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juntar a REFER e as Estradas de Portugal?

5 comentários

de declarações oficiais transcritas nos media “a integração tendente à fusão das suas gestoras de infraestruturas de transporte ferroviário e rodoviário criando uma entidade que resulte da junção destas duas” e “procuraremos que as sinergias de natureza operacional que possam ser materializadas que o sejam o mais rapidamente possível”, fica alguma perplexidade, resultante provavelmente da minha completa ignorância das “tecnologias” em causa.

Quando se fala aqui em sinergias, gostava realmente de perceber do que se trata, se é de sinergias verdadeiras através do “processo produtivo” dos serviços prestados, ou se é “sinergias” por exercício de poder de mercado decorrente de ter duas infra-estruturas eventualmente concorrentes em alguns serviços nas mesmas mãos. É que se o primeiro tipo de sinergias permite reduzir custos e baixar preços ao consumidor final, o segundo tipo de sinergias permite aumentar preços ao consumidor final por redução das alternativas e concertarão de estratégias de preços. Logo, se em ambos os casos a noção de “sinergias” permite à empresa resultante da integração melhorar os seus proveitos, a forma como o faz não é indiferente para o consumidor final dos serviços que são prestados.

Em termos custos de produção, não é muito claro quais as sinergias de construção e manutenção que possam existir entre estradas e linhas de caminho de ferro. Não estou a ver que as matérias primas sejam as mesmas, ou que os equipamentos usados possam ser facilmente transferíveis de um tipo de obra para outro. Talvez a concepção e engenharia possam ser partilhadas (espero que algum engenheiro me esclareça se há aqui especificidades de cada área).

Parece-me ficar então sobretudo efeito do lado dos proveitos, sinergias que noutras áreas são chamadas de “poder de mercado”.

Da concessão das Estradas de Portugal, “Receitas -A concessionária tem direito a receber: a) O valor das taxas de portagem cobradas nas vias portajadas; (…)” (ver aqui), pelo que a coordenação de tarifas na infra-estrutura ferroviária (que ditarão indirectamente os preços ferroviários) e das portagens das auto-estradas é na verdade uma redução na concorrência entre modos alternativos de deslocação e transporte.

Até conseguir mais informação para perceber os diversos contornos da proposta, à primeira vista parece uma contradição com o princípio que a concorrência entre empresas é a forma de favorecer o consumidor final e promover novos produtos e alternativas. Enfim…

 

Nota: este comentário poderá ser revisto se houver informação que permita concluir que afinal há fortes sinergias do lado dos custos.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

5 thoughts on “juntar a REFER e as Estradas de Portugal?

  1. Engraçado, “sinergias” também tem aparecido na àrea de ciências sociais/económicas (quantitativas) que a Física aborda. Parece ser uma “keyword” recente ou re-descoberta. Dos papers/talks que li/ouvi, geralmente não é bom sinal quando essa palavra aparece…

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  2. é uma palavra usual em economia quando se fala de fusões, e normalmente não é bom sinal…

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  3. Os projectos de engenharia de uma estrada e de uma linha de caminho de ferro têm realmente alguns poucos pontos de contacto mas as diferenças são enormes. Por outro lado, é bem sabido que estes projectos, pelo menos os de maior dimensão, são sistematicamente adjudicados a gabinetes privados
    Poder-se-ia invocar com interesses no planeamento estratégico mas este está mãos dos decisores políticos
    As sinergias que consigo divisar são ao nível dos órgãos de gestão desde que haja redução efectiva de gestores. Poderiam representar algumas economias mas desconfio que não valerão o esforço.

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    • As poupanças de órgãos de gestão são normalmente coisa muito pequena no meio do que estas empresas gastam. Provavelmente muito menos de 1% da despesa total conjunta pode ser poupada com estas fusões (não consegui encontrar rapidamente nos respectivos relatórios de gestão quanto é gasto com os órgãos de gestão que poderiam ser poupados – ter apenas um conselho de administração, por exemplo).

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