Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time


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o relógio

Num destes dias passei por uma instituição pública, para participar numa reunião.

Sala austera, sem ser desconfortável. Reparei na existência de um relógio de pé alto. A funcionar perfeitamente. Relógio que tem a particularidade de precisar de ser dada corda regularmente. Esta não era a sala principal da instituição. Nas outras também provavelmente existem relógios similares. Aos quais alguém tem que dar corda. O relógio estava com as horas certas e a andar. Alguém lhe tem dado corda. Será que existe um funcionário apenas com a missão de dar corda aos relógios todos? Ter como descrição funcional garantir que todos os relógios de pé alto estão a funcionar e a horas? Será que quando esse funcionário (ou funcionária, não vale a pena discriminar) se reformar será substituído por outro com a mesma função? Será que ninguém repara e os relógios simplesmente deixarão de andar a horas?

Vou mas é beber uma água, da torneira, que aqui não se paga o trabalho de lavagem dos copos. Bom dia de trabalho a todos.

 

(a imagem foi retirada da internet, e é vagamente similar ao relógio de que falo)

 


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o texto habitual no dinheirovivo.pt

Acompanhar a “transformação estrutural”

20/02/2012 | 00:00 | Dinheiro Vivo

Passaram-se praticamente 9 meses desde a elaboração do Memorando de Entendimento, e pouco mais de 6 meses sobre a entrada em funções do novo Governo. Não deixa de ser pouco tempo para avaliar se as mudanças introduzidas vão ou não produzir efeitos. Mas é tempo suficiente para verificar se os principais compromissos estão ou não a ser cumpridos.

Nas próximas semanas vão-se multiplicar as listas de medidas e as opiniões sobre o grau de cumprimento das medidas do Memorando de Entendimento, tanto mais que se encontra em curso mais uma das avaliações trimestrais levadas a cabo no âmbito do Memorando de Entendimento.
Mais importante do que contabilizar quantas medidas foram adoptadas ou quantas ficaram pelo caminho, é relevante saber se os objectivos finais podem ou não ser alcançados, quer em termos globais quer por áreas temáticas.

As duas avaliações de progresso já realizadas, com direito a relatórios e versões revistas do Memorando de Entendimento, revelam que pequenos ajustamentos vão sendo possíveis, mesmo que não apareçam nas primeiras páginas dos jornais.

A questão da flexibilidade na utilização de instrumentos parece não se colocar de forma aguda desde que o objectivo seja atingido. Mas convém ter em mente que em breve seremos avaliados, como país, pelos resultados que produzirmos e não pelas promessas que fizermos ou pelas medidas que adoptarmos se não houver eficácia nestas.

De forma simplificada, a economia portuguesa tem duas grandes metas a alcançar: melhores contas públicas e “transformação estrutural” (usando a terminologia adoptada nos documentos deste Governo).

Se para a primeira meta existem critérios relativamente precisos sobre o que significa o seu cumprimento, na segunda meta o acompanhamento do que sucede é bem mais complicado. No entanto, atingir a primeira meta sem a segunda de pouco valerá. Assim, é de todo o interesse que se conheçam os critérios pelos quais podemos conhecer a evolução no caminho para a meta da “transformação estrutural”.

Antecipo-me já à primeira tentação de resposta – a publicação de legislação não corresponde a cumprir meta alguma, e sim a criar as condições para que possa ser alcançada. Não nos podemos limitar a enumerar diplomas legais como sinónimo de alteração estrutural. É preciso saber, conhecer, o que se está a alterar.

Sabemos que o desemprego está a níveis muito elevados, e em particular o desemprego jovem. De tal modo que a nível da União Europeia há preocupação global com esse problema. Sabemos que temos um novo acordo na Concertação Social, que vai ser usado no combate político.

Mas teremos que saber como é este novo acordo contribui de factor para reduzir o desemprego e o desemprego jovem, em particular. Para que isso suceda, é necessário que sejam criadas mais empresas e / ou que as actuais contratem novos colaboradores.

Para que tal suceda nas muitas pequenas e médias empresas que existem, quem está à frente delas precisa de conhecer de forma clara qual o custo de contratar um novo trabalhador incluindo o custo de o dispensar se a evolução da actividade da empresa for desfavorável.

Sabe-se em quantas pequenas e médias empresas os seus dirigentes têm uma estimativa adequada da alteração dos custos laborais com o novo acordo na Concertação Social? Quem quiser contratar mais ou abrir uma nova empresa consegue perceber facilmente o que é implicado pelas novas regras?

É das respostas e estas, e a outras perguntas desta natureza, que poderemos vir a conhecer melhor se a “transformação estrutural” se está a dar, ou não. E sem essa transformação de pouco valerá a prazo o esforço nas finanças públicas. Não é fácil, nem rápido, ganhar este conhecimento, mas tal só obriga a um esforço redobrado para permanentemente acompanhar a “transformação estrutural”.
Nova School of Business and Economics
ppbarros@novasbe.pt

Escreve à segunda-feira
Escreve de acordo com a antiga ortografia


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“gestores hospitalares ameaçam demitir-se” ?!

A noticia do Expresso desta semana veio confirmar os meus receios, mencionados há duas semanas, aqui, sobre a necessidade de encontrar uma forma adequada de evitar a criação de dívida – atrasos nos pagamentos a fornecedores – no caso dos hospitais, evitando uma paralisia da actividade.

Mas não deixo de notar que se do lado governamental não é apresentada uma solução, também os administradores hospitalares, a crer que a noticia é um relato fiel do teor da reunião, não sugeriram que mecanismo poderá ser usado para garantir de forma credível que não há criação de nova dívida.

Neste contexto, o pior que pode surgir é simplesmente não se aplicar a lei agora aprovada, pelo princípio e pelas consequências inerentes. Se a lei não é aplicável, deve-se claramente estabelecer o que a substitui para alcançar o objectivo pretendido. Pretender que depois se encontra uma solução é mau caminho. Os administradores hospitalares deveriam contribuir com uma proposta de procedimento que assegure esse controle orçamental da despesa pública.


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acompanhamento do Memorando de Entendimento – Saúde

(post gémeo com o blog estado vigil)

Na tentativa de acompanhar a forma como o sector público da saúde está a cumprir o Memorando de Entendimento, foi-me útil a construção de um mapa da evolução dos compromissos assumidos no Memorando (que têm ligeiras mudanças em cada documento revisto que é produzido depois de cada uma das visitas periódicas), e se esse compromisso já está respeitado. Para os que têm data de referência no futuro, estão normalmente sob observação.

É possível que me tenha escapado alguma decisão ou medida, e por isso o mapa anexo está sujeito a revisão conforme for encontrando nova informação mais actualizada. Mas a Janeiro de 2012, a minha recolha de informação deu o seguinte:


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“Fecundidade e desenvolvimento económico nos países da OCDE”

Esta manhã tive a oportunidade de comentar a apresentação de Olivier Thevenon sobre este tema. Deixo aqui uma breve apreciação de dois trabalhos do autor, com as respectivas referências no final.

O desafio de partida apresentado pelo autor é: que relação se encontra entre desenvolvimento económico e fecundidade?

As sucessivas análises de dados têm encontrado uma relação negativa – conforme o rendimento per capita aumenta, a número de crianças na população tende a diminuir, há uma redução da taxa de fecundidade.

Mas, mais recentemente, alguns países de rendimento elevado reverteram ligeiramente esta tendência. Aparentemente, quando o rendimento per capita é suficientemente elevado, o seu crescimento gera um aumento da taxa de fecundidade, mas longe de atingir a taxa de reposição da população.

Porquê esta inversão? os autores identificam como principal factor a existência de mecanismos sociais e legais que permitem conciliar o trabalho feminino com a vida familiar.

Desta relação é fácil passar para a discussão de quais os instrumentos que estão disponíveis para aumentar a natalidade.

A primeira constatação é a de que diferentes países têm adoptado diferentes instrumentos:

– Norte da Europa Continental – incluindo França e Escandinávia – licenças parentais, de maternidade e paternidade, generosas, creches e apoios similares

– países de tradição de língua inglesa – programas de trabalho flexíveis e apoios no local de trabalho

Para ver com mais detalhe estes aspectos, os autores usem uma base de dados de 1982 a 2007 sobre medidas de apoio à família.

Consideram o impacto de cinco tipos de medidas sobre a taxa de fecundidade:

1) despesa em licenças de maternidade, paternidade e outros pagamentos do tipo, por nascimento, como proporção do PIB per capita.

2) despesa em transferências por criança abaixo dos 20 anos em percentagem do PIB per capita

3) despesa em serviços de apoio a crianças com menos de 3 anos, em proporção do PIB per capita

4) número de semanas de licença pagas (maternidade e paternidade)

5) proporção das crianças com  menos de 3 anos que frequenta instalações de apoio

Os autores procuram ver o impacto destas medidas na taxa de fecundidade e numa taxa de fecundidade ajustada para o adiamento do momento de nascimento do primeiro filho.

Utilizam métodos estatísticos avançados para concluir que

a) os principais instrumentos, os que têm mais efeitos, são os apoios de médio e longo prazo – as medidas 2) e 3)

b) de qualquer modo, o seu impacto quantitativo parece não ser muito grande.

Há vários comentários que podem ser produzidos.

Tomemos os factores económicos:

– custo de ter e criar uma criança face ao rendimento disponível

– custo de oportunidade em termos de tempo retirado à actividade laboral e a actividades de lazer

Em que medida as políticas ou as variáveis usadas capturam estes efeitos?

Exemplos de medidas alternativas que podem estar mais próximas:

* apoio concedido face ao custo de ter e criar uma criança

* salário médio das mulheres em idade fértil (ou das mulheres com idade em redor do momento de ter o primeiro filho)

Seria interessante ter também uma visão clara do tempo que as medidas demoram a produzir efeitos.

Seria interessante saber o papel da credibilidade das medidas de apoio em cada país (com que frequência mudam as regras e os valores, por exemplo)

Seria interessante ter para cada país quanto teria de ser usado de cada medida para que fosse alcançada a taxa de reposição da população (o que tecnicamente deve ser uma extrapolação para além do domínio da amostra).

Os resultados indicam que medidas com “permanência” no tempo têm mais efeito – os apoios financeiros de natureza duradoura parecem ser de alguma forma incorporados numa noção de rendimento permanente.

Dois outros aspectos são claros:

– a incerteza criada pela possibilidade de desemprego tem um efeito negativo – se li bem as estimativas dos autores, um aumento de 1% na taxa de desemprego teria que ser compensada com um aumento de 1% do PIB per capita dedicado a apoiar crianças abaixo dos 20 anos para que a taxa de fecundidade se mantivesse inalterada; curiosamente, não é a protecção no emprego que faz a diferença. É mesmo a capacidade de encontrar emprego.

– a aceitação social de nascimentos fora dos modelos de família tradicional, correspondendo a u mudança de normas sociais, é favorável a uma maior taxa de fecundidade.

Tomando Portugal nos dias de hoje:

– elevada taxa de participação feminina no mercado de trabalho

– elevado desemprego e dificuldades de jovens em encontrar emprego

– incerteza quanto à duração de apoios estatais (em geral), não permitindo a sua integração como “rendimento permanente”

– baixos salários, fazendo com que o custo de ter e criar uma criança seja elevado face aos rendimentos (mais do que compensando o baixo custo de oportunidade de cuidar de uma criança).

– cultura de “presentismo” no local de trabalho, dificultando a conciliação trabalho – família.

Todos estes são factores negativos.

Por outro lado,

– apoio dos avós é relativamente comum.

Dos estudos internacionais não é claro o que possa promover uma alteração da situação actual, alteração que tenha baixos custos, nos países do Sul da Europa.

Aspectos que surgem como determinantes:

– perspectiva de longo prazo em qualquer medida que seja adoptada, não há formas rápidas de fazer esta mudança

– influência sobre o estilo de vida e decisões de uma população relativamente jovem

Atacar dois problemas:

– condições financeiras

– custo de oportunidade (e não só  salarial, mas de tempo – actividade lúdicas, incluindo viagens, por exemplo).

Com mais do que um objectivo, será necessário mais do que um instrumento.

Que fazer?

– apoios monetários directos ou indirectos atacam as dificuldades financeiras. Não resolvem porém o aspecto do tempo.

– conciliar a vida de trabalho com a vida familiar. Só trata do custo de oportunidade do trabalho.

– falta lidar com custo de oportunidade do lazer:

* pais irem ao cinema ou teatro ou futebol ou concerto (ou tudo isto)

* país fazerem viagens curtas (dentro ou fora do país)

Como?

– facilitar o apoio dado pelos avós

– facilitar a cooperação e auto-organização dos jovens

– Outras ideias “diferentes”?

 


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aviso: este post contém publicidade – momentos económicos torna-se também canal de televisão

Desde esta noite que passou a existir também um canal, ou melhor um kanal, de televisão com conteúdos associados com o blog momentos económicos.

Para saber o que é um kanal MEO, ver aqui

Como descrição breve de promoção da ideia, a melhor que encontrei é a do Tao of Mac:

“As of today, and in a worldwide debut, every Meocustomer can create his/her own TV channel, powered by SAPO. Nobody’s done this before, as far as I can tell.

Now you have an inkling of what I’ve been involved with for a year and a half (there’s more stuff going on, but this was the main event). The traditional TV business model is long overdue some disruption, and this is just the beginning…

Also, more here, in Portuguese (try to spot me in the top photo, took me a while to realize it myself).

A little more background: This means a million customers can create their ownTV channel, on a platform where roughly 2/3rds make heavy use of the interactive features. It’s going through the roof as I type this…”

Por hoje, coloquei apenas dois vídeos antigos, um sobre a profissão de economista e outro sobre o futuro da União Europeia. São quase-história. Have fun!


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eficiência nos custos hospitalares

decorreu ontem a apresentação dos resultados de um estudo sobre os custos e a eficiência no sector hospitalar do Serviço Nacional de Saúde (a eficiência dos hospitais privados não foi analisada).

A notícia sobre o estudo surgiu em diferentes pontos, um deles aqui, o resumo do estudo pode ser visto aqui.

O estudo, realizado utilizando uma metodologia que avalia a eficiência de cada episódio de internamento – excluem-se as urgências e as consultas como grandes agregados de “produção”, aponta para um limite máximo de cerca de 800 milhões de euros de poupança, conforme refere a noticia.

O estudo considera diversas fontes de falta de eficiência, procurando captar as diferentes faces da realidade da actividade hospitalar de internamento de doentes: falta de eficiência pura, complicações evitáveis, readmissões, admissões precoces, dias de internamento excessivos, admissões tardias e cesarianas em excesso.

Há um conjunto de comentários que vale a pena fazer quanto à notícia e aos resultados do estudo. Os 800 milhões de euros são um limite superior, pois como os próprios autores referem a contabilização de cada linha de potencial ineficiência é calculada independentemente das restantes, e como tal é possível, e provável, que existam duplicações num montante considerável.

Só que mesmo descontando essas duplicações os valores de poupança potencial vão continuar a ser significativos – suponhamos, sem qualquer base, que as duplicações seriam 50%, então ainda haveria um potencial de 400 milhões; ou se forem 25%, haveria um potencial de 600 milhões de euros. Em qualquer dos casos, valores importantes. Naturalmente, um próximo passo dos autores será estabelecerem um limiar inferior às poupanças possíveis, e avaliar se esse limiar inferior tem os mesmo elementos determinantes do limiar superior.

Para os tais 800 milhões de euros contribuem com mais de metade as situações associadas com complicações evitáveis e com dias de internamento excessivos. Dentro destas duas, será provavelmente na segunda categoria que haverá maior capacidade de intervenção.

Cabe agora aos profissionais, de saúde e de gestão, retirarem as suas conclusões, e olharem para dentro dos seus hospitais.


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conversas com ritmo…

…este foi o título dado a uma sessão do congresso Arritmias 2012, organizado pelo Instituto Português do Ritmo Cardíaco e pela Associação Portuguesa de Arritmologia, Pacing e Electrofisiologia, a 10 de Fevereiro. Foi uma conversa que decorreu informalmente, e em que o tema principal foi o momento do Serviço Nacional de Saúde, num contexto de dificuldades financeiras.

Alguns aspectos podem ser salientados, uns habituais outros novos.

– no momento de publicação do memorando de entendimento com a troika, houve em 90% das pessoas uma concordância em 90% (mais coisa menos coisa) com o roteiro traçado. Cerca de 8 meses depois, não se mantém o mesmo optimismo sobre o caminho a seguir.

– adicionada à preocupação de falta de fundos (subfinanciamento), embora na saúde seja raro ouvir alguém dizer que não precisa de mais recursos e por isso é uma preocupação a ser tratada com cuidado, surge agora a preocupação com a chamada lei dos compromissos – como é que vai ser exercido um controle orçamental estrito sobre a despesa pública em saúde – que mecanismos e com que consequências, para profissionais e para os cidadãos.

– o problema da dívida dos hospitais, que tem de ser equilibrada com a discussão da dívida do próprio estado aos hospitais; a ausência de boas relações financeiras entre estado e entidades fornecedoras e dentro do próprio estado é um problema também com fortes implicações para a qualidade da gestão que é praticada

– os desafios dos centros de referência num quadro de mobilidade europeia de doentes – a capacidade de Portugal ter alguma relevância neste mapa europeu tem que ser pensada desde já, e sobretudo tem que se agir desde já, nomeadamente em termos de certificação europeia

– a importância da gestão intermédia como elemento crucial do funcionamento do Serviço Nacional de Saúde; não é só nas nomeações da administração que a qualidade da gestão se joga.

– o modelo de formação profissional, e quem pode e ou deve apoiar essa formação, em particular capacidade para o fazer

Um conjunto de preocupações que são certamente partilhadas de forma mais geral no sector, e para as quais importa ir dando informação e soluções.

 


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para o dinheirovivo.pt de hoje

de repente parece que o único problema é os “mercados” (financeiros internacionais) acreditarem em Portugal (o que quer que isso queira dizer). Ora, esse é apenas o reflexo do problema, capacidade de crescer, e corremos um risco – de uma vez mais nos dispersarmos pelo acessório – e a discussão das conversas de Vitor Gaspar com o ministro alemão são um exemplo disso mesmo

Desfocados

13/02/2012 | Dinheiro Vivo

Uma conversa informal entre o ministro das finanças português e o ministro das finanças alemão ganhou um grande protagonismo na semana que passou. O que sendo compreensível é provavelmente menos relevante para o nosso futuro colectivo do se poderia supor das diferentes reacções.

Para perceber porque é pouco relevante essa conversa, comecemos por responder a algumas perguntas.

A falta de capacidade de crescimento da produtividade na economia portuguesa é um problema a resolver? Creio ser consensual que a resposta é sim.

Resolver o actual problema financeiro das contas públicas sem resolver o problema do crescimento da produtividade é suficiente?

A resposta é não, acaba-se por voltar a ter o problema, ou ter que fazer o ajustamento para consumo compatível com o valor da capacidade produtiva do país.

Uma alteração das condições do apoio financeiro, para dar mais tempo à economia portuguesa, poderá ser nociva?

A resposta é que não podemos excluir que haveria a tentação de adiar também os aspectos de “transformação estrutural”, para usar a expressão adoptada pelo actual governo. Há assim que comparar as vantagens de mais tempo para ajustar a economia portuguesa, com a desvantagem de eventualmente não o fazermos.

Uma questão final, corresponde a troca de impressões entre os dois ministros a um compromisso? Creio que a resposta será negativa. Não há qualquer garantia ou presunção de que a posição alemã daqui a uns meses (ou se calhar uns dias) seja realmente esta. Além de que o ministro alemão ao falar, formal ou informalmente, não compromete as posições das três instituições, Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu.

Algumas dos comentários, nacionais e internacionais, produzidos conseguiram distrair ainda mais as atenções ao referirem os mercados financeiros internacionais. O regresso de Portugal aos mercados financeiros internacionais para financiar a sua dívida pública, frequentemente tomado quase como o único objectivo, é apenas um objectivo intermédio. É por ser um objectivo intermédio que poderá ser, ou não, flexibilizado, consoante o progresso da economia portuguesa e das medidas adoptadas pelo Governo.

Convém não estarmos desfocados do verdadeiro objectivo, conseguir que a economia portuguesa tenha a capacidade de ter maior produtividade. Ciclicamente é preciso ir relembrando que maiores salários só poderão ser pagos se houver maior produtividade. E maior produtividade depende de uma maior capacidade de inovação e de uma melhor utilização dos equipamentos produtivos.

Repito, convém não ficarmos desfocados do que é central: produtividade.


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o mito do estado empresário

O mito do estado empresário está mesmo enraizado no pensamento político português, e é desses “instintos profundos” que resulta grande parte da nossa paralisia em geral.

Hoje, no trânsito, com a rádio ligada, estava a ser dada uma notícia sobre a linha do Vouga, que aparentemente irá ser encerrada. Um deputado de um dos partidos da coligação governamental era referido como tendo afirmado que “achava” que a linha era viável e urgia o Governo a olhar para o assunto. Eram focadas as ligações entre Aveiro e Águeda e entre Águeda e Espinho, se não estou enganado.

Desconheço, confesso, qual a verdadeira viabilidade económica dessas linhas e de que condições depende essa viabilidade.

O que me assusta é a ideia de que deve ser o Governo a fazer essa avaliação.

Pelos vistos, não cabe às empresas de transportes fazer essa avaliação, tem que ser o estado empresário, ao mais alto nível.

Pelos vistos, não passou pela mente do deputado ir para além do “achar” e fazer um business plan demonstrando essa viabilidade económica, ou incentivar alguém ou alguma empresa a fazer esse plano e a candidatar-se a explorar as ditas ligações sem apoios do estado.

Nada disso, cabe ao Governo avaliar a viabilidade económica da linha! Apesar de toda a retórica continua no fundo da alma a querer-se um estado que esteja presente em tudo, que tudo pague. E vindo do grupo político de apoio ao Governo, demonstrando o enraizamento desta ideia.

Se fosse um pedido para o Governo avaliar a componente de serviço público que pudesse estar presente – que externalidades existem? efeitos de redistribuição por apoio à mobilidade de população sem outras alternativas? coesão social na área? – ainda poderia caber dentro da esfera que se espera para o Governo. Não sendo assim, a pergunta deve ser devolvida à comunidade empresarial, que deverá mostrar, pela acção e gestão concreta, se as linhas em causa são ou não economicamente viáveis.