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Adesão à terapêutica: um inquérito recente e algumas ideias

Na semana passada, a 25 de março, decorreu uma sessão sobre adesão à terapêutica por parte de doente crónicos, um tema importante para o bom uso dos medicamentos que são prescritos. Tendo sido uma parceria da Servier com o Expresso, há duas notícias aqui e aqui. O vídeo correspondente à sessão está disponível aqui, e destaco a intervenção de Cristina Gavina aos 12 min, de introdução ao tema, e de Rui Costa, aos 24 minutos, para apresentação dos resultados do inquérito realizado há poucas semanas.

A discussão da (não) adesão à terapêutica envolve três diferentes planos: a perspetiva da decisão individual (onde as consequências são menor saúde da pessoa), a perspetiva do Serviço Nacional de Saúde (onde as consequências são custos acrescidos, e nem sempre compensando totalmente a perda de saúde da pessoa) e a perspetiva da sociedade (onde as consequências incluem também a perda de produtividade e de participação cívica).

Um elemento central de qualquer intervenção de reduzir a não adesão à terapêutica é influenciar a decisão individual da pessoa doente, embora a forma de o fazer tenha de estar alinhada com os motivos da decisão. A intervenção de Cristina Gavina detalha bastante bem essa necessidade, e agrupo aqui em três situações distintas: a) não adesão não intencional – requere comunicação e informação; b) não adesão por motivos financeiros – requere avaliação e revisão da forma de comparticipação de medicamentos (de certa forma, acaba por ser o ponto de intervenção conceptualmente mais fácil do ponto de vista sistémico); c) não adesão intencional – requere intervenção ativa no sentido de alterar os custos e benefícios apercebidos pela pessoa na decisão que toma quanto à sua saúde (argumentar com efeitos globais no sistema de saúde ou na sociedade serão provavelmente pouco relevantes para mudar essa decisão individual). 

Na discussão que se seguiu, houve várias sugestões e ideias, além de se reafirmar a relevância de intervenções que já são feitas, e a lista que anotei (não tenho pretensões de ser uma lista exaustiva):

  • Facilitar a utilização do medicamento – juntando no tempo e no comprimido (um, uma vez por dia, em vez de vários em vários momentos do dia)
  • Revisão da comparticipação de medicamentos, procurando novas formas de comparticipação que consigam um equilíbrio entre proteção financeira (que facilita a adesão) e eficiência no uso do medicamento (ausência de desperdício)
  • Utilização de métodos administrativos de alerta para o médico, como sinalizar aquisições não efetuadas (receitas não aviadas), ou renovações falhadas.
  • Verificação regular de parâmetros clínicos relevantes para contrabalançar a ausência visível de sintomas
  • Compreender como, onde e que informação disponibilizar às pessoas, procurando novas formas de olhar para o que fazer (a realização de mini-assembleias de saúde, referidas por Cristina Almeida na discussão, surgem como uma avenida possível e útil)
  • Reconhecer que numa consulta pode não ser possível transmitir toda a informação necessária, por nem sempre haver a capacidade da pessoa doente absorver toda essa informação nesse momento e de a recordar mais tarde – significa que provavelmente haverá vantagem em dar informação em diferentes momentos, em doses menores, perceber o que a pessoa doente quer saber em cada momento, e a pessoa doente conhecer onde e como consegue saber mais. Será que ter um QR na caixa do medicamento que leve para informação organizada e validada é útil? Nem toda as pessoas têm um telefone que o faça mas poderão ter alguém próximo que ajude e com a generalização de instrumentos financeiros como o MBway, a utilização do QR code vai-se generalizando. Ter várias consultas em vez de apenas uma, para transmissão da informação (em vez de consulta de 50 minutos, duas de 25 minutos ou três de 15 minutos? a experiência dos médicos deverá ajudar nesta definição, e até a ter opções diferentes consoante os doentes em causa).
  • Mudar a proteção financeira quanto ao custo dos medicamentos 
  • Utilização de ferramentas digitais para ultrapassar cansaço e preguiça da pessoa doente (em se recordar de toda a terapêutica)
  • Utilização de todos os profissionais de saúde, incluindo o papel do farmacêutico, do enfermeiro de família, do médico de família e do médico especialista da(s) doença(s) crónica(s) presentes
  • Dar destaque à primeira dispensa, por parte do farmacêutico, no contexto de um tratamento continuado, como modo não só de dar informação como de assinalar a importância da continuidade e do apoio que possa ser dado para dúvidas e questões
  • Ter mecanismos ao nível do sistema de saúde que permitam introduzir formas novas de promover a adesão à terapêutica, e cujos ganhos, em termos de custos evitados, revertam parcialmente para sustentar esses mecanismos
  • Acompanhamento mais ativo dos médicos, com codificação e registo de não adesão, para quantificação e conhecimento do problema.
  • Alinhar qualquer intervenção neste campo com a importância de as pessoas terem estilos de vida saudáveis (ou pelo menos compatíveis com a gestão da saúde, atendendo às condições crónicas que têm).
  • Não esquecer a importância que os diferentes anéis de vida social podem ter (família, vizinhança, comunidade)

Da análise do relatório de apresentação do inquérito realizado, surgem mais ideias e possibilidades:

  • Os inquiridos são todos pessoas com pelo menos uma doença crónica, pelo que é natural supor que tenham acompanhamento regular por um médico. Contudo, é na Região Norte que menor percentagem tem esse acompanhamento, o que surpreende por ser essa a zona do país onde há menor falta de médicos de família. A pergunta “é acompanhado atualmente por um médico?” tem uma resposta de 82,2% no Norte, 87% no Centro, 89,5% em Lisboa e Vale do Tejo, e 97% no Sul e Ilhas)
  • Quanto às falhas na toma da medicação, 60% diz que nunca falha na toma de medicação, mas apenas 3,2% diz que falha metade das vezes ou falha constantemente. Em falhas ocasionais de toma de medicação estão 36,8% das pessoas, que são a diferença entre o “copo meio cheio” e o “copo meio vazio”. Nunca falhar pode ser demasiado, e não há descrição de qual o período temporal, que foi dado como referência (se fosse 60% das pessoas nunca falhar durante um ano seria provavelmente um excelente resultado).
  • Também será útil completar com uma análise de regressão múltipla que procure isolar os efeitos de cada fator quando todos são considerados de modo simultâneo.
  • Nos motivos apresentados para não cumprimento, o fator não intencional é dominante (94,8% coloca como principal motivo o esquecimento), e o fator intencional “porque me sinto bem” é apenas 4,7% (deixando o fator financeiro – falta de rendimento – incluído em “outra razão” com apenas 1,9%). Motivos estruturais como o custo de aquisição da medicação prescrita ou a dificuldade de acesso praticamente não surgem nos dados. Estes resultados sugerem que se olhar para o problema como podendo ser resolvido sem necessidade de reformas sistémicas, focando em lembretes, sistemas de alerta, etc.
  • Sobre a literacia em saúde, seria interessante que num inquérito futuro se fosse além da perceção e se pedisse mesmo que as pessoas respondessem a uma pergunta sobre decisão num cenário apresentado que “revelasse” algo sobre o seu conhecimento em literacia de saúde, que de alguma forma confirmasse, ou não, o auto-reporte desse conhecimento. Há, aparentemente, uma dupla vulnerabilidade, os doentes com mais doença são igualmente os menos preparados em termos de literacia em saúde.
  • Apesar de a maioria dos doentes referirem que o seu médico pergunta sempre sobre o cumprimento da medicação durante as consultas, cerca de 1/3 dos doentes com falhas não costuma informar o médico disso, por ser irrelevante. Esta falta de comunicação pode afetar a qualidade da decisão clínica, que é tomada num contexto de informação parcialmente distorcida do comportamento real. Este comportamento pode ser também resultado de enviesamento de desejabilidade social nas respostas durante as consultas (dizer o que se julga ser adequado, não falar de algo para não levar a impressão negativa).
  • Há uma espécie de triplo desalinhamento: os doentes (crónicos) sabem qye a adesão é importante mas depois têm falhas na toma de medicação; sobre a toma regular, os médicos perguntam, mas os doentes não dão a realidade; e doentes sentem a adesão terapêutica como uma questão privada e (naturalmente) ignoram os efeitos sobre o SNS.

Informação de referência:O estudo, realizado entre 18 de Fevereiro e 9 de Março de 2026, foi desenvolvido para a Servier. Constitui a segunda edição de um estudo de adesão à terapêutica na população portuguesa com doença crónica.

Imagem criada com recurso a ferramenta de inteligência artificial


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Webinar Conversas em Rede Ep. 18: Financiamento e Sustentabilidade Financeira do SNS

A Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Hospitalar organizou no dia 26 de fevereiro de 2026 um webinar da série Conversas em rede, sobre financiamento e sustentabilidade financeira do SNS.

O financiamento e a sustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde (SNS) são temas antigos e recorrentes. O que se tem passado nos últimos anos alterou a minha forma de olhar para o assunto.

Neste webinar, procurei dar a minha atual visão através de perguntas de resposta rápida, que estão no vídeo, e que recupero em versão escrita:

  1. É o SNS financeiramente sustentável? Sim. O dinheiro aparece sempre no final.
  2. Está a despesa com o SNS controlada? Sim. A execução da despesa tem estado próxima do valor orçamentado.
  3. Porquê então haver preocupação? Porque ter despesa controlada não tem sido sinónimo de melhor funcionamento do SNS, mesmo com aumentos de orçamento inicial que têm sido feitos.
  4. É o modo de financiamento do SNS adequado, dado que se controla a despesa? Não. Como há pagamentos em atraso que se acumulam durante o ano, para serem eliminados por transferências adicionais, as Unidades Locais de Saúde (e antes delas, os hospitais) não têm as verbas necessárias no tempo certo. Tal prejudica a capacidade de gestão e aumenta custos (quem vai receber atrasado acaba por incluir esse “valor” no que cobra, a gestão não tem disponibilidade para pensar, no médio prazo, e no que podia fazer melhor).
  5. Porque temos esta situação? Porque para o Ministério das Finanças é mais importante a certeza do controle da despesa total (não ter surpresas), o que tem sucedido, do que o bom funcionamento do SNS. 
  6. Porquê esta interpretação? Porque na Lei do Orçamento do Estado já se prevê que possam vir a fazer-se transferências adicionais para o SNS no final do ano.
  7. Há formas melhores de funcionar? Há, mas dão mais trabalho a colocar em ação, mesmo que levem a menores custos e a melhores resultados.
  8. Mudar de Ministros ajudará? Não. A tentação de usar os mecanismos mais simples de controlo da despesa estará presente, e irá levar à repetição da situação.
  9. É possível ter ideias e sugestões para se garantir um melhor funcionamento do SNS, com os mesmos ou até menores orçamentos globais? Creio que sim. Deixo abaixo várias possibilidades, sem ser por ordem de importância.

Possibilidades de intervenção:

  1. Parte do salário da equipa de gestão estar indexado ao desempenho tido (por exemplo, perder até 40% quando fosse claro o fraco desempenho). Exige capacidade técnica para definir o que é desempenho, e capacidade técnica para dividir esse desempenho na parte que resulta de fatores controláveis pela gestão e na parte que resulta de fatores externos à gestão (por exemplo, efeitos de aumentos salariais que são definidos centralmente pelo Ministério da Saúde não podem ser atribuídos à equipa de gestão).
  2. Ter equipas de emergência para a gestão, para avaliar rapidamente o desempenho das Unidades Locais de Saúde e alterar a sua gestão quando fosse necessário. De uma forma mais tradicional, retomar a necessidade de um gabinete de estudos ativo dentro do Ministério da Saúde.
  3. Dar progressivamente mais autonomia (com avaliação e remuneração pelo desempenho) às equipas de gestão que demonstrassem maior capacidade de gestão. Esta não é uma ideia nova, e esteve quase a ser aplicada antes da pandemia da COVID-19 ter aparecido.
  4. Ter cada dois anos um “mercado interno” de gestão das Unidades Locais de Saúde: uma equipa de gestão de uma ULS poderá propor gerir outra ULS, onde o principal critério para a decisão é o sucesso da gestão na ULS original.
  5. Equipas de gestão com fraco desempenho em três anos consecutivos deixariam de ter emprego no sector público por cinco anos (além das consequências salariais já mencionadas).
  6. Definição de bolsa de gestores credenciados (selo de qualidade com base no trabalho realizado)
  7. Recrutamento de gestores no mercado internacional para alargar a base de recrutamento, ter uma abordagem diferente e sem ligações a política partidária. 
  8. Definição atempada dos contratos programa (pelo menos três meses antes do início de cada ano).
  9. Utilização e publicitação dos indicadores de qualidade e de gestão que foram e/ou são usados nos contratos de parcerias público – privadas (PPP) em todas as ULS.
  10. Auditoria a três ULS por ano (sorteio anual com reposição, a mesma ULS pode ser auditada em anos consecutivos), adicionais a auditorias de emergência de gestão que possam ser necessário por evidência de problemas de desempenho
  11. Ouvir as diversas profissões que trabalham nas ULS para que se aproveite o conhecimento local para a melhoria do que fazem (e muitas vezes fazer melhor não custa mais despesa).

(nota: imagem feita com recurso a ferramenta de IA)


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estudo da ERS “Os seguros de saúde e o acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde” (II)

O estudo da Entidade Reguladora da Saúde faz também uma comparação da presença de seguros de saúde em vários países europeus.

Esta comparação precisa de ser realizada com grande cuidado, pois a própria arquitectura dos sistemas de saúde dita papéis muito diferentes para o seguro de saúde.

Em Portugal, com um sistema de saúde baseado no Serviço Nacional de Saúde, que é essencialmente um seguro público de saúde, o espaço para o seguro privado de saúde é menor do que no outros países.

Existem, conceptualmente, três grandes áreas de intervenção do seguro privado quando se tem um Serviço Nacional de Saúde num país:

a) o seguro de saúde voluntário privado pode ser substituto do Serviço Nacional de Saúde, na modalidade de opting-out, em que cobre os mesmos riscos de saúde que o Serviço Nacional de Saúde;

b) o seguro de saúde voluntário privado é complementar ao Serviço Nacional de Saúde, no sentido em cobre riscos e cuidados de saúde que não são cobertos pelo Serviço Nacional de Saúde ou dá cobertura de seguro aos pagamentos directos das famílias;

c) o seguro de saúde voluntário privado duplica a cobertura do Serviço Nacional de Saúde, como forma de assegurar um acesso mais rápido a cuidados de saúde.

Nos países em que não há Serviço Nacional de Saúde, a cobertura básica de protecção financeira contra as despesas inesperadas em cuidados de saúde vem dos seguros de saúde que naturalmente vão ter um peso no financiamento da saúde muito maior. A média global, incluindo todos os países, faz por isso pouco sentido. Sobretudo se a comparação pretender ver qual o espaço que existe para o crescimento dos seguros de saúde em Portugal.

Adicionalmente, para falar no espaço de crescimento de seguro de saúde privado em Portugal é necessário pensar no que é verdadeiramente risco que pode ser coberto. Por exemplo, seguros anuais têm dificuldade em cobrir doentes crónicos, pois para esses parte do risco referente ao que vão precisar de cuidados de saúde desapareceu. O risco que existiu antes (de virem a ser ou não doentes crónicos) precisaria de seguros plurianuais, com regras de entrada e de saída eventualmente demasiado complexas para serem exequíveis em contratos que se pretendem também de simples entendimento. Há soluções para esses aspectos, afinal há países com financiamento das despesas de saúde assentes em mercado privado, e fortemente regulado, de seguro de saúde como a Suíça e a Holanda. Mas não é claro que essas soluções sejam as mesmas quando existe um Serviço Nacional de Saúde que cobre esses riscos. Por esse motivo, a discussão do espaço para seguro de saúde privado não pode ser realizada apenas com base numa comparação entre países.


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Prevenção em oncologia – algumas ideias

Os aspectos de prevenção da doença e promoção da saúde são frequentemente destacados enquanto centrais para as políticas de saúde, embora depois frequentemente as acções tomadas não acabam por reflectir essa importância na discussão de ideias.

O Conselho da Diáspora Portuguesa elegeu como um dos temas da sua discussão anual a prevenção em oncologia. A propósito desse tema fui desafiado a elaborar um pequeno texto sobre as vantagens e o valor económico da prevenção em oncologia. Numa primeira impressão, parece que bastaria fazer um cálculo de custos presentes versus benefícios futuros (nomeadamente custos evitados e valor de não perder saúde). Avançar com um número de casos evitados, incluindo mortalidade evitada, valorizada aos custos actuais de tratamento não é muito complicado de realizar. E adicionando os custos indirectos, ainda mais simples se torna dizer que a prevenção vale a pena (ver aqui alguma quantificação).

Mais desafiante é perceber porque nesta área, como noutras áreas da medicina, onde se intui facilmente que maior prevenção é desejável, se fica tão aquém da que estas discussões apontam. Acabou por ser este o ponto de partida que me pareceu mais interessante para discutir, e o documento que preparei está disponível aqui, para os comentários, sugestões e desenvolvimentos que entenderem.