabe serem polémicas. E há quem já tenha estudado esses processos e definido os passos recomendados. É uma via mais interessante do que a versão portuguesa de qualquer proposta, “nós” contra “eles”.

Policy Analysis: Concepts and Practice, 5th Edition

By David Weimer, Aidan R. Vining

Description

Updated in a new 5th edition, this book lays a strong conceptual foundation to understanding the rationales of and limitations to public policy. It gives practical advice about how to do policy analysis while demonstrating the application of advanced analytical techniques through case study examples.
Policy Analysis: Concepts and Practices is a comprehensive, accessible, and rich introduction to policy analysis for readers in public policy, public administration, and business programs.

Table of Contents

PART I: Introduction to Public Policy Analysis

1. Preview: The Canadian Salmon Fishery

2. What is Policy Analysis?

3. Toward Professional Ethics

PART II: Conceptual Foundations for Problem Analysis

4. Efficiency and the Idealized Competitive Model

5. Rationales for Public Policy: Market Failures

6. Rationales for Public Policy: Other Limitations of the Competitive Framework

7. Rationales for Public Policy: Distributional and Other Goals

8. Limits to Public Intervention: Government Failures

9. Policy Problems as Market and Government Failure

PART III: Conceptual Foundations for Solution Analysis

10. Correcting Market and Government Failures: Generic Policy Instruments

11. Adoption

12. Implementation

13. Government Supply: Drawing Organizational Boundaries

PART IV: Doing Policy Analysis

14. Gathering Information for Policy Analysis

15. Landing on Your Feet: Organizing Your Policy Analysis

16: Goals/Alternatives Matrices: Some Examples from CBO Studies

17: Benefit-Cost Analysis

18: When Statistics Count: Revising the Lead Standard for Gasoline

PART V: Conclusion

19: Doing Well and Doing Good


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A Nova Medicina, por JLA (12)

No final do livro, JLA surge como defensor da medicina personalizada – médico certo para a pessoa certa na altura certa. É realçada a importância da equipa,  bem como a singularidade biológica do doente, que é, será em breve reconhecida pela informação obtida do seu genoma, mas não há determinismo dos genes, continuando o médico a ter um papel de conhecimento e decisão.

A noção de medicina personalizada é atractiva por um lado – se for dado a cada doente apenas o que é estritamente necessário, então está-se no caminho de estabelecer uma melhor utilização de recursos; por outro lado, o enorme conjunto de informação resultante poderá vir a gerar comportamentos oportunistas? ou poderão surgir utilizações indevidas desse conhecimento enorme sobre cada um? bastará a limitação ética do exercício da medicina como restrição ao abuso dessa informação sobre cada indivíduo? mas também haverá maior exigência do doente / consumidor, eventualmente para níveis que não podem ser satisfeitos pela medicina?

 

E assim fica terminada a leitura comentada do livro de João Lobo Antunes.


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A Nova Medicina, por JLA (11)

Na preocupação com a sustentabilidade  dos sistemas de saúde, JLE faz referência à comparative-effectiveness research, que tem o nome de economic evaluation na Europa, e avaliação económica de tecnologias em Portugal– são termos diferentes para  a mesma coisa. Apesar das diferenças entre os dois lados do Atlântico, há uma convergência de princípios para utilização de técnicas de avaliação económica aplicadas à área da saúde, como forma de organizar a forma como a inovação é acolhida nos diferentes sistemas de saúde. A este respeito, o Handbook of Health Economics (Volume 2), tem dois artigos de revisão de literatura sobre aspectos de avaliação económica, ambos os artigos com um autor europeu e um autor norte-americano para se ter em cada um desses capítulos uma visão abrangente dos problemas e das técnicas usadas.


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A Nova Medicina, por JLA (10)

JLA trata também da Ética do quotidiano, onde insere temas como gestão de recursos e racionamento, gestão do risco e da incerteza, consentimento informado, confidencialidade e segredo, transplante de órgãos e sua comercialização.

É de realçar a importância de a ética na nova medicina ter de incorporar uma componente de natureza mais social – a relevância da gestão de recursos, no que implica de ter de estabelecer prioridades de forma mais explícita, sob pena de num contexto de recursos limitados as prioridades serem estabelecidas de acordo com critérios de fortuitidade (quem chega primeiro, enquanto há dinheiro, orçamento, é melhor tratado, por exemplo).