a) não o ter-se mantido o euro (ainda houve quem apostasse no seu fim no início do ano, mas agora para 2015, isso parece ter desaparecido), mas podia ter sido;
b) não o fim do programa de ajustamento, apesar do contador decrescente (inicialmente com data errada) que até existiu;
c) não a prometida reforma do estado, ainda que adiada e provavelmente mal entendida no que deve ser: a criação de um processo continuo de melhoria do estado, em lugar de um big bang determinado por algum (ou alguns) iluminado(s)
d) não o “estourar” do GES, com o BES a ser dividido, apesar do prometido impacto sistémico ter até ver sido bastante contido, se exceptuarmos a PT e o seu ruinoso “investimento” (aspas porque se duvida que tenha sido investimento no sentido que habitualmente se dá);
A meu ver, a verdadeira novidade económica esteve ligada ao GES, mas não pela intervenção do Banco de Portugal, ou pelo que se vai descobrindo do funcionamento interno do GES.
O que marca uma viragem decisiva face ao passado é a decisão do Governo de deixar falir o que era visto como o banco do regime, levando a sério o funcionamento da economia, e impondo o ónus de má gestão e de decisões erradas a quem as toma. É certo que pelo meio houve “danos colaterais”, nomeadamente quem desconhecendo os riscos tenha ido ao aumento de capital do BES, mas não há investimento em acções que sejam imunes ao risco. De qualquer modo, o diferente está na atitude perante as grandes empresas, mesmo financeiras. Se esta for uma mudança permanente, então um elemento importante da “reforma do estado” terá sido alcançado. Faltarão muitos outros. Mas a sensação de que o Estado não tem como missão salvar grandes empresas, privadas, dos seus erros de gestão é fundamental para um bom funcionamento da economia. Para que empresários mais inovadores se possam colocar objectivos de “destronar” empresas reinantes, que não irão ter possibilidade de recorrer ao Estado para as proteger.
Veremos se esta primeira decisão é seguida, no futuro, por outras similares, mesmo que venham a ser governantes diferentes a tomá-las. Será uma mudança mais profunda que muitos eventos que se classificaram como caracterizadores de 2014.
Como nota final, tinha pensado em não comentar o ano de 2014, e não fazer previsões para 2015. Cumpro apenas a segunda parte, pois quanto à primeira parte, depois de várias leituras e comentários sobre o que foi 2014, cheguei à conclusão que não alinhava pelo mesmo olhar de muitos comentadores.