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Gabinete de crise, rádio observador – sobre o início do novo ano escolar

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Quando iniciamos esta colaboração entre a Universidade Nova de Lisboa e a Radio Observador não estava à espera que chegássemos ao programa 25, mas foi esta semana. Pode ser ouvido aqui e sobre o inicio do novo ano escolar.

Número da semana: 2 milhões; em números redondos o número de alunos em Portugal, em todos os graus de ensino. Vão começar o ano letivo em condições totalmente novas, com riscos novos e com necessidades de comportamento social novas. São cerca 200 mil docentes e não docentes. Mais de 8 mil estabelecimentos de ensino em todos os níveis de ensino. Os dados são do ano passado da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência. Vão ser duas semanas de arranque de aulas exigentes e de expectativa.

Análise da semana

A abertura do ano escolar tem levado a um debate (e a indecisões), resultado da grande incerteza que ainda permanece quanto à COVID-19 e como possa afetar e ser transmitida pelas crianças.

De acordo com vários estudos, que continuam a sair, o risco de doença nas crianças parece ser muito baixo. As situações fatais associadas à COVID- 19 em crianças envolvem outros problemas de saúde dessas crianças, pelo que é preciso ter em atenção o que possam ser casos de maior risco. Ainda assim, estes estudos indicam que o risco para as crianças de voltar à escola é praticamente inexistente. Resta por isso saber mais sobre o que possa ser o seu papel na transmissão da COVID-19 dentro da população. 

Além do risco de doença COVID-19, é importante conhecer que anseios, preocupações e expectativas as crianças e jovens têm no regresso às atividades escolares. É provavelmente necessário que lhes seja explicado que novas rotinas vão ser adoptadas e porquê. E reconhecer as incertezas que existem. A elaboração de planos de contingência claros e anunciados previamente, de saber o que se vai fazer se algumas situações mais prováveis de ocorrerem é também uma potential fonte de segurança. Com tantos alunos, docentes e não docentes, em milhares de estabelecimentos de ensino, o haver alguns casos de COVID-19 numa escola é mais uma questão de quando do que de saber se vai ou não acontecer.

um estudo recente feito em Rhode Island, nos Estados Unidos, em Junho/Julho de 2020 encontrou muito pouca transmissão secundária a partir de crianças até aos 12 anos, resultado também dos cuidados tidos para evitar essa transmissão. Mas não foram zero casos. Houve vários casos de crianças e/ou funcionários das escolas sem sintomas (só encontrados porque a regra era testar toda a gente).

As recomendações seguidas foram as conhecidas: utilização de máscaras pelos adultos, manter grupos escolares separados, ficar em casa se houver algum tipo_de sintoma e limpar frequentemente superfícies que sejam tocados por muita gente. Fizeram verificação diária de sintomas nas crianças e adultos. Tiveram 52 casos confirmados ou prováveis, 30 eram crianças e 22 adultos.  As suspeitas sobre possíveis casos levaram a parar 89 turmas, e ficaram 687 crianças e166 adultos em quarantina. O número de crianças envolvido nos centros analisados foi de 18945 crianças. Ou seja, há risco de perturbação, que acontecerá nalguns casos mas não é uma situação descontrolada.

Esta semana do Gabinete de Crise não foi boa. Manteve-se, infelizmente, a rampa ascendente em novos casos, e mesmo o número médio diário de internados aumentou ligeiramente. Foi uma evolução partilhada por vários pontos do pais, e à semelhança de semanas anteriores, muito assente em surtos localizados e surtos em lares de idosos. 

A semana foi dominada pelas decisões sobre a Festa do Avante. E aqui, é natural mas se calhar não justificada a perplexidade de muitas pessoas. Estava a ser estranho a não publicação das regras aplicadas pela DGS (devido a medo de “luta política”? mas acabou por suceder). Agora, se um dia se pretende retomar alguma normalidade de espetáculos e eventos, então a Festa do Avante deveria ser vista como um teste, vigilância muito apertada, regras claras e explicadas, e seguimento nos 14 dias depois da festa das pessoas presentes. Dá trabalho? Sim, certamente, mas é uma forma de se aprender.  Podemos acabar por ter apenas a convulsão política sem que daí nada se retire para a forma de lidar com a pandemia. Espero que também se esteja a procurar aprender com as feiras do livro que estão a decorrer. 

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27 de agosto125115240
28 de agosto a 3 de setembro154185340

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841
28 de agosto a 3 de setembro333841

Nota: valores arredondados à unidade

Mito: é possível abrir as escolas sem qualquer risco? Não! Haverá sempre algum risco para alunos e para docentes e funcionários. O essencial é tomar as medidas que controlam esses riscos, incluindo a paciência que será necessária para manter hábitos de limpeza frequente de espaços e de distanciamento físico. Mas ficar tudo em casa também levanta problemas para o futuro. A gestão do risco será o elemento crucial. Vimos que noutros países tem sido possível abrir as escolas sem que haja uma explosão de casos, embora por vezes seja preciso colocar em quarentena algumas turmas e se calhar mesmo escolas.

Esperança da semana: se há duas semanas, falei da esperança em se ter um teste de saliva rápido e fiável, esta semana trago mais um elemento de esperança construído em cima destes testes – um estudo publicado na revista New England Journal of Medicine veio trazer a possibilidade de a realização de auto-teste de saliva, em que esta é recolhida pela própria pessoa, que depois a coloca no aparelho de teste, ser, segundo experiências realizadas, tão fiável como o teste com base na zaragatoa manipulada por um profissional de saúde. Ora, isto significa que não só os testes em breve serão mais baratos, como serão auto-administrados, sem necessidade de locais especiais, e também sem risco para os profissionais de saúde. É mais um passo que se adivinha para novas formas de controle da pandemia.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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