Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time


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da série “janela do posto de trabalho” (1)

 

Entre notícias de facturas para sorteios e discussão sobre existência ou não de programa cautelar, esta sombra cinzenta do dia de hoje pareceu-me adequada.

Na discussão do programa cautelar, o que me assusta verdadeiramente é saber se temos algum sentido estratégico real, partilhado pelos principais partidos, para construir um enquadramento  geral que favoreça o crescimento económico. Sobre isso, pouco se tem dito. Isto é, qualquer que seja a forma como termina o programa de ajustamento (não gosto do termo “saída”), não será essa data que termina as dificuldades da economia portuguesa. Enfim, se houver sol daqui a pouco pode ser que traga um pouco mais de optimismo…

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dívidas em atraso, ou os famosos “arrears” da troika

É verdade que muita coisa foi sendo feita no Serviço Nacional de Saúde nos últimos anos, numa linha de continuidade que passa por décadas. A crise da dívida pública e o resgate financeiro da República Portuguesa trouxeram o memorando de entendimento e as suas políticas na área da saúde.

Passados estes dois anos e meio de troika, há um desafio principal que ainda não foi resolvido de forma estrutural – no sentido de se terem adoptado mecanismos que impeçam que um mesmo problema surja uma e outra e outra vez. Esse desafio é os pagamentos em atraso, nomeadamente dos hospitais. Em troikês, os “arrears”.

A abordagem de considerar o problema dos arrears como um problema de gestão global dos hospitais, e não apenas uma questão do medicamento, apesar da maioria da dívida ser às farmacêuticas, parece-me ser o elemento central. E há três aspectos que proponho como fundamentais para resolver o problema:

a) quebrar o entendimento implícito ou explícito entre as farmacêuticas e as administrações hospitalares que permitem que estas últimas utilizem a dívida à indústria farmacêutica como válvula de escape da gestão que fazem. Este não é um elemento fácil de alterar, pois as empresas não querem interromper fornecimentos (até por uma razão reputacional) e ao mesmo tempo é difícil ao Estado negar o pagamento de aquisições que podem ser apresentadas como essenciais à sobrevivência de pessoas (curiosamente, a dívida adicional é sempre para coisas “life-saving”, resultado da sofisticação comunicacional das partes). A existência de uma expectativa de prazo de pagamento muito dilatado reflecte-se naturalmente nos preços (o que não é uma característica nova, tendo sido até quantificada no passado por Miguel Gouveia).

 b) obrigar a gerir de facto nos hospitais pelas administrações, evitando escapes que “premeiam” o descontrole, mas dando para o efeito as condições de gestão adequadas. Não se trata apenas de processos centralizados de aquisição ou de melhores plataformas comuns ou criação de grupos Gx, onde x é um número que vai de 4 a 19 (ou similar). A questão, como referi acima, não é de compra de medicamentos e sim de gestão. Mesmo que os medicamentos fossem adquiridos ao preço mais baixo possível, se houver despesas acima de receitas por menor capacidade de gestão noutras áreas do hospital, será à indústria farmacêutica que os hospitais deixarão de pagar. O problema de gestão é ao nível da instituição e não ao nível do medicamento. Os planos estratégicos poderão ser um instrumento relevante, mas para o actual ponto de partida, tendo a vê-los mais como condição necessária do que como condição suficiente.

c) dar um sinal aos fornecedores que a lei dos compromissos é para cumprir, não reconhecendo algumas das dívidas que não estejam cabimentadas. A credibilidade da lei depende do seu cumprimento cabal, incluindo quando impõe penalizações. No caso concreto, divulgar as situações em que não foi reconhecida dívida não cabimentada poderá ter também um efeito pedagógico. O Estado tem também que dar um sinal, dando as condições de orçamento inicial que sejam realistas e compatíveis com gestão adequada, para poder fazer a exigência de cumprimento. É mais importante incluir verbas suficientes no orçamento inicial do que compensar posteriormente dividas que sejam criadas.

Há um  risco em qualquer plano nesta altura: é que dar dinheiro a quem gerou mais dívida é recompensar quem possa ter apostado em não cumprir a lei dos compromissos deliberadamente; O pagamento extraordinário é sempre o último antes do próximo ! como as amnistias fiscais, ou as prescrições/amnistias nas multas…  

Para isto, vejo como necessário:

a) ter orçamentos dos hospitais em termos realistas, e determinados com antecedência; os contratos programas deveriam ter vigência de três anos, rolantes e actualizados todos os anos, e serem assinados até outubro do ano anterior a entrarem em vigor; o problema são as verbas do orçamento do estado – antecipo essa dificuldade – mas podem-se pensar mecanismos que permitam dar esta estabilidade – como um fundo de estabilidade do SNS que fosse usado para compensar as variações anuais das imprevisibilidades das verbas do OE para o SNS – o que pode não ser fácil, mas valerá a pena o esforço de tentar -no fundo criar uma perspectiva de gestão de médio prazo.

Esta ideia exige, como me foi justamente apontado, uma qualidade de gestão e de uma qualidade de decisores políticos que assumam de forma séria e permanente o planeamento estratégico, o compromisso de gestão e a responsabilização de todas as partes. Aqui sublinho “ambas as partes”, uma vez que os decisores do Ministério da Saúde, do Governo em geral, não têm primado pelo cumprimento de compromissos longos. Em geral, existe incerteza sobre se o Estado cumpre aquilo com que se compromete (além da cobrança de impostos, claro) – não é um problema do sector da saúde.

b) ter um registo centralizado em que as empresas fornecedoras ao SNS podem inscrever atrasos de pagamentos em facturas com número de cabimento (ou o controle que quiserem usar), e usar o crescimento desse registo como factor determinante de intervenção dentro dos hospitais; ou seja, usar este registo como forma de quebrar a ligação entre o hospital e o fornecedor para criar dívida. Esta componente depende apenas um forte compromisso político e de resistência às pressões que inevitavelmente surgirão para criar excepções.

 c) ter uma task force de intervenção na gestão – misto de auditoria e consultoria estratégica – nos hospitais que se detectasse um crescimento excessivo de divida, a task force entraria a auditar e a sugerir caminhos de gestão globais a serem seguidos no prazo de um a dois meses pela gestão; e fazer com que fosse um pouco vergonha para os gestores ter esta equipa a entrar lá dentro – e que no limite poderia ir até propostas ao ministro para substituição da administração.

d) ter um reporte mensal da situação de cada hospital, excepto quando durante três meses consecutivos o hospital mostrasse ter a situação sobre controle, nesse caso, o acompanhamento iria sendo mais espaçado – fazer cada gestão merecer a sua autonomia neste campo consoante os resultados.

Para discussão e aperfeiçoamento…


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Taxa de mortalidade infantil – retrocesso devido à crise? ou talvez não?

Recentemente, surgiu numa discussão a evolução da taxa de mortalidade infantil. A taxa de mortalidade infantil tem sido com grande frequência usada como principal exemplo do sucesso do Serviço Nacional de Saúde. E isto leva-me a um texto um pouco mais técnico desta vez.

É inegável o grande caminho percorrido desde os anos 60, e os anos mais recentes traduzem a estabilização desse sucesso.

Figura 1:

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Nos últimos dois anos, recorrendo aos valores publicados na Pordata e com origem em estatísticas oficiais, houve uma subida da taxa de mortalidade infantil. Essa subida gerou comentários de alguma preocupação e interpretações de ser um sinal da falta de capacidade de resposta do sistema de saúde (e do Serviço Nacional de Saúde em particular), em consequência da crise económica e dos cortes de orçamento do Serviço Nacional de Saúde.

A visibilidade política e pública da taxa de mortalidade infantil justifica que a análise dos dados seja feita com cuidado.

Em concreto, uma pergunta crucial é saber se estas variações mais recentes são resultado de uma inversão de tendência ou se são flutuações normais, aleatórias, em torno de um valor estabilizado.

De um ponto de vista técnico, interessa saber se estes dois últimos anos estão dentro do intervalo de previsão que é gerado pela experiência passada.

A resposta a esta pergunta  significa saber se a subida dos dois últimos anos é ou não é suficientemente elevada para em termos estatísticos se poder dizer que há uma situação anómala.

Aliás, a observação de que houve uma subida nos dois últimos anos da taxa de mortalidade infantil não pode deixar de reconhecer que o ano de 2010 foi anormalmente baixo (embora não seja estatisticamente anómalo).

Figura 2:

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A consolidação dos valores conseguidos para a taxa de mortalidade infantil é obviamente um aspecto relevante do sistema de saúde português, sendo por isso fazer um seguimento próximo do indicador.

Tendo afirmado que os dois últimos anos não são substancialmente distintos, em termos estatísticos, do passado recente, os gráficos seguintes dão suporte a esta posição, calculados com base na informação da Pordata.

No primeiro gráfico é traçada a análise de regressão da taxa de mortalidade na evolução do tempo, usando uma função quadrática, e desde 1980, excluindo os anos de 2011 e 2012. Para estes dois anos, é apresentado o valor previsto e o respectivo intervalo de previsão. No segundo gráfico, é traçada a análise de regressão, iniciando-se em 2000, com um modelo linear no tempo, e novamente excluindo 2011 e 2012, apresentando o valor previsto e o respectivo intervalo de previsão. Por fim, no terceiro gráfico, considera-se um modelo em variáveis logaritmizadas, e repete-se o procedimento – exclusão dos dois últimos anos dos cálculos, sendo depois comparado o valor observado com o intervalo de previsão.

A regularidade significativa dos dois primeiros gráficos é ter os valores dos dois últimos anos dentro dos intervalos de previsão (os resultados quantitativos são apresentados em tabela no final). Mas no terceiro gráfico, o valor de 2012 sai fora do intervalo de previsão, indicando um valor fora e acima do que seria de esperar. Fica agora a escolha quanto ao modelo mais apropriado. E se o modelo da figura 3 tem melhor aderência estatística, o facto de na parte final o termo quadrático indicar um aumento da taxa de mortalidade infantil levanta dúvidas sobre a sua razoabilidade; por seu lado, o modelo com a variável logaritmizada (equivalente a ser linear em termos de taxas de crescimento) tem menor aderência estatística. Mas tomando a variável logaritmizada dá-se, de certo modo, maior importância a variações na taxa de mortalidade infantil quando esta já tem valores baixos (e em que a mesma variação absoluta da taxa significa uma variação em termos percentuais superior).

Daqui, e sem fazer mais testes estatísticos, creio que será mais adequado considerar que o valor de 2012 ainda não é estatisticamente revelador de uma alteração de tendência (preferência dada aos primeiros modelos), embora seja de seguir com atenção – a manter-se a tendência  de subida por mais um ano, será um sinal de alerta a ter em conta.

Claro que quem quiser dizer que 2012 contém já esse sinal de alerta, pode usar  o terceiro modelo, embora de menor qualidade de ajustamento estatístico.

Figura 3:

figura 3Figura 4:

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Figura 5:

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Quadros da análise de regressão:

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notícia do Jornal de Negócios, sobre envelhecimento e despesas de saúde

com o titulo “Envelhecimento tem impacto residual na despesa com saúde” baseado num texto da Comissão Europeia (aqui), aproveito e faço publicidade de um post neste blog sobre o tema escrito há dois anos, em 2011, (aqui), bem como três reflexões feitas há um ano, em 2012, sobre o tema do envelhecimento – “O envelhecimento é inimigo do estado social? “(aqui) e a propósito do livro de Maria João Valente Rosa (aqui e aqui). Constato que as contas feitas na Comissão Europeia confirmam o que é conhecido da literatura anterior.


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mascotes & exames

Ontem, pela primeira vez, tive uma mascote a assistir (auxiliar?) a um exame. Aqui fica a foto da mascote:

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13ª Conferência Nacional de Economia da Saúde (2)

 

Na 13ª Conferência Nacional de Economia da Saúde, houve dois trabalhos sobre temas próximos, e que se complementam (Álvaro Almeida, “o efeito dos sistemas de incentivos na produtividade dos profissionais de saúde: o caso da actividade cirúrgica de um hospital do SNS”; e o meu trabalho “The efficiency spillovers of intramoenia activity”)

 

Ambos os trabalhos procuram analisar o efeito da produção adicional proporcionada pelo SIGIC na produtividade. Enquanto Álvaro Almeida procura analisar a produtividade das equipas envolvidas na produção adicional, a minha preocupação foi com a criação de efeitos globais, em que eventuais melhorias de funcionamento associadas com essa produção adicional se alarga a toda a actividade realizada. São, por isso, dois trabalhos perfeitamente complementares.

 

No trabalho de Álvaro Almeida comparam-se cirurgias idênticas em tudo menos no regime de trabalho das equipas – num dos casos é o regime normal, de programa anual de actividade, e no outro caso é a produção adicional, que tem um sistema de incentivos diferente. Na produção adicional há recompensas associadas com incentivos monetários, com maior flexibilidade na gestão do seu tempo, liberdade de constituição das equipas, etc. São analisadas em detalhe as várias fases do procedimento cirúrgico (em termos de tempo do processo). São usados dados de 2010. Os resultados apontam para uma maior rapidez quando se trata de uma intervenção de produção adicional, com uma produtividade 35% superior. As diferenças são significativas em todas as fases e em todo o tipo de cirurgias.

 

Como explicações possíveis para a diferença de produtividade encontrada, conjecturam os autores que estarão o interesse em resolver rapidamente o trabalho, maior flexibilidade na organização da intervenção, maior colaboração entre as equipas.

 

No outro trabalho, usando um indicador mais agregado mas similar, o tempo de internamento, procurou-se avaliar se nos hospitais onde há mais actividade adicional também a actividade normal beneficia de mudança de métodos de trabalho e organização. É usada informação agregada pelo que não se consegue, nem é o objectivo, identificar o que está na base do efeito de organização global.

 

Em termos de regularidade estatística encontra-se um efeito de menor tempo de internamento nos casos que são produção adicional, usando dados de 2010, o que é um resultado consistente com a análise detalhada de um hospital, e encontra-se também uma regularidade de mesmo os casos que são produção normal terem um menor tempo de internamento quanto maior é a proporção de casos de produção adicional no hospital, para o mesmo GDH.

Os slides referentes à minha apresentação deste trabalho encontram-se disponíveis aqui


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agradecimento e publicidade

Obrigado aos que responderam à pergunta sobre a publicidade no blog. Fico satisfeito por saber que por enquanto a publicidade não é impeditiva da leitura. E que o aviso que recebo quanto à  existência e pouca intrusão dessa publicidade, enviada pela wordpress, corresponde ao que é feito. A menos que descubra outro formato para o blog que graficamente seja mais atraente, continuará tudo na mesma. Ainda não será desta vez que cederei aos apelos para passar ao formato premium do blog.

Para quem tiver curiosidade, os resultados das perguntas até às 17h00 de ontem foram:

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blog, anúncios e leitores

Este blog, momentos económicos, existe pelo gosto pessoal que me dá, e por constituir uma forma de reunir, arquivar, ideias e temas que poderei desenvolver, bem como actividades, em particular conferências e debates, em que participo.

A escolha desta plataforma, wordpress, foi ditada por ser simples, gratuita e funcional.

Recentemente, comecei a receber mensagens do sistema informando que algumas vezes os leitores do blog poderiam estar a ser sujeitos a publicidade quando visionam os meus textos, publicidade seleccionada por algoritmos. Como autor, não vejo esta publicidade.

Sendo assim, não tenho qualquer noção sobre o grau de intrusão e incomodidade que causam esses anúncios. Decidi, por isso, pedir a quem visita este blog uma rápida reacção sobre este aspecto, respondendo às perguntas abaixo. Dependendo das respostas poderei manter o blog como está, mudar para outra plataforma ou até decidir pagar para que não haja anúncios.


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recuperação de empresas

Tem vindo a ser reconhecido que o programa revitalizar tem problemas. É salutar reconhecer que algo não está bem como primeiro passo para resolver. Resta agora concordar no que não está bem. Aparentemente o principal problema está na capacidade de decisão rápida. Ajudar empresas em dificuldades significa um julgamento de valor sobre a empresa e a sua gestão, e o potencial futuro. Como é fácil haver divergência resultam recursos e impugnações de decisões, que vão contra a necessidade de decisão rápida. A vantagem de decisões rápidas é evitar-se a “corrosão” da empresa, seja no seu capital físico (equipamentos) seja no seu capital humano. Frequentemente, mais do que revitalizar a empresa importa fazer com que os seus activos físicos, humanos e imateriais (a cultura da empresa, por exemplo) sejam utilizados de forma produtiva o mais rapidamente possível. Seja na mesma área de actividade ou transferidos para outra.

Assim, o ponto de partida de um programa de apoio à estrutura produtiva da economia (e não programa de apoio a donos de empresas e sua gestão) deveria ser venda tão rápido quanto possível da empresa, incluindo a possibilidade de compra pela equipa de gestão quando diferente dos proprietários da empresa ou pelos trabalhadores. O estabelecimento de programas de recuperação da empresas deveria ser encarado como a excepção. Vender rapidamente a empresa faz com quem compre tenha que possuir um “plano de recuperação” próprio e alinhado com o interesse do novo dono. Vender rapidamente garante também a “disciplina” de mercado sobre os donos/gestores das empresas, que deixarão de poder contar com o dinheiro público ou com renegociações prolongadas como forma de sustentar as suas acções.

Vender rapidamente estimula também o aparecimento de novos empresários, ou a entrada em novas áreas de negócio, e pára uma certa tradição nacional de alguns em deixarem falir as suas empresas e às escondidas levarem as máquinas e equipamentos para novas empresas onde irão repetir o processo.

Um dos pilares de intervenção pública deveria ser o de agilizar o mercado de empresas / activos produtivos que estejam em dificuldades e não sustentar a sua sobrevivência em vida artificial, que frequentemente não é mais do que uma lenta agonia (com o mesmo resultado final produzido apenas mais tarde). Tem também a vantagem de quem falhar numa empresa poder tentar noutra o sucesso, mas ter que demonstrar capacidade em o fazer.


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ainda a despesa com medicamentos e o acordo entre Governo e APIFARMA

De acordo com uma notícia da semana passada, e confirmada por declarações públicas,  ficou (finalmente) resolvido o acordo da despesa com medicamentos para 2013.

Segundo o que está relatado, consegue-se cumprir o compromisso assumido no Memorando de Entendimento, com uma redução da despesa pública em medicamentos compatível com esse objectivo, ainda que menor do que o inicialmente pretendido pelo Ministério da Saúde mas maior do que o valor que a indústria farmacêutica dizia ser capaz de suportar.

Interessante será saber qual o mecanismo que assegura a participação das empresas no acordo já que a devolução de despesa (“payback”) caso o limite acordado seja estabelecido não deverá afectar as empresas que decidirem não subscrever o acordo (e para 2012 nem todas subscreveram). Aqui, o poder de persuasão está do lado do Ministério da Saúde e a forma como for tratado o ano de 2012 será determinante para o ano de 2013.

Um mecanismo compatível com o objectivo e não discriminatório no sentido de ser aplicável a todos é decretar uma redução de preços global de x%, temporária para 2013, contra a qual podem ser abatidos os valores da “devolução” que seja realizada por quem tiver subscrito o acordo (para não ter que contribuir em duplicado para a redução da despesa). O valor de x% deveria ser tal que permita alcançar o objectivo pretendido de redução de despesa pública em medicamentos acrescido dos custos de verificação do mecanismo. Como estar dentro do acordo entre Governo e APIFARMA reduz esses custos de verificação, a contribuição de payback ao abrigo do acordo teria uma majoração para reflectir essa diferença no abatimento à redução de preços.

Além de saber se este mecanismo terá poder suficiente para induzir uma  participação muito alargada no acordo de forma voluntária, para o futuro será necessário perceber em que medida esta redução da despesa pública em medicamentos é, ou não, sustentável. Mudar o nível sem mudar a dinâmica não resolve o problema futuro.

Outro aspecto do acordo, tal como mencionado na imprensa, terá sido o compromisso do Ministério da Saúde em reduzir as dividas às empresas e ser mais célere na autorização de novos medicamentos; por fim, um compromisso de estabilidade legislativa.

Quanto às dívidas, para o Serviço Nacional de Saúde ser um parceiro fiável esse problema não deveria existir sequer e os pagamentos serem feitos a tempo e horas, até porque o tempo de espera pelo pagamento acaba por ser reflectido nos preços de venda aos hospitais e usar essa dívida a fornecedores como instrumento de pressão (primeiro pelos hospitais que a criam junto do Ministério da Saúde para obter mais verbas, e depois pelo Ministério da Saúde para obter descontos de preço) só cria disfunções na gestão das unidades de saúde (hospitais) e desresponsabiliza quem consegue gerir melhor e pagar mais cedo. Não é claro que o acordo para os medicamentos gere qualquer mecanismo que altere os incentivos a criar dívida à indústria farmacêutica.

Quanto à estabilidade legislativa, também deveria ser prosseguida independentemente do acordo, além de não existir forma credível (que eu esteja a ver) de como o Ministério da Saúde se compromete com essa estabilidade por um horizonte razoável (que vá além de 6 meses).

Por fim, a autorização de medicamentos inovadores. O Ministério da Saúde não se pode, realmente, comprometer com uma aprovação célere. Pode, e deve, comprometer-se com uma decisão célere, que será, ou não, de aprovação da comparticipação do medicamento pelo Serviço Nacional de Saúde. Ter que produzir uma decisão não obriga a que tenha de ser uma decisão positiva. E num contexto de restrição orçamental forte, o critério para inclusão de medicamentos novos que aumentem a despesa será mais apertado do que quando há maior disponibilidade financeira. Mas o mecanismo de introdução de novos medicamentos na cobertura do Serviço Nacional de Saúde é toda uma outra discussão.