Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time

Espirito Santo Saúde e o grupo Angeles, que podemos esperar?

6 comentários

esta é uma das perguntas deste final de Agosto que mais estimula a futurologia para o sector privado da saúde em Portugal. Há, pelo menos, cinco grupos para os quais a pergunta é relevante:

– cidadãos

– Serviço Nacional de Saúde

– sector privado do sistema de saúde português

– a empresa Espirito Santo Saúde

– o grupo Espirito Santo.

O grupo mexicano Angeles (ver também aqui) é um grupo privado de raiz familiar (como se pode ver da organização em cascata que está explicitada na comunicação do grupo feita aqui). Teve até agora natureza doméstica e possui um desejo de expansão internacional, conforme o director para a área da saúde explicita numa entrevista, onde também curiosamente fala na diferenciação tecnológica e no Da Vinci para cirurgia, lembrando logo o da Vinci do Hospital da Luz. O anúncio da aquisição da Espirito Santo Saúde pelo grupo Angeles está disponível no site da CMVM.

Assim, sem certezas e apenas com conjecturas e adivinhações, o que podemos esperar caso a operação seja bem sucedida?

– para os cidadãos: temos dois grupos distintos – os que são atendidos no Hospital de Loures enquanto beneficiários do Serviço Nacional de Saúde e os que são atendidos nas unidades do grupo enquanto beneficiários de outros sistemas de protecção ou como doentes privados. Para os primeiros, nada muda. A avaliação que o estado tem de fazer sobre a compatibilidade do grupo Angeles com as regras do contrato da PPP que rege a operação do Hospital de Loures garante que neste campo nada mudará. Diferente poderá ser a situação de quem é atendido fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS), dependendo das alterações que o sucesso da operação venha a introduzir. Como detalho adiante não julgo que venham nos primeiros tempos grandes mudanças, pelo que num horizonte de dois a três anos depois do sucesso da operação é provável que nada de substancial se altere.

– para o Serviço Nacional de Saúde – terá um novo parceiro no Hospital de Loures, que terá de “aprender” o relacionamento de uma PPP. O grupo, tanto quanto se consegue perceber da informação do seu site, não tem experiência de parcerias público – privadas, e irá realizar aqui uma aprendizagem. O facto de indicar na proposta de aquisição que não pretende mudar a gestão da Espirito Santo Saúde (pelo menos no imediato direi eu) sugere que há consciência dessa necessidade de aprendizagem.

– para o sector privado do sistema de saúde português – a aquisição introduz um novo operador no mercado (se for bem sucedida e não aparecer uma outra OPA entretanto, obviamente), que tem experiência no mercado mexicano apenas. Significa que a possibilidade de mudanças radicais embora existindo não será provavelmente explorada nos primeiros anos. No curto prazo, o grupo terá que aprender as especificidades de um mercado diferente, em termos legais, de sistema de saúde, diferente nos aspectos culturais de procura de cuidados de saúde e diferente nos aspectos culturais de profissões de saúde. Essa aprendizagem seria mais rápida e menor se a aquisição fosse feita por um grupo espanhol, por exemplo. A prazo, a entrada do grupo Angeles trará pressão adicional sobre os outros operadores privados, dado que o espaço disponível para crescimento fora do Serviço Nacional de Saúde é limitado. Aqui poderá ser interessante saber se a experiência de turismo de saúde que o grupo mexicano aparenta ter face ao mercado americano poderá ser transposta para o mercado europeu e as novas condições de mobilidade de doentes dentro do espaço da União Europeia, ou mesmo na possibilidade de receber doentes americanos em instalações europeias. De qualquer forma, a experiência do grupo Amil, que adquiriu as operações na área da saúde do grupo Caixa Geral de Depósitos, sugere que as mudanças serão graduais. O sector privado da saúde está no entanto em mudança, basta ver que comparando com cinco anos atrás, a novidade não é a expansão das actividades de forma substancial e sim a entrada em Portugal de grupos económicos da América Latina. 

– para a empresa Espirito Santo Saúde – aqui não será de esperar mudanças radicais na operação, embora provavelmente os novos donos queiram reavaliar a racionalidade das várias unidades do grupo; o maior impacto, a meu ver, será sobre a gestão de topo do grupo, que terá de lidar agora com um accionista diferente que tem a sua própria experiência no campo da saúde e que por isso terá ideias próprias e provavelmente desejo de afirmação face à gestão (garantir que o grupo Espirito Santo Saúde é dirigido pelo grupo Angeles e não pela equipa de gestão que vem do grupo Espirito Santo Saúde), até que ponto isso significará mudar ou não num prazo curto (digamos um ano) a equipa de gestão de forma mais ou menos profunda, é difícil de adivinhar. É também uma interrogação saber se haverá uma alteração da designação da empresa e da forma como se apresenta – a unidade emblemática é o Hospital da Luz, mas mesmo as outras unidades têm a sua imagem construída à volta de um nome próprio de cada uma, pelo que mudar de Espirito Santo Saúde para outra coisa não será problemático.

– para o grupo Espirito Santo – é quase inevitável que face às condições em que está a funcionar a Rioforte que a venda tenha de ocorrer, fazendo a saída do grupo Espirito Santo da área da saúde, onde de qualquer modo não tinha tradição forte ou sequer tradição fora da Espirito Santo Saúde. Irá trazer algum dinheiro necessário aos pagamentos que terá de fazer. O valor oferecido pelo grupo Angeles não é um preço de saldo, embora o melhor que possa suceder aqui é aparecerem outros interessados com ofertas melhores. Veremos nos próximos tempos se haverá interesse suficiente. O facto do grupo mexicano não estar a operar em Portugal significa que a operação de aquisição não levantará problemas em termos de concorrência no mercado português, pelo será muito improvável haver uma intervenção aprofundada da Autoridade da Concorrência, o que facilita a rapidez da operação.

Aviso: esta opinião é meramente pessoal, baseada nos documentos e informação disponíveis publicamente, e não reflecte uma análise aprofundada das contas de qualquer das empresas ou qualquer apreciação sobre a bondade do valor oferecido pelo grupo Angeles.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

6 thoughts on “Espirito Santo Saúde e o grupo Angeles, que podemos esperar?

  1. Muito sinceramente não me parece que vá acontecer nada. De certa forma até me parece positivo, pois deixaram de existir climas de suspeição (se calhar até justificados) sobre negociações e concessões das PPP. Ao contrário de outros casos (como a EDP) em que se tratou de entregar (mal, muito mal) monopólios ou quasi-monopólios, aqui o risco para o País é nulo.

    Gostar

  2. As afirmações num blog são sempre e só pessoais.

    Gostar

  3. Concordo
    Com € os grupos concorrentes tentariam crescer.
    Sem € ficam a ver o GES vender para tapar buracos.
    Estes operadores “privados” mas cujo principal cliente se chama Estado Portugues (com as PPP ou adse e outros subsistemas de funcionarios publicos) sabe que Portugal precisa do capital: vai dizer venham e espera e bem reduzir aumento do contagio do descalabro Rioforte/Espirito Santo

    As diferencas na gestao nao virao no curto prazo, pois nao sabem o que se passa ca.
    Precisam dos atuais gestores.
    Mas se o seu nome sair em listas negras com aplicacoes desviadas para offshores, mudarao mais depressa.

    Gostar

  4. update, segundo o Observador (http://observador.pt/2014/09/09/oferta-e-aceitavel-mas-pode-nao-refletir-premio-de-controlo/)

    O conselho de administração da Espírito Santo Saúde (ESS) considera que a Oferta Pública de Aquisição (OPA) anunciada pelo Grupo Ángeles “é aceitável”, embora “possa não refletir a totalidade de um potencial prémio de controlo”.

    No relatório sobre a OPA voluntária anunciada pelo grupo mexicano, hoje divulgado na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), o Conselho de Administração da ESS afirma que “é da opinião de que a oferta é aceitável, uma vez que se enquadra nos critérios de valorização do mercado, embora possa não refletir a totalidade de um potencial prémio de controlo”.

    A 19 de agosto, o Grupo Ángeles anunciou o lançamento de uma OPA voluntária sobre o capital da ESS, oferecendo 4,30 euros por cada ação. A ESS é dona, entre outros ativos, do Hospital da Luz, em Lisboa, e gere, em regime de Parceria Público-Privada, o Hospital de Loures.

    A ESS é atualmente detida maioritariamente pela Rioforte, empresa do Grupo Espírito Santo (GES) que, a pedido da própria, se encontra sob gestão controlada pelo Tribunal do Comércio do Luxemburgo desde o dia 29 de julho de 2014.

    Gostar

Deixe um momento económico para discussão...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s