Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time


2 comentários

no dinheirovivo.pt de hoje, para ajudar à discussão de ideias

 

(Des)emprego jovem

05/03/2012 | 15:27 | Dinheiro Vivo

 

Os últimos números sobre as taxas de desemprego em Portugal reforçaram a preocupação em particular com o desemprego jovem. Foi mesmo anunciado um novo programa de apoio ao emprego de jovens. É certamente bem vindo, mas a questão é se será suficiente.

Para fazer uma correcta apreciação do novo programa, será necessário conhecê-lo em detalhe, e saber se consegue ir mais além do que apenas subsidiar quem empregar jovens.

Um aspecto crucial a observar é se é um programa centrado no posto de trabalho, e logo nas empresas, ou se é centrado no jovem desempregado, e na sua capacidade de encontrar emprego (ou de criar emprego).

A distinção entre as duas abordagens não é irrelevante. Políticas de apoio ao emprego jovem baseadas no posto de trabalho, isto é, pagando parte dos custos das empresas fazem com que estas redireccionem as suas políticas de contratação para os jovens, mas numa perspectiva de curto prazo. É facilmente reconhecível o incentivo para haja uma grande rotação de trabalhadores por parte das empresas. Parece haver preocupação com este aspecto, mas será de antecipar como é que as empresas procurarão maximizar o montante de subsídio que recebem desta forma, sem cuidar necessariamente de garantir emprego futuro aos jovens que entrem nestes programas. Seria, neste campo, interessante experimentar com condições adicionais. Por exemplo, caso um jovem contratado ao abrigo deste programa viesse mais tarde a ser desempregado de longa duração, então o subsídio recebido pelo seu último empregador teria de ser devolvido (em parte ou totalmente). Uma pequena condição destas seria o suficiente para fazer com que o empregador que beneficia de um subsídio para empregar jovens terá o interesse em ou manter o posto de emprego ou preparar o jovem para conseguir outro posto de trabalho (caso em que a responsabilidade do empregador quanto a ter que devolver parte do subsídio terminaria).

Antecipo a objecção de que esta proposta faria muitos empregadores desistirem de participar no novo sistema. Mas na verdade se não quiserem participar então é porque a sua motivação é realmente receber um subsídio, nada mais. Caso em que estes apoios nada resolvem a prazo.

Dito de outro modo, o sistema de apoio deve garantir não só que as empresas têm incentivo a contratar jovens, como têm incentivo a que depois de terminado o período de tempo na empresa que é subsidiado haja empregabilidade de quem contrataram ao abrigo do programa, seja na sua empresa ou noutra.

Naturalmente, que esta ideia terá de ser aperfeiçoada e procurados os seus pontos fracos, mas creio merecer atenção pela intenção de fazer com que a própria empresa se preocupe com o futuro dos jovens que emprega, e não apenas com o montante de subsídio que entra com a elevada rotatividade dos jovens.

Se adicionalmente, se colocar a atenção no jovem e na sua procura de emprego, e não no posto de trabalho, fará sentido pensar em acções complementares ao subsídio.

Um dos elementos de conhecimento que se ganhou de muitos estudos sobre o mercado de trabalho foi a importância de as pessoas não ficarem demasiado tempo demasiado longe do que aí se passa. O desemprego de longa duração nos jovens é então especialmente preocupante.

Para manter a motivação e o interesse em procurar postos de trabalho, em lugar dos tradicionais cursos de formação, apostar em formação e reforço de competências base genéricas poderá fazer mais sentido do que tentar “treinar” para uma profissão específica. Por exemplo, apostar no desenvolvimento das chamadas “soft skills”: capacidade de comunicação oral e escrita, capacidade de desenvolver trabalho de forma autónoma, disciplina e brio profissional, entre outras. Mas também reforçar ou refrescar conhecimentos de línguas estrangeiras (inglês e espanhol à cabeça) e de matemática, por exemplo, mas numa perspectiva de ferramentas úteis e usadas no local de trabalho. Quase que uma simulação de situação de emprego.

A participação em actividades de voluntariado poderão ser parte desta actuação mais centrada na capacidade do jovem desenvolver a sua empregabilidade.

Vale a pena ir rever, publicitar e discutir o que outros países andam a pensar e fazer neste campo antes de tomar decisões definitivas.

Só com um programa diferente do habitual se conseguirá resultados diferentes dos habituais.


1 Comentário

“O percurso da saúde: Portugal na Europa” (6)

No livro de Correia de Campos e Jorge Simões, o capítulo 4 é dedicado ao sistema de saúde português, na perspectiva da análise da evolução das políticas de saúde.

Sem grande surpresa, os autores retomam a sua interpretação de continuidade ideológica nas políticas de saúde em Portugal desde 1971, em que apesar das diferenças de estilo e opções dos diferentes governos, houve um “percurso sem significativas oscilações políticas” (p. 159).

Esta visão sobrevive às diferentes fases e oscilações do empenhamento público no Serviço Nacional de Saúde.

Curiosamente, ou talvez não, uma das principais causas do sucesso do sistema de saúde português na redução da mortalidade infantil está na consistência e persistência das políticas seguidas nessa área, que não flutuaram de forma significativa com cada mudança de Ministro de Saúde.

Questão para um dia se saber mais, ou perguntar aos autores do livro, é saber se dentro da continuidade ideológica que identificam no percurso do sistema de saúde português não terá havido um custo em termos de resultados das oscilações ocorridas, ainda que dentro de uma linha geral comum.


Deixe um comentário

“O percurso da saúde: Portugal na Europa” (5)

O capítulo 3 da obra de Correia de Campos e Jorge Simões é dedicado à investigação científica sobre saúde. Elenca as principais iniciativas comunitárias e nacionais. Poderia ter havido um pouco mais de desenvolvimento sobre a evolução da ciência feita em Portugal e a sua inserção na comunidade internacional.

A minha impressão, que gostaria de ver confirmada com uma análise mais detalhada, é a de que a investigação portuguesa tem vindo a a ganhar maior visibilidade e espaço internacional. Tenho também a impressão de que a saúde, em sentido lato, é uma das áreas científicas em que a investigação portuguesa está melhor colocada, por comparação com outras áreas em Portugal.

Assunto a agendar para futuro aprofundamento.


Deixe um comentário

“O percurso da saúde: Portugal na Europa” (4)

Ainda no capítulo 2 do livro de Correia de Campos e Jorge Simões, a parte de maior desenvolvimento está nas disposições comunitárias de mobilidade de doentes no seio da União Europeia. Mostrando que as iniciativas de apoio à mobilidade de doentes têm um enquadramento já antigo e crescente, é dada atenção sobretudo à nova directiva europeia. Apesar de tudo, creio que os autores poderiam ter enriquecido um pouco o texto com referências e discussão a decisões do tribunal europeu de justiça ao abrigo do artigo 49 do tratado da união europeia (é agora o artigo 56).

É importante assinalar que esta directiva se destina a assegurar a mobilidade dos doentes, e a livre circulação dos prestadores de serviços vem como consequência. Mas mesmo que não haja ou não venha a haver efectiva livre circulação de prestadores, apenas a mobilidade de doentes é suficiente para que cada país possa ter um choque significativa sobre o seu sistema de saúde, quer no financiamento quer na prestação.

Na prestação, através de uma procura maior dos seus serviços, caso tenha capacidade de atrair doentes de outros países, ou de uma menor procura, caso os cidadãos do país considerem que podem ser melhor tratados noutro país.

A discussão das consequências desta directiva pode ser feita a partir do sumário dado por Correia de Campos e Jorge Simões: “Um doente português poderá (…) optar por ser tratado num outro país da União Europeia, escolhendo entre prestadores públicos ou privados, sem necessidade de autorização prévia em cuidados não hospitalares. Quem o fizer poderá requerer o reembolso do dinheiro gasto com o tratamento quando regressar a Portugal, pelo valor correspondente às tabelas nacionais que remuneram tais serviços.

De acordo com estas regras, os EM não deverão, em regra, sujeitar a autorização prévia o reembolso dos custos de cuidados de saúde prestados em outros países da UE, desde que esses custos, “caso tivessem sido prestados no território nacional, fossem suportados pelo seu regime obrigatório de segurança social, ou pelo seu sistema nacional de saúde.”” E são depois enumerados os casos de autorização prévia necessária.

O que é importante aqui é o racionamento por limitação da quantidade de serviços prestada deixar de ser um instrumento à disposição dos sistemas de saúde para conter a despesa. As situações de autorização prévia ainda assim cobrem os casos de maior custo, mas sobretudo nas relações fronteiriças com Espanha há margem para recorrer aos serviços de saúde do outro lado da fronteira. Haverá certamente discussão acesa sobre o que é razoável ou não vir a reembolsar, o que poderá depender também de quem reembolsa o doente que use esta directiva para procurar cuidados de saúde do outro lado da fronteira. Num primeiro momento, poderá mesmo ter-se uma situação de aumento de despesa, com ou em capacidade instalada totalmente utilizada em Portugal. Estando as situações de internamento sujeitas a autorização prévia, as deslocações a outros países que não Espanha serão provavelmente excepcionais em Portugal, e serão mais comuns nos países do centro europeu.

Interessante será saber se o reembolso aos doentes tem que ser feito pela entidade prestadora de cuidados de saúde que deveria ter satisfeito a necessidade do doente, ou se é feita centralmente, uma vez que numa ou noutra solução, o interesse em evitar, por oferta adequada de serviços, a mobilidade internacional do doente  ou fomentar essa mobilidade, será diferente.


2 comentários

Conferência da FEDRA – “Política da Saúde e do Medicamento Orfão”

Decorreu ontem a II Conferência da FEDRA, no dia das doenças raras, toda a conferência está disponível online aqui, e continua aqui. (o programa está no final do texto)

Sobre o tema, Política da Saúde e do Medicamento Orfão, algumas ideias minhas (a versão “ao vivo” é sempre menos organizada que uma versão escrita):

Duas partes para a discussão: por um lado, política de saúde, por outro lado, medicamento orfão.

Sobre política de saúde, como ponto de partida devemos colocar quatro questões:

a) que objectivos?

b) que especificidades das doenças raras?

c) que intervenções são adequadas?

d) que intervenções são possíveis no contexto actual?

 

Nos objectivos, para além de salvar vidas quando tal for possível, há que notar o importante aspecto de qualidade de vida dos doentes e das suas famílias.

Nas especificidades, identificamos: raridade, gravidade – doenças incapacitantes ou difíceis de controlar, diversidade das doenças, doenças que afectam desde cedo o doente em muitos casos

Que intervenções? têm que ser necessariamente intervenções de natureza prolongada no tempo, cobrir os aspectos de diagnóstico, têm que atender à necessidade de conhecimento concentrado em centros especializados, têm que atender às noções de equidade relevantes

Que instrumentos estão disponíveis?

– o financiamento tem que ser compatível com o horizonte largo das intervenções; tem que haver um compromisso plurianual que sustente a intervenção. Não é claro como o estado consegue assumir compromissos credíveis por períodos longos.

– mostrar o valor das intervenções pela utilização dos instrumentos – utilização do “arsenal” da avaliação económica ao nível da família – os chamados benefícios indirectos têm aqui, no contexto das doenças raras, provavelmente maior expressão do noutros contextos.

– usar os instrumentos já anunciados – teve-se a definição em 2008 de 39 estratégias no programa nacional de doenças raras, quanto dessas estratégias foram iniciadas? quantas foram completadas?

 

Passando agora para o medicamento, este estava também incluído no plano nacional de doenças raras, que contém (continha?):

– propor sistemas de monitorização da eficácia e segurança dos medicamentos orfãos

– políticas contratuais com a indústria farmacêutica

– estudar medidas que facilitem o acesso a medicamentos orfãos

– incentivos à investigação e desenvolvimento

– acompanhar o que se faz na União Europeia

 

Desafios que se colocam:

A política europeia para desenvolvimento de novos medicamentos orfãos resultou, e tem-se que agora tratar dos passos seguintes. Estes novos medicamentos estão associados a:

– custo elevado de investigação e desenvolvimento, a ser recuperado

– custos elevado por doente (quase por definição de se tratar de doenças raras)

– surgem num momento de dificuldades orçamentais generalizadas nos sistemas de saúde, sobretudo nos de raiz pública

– discussão sobre a aplicação dos mesmos critérios de inclusão em listas de comparticipação por quem assegura o pagamento das despesas de saúde

– discussão sobre o tempo de decisão para acesso ao medicamento

 

Tempo de decisão – tem sido uma queixa recorrente em Portugal, deveria haver a capacidade de decidir rapidamente. Tratando-se de doenças raras o conhecimento técnico

tem que se ir buscar aos centros especializados que o aprofundam. A decisão rápida pode ser sim ou não. No caso de “não” incluir no leque de opções terapêuticas comparticipadas, deve ser dada indicação clara dos motivos e de porque são as alternativas terapêuticas superiores.

Custos elevados – está essencialmente a falar do “jogo” de estabelecimento de preços e de nível de comparticipação entre quem produziu o medicamento e entre quem paga quando há tratamento.

O critério tende a ser cada vez mais o de custo-efectividade incremental. Basicamente, saber se o preço do novo medicamento face à melhor alternativa é compensado pelos maiores benefícios também relativamente à alternativa. Se se quer um preço mais elevado, tem que se demonstrar mais benefício é a implicação.

Uma forma de demonstrar benefício mais elevado é limitar a aplicação do medicamento aos grupos para os quais se sabe haver maior efectividade, logo maior capacidade de justificar um preço elevado. Esta (auto)limitação de grupos de doentes, cria potenciais problemas para quem paga: como é tratada a incerteza sobre o número de doentes? como evitar aumento de indicações de utilização do produto no futuro, ao mesmo preço, mas para situações com menor efectividade?

Em termos globais, pode-se pensar que as doenças raras pelo baixo número de doentes tem pouco impacto global, mesmo que o preço seja elevado, mas com o aumento de indicações de utilização do medicamento o impacto pode afinal ser elevado mesmo considerando só um medicamento. Adicionalmente, pensar desta forma em todas as doenças raras acaba por gerar um volume total de despesa em medicamentos que não é tão pequeno assim.

Encontrar soluções para a preocupação com a despesa não é simples. A ideia de co-pagamentos neste campo de doenças raras não é mais do que uma redistribuição pura de rendimento, uma vez que não há risco para se ter uma situação de seguro.

 

O problema maior é como conjugar preço, doentes incluídos para tratamento, seguimento e revisão das condições da presença do medicamento no sistema de comparticipação, tempo de decisão e papel da opinião técnica especializada nas opções terapêuticas e determinação do valor da novidade.

A este respeito, creio ser importante assegurar como parte do caminho:

– abertura de todos os lados para uma revisão de condições de acordo com nova informação (condições significa aqui preço e indicações de utilização)

– regras claras dessa revisão para evitar desequilíbrios de poder negocial

– num plano mais amplo, conhecer as preferências sociais e o valor social associado com as doenças raras

– não se ficar apenas preso na ideia de que a qualidade de vida depende apenas do medicamento, a política de saúde nesta área tem que pensar noutros aspectos facilitadores da qualidade de vida do doente e da família.

 

(ps. nos próximos dias, irei focar nalgumas das outras contribuições, em forma de comentário)


Deixe um comentário

pão e circo, perdão fado e futebol

Faltam 100 dias para o campeonato europeu de futebol, que servirá de distracção;

Por uns dias, falar-se-á menos de resgate, mercados financeiros, austeridade, execução orçamental, défice público, troika, etc…

Logo veremos o resultado… por agora, vamos ao jogo de hoje 😀


1 Comentário

“O percurso da saúde: Portugal na Europa” (3)

No capítulo 2 do livro de Correia de Campos e Jorge Simões, a introdução apresenta logo no início uma das principais questões para a União Europeia no campo da saúde. Escrevem os autores: “Um espaço de interesse comum, como é a União, tem de procurar tratar de forma equitativa todos os cidadãos, aceitando que os EM, na sua liberdade plena, organizem os cuidados de saúde de acordo com o conjunto de valores e princípios nacionais e europeus, reconhecidos como integrando o conceito de Modelo Social Europeu.”  O restante da secção introdutória deste capítulo apela à noção de cooperação entre os Estados Membros.

Existem aqui dois planos diferentes.

Num deles, com um mesmo objectivo, a prossecução do interesse nacional por cada país só não contribui para o interesse da União Europeia como conjunto de países se houver algum tipo de externalidade das decisões de um país sobre os outros. Só nesse caso a cooperação entre países terá vantagens óbvias. Assim, há que procurar identificar nas restantes secções quais são esses efeitos de externalidade entre países que tornam crucial a coordenação.

No outro plano, bem diferente, há que saber se o entendimento do que é “equitativo” é o mesmo em todos os países da União Europeia. Culturas diferentes e visões diferentes da responsabilidade individual dos cidadãos perante a sua saúde pode ditar que uma solução que é “equitativa” segundo os valores de um país não o seja noutro país da mesma União Europeia. Todos podem aceitar facilmente o princípio de “tratar de forma equitativa todos os cidadãos” mas terem entendimentos diferentes do que tal significa e implica.

Assim, se no primeiro plano, e identificadas as fontes de externalidade, é fácil pensar que a coordenação é a solução adequada, no segundo plano, só depois da explicitação dos valores de cada país poderemos dizer se a coordenação leva a um resultado compatível com o princípio enunciado ou se, por outro lado, vai gerar situações de imposição de valores de uns países sobre os outros.

 


2 comentários

o tema no dinheirovivo.pt de hoje, o adivinho

O lançamento periódico de previsões de variáveis económicas, com pequenas mudanças nas décimas, por quatro ou cinco entidades diferentes, começam a correr o risco de ser mais uma corrida entre elas para ver quem acerta do que um elemento de decisão e de compreensão para os agentes económicos. As reacções às últimas estimativas produzidas pela Comissão Europeia, e antes dessas as previsões do FMI, do Banco de Portugal, do Ministério das Finanças, da OCDE, dos gabinetes de estudos dos bancos, etc…, fazem lembrar a antiga figura do Adivinho, o que motivou o artigo de hoje no dinheirovivo.pt :

 

 

 

O adivinho

27/02/2012 | 09:34 | Dinheiro Vivo

Este ano vamos novamente assistir à produção de várias previsões sobre a realidade económica. Em particular, seremos regularmente informados dos números de crescimento económico produzidos pelas várias entidades nacionais e internacionais, através dos seus modelos de análise. O primeiro desses valores saiu a semana passada indicando (prevendo?) uma redução do PIB per capita real em 3,3% para este ano, baixando do valor de 3% anteriormente “previsto”. Muitos comentários se produziram a propósito deste valor e do significado que possa ter e do que possa obrigar para o pedido de um segundo resgate financeiro a Portugal.

Com a discussão permanente destes números entra-se definitivamente num mundo em que predomina a figura do “Adivinho”, aquela pessoa que gostaríamos que nos trouxesse a imagem do futuro, de preferência um bom futuro, mas na sua ausência que seja capaz de prever a desgraça.

Contudo o mundo do adivinho é menos interessante do que se possa pensar. As previsões, as profecias, são apenas isso, e não são ainda a realidade. A economia não funciona exatamente como um relógio, e embora o nosso conhecimento permita antecipar alguns efeitos e resultados, não há uma certeza absoluta. O funcionamento da economia é determinado pelo somatório das decisões de consumo, trabalho, investimento, que cada cidadão toma em cada momento. É por esse motivo que o crescimento da economia não pode ser decretado por um qualquer Governo nem o desemprego desaparecer apenas porque se anuncia que assim será.

A construção de conceitos como o PIB real per capita pretende capturar num indicador simples uma medida da criação da riqueza no país. Não é porém uma verdade absoluta, nem capta todas as dimensões que possam ser consideradas. Mais, de um ponto de vista técnico, todas as previsões, incluindo as do PIB per capital em termos reais, envolvem incerteza que faz com que -3% ou -3,3% não seja assim tão diferente como potenciais resultados. Aliás, deveria ser dada mais atenção aos intervalos de previsão para estes valores e não nos centrarmos apenas no valor médio dessas previsões.

Assim sendo, a adivinhação em torno do que será o valor do PIB não deve ser tornada em obsessão e sim ser tomada como um exercício que indicia um caminho e uma evolução possível, mas incerta e passível de ser influenciada e alterada.

Mais importante que entrar na discussão desta ou daquela previsão, do que descobrir qual é o melhor Adivinho, importa ter um rumo para a ação governativa, e capacidade de gerar propostas, de todos os lados, que sejam passíveis de discussão séria.

Frequentemente, as previsões realizadas não explicitam de forma clara quais as políticas que admitem irão ser seguidas pelos Governos, por exemplo. E a pressão para sejam adoptadas ou mudadas políticas económicas que foram admitidas como permanentes nessas previsões é grande.

Antecipo que neste momento o leitor esteja já a pensar na importância que estas previsões têm para as “expectativas”, e para o papel que essas “expectativas” possuem no desenvolvimento da actividade económica. Contudo, a partir do momento em que a produção de previsões tem em conta as “expectativas” e em que a formação dessas “expectativas” reconhece esse aspecto da elaboração de previsões de variáveis económicas, volta-se ao mundo do Adivinho. É por isso relevante que a produção de previsões para variáveis económicas siga um processo que seja tecnicamente auditável – isto é, que quem tiver o conhecimento técnico suficiente, com a informação disponível, consiga replicar a forma de obtenção dessas previsões. De outro modo, cada entidade que faz previsões é apenas uma versão moderna do antigo Adivinho.

É um passo que teremos de fazer,  em geral, passar de Adivinho a Analista. O que só se consegue com análise tecnicamente fundamentada, conhecida e que possa ser repetida de forma generalizada. Só assim as ditas “expectativas” poderão ter fundamento. E as previsões serem vistas mais do apenas fruto de um exercício de um Adivinho.
Nova School of Business & Economics
ppbarros@novabase.pt
Escreve à segunda-feira
Escreve de acordo com a antiga ortografia


Deixe um comentário

actividade académica, seminário em Maynooth, National University of Ireland

Aproveitando para rever velhos amigos, também deu para conhecer mais de perto a sensação na Irlanda quanto ao ajustamento da economia. A perspectiva pessimista é dominante. Mas por outro lado a capacidade de aumentar a carga fiscal na Irlanda parece ser substancial. Maior do que em Portugal. Mas se temos por vezes a sensação em Portugal de que a Irlanda está já a recuperar e no bom caminho, essa não é, ainda pelo menos, a opinião geral na Irlanda.

Algumas imagens do campus da Universidade:


5 comentários

como vender equipamentos e dispositivos de saúde me tempos de crise?

Um problema interessante que me foi recentemente colocado é o de como os serviços de saúde podem adquirir dispositivos de elevado custo. Tradicionalmente, esses equipamentos são comprados com pagamento à cabeça, com esforço elevado nesse momento.

A questão que naturalmente se coloca é a possibilidade de fazer essa aquisição com pagamento faseado ao longo do tempo, sabendo-se que o equipamento tem uma vida média determinada, digamos 5 anos.

Num contexto de funcionamento normal da economia e do sistema bancário, a resposta mais simples seria quem adquire contrair um empréstimo, pagando depois o equipamento ao longo do tempo. O juro envolvido seria o custo para quem compra de fazer esse deferimento do pagamento. Sendo uma questão de alisamento de despesa ao longo do tempo, é uma operação financeira que deveria ser facilmente coberta pelo sistema financeiro.

Contudo, no momento actual, as dificuldades de acesso ao crédito dificultam, ou tornam mesmo inviável, este caminho.

Será então que os vendedores de equipamentos podem ou devem optar por sistemas de pagamento com faseamento ao longo da vida útil do equipamento? Financeiramente, corresponde a uma prática que já existe em muitas áreas, com instituições próprias.

Se houve vantagem meramente financeira, então esse sistema já deveria ter emergido como forma de venda de equipamento uma vez que seria uma oportunidade de negócio não explorada.

Colocando-se agora a questão, há que perceber com mais detalhe os custos e os benefícios que estejam envolvidos.

Numa situação de ausência de crédito, esta pode ser uma forma de realizar a venda para quem tem o equipamento para venda, aceitando-se que o vendedor conceda implicitamente crédito ao comprador. O custo dessa concessão de crédito acabará por ficar incluído no preço do equipamento, embora possa existir uma certa partilha desse custo entre vendedor e comprador. Não será muito claro, uma vez que as características da operação financeira implícita não serão facilmente distinguíveis na transacção.

Esta solução apresenta o risco, para o vendedor, de não ser pago tudo, ou de ser pago tardiamente. Obriga à elaboração de um contrato plurianual.

Se o contrato for credível no sentido de a instituição de saúde não ter a capacidade legal ou de facto de negar pagamento a tempo e horas, então será uma forma de contornar as restrições financeiras do comprador, embora as colocando do lado do vendedor pois este terá de possuir a capacidade financeira de produzir e pagar os custos do equipamento, mas só receber ao longo do tempo. Será sobretudo uma solução possível para grandes empresas, para as quais o mercado nacional seja apenas uma pequena parte das suas operações.

As soluções de “renting” e “leasing” estão testadas noutros ambientes, mas não é claro que sejam facilmente transportáveis para a área da saúde (nomeadamente, a credibilidade que possa ter manter a utilização de um equipamento quando existe a pressão para adopção de outro mais moderno, e mais caro normalmente).

 

Agora, pode ser que existam outras soluções. Fica à discussão o tema.