Momentos económicos… e não só

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Guião da reforma do Estado (11)

Temas seguintes: diplomacia e defesa nacional. Não sendo aspectos puramente económicos, também aqui é lícito colocar as mesmas questões genéricas: que serviços presta o Estado? São esses ou outros os serviços que se pretende que sejam prestados? Que funções do Estado estão em causa e qual a melhor forma de atingir objectivos que sejam especificados?

No caso da diplomacia, há uma redefinição, que não é nova, de introduzir os aspectos económicos na actuação da rede diplomática. Não sendo exactamente uma ideia nova, a sua reintrodução ou reavivar deveria ser acompanhada da evidência dos progressos conseguidos nos últimos anos, saber se é um caminho que consegue ser feito e que resultados produziu até agora.

Já na defesa nacional, há outra vez mistura de aspectos de organização do Estado (a referência aos estabelecimentos fabris) e aspectos de funções do Estado (novo Conceito Estratégico de Defesa Nacional). Não se percebe se o Governo considera que já fez o que tinha a fazer neste campo nem o que coloca de facto a discussão.


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Taxa de mortalidade infantil – retrocesso devido à crise? ou talvez não?

Recentemente, surgiu numa discussão a evolução da taxa de mortalidade infantil. A taxa de mortalidade infantil tem sido com grande frequência usada como principal exemplo do sucesso do Serviço Nacional de Saúde. E isto leva-me a um texto um pouco mais técnico desta vez.

É inegável o grande caminho percorrido desde os anos 60, e os anos mais recentes traduzem a estabilização desse sucesso.

Figura 1:

figura1

Nos últimos dois anos, recorrendo aos valores publicados na Pordata e com origem em estatísticas oficiais, houve uma subida da taxa de mortalidade infantil. Essa subida gerou comentários de alguma preocupação e interpretações de ser um sinal da falta de capacidade de resposta do sistema de saúde (e do Serviço Nacional de Saúde em particular), em consequência da crise económica e dos cortes de orçamento do Serviço Nacional de Saúde.

A visibilidade política e pública da taxa de mortalidade infantil justifica que a análise dos dados seja feita com cuidado.

Em concreto, uma pergunta crucial é saber se estas variações mais recentes são resultado de uma inversão de tendência ou se são flutuações normais, aleatórias, em torno de um valor estabilizado.

De um ponto de vista técnico, interessa saber se estes dois últimos anos estão dentro do intervalo de previsão que é gerado pela experiência passada.

A resposta a esta pergunta  significa saber se a subida dos dois últimos anos é ou não é suficientemente elevada para em termos estatísticos se poder dizer que há uma situação anómala.

Aliás, a observação de que houve uma subida nos dois últimos anos da taxa de mortalidade infantil não pode deixar de reconhecer que o ano de 2010 foi anormalmente baixo (embora não seja estatisticamente anómalo).

Figura 2:

figura2

A consolidação dos valores conseguidos para a taxa de mortalidade infantil é obviamente um aspecto relevante do sistema de saúde português, sendo por isso fazer um seguimento próximo do indicador.

Tendo afirmado que os dois últimos anos não são substancialmente distintos, em termos estatísticos, do passado recente, os gráficos seguintes dão suporte a esta posição, calculados com base na informação da Pordata.

No primeiro gráfico é traçada a análise de regressão da taxa de mortalidade na evolução do tempo, usando uma função quadrática, e desde 1980, excluindo os anos de 2011 e 2012. Para estes dois anos, é apresentado o valor previsto e o respectivo intervalo de previsão. No segundo gráfico, é traçada a análise de regressão, iniciando-se em 2000, com um modelo linear no tempo, e novamente excluindo 2011 e 2012, apresentando o valor previsto e o respectivo intervalo de previsão. Por fim, no terceiro gráfico, considera-se um modelo em variáveis logaritmizadas, e repete-se o procedimento – exclusão dos dois últimos anos dos cálculos, sendo depois comparado o valor observado com o intervalo de previsão.

A regularidade significativa dos dois primeiros gráficos é ter os valores dos dois últimos anos dentro dos intervalos de previsão (os resultados quantitativos são apresentados em tabela no final). Mas no terceiro gráfico, o valor de 2012 sai fora do intervalo de previsão, indicando um valor fora e acima do que seria de esperar. Fica agora a escolha quanto ao modelo mais apropriado. E se o modelo da figura 3 tem melhor aderência estatística, o facto de na parte final o termo quadrático indicar um aumento da taxa de mortalidade infantil levanta dúvidas sobre a sua razoabilidade; por seu lado, o modelo com a variável logaritmizada (equivalente a ser linear em termos de taxas de crescimento) tem menor aderência estatística. Mas tomando a variável logaritmizada dá-se, de certo modo, maior importância a variações na taxa de mortalidade infantil quando esta já tem valores baixos (e em que a mesma variação absoluta da taxa significa uma variação em termos percentuais superior).

Daqui, e sem fazer mais testes estatísticos, creio que será mais adequado considerar que o valor de 2012 ainda não é estatisticamente revelador de uma alteração de tendência (preferência dada aos primeiros modelos), embora seja de seguir com atenção – a manter-se a tendência  de subida por mais um ano, será um sinal de alerta a ter em conta.

Claro que quem quiser dizer que 2012 contém já esse sinal de alerta, pode usar  o terceiro modelo, embora de menor qualidade de ajustamento estatístico.

Figura 3:

figura 3Figura 4:

figura 4

 

Figura 5:

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Quadros da análise de regressão:

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Dos valores divulgados pelo INE, ainda bons ventos

mas não tão bons como do trimestre anterior; ainda assim, antes boas noticias que más noticias: ver aqui a informação sobre um crescimento positivo de 0,2 % de um trimestre para o outro, ainda que a variação face ao mesmo momento um ano atrás ainda seja negativa.

 


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novo relatório de progresso do programa de ajustamento, pelo FMI

disponível aqui e para leitura nos próximos dias (conjuntamente com o relatório que também irá sair da Comissão Europeia).

Numa primeira leitura rápida, o que salta à vista é a) a importância da estabilidade política incluindo aqui as decisões do tribunal constitucional para a forma como do exterior é visto o programa de ajustamento, e é a partir dessa visão que haverá quem queira, ou não, investir em Portugal, seja pela compra de dívida pública seja pela realização de investimento produtivo no terreno; b) a preocupação com a evolução da dívida externa; c) o reconhecer alguns sinais positivos, mas ainda insuficientes para dissipar as preocupações com a capacidade de a economia conseguir crescer e dessa forma ajudar também à consolidação das contas públicas. Importante aqui o sinal de que a consolidação orçamental terá que continuar em 2015 e anos seguintes. Mesmo depois de oficialmente terminado o programa de ajustamento, as despesas públicas serão fortemente condicionadas pela necessidade de conter a dívida pública. Sem um sinal claro de compromisso com esse caminho, será provavelmente difícil evitar nova crise de financiamento do Estado a breve prazo (digamos a 3 anos) – esta parte não é dita pelo FMI, mas consegue-se adivinhar.


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Guião da reforma do Estado (10)

De seguida, surgem dois aspectos que serão desenvolvidos posteriormente, “democratizar a autonomia das escolas” e “desenvolver uma política de maior contratualização com as IPSS”.

Embora tenham aparência de maior mudança face ao que actualmente é feito, não se coloca aqui em questão qualquer das funções do Estado, apenas como se organiza para dar resposta às funções que dele se espera. Não há por isso uma verdadeira proposta de reforma das funções do Estado, apenas do modo como se organiza.

Tal como noutras áreas as perguntas cruciais não são respondidas aqui, porque é bom democratizar a autonomia das escolas? A que problema responde? O que justifica que seja a melhor opção?  (a parte final do respectivo parágrafo sobre a “opção pública pela exigência” não me parece ter qualquer relação com a parte inicial, mas enfim…)

As mesmas perguntas podem ser realizadas a propósito da ligação com as IPSS, qual o objectivo da presença do Estado na área social? Porque é a contratualização com as IPSS a melhor solução disponível?

Até pode suceder que a resposta seja a implícita nas propostas sumariamente apresentadas, mas sem explorar as alternativas fica a sensação de que essa análise comparativa não foi feita, e que se foi atrás de ideias estabelecidas (e que podem ter ou não base factual de suporte).

O próximo tópico é o da eficiência e reforço da transparência. Sobre o reforço da transparência seria de esperar alguma informação mais sobre a situação actual, e sobre o papel que a CADA tem desempenhado (ou não). Sobre a eficiência, para que se possa falar tecnicamente sobre o aumento da eficiência há que definir o que se entende pelo conceito – assim de repente, e apenas usando noções económicas de eficiência, consegue-se pensar em três níveis: eficiência tecnológica – em que se procura garantir que não há desperdício de utilização de recursos; eficiência tendo em contas os valores dos recursos disponíveis, em que de dentro das opções que não tem desperdício se procura escolher a que tem menores custos globais, e por fim, de dentro dessas escolher o nível de actividade que maior valor social gera. São níveis sucessivos de eficiência, e implicam diferentes actuações (cumulativas frequentemente). Urge clarificar que mecanismos serão usados para alcançar cada nível de eficiência, por exemplo.


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Guião da reforma do Estado (9)

Sobre a simplificação de procedimentos, em concreto licenciamentos, a referência no capítulo 2 do documento “Um estado melhor” levanta a necessidade de responder a algumas perguntas: porque foram criados esses licenciamentos em primeiro lugar? Se correspondem a uma defesa contra abusos de algum tipo, então é preciso perceber e argumentar que alternativas defendem melhor contra esses abusos.

A alternativa é essas regras terem surgido como resposta a pedidos de protecção de alguns agentes económicos face a outros, e nesse caso há que perceber se essas protecções e licenciamentos têm como resultado “rendas excessivas” para alguns ou se têm outros efeitos.

Quase na mesma linha, a questão da Justiça. Aqui continua a espantar-me o ênfase na fé dos códigos – apesar da leitura do Memorando de Entendimento com a troika sugerir que existe sobretudo um problema de aplicação e decisão céleres da legislação existente, a resposta destes últimos dois anos foi a tradicional, refazer códigos.  Falta explicar como e porquê os novos códigos vão alterar a forma de trabalhar na Justiça, e como tal se irá reflectir de forma positiva no funcionamento da sociedade.


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Guião da reforma do Estado (8)

Ainda no capítulo 2 é dedicado um parágrafo à política de concorrência e seu reforço. Se olharmos bem, é fácil ver que a política de concorrência em si mesma não corresponde a nenhuma reforma do Estado – não redefine as funções do Estado, não altera a sua organização interna, não influi nas suas relações com a Sociedade.

Uma política de concorrência mais activa muda, espera-se, a forma como o sector privado actua. A menos que se queira dar maior peso à intervenção da Autoridade da Concorrência no campo dos auxílios do Estado e à participação de entidades públicas em mercados privados. Essa sim seria uma discussão que traria alguma novidade, mas duvido que seja o sentido da referência à política de concorrência neste guião da reforma do Estado.


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sobre os recentes números do mercado de trabalho,

algumas considerações adicionais e dados no blog theportugueseeconomy, aqui e aqui.

A mensagem central é que os novos números são boas notícias, mas apenas a taxa de desemprego não traduz toda a evolução recente relevante – a população e a população activa também estão a descer, a população empregada aumentou um pouco, e a taxa de desemprego tem quer o numerador quer o denominador a variarem, criando maiores dificuldades na interpretação da sua evolução. Por exemplo, a emigração, se for de pessoas desempregadas, ao reduzir a população activa e os desempregados, como é proporcionalmente mais importante nos desempregados do que na população faz baixar a taxa de desemprego. Mas se a emigração fosse de pessoas com emprego, que não eram substituídas, então a taxa de desemprego aumentaria, por redução da população activa, com redução da população empregue. Neste momento é provavelmente mais útil e revelador olhar para as componentes destes indicadores por si só: população empregue, população desempregada, e população activa.

Resta esperar para saber se as “boas notícias” são permanentes ou temporárias.


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Telefonemas…

Depois de umas semanas de descanso de telefonemas “pela minha saúde”, hoje foi o dia da “Fundação pela Saúde do Utente” (desconhecida por mim até agora) telefonar à procura de uma “vítima” para um rastreio cardiovascular… tal como com o rastreio osteoarticular e o inquérito do plano nacional de luta contra a doença (em finais de Setembro de 2013), daqui de casa nada levaram… sinais dos tempos, dantes anunciavam presentes para vender prédios em time-sharing, agora oferecem rastreios – sinal de população envelhecida a ser alvo de qualquer coisa.

Uma busca rápida no Google revelou que a dita fundação não tem existência pública na internet (não foi propriamente uma surpresa), mas o número de telefone que fica registado permite chamar de volta (e existe), curiosamente consultando a lista telefónica corresponde a um restaurante (provavelmente já fechado).

Como se pode proteger as pessoas deste tipo de ataques? Apenas recomendar aos familiares idosos que ignorem? Ter uma “lista negra”? ter uma lista “positiva” de quem faz rastreios que possa ser consultada na internet?

Palpita-me que estas tentativas vão crescer nos próximos tempos, e não tarda muito a convidar para tratamentos na europa a propósito do mobilidade de doentes no espaço europeu.

 

 


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Guião da reforma do Estado (7)

O capítulo 2 tem como título “Reformar é diferente de cortar”, que tem explicação dois parágrafos abaixo – “os cortes na despesa do Estado são instrumentos necessários à reforma do Estado, mas não são a sua finalidade”. Não percebo  muito bem, os cortes da despesa resultam de uma restrição global de recursos ao que o Estado pode gastar, logo não são instrumento e sim restrição. Os instrumentos terão de ser os mecanismos pelos quais a redução de despesa pública se torna permanente para conseguir respeitar a restrição de recursos existente.

Sobre a componente conceptual deste capítulo, uma forma de organizar o pensamento e estruturar a discussão é considerar três áreas:

a)    funções do Estado

b)   forma de organização interna do Estado

c)    forma do Estado se relacionar com a sociedade

É que a frase “Reformar o Estado, é criar condições institucionais para um padrão de finanças públicas saudáveis” não é clara – o que é criar condições institucionais? Para um padrão de finanças públicas saudáveis? Mais uma vez este padrão é uma restrição a ser respeitada, não é um objectivo. Ter finanças públicas saudáveis não é uma função do Estado, não é uma forma de organização interna do Estado, e não é uma forma do Estado se relacionar com a Sociedade. É uma limitação ao que se pode fazer em cada uma destas linhas.

Antes de prosseguir a discussão, o Governo tem que clarificar conceitos e níveis de discussão.

Por exemplo, nas medidas / intenções enunciadas logo de seguida:

1 – continuar a privatizar – funções do estado ou organização interna, conforme se trate do Estado deixar de ser responsável por algum tipo de prestação de serviço, ou organização interna, caso continue a manter as mesmas responsabilidades perante a sociedade mas escolha uma forma diferente de as assumir

2 – inovar na escolha dos dirigentes  – organização interna

3 – racionalizar as suas entidades – organização interna

4 – ganhar eficiência – organização interna

etc…

Curiosa ainda a perspectiva inerente à frase “foram celebrados vários acordos com universidades para programas de formação de quadros e dirigentes da Administração Pública, sem encargos para o Estado” – só me vem à mente “if you pay peanuts, you get monkeys” – e não pode ser uma situação duradoura para ter formação de qualidade.