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Isto é o que desejo escrever daqui a um ano

31 de Dezembro de 2012

02/01/2012 | 02:57 | Dinheiro Vivo

Nesta altura do ano, a maioria dos artigos divide-se entre os que fazem uma revisão de 2011 e os que olham para 2012. “Os desafios de 2012” é o título implícito de muitos dos artigos e comentários que se produzem durante estas semanas. E claro está a Troika e o Memorando que com ela assinamos não podem deixar de figurar. Não fugirei a esta tradição, mas avanço um ano. Penso no que gostaria de escrever no final de 2012 e a entrar em 2013, uma revisão do ano de 2012.

Assim, o meu desejo para 2012 é poder escrever a 31 de Dezembro de 2012 o seguinte: Como era antecipado, o ano de 2012 que agora termina foi de grandes dificuldades para todos os que vivem em Portugal, sobretudo o mês de Janeiro, com aumentos generalizados. O choque para os funcionários públicos chegou no Verão, com a ausência do subsídio de férias. Houve os que alteraram o seu comportamento desde o início do ano, e houve os que só nesta altura perceberam a falta que este salário adicional fez. E todos se começaram a preparar para a ausência do subsídio de Natal.

No sector privado sucederam-se as renegociações salariais em baixa, como forma de garantir os postos de emprego. As empresas com maior sucesso exportador conseguiram evitar essa renegociação.

Face às dificuldades encontradas, a necessidade aguça o engenho, e a gestão das empresas portuguesas, privadas e públicas, bem como da própria administração pública, deram um salto quantitativo. Para além de todos os aspecto legais de enquadramento das actividades económicas em Portugal, um dos bloqueios importantes tem sido tradicionalmente a qualidade da gestão e da gestão intermédia – orientada para a presença no posto de trabalho, e menos para a produtividade; orientada para fazer o que o chefe manda, e menos para a criatividade (até porque a “chefia direta” não gosta disso). A transformação da cultura de gestão ocorreu quer nas grandes empresas quer nas pequenas e médias empresas, que são a maioria. A maior qualidade de gestão nas pequenas e médias empresas levou-as a crescer, e a internacionalizar. Houve as que desapareceram, faz parte da evolução natural das economias, mas foram substituídas por novas empresas. E esta mudança faz toda a diferença na vida económica portuguesa, mas também na esperança e na confiança dos que cá vivem no seu futuro.

Na área da saúde, sendo o Serviço Nacional de Saúde o elemento central da prestação de cuidados de saúde em Portugal, a quebra nos salários gerou de início uma desmotivação e descontentamento geral. As perdas de salário, juntando redução de subsídios de férias e natal com a redução das horas extraordinárias, chegaram a 1/3 do salário anual em alguns casos.

Esta situação, potenciadora de um distanciamento dos profissionais de saúde face à sua actividade, continha o risco de uma real diminuição de cuidados a prestar segundo a necessidade, em qualidade e quantidade. O ano de 2012 começou por isso debaixo da ameaça de um retrocesso dos níveis assistenciais, pois a somar aos efeitos sobre os profissionais de saúde, as exigências de redução de custos eram elevadas.

Mas ao longo do ano de 2012 foram revistas as remunerações salariais dos diversos profissionais, orientadas agora para estruturas mais simples, com enquadramentos mais claros e menos propiciadores de comportamentos que criam desperdício de recursos. Esta alteração permite gastar globalmente menos. Envolveu também uma reorganização da forma como as diferentes profissões de saúde contribuem para o sistema de saúde, onde cada uma é aproveitada da forma que maior valor social gera. Uma das grandes dificuldades de 2012 esteve na gestão dos recursos humanos da saúde, a todos os níveis, incluindo as práticas de gestão, remuneração e organização das instituições. Um olhar cuidado e uma atuação inteligente permitiram manter os níveis assistenciais à população, com menores custos (embora não atingindo as metas inicialmente pretendidas).

Apesar de tudo, o ano de 2012 acaba melhor do que começou. Embora não antecipada no final de 2011, a transformação das práticas de gestão surgiu como a boa surpresa do ano para a economia portuguesa, dando-lhe capacidade de crescimento económico (e ajudando a cumprir as exigências do Memorando da Troika). Na área da saúde, foi o desafio (escondido) de reorganizar os recursos humanos sem comprometer o seu empenho profissional que permitiu não reduzir os níveis assistenciais, mesmo num ambiente de redução de custos.

Será possível escrever este texto daqui a um ano, a 31 de Dezembro de 2012?

Nova School of Business & Economics
ppbarros@fe.unl.pt
Escreve à segunda-feira

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Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

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