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gabinete de crise – vivendo com o coronavirus (24)

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E aqui fica mais uma contribuição no programa da Radio Observador – Gabinete de Crise.

Para quem preferir ler, aqui fica um resumo da minha contribuição da semana 4 do Gabinete de Crise.

Número da semana: 90% – mais de 90% das pessoas que responderam a um inquérito da faculdade de economia da Nova nas duas primeiras semanas de abril indicaram um grau de preocupação com a economia elevado ou muito elevado (ao mesmo nível ou até mais elevado que a preocupação com a doença).

Na segunda metade de março: Preocupação pandemia elevada/muito elevada 89%; Preocupação economia elevada/muito elevada 78%

Na primeira metade de abril: Preocupação pandemia elevada/muito elevada 85%; Preocupação economia elevada/muito elevada 92%

Dos que voltaram a responder, na primeira metade de abril e que tinham respondido na segunda metade de março:

Com a pandemia: 43% estão mais preocupados, a preocupação é igual para 52% das pessoas. Com a economia: 76% estão mais preocupados do que antes.

Fonte: inquérito do Nova SBE Health Economics and Management Knowledge Center

(se quiser responder às perguntas da segunda metade de abril, pode fazer aqui).

A decisão de retomar gradual de atividade económica é necessariamente uma decisão política, que é informada pela evolução da componente de saúde pública mas também pela evolução da ansiedade com a componente económica que se começa a gerar. Vai ser preciso um equilíbrio entre os dois elementos para que não se venha a perder o esforço realizado até agora.

 

Tema: Quando e como começar a abrir a economia para o pós-pandemia?

Do anúncio do Presidente da República de ontem – espera-se que esta seja a última renovação do estado de emergência, até dia 2 de maio. Os motivos para mais este período de estado de emergência cobrem três aspetos: a) a tarefa de proteger as pessoas em lares precisa de mais tempo, b) a necessidade de estabilizar os internamentos para que se possa responder a algum aumento de casos – a expressão usada foi “atividade precavidamente aberta” – e c) dar tempo e espaço ao Governo para preparar a abertura gradual da economia – segurança e confiança como elementos essenciais para uma transição adequada.

Devemos por isso acompanhar o que vai ser a experiência de outros países que começaram este processo. Cada país vai ter que encontrar o seu ritmo. Mas podemos e devemos aprender com aqueles países que iniciaram mais cedo este processo.

Terminar as medidas de confinamento tem riscos e pode levar a novos casos de infeção. Em vários países têm sido sugeridos alguns princípios simples para avaliar e calibrar o momento e o ritmo de abertura, e a própria Comissão Europeia disponibilizou um conjunto de sugestões.

Primeiro, uma redução sustentada dos internamentos ou dos novos casos de COVID-19. É algo que podemos publicamente seguir. Este é um elemento comum aos vários países (Estados Unidos incluídos, com baseada do que a Casa Branca publicou ontem online sobre as linhas de orientação para a abertura da economia).

Segundo, o sistema de saúde, no nosso caso o Serviço Nacional de Saúde, tem de ter capacidade para tratar novos casos que surjam com essa abertura da economia, em particular os casos que requeiram internamento e cuidados intensivos.

Terceiro, e provavelmente o mais importante de garantir neste momento: ter a capacidade de testar para detetar rapidamente nos casos e isolar esses casos e os seus contactos (testar e isolar é a única forma de controlar um renascimento da epidemia dado que não existe vacina de medicamento para tratar). O testar também pode ser feito de forma mais eficiente fazendo testes de grupo para a presença do coronavírus.

Se um grupo, como um todo, dá teste negativo, então todos os membros do grupo são negativos. Isto permite acelerar o processo e usar menos testes, desde que haja a presunção de que há muitos casos negativos na população. O que ainda deve ser o caso em Portugal.

De acordo com o plano da Comissão Europeia há alguns pontos operacionais a garantir: ter um bom sistema de recolha de dados a nível local-antes de abrir o Governo deverá enunciar claramente como pretende fazer esta recolha; ter um sistema eficaz de encontrar quem contactou com uma pessoa infetada; está-se a popularizar a ideia de usar apps dos telemóveis para isto (mas é preciso ver como se resolvem os questões de privacidade); ser clara a capacidade de fazer testes rapidamente e com precisão; tem que haver uma adequada protecção dos profissionais de saúde; tem que se ir preparando o sistema de saúde para o aparecimento de uma vacina daqui a 12 – 18 meses. (Portugal nesse aspeto estará provavelmente melhor que outros países dado que tradicionalmente temos boas taxas de Vacinação na população!), e por fim é necessário proteger o que se sabe serem grupos de risco- Idosos em lares são o exemplo mais óbvio.

 

É preciso reconhecer que o vírus não deixou de estar em circulação. Dai a necessidade todos contribuírem para a sua monitorização, e o SNS que tem de estar preparado para responder se for preciso.

Não pode haver problemas com contactos para o SNS com dúvidas dos cidadãos, mesmo que em muitos casos não se confirme a COVID-19. Mais vale ter telefonemas a mais do que deixar espalhar o contágio. Neste aspeto, será muito útil que se possa vir a ter testes de identificação da presença do vírus que possam ser auto-administrados, em casa ou em pontos próximos de casa (farmácias são um óbvio candidato a ser um desses locais).

E agora vamos colocar as “necessidades da economia” em cima disto tudo – com o desaparecimento do turismo internacional, as pessoas que trabalham em atividades relacionadas com esse turismo, de modo formal ou informal, vão ter que se direcionar para outras atividades, que necessitem de mão de obra humana. E essas atividades vão precisar de ter capacidade de dar segurança relacionada com a saúde para evitar contágios seja entre trabalhadores seja no eventual contacto com clientes ou público. Mas como não sabemos como, onde e quando essas transições laborais vão ocorrer, é preciso vir a criar mecanismos suficientemente flexíveis para que sejam feitas de forma segura para todos. É algo que também vai ter de ser pensado durante estas semanas até ao início da abertura da economia.

 

Mito: Já existe um medicamento que permite curar a COVID-19.

Não é verdade. Há neste momento tentativas e ensaios com vários medicamentos, mas não há ainda evidência conclusiva. O medicamento que tem sido indicado por Trump, por exemplo, foi abandonado num ensaio clínico no Brasilpor estar a provocar problemas cardíacos nos doentes. E o caso francês que deu origem tem sido criticado por não poder ser retirado dele que o medicamento é seguro e produz os efeitos desejados. Tem sido experimentado como último recurso apenas, e com efeitos adversos.

 

Nota de esperança: a capacidade de realizar testes para a presença do vírus vai ser muito importante no futuro próximo, e estão em cursos várias linhas de investigação, incluindo algumas nacionais, para melhorar os testes – seja na rapidez dos resultados, seja na sua precisão, seja na facilidade da sua aplicação. Será um elemento crucial para se poder recuperar alguma normalidade de vida até se ter uma vacina.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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