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Gabinete de crise, rádio observador – uma semana complicada

1 Comentário

A gravação do Gabinete de Crise desta semana está disponível aqui.

Número da semana:  63, de 63 dias até à véspera de Natal e de 63 dias desde que começamos no final de agosto a iniciar no número de internados, que foram em média semanal, por dia, 318 na terceira semana de agosto, para agora se ter 1165, 3,5 vezes mais. A pressão sobre os vários pontos do SNS vai-se começar a sentir com mais força. Vamos muito provavelmente ter um Natal diferente, que pode começar a ser preparado por cada família – não precisa de ser ausência de festividades, mas será preciso começar a pensar que ter muita gente de muitas proveniências muito tempo junta em ambiente fechado tem mais riscos do que outras formas de encontro. Sem alarme e com planeamento de cada família, é desejável que se tente alguma normalidade, mas vai exigir bom-senso. E vai ser necessário também os hospitais e as urgências prepararem essa época, que vai do Natal até depois do Ano Novo. 

Análise da semana: A semana teve uma evolução desfavorável. Acentuaram-se as tendências de aceleração de internamentos e de mortalidade. Em toda a Europa, pelo que temos um verdadeiro puzzle para perceber porque quase todos os países começaram a ter os mesmos problemas, quaisquer que tenham sido as medidas que tenham adoptado.

Três pontos de reflexão desta semana.

1- A evolução mostra a dificuldade de contenção dos contágios uma vez tirado “o génio da garrafa”. Existem neste momento duas linhas essenciais de atuação: o comportamento social para evitar contágios, nomeadamente via reuniões sociais e familiares; e, a rapidez na capacidade de cortar linhas de contágio. Na primeira, depende crucialmente da colaboração das pessoas. Na segunda, depende também muito dos recursos que o SNS coloque no esforço de conhecer e testar potenciais situações de contágio. 

2- Um texto recente na Acta Médica Portuguesa, assinada por vários autores, incluindo Luis Campos e Constantino Sakellarides, foca na reorganização dos hospitais, à qual se adiciona algum ajustamento nos cuidados de saúde primários – continuar a manter as pessoas com atendimento fora do hospital é uma boa forma de garantir que os hospitais não entram em sobrecarga. 

Nesse texto, também dão importância a um aspecto a que temos vindo a dar destaque praticamente em todas as reuniões do gabinete de crise – a comunicação que é feita. 

Avançam também com uma ideia ou proposta a explorar nesta altura – estruturas dedicadas para atendimento de doentes fora do espaço das urgências para quem tiver sintomas gripais – uma espécie de corredor verde para problemas respiratórios – pressuponho que seja uma estrutura de caracter sazonal mas periódica, e que tenha logo na entrada alguma forma de distinguir entre COVID-19 e outros problemas respiratórios, eventualmente com o uso de algo que também já falamos noutros programas – a utilização de testes rápidos, neste caso à entrada destas estruturas, para determinar se um caso com COVID-19 ou não. Agora, a operacionalização desta ideia sem sobrecarregar profissionais de saúde a caminho da exaustão será algo possível?  Deixo a pergunta para discussão daqui a pouco.

Como encontrar o equilíbrio entre decisão local e coordenação central? Uma coordenação central que tente ser válida para todos não paralisa a decisão local, com custos para a capacidade de atendimento?

Qual o papel da hospitalização domiciliária, das altas antecipadas e acompanhadas no regresso a casa ou da transferência para unidades de retaguarda como forma de libertar capacidade nos internamentos nas instalações hospitalares – temos alguma ideia de como vai ser organizado e planeado? Como é que os hospitais se conseguem ajustar à evolução atual? (conseguimos construir resiliência e flexibilidade nestes meses que foram mais calmos?) Há necessidade de coordenação regional, que precisa de ser melhorada.

3- Qual o resultado prático do “puxão de orelhas” de António Costa ao país? Não sei ainda medir. Tenho a sensação de o país estar invisivelmente polarizado no medo da COVID-19 – de um lado, os que menosprezam a doença, do outro lado um medo, talvez até excessivo, da mesma nalguma parte da população (que levam a que não procurem auxilio no sistema de saúde quando o deveriam fazer). Vale a pensa pensar se não é melhor reduzir esta polarização do que aumentá-la, e não percebi se o “puxão de orelhas” de António Costa foi útil nesse sentido. 

Alerta da semana: a necessidade de começar a preparar com tempo as prioridades e processos de vacinação para a COVID-19. Tem vindo a aumentar a desconfiança, mesmo em Portugal, e por isso transparência nas decisões de prioridade de vacinação, por exemplo, será um princípio ético fundamental a ser adicionado às preocupações de obter os maiores benefícios possíveis, sobretudo na fase inicial de menor disponibilidade enquanto a produção não atingir o ritmo necessário, e as preocupações de equidade. 

Nota de esperança: Face às múltiplas intervenções de várias pessoas de diferentes áreas da saúde, tenho uma esperança que resulta da soma de várias esperanças: a esperança de que os profissionais e as organizações de saúde consigam organizar-se da melhor forma, usando o que aprenderam na primeira vaga; a esperança de que liderança técnica consiga ser efetiva; a esperança de que o suporte político para a aplicação de uma estratégia para lidar com a COVID-19 esteja presente; e a esperança de que as organizações centrais do SNS facilitem a difusão global das melhores práticas locais para que cada hospital e cada centro de saúde ou USF consiga escolher o seu melhor caminho, conhecendo o que resulta e o que não resulta noutros locais. 

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

One thought on “Gabinete de crise, rádio observador – uma semana complicada

  1. Simples e claro: Para alem das precauções individuais anti contagio, ao nível do SNS “há necessidade de coordenação regional, que precisa de ser melhorada.”

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